Com base na visão de que a gagueira é o efeito de
uma forma de funcionamento subjetivo singular na produção de fala,
derivada de uma imagem estigmatizada de si como falante (sobre
isso leia o item “O que é Gagueira”),
o tratamento direciona-se para a ressignificação da experiência
de fala e modificação dessa imagem de falante. Esse processo desenvolve-se
por meio de duas vertentes que se articulam: uma pautada no diálogo
paciente / terapeuta e a outra no sensibilização do corpo do paciente.
Por meio do diálogo trabalha-se a compreensão e a desmistificação
da lógica subjetiva que leva à produção gaguejante de fala, a
lógica do falante estigmatizado, que sempre está envolvida com
esconder a gagueira. Desenvolvem-se atividades mentais e de fala
que ajudam transformar essa lógica, gerando a lógica do bom falante,
que se permite gaguejar, que reconhece e confia na sua capacidade
de fluir.
Por meio da sensibilização (propriocepção) do corpo
como um todo e do corpo quando a fala se produz, trabalha-se a
percepção e a compreensão da efetiva capacidade de falar. O trabalho
volta-se para a consciência dos movimentos tensos e soltos e para
a relação destes com o fluir, o gaguejar e os estados emocionais/
afetivos. Diversas atividades de vocalização, canto e fala materializam
esse trabalho.
Essa proposta de trabalho tem permitido que falantes
gagos saiam da posição estigmatizada de falante – aquela em que
duvidam de sua capacidade de falar e sentem a fala como um lugar
de sofrimento – e venham para uma posição em que confiam na capacidade
automática de produzir fala. Constituem-se, assim, como bons falantes
que se permitem produzir fala na polaridade natural entre fluir
e disfluir.
Esse tratamento pode desenvolver-se tanto em terapia
individual como em terapia grupal. Nossa experiência tem sido
positiva nas duas modalidades de atendimento.
Obs. No texto
do memorial de
Silvia Friedman, também há um detalhamento sobre a terapia na
parte em que é descrito o conteúdo do livro "A Construção
do Personagem Bom Falante".