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Depoimentos de participantes de um grupo terapêutico
colhidos em agosto de 2004 por Silvia Friedman
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P
= Paciente / T = Terapeuta
1.
Rapaz de 25 anos, técnico em computação
P: Bom, eu ultimamente
tou fazendo muita entrevista. Então, antes eu ficava preocupado.
Eu entrei aqui no CEFAC, com este problema, de fazer umas entrevistas
e ficar, ficar nervoso e travar. E aí, pinta aquele clima pra
outra pessoa, de insegurança, que o cara não sabe ou tá
muito nervoso. Então, com a terapia, eu acho que eu já melhorei
um pouco. Eu tou indo tranqüilo, não estou pensando em gaguejar,
ou não, né? Então eu acho que isso aí acabou melhorando a minha
fala. Não é que eu tou bem, né? Mas deu uma melhorada, sim. Tou
ótimo! Às vezes, dá aquela recaída.
T: Então, dá recaída?
P: Eu não sei se é recaída. Assim, eu vou travar, isso,
todo mundo trava um pouquinho. Então...Acho que falei errado.
Recaída não é a palavra certa. Não é que eu vou falar constante,
sem travar, mas do jeito que eu, eu ficava psicologicamente, falando
com pessoas, eu acho que dei uma melhoradinha.
T: Você ainda acredita que você não pode fazer a entrevista,
não vai passar na entrevista?
P: É... mas é... como é que eu posso falar dessa angústia
que eu tinha, né? Acho que isso acabou. Não na parte técnica,
mas na parte de falar em comparação com as outras, acho que este
modo, que este modo da gente pensar e aceitar a gagueira...
2.
Moça de 27 anos, enfermeira
P:
Nas entrevistas, né, antes de eu entrar aqui, eu ficava em pânico,
né.Travava mesmo. Em seminário da escola, eu não ia lá na frente,
mesmo. Eu não ia mesmo, lá na frente, ficava super travada, com
medo. Só que agora, não. Eu vou, enfrento posso até gaguejar,
mas eu vou. Não fico sem nota por causa disso, entendeu? E nas
entrevistas eu vou também, eu faço a minha parte e aí, seja o
que Deus quiser! Eu tou muito melhor. Depois que eu entrei aqui,
eu me superei bastante.
T: E o que é importante pra você não piorar?
P: Ah, eu, aceitar. Eu não achar que eu sou assim, né,
diferente das outras pessoas. Eu tenho que aceitar que posso fazer
as mesmas coisas que as outras pessoas fazem. Que eu sou normal,
não tenho nada de diferente. Que eu posso ir lá na frente, falar,
posso gaguejar, também, e daí, entendeu? Eu tenho que me aceitar.
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3.
Moça de 18 anos, estudante
P: Jamais eu iria
pensar que eu ia trabalhar de operadora de telemarketing. Jamais!
Um gago, operador de telemarketing? Mas na semana passada, a menina
me avisou, aqui da minha sala:
- Ó, eu trabalho, lá. Eles tão precisando.
Ela me deu o endereço, eu fui. Aí, eu fui pensando que “eu vou
conseguir”. Só que até a minha mãe...
- Você?
Eu falei:
- É porque? Eu consigo, eu falo!
- Então, vai. Se é isso que você quer, vai em frente.
Aí eu fui. Acordei cedinho. Cheguei lá às 7:40h. Era às 8h. Eu
cheguei muito adiantada. Aí eu cheguei lá. Entrei no elevador
e comecei a chorar. Tipo, isso era uma coisa que nunca aconteceu
na minha vida, de pensar. Sabe, que eu tou indo procurar emprego
e que eu consigo. (choro)
Porque isso foi muito difícil pra mim, chegar onde estou hoje...
(choro).
Desculpa. (choro)
Porque antes, as pessoas olhavam pra mim, como, como se eu não
fosse ninguém. Ninguém fazia amizade comigo, porque eu não falava.
As meninas na escola nem ligavam pra mim. Hoje, hoje eu digo que
sou muito feliz. Muito! Eu não era feliz antes Eu não era.
Eu tou muito feliz, graças a Deus, porque eu falo direito. E também
sou muito chorona. E hoje eu tenho a certeza que eu tenho muita,
muita capacidade de arrumar emprego e trabalhar. Que eu consigo.
Antes eu não pensava assim. Eu pensava que eu ia ficar o resto
da minha vida no meu quarto trancada. Ia ficar velhinha no quarto
trancada.
Mas hoje eu penso bem que eu vou ser igual ao meu irmão.Vou dar
duro pra entrar na faculdade, igual ao meu irmão, que é meu pai,
né. Eu chamo ele de pai.
...a gente pensar diferente do que a gente pensava. Pensar que
eu posso, eu consigo, que eu sou igual aa todo mundo. Não igual
eu pensava antes. Aí, eu comecei fazer meu fono. Se eu conheço
a pessoa, logo falo que faço fono pra ela, quando eu começar falar,
ela já não olhar como estranho. Apesar que eu acho que eu tou
muito bem, tou falando muito bem. Eu eu tou fazendo coisas que
eu não fazia. A hora no relógio, eu falo pras pessoas. Se pergunta
onde é o endereço, eu falo. Eu peço informações na rua, mesmo
sabendo onde que é. Só pra fazer, só pra fazer um teste. Eu sei
onde que é, mas eu peço. Só pra ver se eu consigo. E eu consigo
mesmo.
Falo com estranhos, eu vou no açougue agora (risos). Antes eu
tinha medo. A não ia, tinha medo. Hoje hoje eu penso o que aconteceu
no passado. Eu penso... e porque que acontecia aquilo? É tão simples.
Entendeu? É tão simples você falar a hora pra uma pessoa, mesmo
que seja é a primeira sílaba com n, nove, entendeu?Porque antes
eu não conseguia falar “nove”. Era um desespero, entendeu?” Alô”,
no telefone. Quando eu dizia alô no telefone, eu falava ‘hello’
Quando eu atendia o telefone, eu ia na geladeira, colocava alguma
de comida pra falar no telefone. A desculpa é que eu tava de boca
cheia. Podia ser alho, cebola, o que vinha, aí, sei lá....
T: Então, não era a cabeça que tinha que tratar?
P: É, era a cabeça. Porque hoje, lá em casa, só eu atendo
o telefone. Ninguém mais quer atender. O telefone toca, “Atende,
Mariana”.
Porque se fosse antes, se chamava, chamava o dia inteiro, pessoal
lá em casa não atendia. Podia ser uma emergência, um caso de morte.
Não atendia, entendeu? Morria de medo.Falava a não saía o ‘alô’,
tão simples.
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4.
Moça de 28 anos, estudante de contabilidade e secretaria de uma
instituição
O que eu tenho pra falar a muito é desde pequena
eu me levantava pensando em gagueira e dormia pensando em gagueira.
E isso de uns tempos pra cá, sumiu Graças a Deus! Tem dia que
eu nem lembro. Eu gaguejo, eu sei que eu, mas isso não me incomoda
mais. Não é uma coisa que “puxa, eu gaguejei”. Ficava chateada.
Hoje em dia, passa o dia, às vezes, eu não lembro. Passa a semana,
eu não lembro. Esqueço que eu tenho isso, graças a Deus. E um
negócio que eu acho que me ajudou muito. É é eu vim aqui e a senhora
me mostrou um cartaz, com as as maneiras de
falar. É aquele a, que abre, né. É que eu sempre imaginava que
tinha assim, milhões de coisas que a gente tinha que fazer.
Às vezes eu pegava um um livro e ficava lendo e pensava “Meu Deus,
eu nunca vou conseguir falar certo.” Porque eu achava que tinha
muita coisa. Aí, quando a senhora me mostrou aquilo, eu falei
“Meu Deus, não é tudo isso que eu imaginava” É tão pouco que a
gente, as maneiras que a gente mexe, né? Aquilo lá me ajudou muito
mesmo.
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5.
E. A - paciente de Silvia Friedman
Desde os 18 anos, procurei várias fonoaudiólogas
por muitos anos. Fazia exercícios para falar sem gaguejar, mas
isto só piorava o quadro da gagueira e sentia muita vergonha,
raiva, frustração por não conseguir ficar curada. Fiz terapia
alguns anos com algumas psicólogas e isto me ajudou no autoconhecimento,
mas não me ajudou a superar a gagueira e nem a entender o que
acontecia comigo quando gaguejava ou porque gaguejava. Buscamos
durante anos a causa da gagueira sem nenhum sucesso. E sempre
culpava os outros por este meu problema, me sentindo vítima e
presa dentro de mim mesma. Achava que era dominada por uma “coisa”
e me sentia impotente a isto. Sempre desejava que algum milagre
acontecesse ou que alguém me curasse. Foi incrível compreender
que a gagueira-sofrimento existe apenas porque tentamos evitá-la
e encobri-la. Quanto mais lutamos contra ela, quanto mais sentimos
vergonha disto, mais a estamos alimentando. Ao tentar disfarçar
o bloqueio, ele aumenta. Compreendi que a causa da gagueira está
na auto-imagem. Nós mesmos nos rotulamos de gagos, e passamos
a acreditar que somos deficientes, incapazes, diferentes, inferiores.
Criamos uma falsa imagem de mal falante porque acreditamos quando
os outros nos classificaram de gagos. Comecei a perceber que a
gagueira começava em minha mente, em meus pensamentos e sentimentos.
Por exemplo, comecei a observar quando a mente me perturbava com
a ordem mental que eu não ia conseguir falar tal som, tal palavra,
com certa pessoa ou em certa ocasião. Com a terapia comecei a
questionar: Por que acreditar nessa crença que um som não pode
sair? Para que fazer isto? Por que não posso dizer tal palavra
e depois posso? Que ordem sem sentido é esta? Isto parece apenas
uma cisma da mente. E ao me questionar assim, muitas e muitas
vezes, fui me libertando da tortura na minha mente. Ao longo da
terapia, fui compreendendo que preciso ter paciência e determinação
para mudar as crenças negativa, esta auto-imagem, reflexo de traumas
na infância, reflexo de ter acreditado quando alguém me chamou
de gaga. Para conseguir esta mudança, “corto” os pensamentos negativos
sobre a fala, não “embarco” neles para não retomar imagens, sensações
do passado e nem retornar para a área condicionada do cérebro,
evitando assim recair no terreno minado de tiques, tensões, contrações.
Continuo, a cada dia, silenciando minha mente e aumentando a confiança
na fala. Entendi que já sou fluente e que, às vezes, eu mesma,
por tensões adquiridas, por hábitos neuronais condicionados, faço
estes bloqueios. Nenhuma força incontrolável me domina. Eu sou
responsável pelo que minha boca faz. Relaxar os bloqueios da fala
é um aprendizado: a terapia me ensinou a ter consciência dos movimentos
na boca, na língua, nos lábios; a sentir a articulação da fala
por meio de movimentos mais amplo de fala; a vivenciar a confiança
na fala, levado-me a perceber que não há nada de errado na fala,
que tenho a habilidade de falar e fluir. No tratamento, imitei
a gagueira, forçando os sons, para sentir o que eu fazia nos momentos
dos bloqueios, como eu fechava as cordas vocais, retesava o abdômen,
fazia força muscular. Ao fazer essa identificação, conscientizei-me
de que era impossível sair o som com as cordas vocais fechadas
e com o ar preso, pois é com o ar, na exalação, que o som sai.
Isto foi muito importante para terminar com o mistério da gagueira.
Passei a sentir no meu corpo, na garganta, nas cordas vocais,
na boca, no abdômen, o que acontecia no momento da gagueira. Isto
foi fundamental para diminuir o medo da gagueira. Entendi o mecanismo
da gagueira, que não é nenhuma força me aprisionando, mas apenas
músculos contraídos, cordas vocais fechadas, ar preso, tensões
musculares. Esse é um aprendizado que ainda estou fazendo, perceber
minha fluência natural, identificar os bloqueios e aprender a
sair do vício das tensões musculares. Compreendi que as cordas
vocais são minhas e posso soltar e abri-las. O que me impede de
fazer isso é minha crença de que não posso fazê-lo. Tenho os movimentos
automáticos da fala natural. Aprendi que a verdadeira comunicação
começa em ouvir e compreender os outros. Quando me preocupava
muito com a gagueira, não sabia ouvir ninguém, só pensava em falar
ou se ia bloquear em tal palavra. Isto gerava conflitos e uma
má comunicação. Fui me libertando de ficar presa, sufocada por
esta idéia sem sentido de que não podia falar ou de que a qualquer
momento ia gaguejar. Parei de me sentir sem permissão para falar
e isto me ajudou muito no meu dia a dia, como falar ao telefone
sem medo, sentir confiança para comprar qualquer coisa em lojas
e passei a ser mais livre para viver sem tantas tensões e medos.
Tomei consciência de que a gagueira é apenas a ponta de um iceberg.
A maior parte e, o que mais me incomodava, eram os sentimentos
que alimentei como os medos, a vergonha, as frustrações, a baixa-estima,
a raiva, o sentimento de culpa, a depressão. A gagueira é apenas
o efeito e, para ir na causa, estou melhorando minha auto-estima,
me valorizando, perdoando a mim mesma e aos outros, E continuo
me esforçando para limpar toda esta negatividade e culpa guardada
desde criança na minha mente. Quem pode gaguejar, quem se permite
gaguejar naturalmente, sai da gagueira-sofrimento. Hoje sei que
sou uma boa falante que às vezes gagueja, e não uma pessoa gaga
que, às vezes, fala fluentemente.Tornei-me uma pessoa alegre e
mais serena. Não existe mais aquela pessoa tímida, triste, derrotada,
infeliz por não conseguir falar fluentemente. Consegui me reestruturar,
me renovar e hoje me considero uma pessoa muito feliz.
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> Depoimentos de pacientes em atendimento individual com Mariangela
Zulian |
P
= Paciente / T = Terapeuta
6. L. G., 25 anos, estudante
Eu acho que todo esse processo que a gente passou
aqui foi muito importante para eu descobrir algumas coisas que
antes eu não percebia, ou que eu não queria perceber. Desde o
começo eu sentia muito receio em trabalhar essa questão, por ela
ser delicada e não muito fácil de se trabalhar, mas com o tempo
e as nossas conversas eu fui percebendo que tudo é um "jogo" e
esse jogo só acontece porque eu deixo ele acontecer. Então, a
partir do momento em que eu entendi melhor como funciona a minha
mente, eu tive em minhas mãos as ferramentas que eu precisava
para sair desse ciclo que tanto me incomodava. Assim, eu penso
que agora depende muito mais de mim, de eu querer que as coisas
aconteçam, pois antes eu não tinha consciência do poder que meus
pensamentos tinham sobre mim. Dessa forma, me sinto muito melhor,
mais confiante para enfrentar este problema que tanto me incomodou.
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7.
Willian Nascimento Carvalho, 26 anos, estudante
Com o tratamento eu percebi que minha fala melhorou
significativamente. Eu tinha vergonha de falar com os amigos,
com o público em geral. Eu tinha muito medo de gaguejar, então
não falava. O trabalho com os movimentos da fala foi muito bom.
Aprendi a perceber as forças que antes não percebia. Hoje estou
mais tranqüilo, consigo falar com todas as pessoas. Tenho mais
confiança em mim e na minha capacidade de falar.
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8.
Ricardo Torres Iupi, 17 anos, estudante
Antes da terapia eu ficava muito mais agitado pra
falar,ou então eu tinha muito...
Ficava muito mais tenso, mais nervoso. E a cada mês eu via que
eu sempre tinha algum avanço. Eu sempre ficava mais calmo, mais
seguro, sabendo que eu podia falar.
T: E como você está agora?
P: Ah! Eu fico meio tenso, às vezes, ainda. Mas eu me sinto
muito mais seguro, mais tranqüilo pra falar. Como um falante normal.
Eu me sentia como um ser diferente. Me sentia como uma pessoa
que sempre tinha que falar só com pessoas que já conhecia. Sempre
que eu tinha que falar com alguém que não conhecia, sempre passava
por aquela crise, aquela tensão.
Eu sempre pensei que tivesse algum tipo de problema na língua.
Aí eu percebi que não tenho, que eu falo normal. As minhas cordas
vocais, a língua... é tudo normal. Que era uma coisa que estava
só na minha mente, na minha cabeça.
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9.
Susi M. P. Ribeiro e Roberto L. Ribeiro
Nossa filha começou a apresentar episódios de gagueira
após uma cirurgia para retirada da adenóide. No início pensamos
que fosse por causa do medo, do susto provocado pela cirurgia,
porém com o passar do tempo percebemos que o medo passara e o
gaguejar não. Conversamos com o pediatra que explicou que na idade
dela, 2 anos e meio, era normal, mas a angústia que sentíamos
em ver sua dificuldade em se comunicar aumentava cada vez mais.
Foi então que resolvemos buscar ajuda com um profissional especialista
na área. No decorrer dos encontros refletimos muito sobre nossas
angústias e expectativas em relação à situação atual de nossa
filha. Mudamos muitas atitudes que estávamos tendo por achar que
devíamos “ajudá-la” em suas dificuldades. Na verdade, procurávamos
ajuda para ela e percebemos que quem necessitava de ajuda éramos
nós, os pais. Hoje, muitos meses após nossa “alta” da terapia,
nossa filha consegue comunicar-se tranqüilamente. Os momentos
de gagueira ainda aparecem ( raramente) quando ela não encontra
as apalavras que precisa para completar seus pensamentos. Estamos
tranqüilos, nossa filha é uma criança feliz, igual às outras de
sua idade.
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| Gagueira
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