Acho que  era  como  uma  folha  caindo,  caindo, caindo sempre em  busca de um chão  que não vinha, a  procura da água que o poço não continha, ali, no espaço de minha queda a me oferecer aos poucos o infinito.
Desesperadamente possuído.


Acho que foi assim que eu me apaixonei por você.


Acho que  foi assim  como  uma  única  nota  a  repetir, tentando se libertar da  prisão de ser sempre o mesmo som e tão diferente, ecoando pelos labirintos da minha alma, batendo pelas  paredes do meu corpo, contando e 
recontando o mistério que é carregar alguém dentro de si.


Acho que foi assim...
Tão de repente  como  foi  esperado,  tão novo  quanto gasto, tão  leve  como pesado  o jeito  que meu coração começou a bater esquisito como se quisesse afastar de seu  interior  algo estranho  mas com  medo de que sem 
ele nunca mais  pudesse voltar  a funcionar novamente.


Acho que fui me perdendo nesses pensamentos, falando e falando  seu  nome,  convencido  que  tinha  achado a palavra  mágica  que  abriria  a  porta lacrada, que me transformasse num super-herói, que  abrisse  o mar ou 
fizesse cair alimentos do céu, ou melhor, ou mais ainda, a palavra pela qual Deus se chama.


Acho que foi assim e  às vezes  não acho, pois essa é a essência desse amor, deixar dúvidas como quem duvida da vida.


Acho  que  foi  isso  que  senti  quando  deixei você  ir naquela   tarde  que  nunca  mais   anoiteceu  em   mim.
Mas também  acho  que foi  por isso  que  mais  do que continuar apaixonado eu fiquei encantado para sempre... por você.


Acho que foi assim... 
(Cláudio Rabello)