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"Quando me deparo com uma imprecisão
escrita em um livro por alguma pessoa, fico
desencorajado e me pergunto se posso realmente
aprender alguma coisa de um autor que já provou
estar errado em pelo menos um ponto."
Eminente físico do século XX, ganhador
do prêmio Nobel pela descoberta dos
Quarks.
Obscuro carpinteiro de Nazaré
do início da era cristã.
Haveria alguma semelhança entre lugares como Nazaré, Brooklyn, bairros pobres do Rio de Janeiro, e Abdera?
Muitos talvez, ao tomarem contato inicial (e superficial) com os conteúdos deste Site, pensem da seguinte forma: "Bem, já que há erros no kardecismo, podemos pô-lo de lado, esquecê-lo, execrá-lo. Mais uma criação do lado falho e fraco da alma humana que vai para a lata de lixo da História!"
Temos em geral em nossas sociedades uma postura bastante eugênica com relação ao erro. Erro é para ser jogado fora, execrado. Já não podemos chegar mais aos extremos de Esparta, jogando fora os humanos fisicamente defeituosos, mas talvez não tenhamos avançado tanto assim no entendimento de que talvez haja, pelo menos muitas vezes, valor em coisas que podemos considerar "erradas".
Mesmo não concordando com muitas das conclusões de Kardec, e de kardecistas posteriores, quanto à interpretação dos fenômenos mediúnicos, vejo muito valor no kardecismo e no espiritismo de uma maneira geral. E a existência de erros, ao invés de me levar a abandonar o estudo desses fenômenos, me leva, paradoxalmente, a ter um maior interesse nesses estudos.
Pessoalmente, já há muito tempo venho tendo contatos bem peculiares com o erro. E acabei desenvolvendo uma postura de julgar o erro algo repleto de mistérios, potenciais e funções muitas vezes insuspeitadas. Um exemplo curioso é a nossa própria língua falada (e a escrita também). Muitas vezes percebemos "erros" na fala de crianças ou de pessoas com pouca "cultura", e julgamos tais erros como falta de conhecimento, falta de capacidade (ou até... burrice). Dificilmente imaginamos rotineiramente que tais erros possam ser efetuados com uma intenção conseqüente (ainda que inconsciente) e uma lógica interna, e serem fruto de um conhecimento acertado a respeito do mundo.
Imagine frases infantis como, "Eu sabo" ao invés de "Eu sei", construída porque a criança na verdade percebeu a regra da segunda conjugação dos verbos: comer - eu como; vender - eu vendo; logicamente então saber - eu sabo! Ou repare os erros "de falta de cultura", como: "Os homem tá tudo com fome" ao invés de "Os homens estão todos com fome". Esse exemplo, sem dúvida, precisaria da análise científica de um lingüista ou de um sociolingüista experiente. Mas como falante do português brasileiro (carioca) posso aventar algumas possibilidades. Se você falar "os homens estão todos com fome", você estará usando o plural quatro vezes em uma única frase. Aí poderíamos perguntar: quantas vezes eu tenho que assinalar que estou falando no plural para que você perceba isso? Sem dúvida, menos que quatro! Curiosamente, erros oriundos das classes "incultas" acabam freqüentemente sendo incorporados na norma culta após algum tempo: décadas, séculos, enfim... O pleno reconhecimento da lógica anteriormente repudiada (a pedra angular), e sem direito a indenizações, royalties ou lápides comemorativas!
O historiador brasileiro Daniel Aarão dos Reis Filho retrata em seu livro "A Revolução Alemã, Mitos e Versões" um outro tipo de erro tão execrado ao ponto de ser esquecido: as revoluções fracassadas (quantos sabem que a Primeira Grande Guerra Mundial terminou com os soldados alemães se recusando a ir à guerra e assumindo o poder no país em conselhos de soldados, operários, e camponeses, bem aos moldes dos soviets russos?). Ele aponta os riscos da visão idealizada estimulada pelas revoluções vitoriosas, que acabam sendo vistas de modo esquemático e empobrecido, quase como receitas de bolo. E, no polo oposto, ele ressalta a possibilidade que o estudo das revoluções fracassadas abre a uma análise menos dogmática e conseqüentemente mais reveladora a respeito dos processos sociais, suas possibilidades e limites.
O nosso próprio corpo é um palco onde o erro interage com o acerto até mesmo na manutenção da saúde física. Várias doenças são causadas por anticorpos que sintetizamos contra nós mesmos, doenças essas conhecidas como auto-imunes. Curiosamente, todos possuímos esses auto-anticorpos em quantidades mínimas, mesmo que não tenhamos tais doenças. Nas pessoas saudáveis, esses auto-anticorpos, produzidos por células chamadas às vezes de "clones proibidos", exercem importantes funções de regulação do funcionamento do sistema imunológico, em verdadeiras redes de interações moleculares.
Igualmente, coisas tão indesejáveis quanto a presença de vermes intestinais em nosso corpo, podem ser, paradoxalmente, mantenedoras da saúde. Há uma curiosa relação de muitos processos alérgicos com verminoses, ou melhor, com a ausência de verminoses! Ao ponto de certa vez eu assistir a um impressionante programa no canal de TV a cabo "discovery channel" onde um médico inglês estava estudando o uso de pequenos vermes intestinais no tratamento de enterocolites hemorrágicas (graves inflamações intestinais crônicas acompanhadas de forte sangramento) de fundo alérgico. O sucesso de sua terapia na maioria dos casos era excepcional.
Um fenômeno cujo entendimento talvez tenha sofrido fortemente com nossa aversão ao erro, atrasando possivelmente o progresso do conhecimento humano por décadas, é o das mutações cromossomiais. Durante muito tempo, mutações eram quase que exclusivamente sinônimo de "erro" na mente dos cientistas. Pelo menos desde o início da década de 40 (do século XX), já havia indícios e recursos para identificar neste fenômeno algo mais do que desprezíveis "equívocos" da maquinária celular. Contudo, só em fins da década de 80 começou-se a vislumbrar de forma mais plena a impressionante riqueza de como as células se utilizam de mutações, controlando-as, limitando-as, deflagrando-as, e às vezes, aparentemente (pelo menos aparentemente...) planejando-as com finalidades específicas.
Em uma área radicalmente diferente, a Informática, o erro, ou a possibilidade de erro, parece estar relacionada à criatividade, enquanto que a ausência dele seria inibidora de tal criatividade, em uma curiosa imitação da vida. Pelo menos segundo o relato de alguns profissionais de informática que pude ouvir em algumas ocasiões (analistas de sistema, engenheiros de computação), era, há alguns anos atrás, muito mais fácil fazer programas criativos do tipo "jogos" para sistemas operacionais mais permissivos com relação a erros, como o sistema DOS, do que para sistemas altamente intolerantes para com os erros, como o sistema Windows NT (verdadeiro general prussiano). Alguns chegavam a afirmar, em tom informal (e talvez não rigorosamente técnico), que os programadores de jogos de computador precisavam, muitas vezes, poder trapacear com os próprios códigos de seus programas...
A psicóloga brasileira Leila Dupret, em seu livro "Errar é Humano", faz análises e exposições muito interessantes a respeito da natureza do erro e de como nos posicionamos com relação a ele. Uma primeira (e talvez a mais disseminada) postura com relação ao erro é a de ver nele um desvio. Esse erro-desvio deve unicamente ser corrigido, extirpado. Talvez seja melhor até esquecê-lo; lembrá-lo, só para evitá-lo! Uma segunda postura seria a de ver no erro um desafio, uma etapa necessária, mas que deve em última instância ser retificado e superado. Esse seria o erro-desafio. Uma postura radicalmente diferente, seria a de ver o erro com erro-informação, algo que pode ser por vezes indispensável e, além disso, pode vir a ser incorporado na construção de coisas que dão certo, que funcionam com sucesso. Ou seja, esse erro se transubstancia em acerto!
Se há coisas erradas no Universo, sem dúvida nada pode personificar mais a imagem do erro e dos desvios do que os... demônios. Curiosamente, a pesquisadora de assuntos bíblicos estados-unidense Elaine Pagels, em um livro entitulado "As Origens de Satanás", mostra que no início dos períodos e relatos bíblicos os demônios tinham caracterizações e funções muito diferentes do que nos acostumamos a ver nos últimos séculos (ou milênios). Eles eram quase que enviados de Deus, não necessariamente maus, e nem indutores do mal, apenas apresentadores de desafios a serem vencidos, sendo tão "bons" e divinos quanto qualquer anjo, e desempenhando funções indispensáveis à manutenção da ordem e do funcionamento do Universo.
Há muitos profissionais que trabalham nas fronteiras da sociedade. Mais ou menos como uma célula biológica, a sociedade humana possui extensas regiões centrais onde só chegam notícias do que se passa nas fronteiras através dos tenebrosos noticiários das TVs e jornais. No centro da sociedade se encontram a família, as escolas, os jardins, os cinemas, a maioria das empresas. Na periferia, na membrana celular que separa a ordem e o funcionamento interno, do caos e da loucura externa, se encontram profissões, ou ocupações, como a dos profissionais de saúde (médicos, enfermeiros, auxiliares, paramédicos), psicólogos, pesquisadores, filósofos, policiais, magistrados. Também na fronteira, se bem que do lado de fora, se encontram os loucos, os criminosos graves...
Essas profissões, ocupações, e atuações do gênero humano encontram, muito mais do que quaisquer outras mais centrais ao corpo celular da sociedade, uma ambigüidade muito maior entre o erro e o acerto, o válido e o inválido. Curar, matar; descobrir, ocultar; seguir a lei, ou fugir dela. São extremos que talvez estejam mesmo na base de nossa visceral aversão sequer à possibilidade de erro, como se nos lembrassem de que o erro, apesar de poder trazer avanço e prosperidade (erro-informação), pode também trazer destruição, dor e desagregação profunda (erro-desvio), como o rompimento da membrana de uma célula.
Na nossa incansável e insana busca da superação do erro, do feio, e do relativo, estamos sempre tentando construir e alcançar o acerto, o belo, e o absoluto. Muitos já afirmaram que Deus é uma construção humana motivada por sentimentos similares aos que descrevi nos parágrafos acima. Há muitos, porém, para quem Deus não basta. É necessário algo mais absoluto ainda. Um bom candidato seria a Matemática. Afinal, ela é exata, abstrata, absoluta, incorruptível, e isenta de erros ou contradições. Bem, disso todos sabemos. Mas o ideal seria ir além de reconhecer todos esses divinos atributos da Matemática. O ideal seria poder escrever todos esses atributos em uma maravilhosa equação matemática, um axioma, essas coisas cheias de números e letras que só os matemáticos entendem, e na maioria das vezes, nem eles.
Pois bem, foi exatamente isso que (segundo consta em um belíssimo relato feito pelo físico-matemático Roger Penrose em seu livro "A Mente Nova do Rei") um grupo de matemáticos, liderados pelo brilhante matemático Hilbert, tentou fazer em fins do século XIX e inícios do século XX. Seria a própria Torre de Babel da matemática. Acho que daria mesmo para alcançar os céus e jogar Deus lá de cima, rolando escadas abaixo.
Contudo, como sempre tem de acontecer, apareceu um jovem matemático-lógico austríaco, Kurt Gödel, que fez uma demonstração que eu pessoalmente julgo um dos maiores triunfos da mente humana. Uma verdadeira Teoria da Relatividade para a Matemática, assim como Einstein (de quem, aliás, Gödel era amigo) havia feito para a Física. Gödel demonstrou que a verdade matemática (e talvez, conseqüentemente, toda e qualquer verdade) não pode ser contida em nenhuma equação ou teorema que a demonstre de modo independente da observação e julgamento humano. A verdade matemática não é absoluta, ela é relativa. Até mesmo a Matemática, o supra-sumo da abstração e do absoluto, não escapa à esta temática que diz que tudo esta relacionado entre si, de que nada se basta por si só, e de que talvez nada, absolutamente nada, possa ser retirado deste Universo sem conseqüências catastróficas!
No livro "Cosmos", o astrofísico estados-unidense Carl Sagan fala em um capítulo sobre alguns filósofos gregos pré-socráticos, e um relato curioso em especial é com relação a Demócrito. Demócrito era da cidade ultramarina de Abdera, e Sagan diz que, naquela época, Abdera era vista com grande desprezo pela comunidade grega. Era um local de onde não se esperava que pudesse surgir nada de grande valor. Bem similar ao que é dito de Jesus no Evangelho de João, capítulo I, versículo 46: "Alguma coisa boa pode vir de Nazaré?". Sagan afirma ter vivenciado um estigma similar, pois seu próprio bairro natal, o bairro nova iorquino do Brooklyn, é (ou era) visto de modo pejorativo, uma verdadeira Abdera nova-iorquina.
Achar que as coisas não são absolutas, mas sim relativas e relacionadas umas às outras, está na base de pensamentos como o do psicólogo (discípulo e, depois, dissidente de Freud) Carl G. Jung, que discorreu inclusive sobre o que chamou de (ou nos chegou através das traduções como) "sincronicidade", que poderia talvez ser retratado como as curiosas coincidências que parecem revelar uma trama temática subjacente ao funcionamento do Universo. Curiosamente, estava eu certa vez justo em Abdera, ou melhor, em um bairro pobre do Rio de Janeiro, e havia justamente terminado de dar uma aula para alunos do município onde, por motivos que não me lembro bem, falei sobre a dicotomia entre o atomismo (de Demócrito de Abdera) e o holismo, quando, iniciando meu retorno para casa e próximo à uma decaída e empoeirada estação de trem, encontrei o mais improvável dos objetos: uma pequena tira de pano, uma etiqueta como que de roupa, escrita Abdera. Nunca havia ouvido falar de qualquer fábrica ou indústria com esse nome, nem pude encontrar qualquer pessoa que houvesse. E da Abdera grega, só havia ouvido falar uma vez, quando li o livro Cosmos! Coincidência? Sem dúvida. Mas... um pouquinho em demasia!

As profundidades do desconhecimento humano são abissais. Por isso, respeito e humildade são dois sentimentos que nunca são demais ao olharmos qualquer coisa deste mundo, em especial se quisermos criticar (ou até condenar). E é sob esta ótica que vejo os erros em geral, e também este estudo de "erros kardecistas-mediúnicos" em especial. Bem aos moldes daquela saudação originária do misticismo hindu, onde se afirma que "o meu Deus interior saúda o seu Deus interior", acho que devemos ter sempre em mente que somos fruto de mais de três bilhões de anos de evolução biológica, e quase vinte bilhões de anos de "evolução", ou melhor, de desenvolvimentos e de movimentos cósmicos (e isso unicamente sob o ponto de vista científico-materialista. Se incluirmos a possibilidade de existência e desenvolvimentos-evolução de princípios espirituais, a situação se complica consideravelmente). Talvez levemos milênios, ou até mesmo milhões de anos, para ter consciência do que verdadeiramente significa essa herança de bilhões de anos de interação evolutiva.
Uma das imagens divinas que mais aprecio é a do Deus hindu Shiva Nataraja, O Senhor da Dança Cósmica. Shiva é, verdadeiramente, um Deus poderoso. Mais poderoso talvez que o Deus Católico, ou que o Deus Kardecista (eu sei, eu sei... Tem aquela história de que o Deus é um só. Pode ser que seja de fato assim, quem sabe?). Ele é o Deus da criação e da destruição, sustentando com sua dança o infindável ritmo do Universo. Talvez ele exista verdadeiramente, de um modo muito mais real do que possamos cientificamente aceitar (ou mesmo teologicamente, dentro das nossas concepções ocidentais). Suas representações em pinturas e esculturas são altamente ricas em simbolismos, como é regra na cultura indiana. Ele aparece encenando uma dança, de criação e destruição, segurando em uma de suas quatro mãos o tambor da criação universal (big bang?), e em outra o fogo da destruição dos mundos.
As suas duas outras mãos não são efetoras de trabalhos práticos (sim: ao contrário do asséptico Deus kardecista que não interage com a matéria, e juntamente com os "espíritos puros" se dedica unicamente a tarefas mentais "superiores", Shiva põe a mão na lama quando necessário). Essas duas outras mãos são mãos teológico-terapêuticas, e interagem não com a matéria, mas com a consciência que habita esta matéria (e que talvez seja mesmo uma propriedade dela). A mão aberta em nossa direção nos diz para que não tenhamos medo (medo de Shiva, e do fluxo dos processos de criação e de destruição). A última das quatro mãos aponta para a perna levantada, uma perna que viola todos os princípios das leis físicas conhecidas e demonstra a realidade que transcende aos ilusórios sentidos e conhecimentos (ciências) humanos.
Mas a perna que me interessa aqui é a última. Ela está praticando a menos provável atitude que se poderia esperar de um Deus: a tortura! Observem na figura que incluí no fim desta página como sofre a pobre criatura sob o cósmico peso de Shiva. Deve realmete doer... Essa figura é por vezes definida como um demônio, ou como a ignorância. Sem dúvida é a personificação do próprio erro. Curioso que o Deus que lhe está por cima tem seis membros. Não conheço outras criaturas vivas na Terra além dos insetos que possuam seis membros... Como os hindus julgam todas as criaturas vivas possuidores da Divindade, pode até haver um simbolismo inconsciente nesse sentido em tal imagem. Coloque-a de cabeça para baixo, e veremos o ápice da evolução na Terra: o homem, com seus desconhecimentos e ignorâncias, sobre os insetos, biologicamente quase divinos.
Mas deixemos Shiva em pé mesmo (não é aconselhável irritar um Deus como esse...). Agora, imaginemos que, muito rapidamente, alguém (um louco ou uma criança) puxe rápida e vigorosamente o demônio da ignorância sobre o qual Shiva realiza sua dança. O que acontece? Esse é um dos lados curiosos do simbolismo. Nós podemos saber onde ele começa, mas nunca saberemos onde ele acaba. Não creio que, originalmente ou conscientemente, os hindus tenham tido a intenção simbólica de retratar isso, de falar desta faceta que eu creio firmemente haver no Universo. No entanto, ela está lá, viva e clara!
Shiva cairá. Toda a dança da criação e da destruição ruirá de forma desastrosa!
Acho que, dentro de sua sabedoria milenar, e sua capacidade de acessar, através das práticas místicas, essa herança que todos possuímos de bilhões de anos de conhecimento interativo, a cultura hindu quis passar, ou mesmo sem querer acabou passando, também essa riqueza de visão sobre o funcionamento do Cosmos. Uma riqueza bizarra e paradoxal, mas talvez tão básica quanto qualquer lei da física, ou postulado teológico sacro:
"Sem o Erro, o nosso Universo não se sustenta!"
