http://listas.pucsp.br/pipermail/pesquisapsi/2004-September/009047.html

Esse texto foi originalmente postado no fórum Pesquisa Psi, na internet. Posteriormente, adicionei alguns poucos pontos, mas mantive o formato de exposição a um fórum internético.



Considerações a Respeito da Cientificidade da Hipótese da Sobrevivência pós Morte



Julio Siqueira
Domingo Setembro 5 20:52:29 BRT 2004


Olá Wellington Zangari e todos,

Gostaria de comentar alguns trechos de sua mensagem, e adendar algumas reflexões sobre a viabilidade e/ou adequação de teorias "sobrevivencistas" em geral, incluindo a reencarnatória. Meus comentários iniciados por ***  (assinalei os seus trechos anteriores como começando por @@@)

@@@ Mas se formos discutir "o que é a reencarnação" teremos assumido que ela existe, ao menos em teoria, e acho isso realmente precipitado.

*** Sem dúvida usamos o termo "reencarnação" porque identificamos algo que nos parece como tal. Não há dúvida que alguns tipos de "reencarnações" de fato existem, contanto que usemos definições apropriadas do termo "reencarnação". Como disse em algumas mensagens recentes no fórum Ceticismo Aberto (colando trechos delas em mensagens aqui na PesquisaPsi), a passagem de informações de uma pessoa para outra pessoa merece ser descrita, a meu ver, usando o termo "reencarnação". Portanto, do meu modo de ver, é claro que há "reencarnação de informações". Seguindo ainda este meu "modelo exploratório computacional", seria interessante perguntarmos se existe "reencarnação de processos" (processos algorítmicos ou similares). Penso ser razoável admitirmos que sim (em parte é o que fazemos quando aprendemos a tocar instrumentos, ou a jogar xadrez, ou a falar uma língua, ou a fazer um bolo, etc). Se considerarmos uma mente (como eu considero) como uma coleção de processos orquestrados de modo complexo e peculiar (somados a memórias), não parece de todo estranha a idéia segundo a qual mentes poderiam "reencarnar", ou ser "copiadas para réplicas robóticas de nós mesmos", ou, como exemplificado no filme "O Sexto Dia" (com Arnold Schwartznegger), clonadas com exatidão em réplicas biológicas perfeitas de nós mesmos (clones). A pergunta extrema nesse contexto seria: É possível à nossa "experiência subjetiva" reencarnar? Ou ainda: seria possível que essa aparente continuidade de identidade existencial e de experiência subjetiva que percebemos (real ou ilusoriamente, de dia para dia, e durante toda a nossa vida) fosse transferida para outros corpos?

*** [um parênteses; há também uma questão altamente relevante nesse contexto que seria: quem é o gerenciador principal do processo de "reencarnação" de informações, de processos, e de mentes? Deveríamos considerar como apropriado o termo "reencarnação" somente quando o gerenciador principal do processo for o falecido? E como identificar de fato quem é o "gerenciador principal" do processo? Existe de fato isso? As coisas nessa área não são tão claras quanto poderiam parecer à primeira vista. Por exemplo, em um processo infeccioso, viral ou bacteriano, à primeira vista poderia ser dito que o gerenciador principal do processo é o agente infeccioso (vírus ou bactéria), e não o organismo infectado (homem, por exemplo). Contudo, é também totalmente verdadeiro dizer que o homem é o gerente principal do processo, uma vez que ele é agente ativo na internalização da maioria dos organismos infecciosos, freqüentemente os internalizando ativamente através de processos de ingestão do tipo fagocitose. Então quem seria o agente ativo nesse caso? Talvez ambos! Com relação a "informações mentais", como alguma notícia por exemplo, o nosso "papel ativo" pode ser questionado, uma vez que é questionável se temos de fato o "livre arbítrio" de impedir que uma informação que "bata às portas dos nossos sentidos" seja internalizada para nossas mentes. Se um conjunto de informações, processos, e mentes "bate às portas" de nossos sentidos e entra compulsoriamente em nós, fica questionável tentarmos identificar de fato um agente principal do processo. Ou seja, eu tendo a considerar que por hora não temos como usar o critério do "agente principal do processo" como forma de identificar a propriedade ou não do uso do termo "reencarnação".]

***Essas últimas duas perguntas (antes do "parágrafo parênteses" acima) ilustram exatamente o que creio termos de fato em mente quando falamos de reencarnação, e é também o que creio que Stevenson tem em mente quando ele diz que alguns dos casos dele são sugestivos de reencarnação. Isso é o que penso Stephen Braude quer dizer por "sobrevivência pós morte no sentido ontológico", em oposição à sobrevivência "epistemológica", que seria meramente algum tipo de sobrevivência aparente capaz de nos "satisfazer" ou de nos ILUDIR suficientemente a ponto de aceitarmos que "aquilo que percebemos estar sobrevivendo" merece ser considerado por nós como o retorno (ou a permanência) do nosso ente querido falecido.

*** Diferenciar entre "reencarnação ontológica" e "reencarnação epistemológica" abre a meu ver a possibilidade de aplicarmos com muito mais propriedade o termo "reencarnação" para casos como os estudados por Stevenson (os melhores deles). Ou seja, aumenta a propriedade do uso do termo "reencarnação" enquanto uma interpretação epistemológica, e diminui a propriedade do uso do termo "reencarnação" enquanto uma identificação ontológica. E acima de tudo, tal diferenciação nos dá um alerta a respeito do fato de que não sabemos, e no momento não temos como saber, exatamente O QUÊ diabos estaria sobrevivendo. Além disso, essa distinção nos dá também o alerta (convenientemente esquecido talvez até pela esmagadora maioria dos neurocientistas da cognição) de que não sabemos também exatamente O QUÊ diabos sobrevive de um dia para o outro ANTES DA MORTE no cérebro das pessoas vivas normais; e também, sinceramente, não sabemos sequer o quê sobrevive em nós próprios de um dia para o outro, e nem mesmo se de fato existe sobrevivência no sentido em que aceitamos no senso comum (nem mesmo ANTES da morte!).

*** Um outro ponto relevante nisso é a questão da sobrevivência (pós ou pré morte...), no sentido epistemológico, estar totalmente ligada à questão daquilo que nos PARECE ser uma sobrevivência, ou seja, daquilo que NOS CONVENCE, ou que nos ILUDE O SUFICIENTE. Então se alguém for em alguma sociedade tribal e usar uma câmera fotográfica, ou de filmagem, acoplada a uma escopeta de modo que ao fim da foto ou da tomada do filme seja disparado um tiro que mate a pessoa que está sendo fotografada (ou filmada), pode ser que alguns membros dessa sociedade humana tribal considerem que houve reencarnação ou sobrevivência epistemológica do corpo do falecido para a foto ou o filme. Se isso for convincente para eles, e se os "iludir suficientemente", então assim é. Ou o mesmo se poderia dizer de alguém que considere que o Cazuza reencarnou durante a gravação do filme em sua homenagem recentemente. Se convencer, ou iludir... E na verdade é o mesmo que ocorre quando aceitamos que uma pessoa HOJE é a continuidade da mesma pessoa de ONTEM. Se convencer, ou iludir!

@@@ No entanto, tudo bem, vamos considerar que existam fatos que nos fariam pensar em alguma das hipóteses que você apresentou., apenas para vermos até onde poderemos ir com a argumentação. Assim, chegamos à constatação de que há pessoas que teriam "informações" a respeito de pessoas que já morreram e que, além dessas "informações", se "reconhecem" como sendo tais pessoas. Assim, temos: "informação" +, digamos, "auto-identificação" (termo absolutamente "auto-fágico", incorreto, mas suficiente para o argumento).

*** Deixe-me dar uma "melhorada" (na verdade, uma manipulada!). O ideal é analisarmos minuciosmente os casos reais. Eles costumam ser bem mais frágeis do que as versões ideais. Mas vou tentar esboçar um caso hipotético relativamente ideal, que incluiria elementos fortes de casos diferentes, e também de casos de mediunidade. Vamos considerar os seguintes elementos:

- informações sobre a vida de uma pessoa já falecida.
- informações sobre eventos em diversos momentos da vida da pessoa falecida (e não apenas de um único momento).
- informações que ninguém isoladamente, além do falecido, conheceria (ou seja, seria necessário acessar-se várias fontes para se reconstruir tais informações).
- informações que aparentemente ninguém vivo conheceu, além do falecido (e que foram posteriormente constatadas como verdadeiras pelos investigadores).
- ausência de informações que o falecido não conhecesse.
- identificação com a personalidade prévia ("Eu sou o fulano reencarnado!").
- laços emocionais fortes com os eventos da vida passada.
- laços emocionais fortes com as pessoas da vida passada.
- desconforto emocional com a vida presente, por sentir-se ainda como parte da vida pregressa.
- determinadas "precocidades" compatíveis com a vida pregressa (interesse sexual, por exemplo).
- aptidões similares às do falecido em alguns pontos (aptidões leves e tendências; não habilidades altamente desenvolvidas, pois o próprio Stevenson admiter não as ter encontrado em seus casos).
- caligrafia similar.
- semelhanças de personalidade.
- sinais de nascença (incluindo semelhanças entre linhas digitais).
- Some a Isso Também: ausência de lembranças de vidas futuras; ausência de lembranças de vidas presentes...

@@@ Quanto à "informação": não vejo como excluir a hiótese ESP. Quanto à "auto-identificação": não vejo como deixar de levar em contas aspectos culturais. Assim, prefiriria continuar a não ir muito longe na discussão a respeito do que "é a reencarnação" e buscaria caminhos para o reconhecimento dos limites de Psi.

*** Acho aceitável, e lúcido (e fértil; na verdade, altamente necessário mesmo!), trabalharmos nesse caso com a hipótese concorrente à reencarnação, que seria: "psi + cultura + psicologia". E eu seria bem preciso e específico, me referindo, ao usar o termo "psi", a aquisição de informações sobre o meio ambiente através de processos adicionais aos cinco sentidos conhecidos pela ciência (visão, audição, olfato, paladar, somestesia), e provavelmente através de uma força que não seria nenhuma das quatro conhecidas (eletromagnetismo, gravitação, força nuclear forte, e força nuclear fraca). E além de aquisição de informações, também ação sobre o meio através de processos igualmente não compatíveis com nossos modos de ação conhecidos, e com as forças físicas conhecidas. E aí usaria o rótulo expresso de telepatia, clarividência, premonição, e telecinese. Em certos casos, psi (ou ESP) teria mesmo que ser "super" para lidar com a fenomenologia. Veja que não se trata de usar o termo "Super Psi", que é de fato um problema, já que não conhecemos os limites de psi. Usar o termo "Super Psi" é o mesmo que usar o termo "Super Eletromagnetismo". Se quisermos nos referir aos limites e poderes do eletromagnetismo conforme conhecidos atualmente, comparando-o com os limites e poderes do eletromagnetismo conhecidos no início do século XIX, não há necessidade de usar o termo "Super Eletromagnetismo". Eram os cientistas de inícios do século XIX que, por não conhecerem os reais poderes e limites do eletromagnetismo, não imaginavam o quão poderoso ele é. O eletromagnetismo, sabemos hoje, é SUPER por definição. Dizer Super Eletromagnetismo é na verdade uma redundância. Então dizer Super Psi pode ser igualmente uma redundância. O que podemos dizer é algo diferente, mas descritivamente mais impecável: para dar conta de determinadas fenomenologias, psi teria que ser super (E pode mesmo ser. Os resultados em micro-PK e Ganzfeld definitivamente sugerem, para mim, algo de grande poder). Stephen Braude (tenho que citá-lo repetidamente, pois é o único que li sobre o tema!) difere e define dois tipos de Super Psi (ou de "Psi que é Super"), e as definições são curiosas por si só (fazem Ockham revirar na tumba de desgosto!):

*** Primeira: a mais fraquinha (!) seria uma Super Psi (Braude frisa que só usa o termo Super Psi por já ser um termo consagrado) definível como a "hipótese do múltiplo processamento", um conjunto de tarefas psíquicas organizadas e altamente refinadas (fortes e precisas). Segunda, a Super Psi do tipo "varinha de condão", segundo a qual um mero desejo bem desejado (de uma pessoa) seria suficiente para fazer qualquer coisa, até mesmo, creio, colapsar (ou mesmo dar um "reboot" em...) todo o Universo.

@@@ Sei que pareço chato com essa história de limites, sempre e sempre. Mas... sinceramente ainda não vi argumentação suficientemente abrangente que possa responder a esse argumento.

*** Na verdade, não acho que você pareça "chato", e sim tenaz ao alertar sobre um aspecto totalmente relevante e perigosamente desprezado (e mesmo desconhecido!) por muitos. Mas continuo achando que você não extende a coerentização de seu argumento para todas as áreas que deveria. E nisso repito algo que também venho repetindo insistentemente: não conhecemos os limites de nada no Universo.

*** Deixei de comentar o trecho de uma mensagem sua onde você falava sobre os, digamos, "limites da audição", e acho apropriado comentar agora. Sim, conhecemos os limites da audição. E ao mesmo tempo, não, não conhecemos os limites da audição. No meu modo de ver, a "ciência" que "conhece limites" é aquela que Kuhn se referia como "ciência normal" (espero não estar usando os termos errado, mas minha idéia é essa mesma), ou seja, uma ciência que já trabalha com um determinado paradigma (e que trabalha "dentro" dessse paradigma), independente de ser um paradigma certo ou errado. A ciência que está fora de paradigmas, ou que está em transição paradigmática, não deve, a meu ver, afirmar conhecer limites.

*** Nesse sentido, considero razoável, ou aceitável, que um físico ou um neurologista afirme que "conhecemos os limites da audição humana"; contudo, considero menos aceitável que alguém que esteja situado em uma posição epistemológica de desafio ao paradigma físico-neurológico vigente faça essa mesma afirmação. Bem, na verdade, apesar de eu achar "aceitável" que um físico-neurologista diga que conhecemos os limites da audição, considero tal afirmação a rigor incorreta. Mesmo dentro do paradigma vigente, pode haver uma miríade de fatores que esteja nos escapando, e que torne tal conhecimento dos limites altamente enganosa.

*** Por outro lado, temos de fato algum conhecimento a respeito de psi, de suas características e de seus  limites. Quantas vezes alguém já moveu deliberadamente (e declaradamente) uma montanha de um continente para outro usando de PK? Quantas vezes algum pesquisador psi já relatou resultados em várias sessões Ganzfeld seguidas da ordem de 95% (contra os 25% esperados ao acaso)?

*** Do meu modo de ver, atribuir o conjunto da fenomenologia de algum caso realmente forte de Stevenson (ou de algum caso realmente forte de comunicação mediúnica) a "psi" é tão temerário quanto atribuir tal conjunto a "reencarnação no sentido epistemológico". Então eu considero altamente fértil que haja pesquisadores trabalhando com ambas as hipóteses, e acho bem capaz que ambas estejam erradas. (contudo, atribuir tais casos a "sobrevivência ontológica" seria, penso, mais temerário que as opções anteriores, e não considero, no momento, como uma hipótese científica aceitável ou pelo menos desejável).

*** Penso que na verdade temos que ir de fato fundo nessas questões, e admitirmos que não conhecemos os limites das coisas, e nem mesmo sabemos se elas têm ou não limites. Não conhecemos os limites das percepções, das ações, das subjetividades, da consciência. Enfim, a meu ver, de nada. Precisamos discutir o que é: consciência; experiência subjetiva; continuidade e sobrevivência vs reprodução e clonalidade; o que é percepção e ação, e o que é troca de informações e como ela se dá. Enfim, basicamente quase tudo...

*** Acho que as descobertas da pesquisa psi, se por um lado talvez ainda não nos forcem a romper com os paradigmas vigentes, por outro lado claramente nos chamam para a premente necessidade de os repensarmos.

Um grande abraço,
Júlio.


Parte 2

http://listas.pucsp.br/pipermail/pesquisapsi/2004-September/009083.html

Julio Siqueira
Sexta Setembro 17 22:56:45 BRT 2004


Olá Wellington, e também os demais interessados nessas questões,

Bem, aparentemente estamos meio que de volta à questão da "vida interna das garrafas térmicas (Mauro) e das torradeiras elétricas (Leonardo Stern - desculpe se me equivoquei no equipamento elétrico)". Mas gostaria de apresentar a parte dois, que espero ser a final, dessa exposição sobre questões "sobrevivencistas" (ou seja: "pró hipótese da sobrevivência da consciência humana ao fenômeno da morte física"). Tentarei ser o mais suscinto possível!

Talvez seja uma exposição meio caótica. Imaginem-me, então, como eu estando deitado em algum tipo de "divã psicanalítico da onto-epistemologia"...

Um ponto fundamental, mas paradoxalmente muito mal explorado mesmo pelos pesquisadores psi sobrevivencistas, é "O que é a consciência?". Uma discussão mais profunda sobre isso é necessária, e pode fornecer algum insumo para entendermos melhor a distinção entre "sobrevivência ontológica" vs "sobrevivência epistemológica (termos de Stephen Braude), ou "sobrevivência objetiva" vs "sobrevivência subjetiva" (termos meus para os mesmos itens, que curiosamente eu havia desenvolvido pouco tempo antes de ler as exposições de Braude sobre isso). Não vou me aprofundar nisso agora, mas gostaria apenas de reafirmar que  para mim o cerne do conceito de consciência está ligado à "experiência subjetiva", sendo importante também, mas talvez não essencial (!), aquilo que eu chamo de "mente", e que eu defino como "processamento + algum tipo e quantidade de memória". Para mim o termo "inteligência" (que muitas vezes também aparece nesse tipo de discussão) é melhor definido como "interação bem sucedida de um sistema com o meio ambiente". Esse termo meio que apareceu recentemente em textos de Leonardo Stern, ao ele lembrar do teste de Turin para avaliação de se um computador merece o status de "inteligente". Do meu ponto de vista (e citando o teste de Turin meio que de lembrança distante), o teste de Turin é de pouca validade nesse tipo de questões que eu tenho levantado. O fato de um ser humano passar no teste de Turin (e de fato passamos) não quer dizer que ele tenha de fato experiências subjetivas, ou seja, não resolve a questão dos "zumbis". E o fato da torradeira do Leonardo não passar no teste de Turin não quer dizer que ela não tenha experiência subjetiva (e idem para a garrafa térmica do Mauro).

(Uma coisa curiosa que eu percebi há poucas semanas é que o "meu conceito" de mente acaba incluindo como "mentes" qualquer célula normal... Então eu, como todos, estou nitidamente com "problemas conceituais" nessa área!)

Um segundo ponto importante é relativo a questões que eu muitas vezes acho que deveriam ser levantadas como fruto da exploração empírico-teórica dessa área, e que poucas vezes vejo de fato aparecerem. Por exemplo: haveria algum tipo de "compartilhamento de subjetividades", conforme pode talvez ser sugerido por alguns dos resultados em Ganzfeld? Ou seja, apesar de nos considerarmos como "vários seres com várias mentes e consciências", poderíamos ser de fato, pelo menos por vezes e em um certo grau, na verdade "vários seres com uma única mente e consciência"? Há também a questão oposta. Será que temos em nós, em apenas um corpo e um cérebro, mais do que uma mente e consciência, como é sugerido pelas disordens de múltiplas personalidades, e (talvez) pelos sonhos? Será que há mais de um sistema neuronal, ou mesmo sistemas não neuronais (ainda que cerebrais, lembrando que os neurônios compõe apenas 10% das células cerebrais, e que as células da Glia, que compõe 90%, exibem características de processamento cerebrais também, ainda que não do tipo sinápticas), que possuiriam consciência? E de modo oposto, será que  há, conforme eu enxergo ser justamente o esperado pela física e biologia modernas, grandes percentuais de zumbis entre nós? (Talvez 80% de zumbis seria um número teórico e empíricamente defensável... Esse é o percentual de pessoas que alegaram não ter experiências de quase morte nos estudos de van Lommel e Parnia, em 2001!).

Um terceiro ponto fundamental, e igualmente esquecido em grande medida, é "O que diabos é 'sobrevivência', tanto pós morte quanto ANTES da morte?". Como, afinal de contas, sobrevivemos? E "O Quê" sobrevive? E isso mesmo antes da morte! Que eu saiba, sobrevivemos da seguinte maneira:

- Continuidade de substância.
- Continuidade de memória.
- Processamento mental peculiar (padrão mental, personalidade).
- Interação peculiar com o mundo (modo como a personalidade efetivamente interage com o meio).
- Sensação de identidade, e de continuidade da identidade.
- Experiência subjetiva (o item anterior é parte disso).

Curiosamente, os itens acima são altamente dinâmicos e fluidos, senão mesmo matreiros e ardilosos. A continuidade de substância é algo altamente questionável. A cada sete anos mudamos praticamente todos os átomos e moléculas que nos compõem (reposição molecular, ou turn-over). Há igualmente uma taxa altíssima de turn-over celular, apesar de alguns tecidos serem mais conservadores, como o tecido nervoso (e conseqüentemente o cérebro em suas frações neuronais). Há também a questão, que surge da física e que acredito que os colegas Stern e Mauro podem confirmar ou refutar, de se exibimos uma "continuidade analógica" ao nos movermos (no espaço-tempo), ou se ao invés disso nossos movimentos seriam fruto de infindáveis "saltos quânticos discretos" (isso talvez abalaria os conceitos da identidade e da continuidade da sobrevivência de modo quase devastador). Me parece também que mesmo nos modelos conscienciais baseados nos conhecimentos neurológicos predominantes, a consciência não ocorreria em "continuum" (analogicamente), e sim em recriações sucessivas (algo como um "serial rebooting of the system"; Francis Crick fala de "snapshots") a cada poucas dezenas de mili-segundos. E a memória é um problema só, possuindo nós falsas memórias que convivem com ausências de memórias. Então, aparentemente, a sobrevivência ANTES DA MORTE é talvez tão intelectual e cientificamente desafiadora (enquanto um conceito válido) quanto a sobrevivência APÓS A MORTE.

Uma quarta questão, que foi colocada por Leonardo Stern, se referia a "uma única variável" que diferenciasse a hipótese sobrevivencista (ou julista...) da hipótese Super Psi (ou da Psi que é super...). Sou muito desconfiado com relação ao conceito de "variáveis únicas". Aquilo que identificamos como "único" pode se compor de um mosaico escondido, e o que parece múltiplo pode ser uma unidade recôndita. Mas eu diria que uma coisa que parece ser um candidato a "variável única" das hipóteses sobrevivencistas seria um "objetivo próprio" (own agenda). Isso aparece nas comunicações mediúnicas do tipo "drop in" ("espíritos" que aparecem sem serem convidados e sem serem conhecidos, e que solicitam coisas que atendem aparentemente somente aos seus interesses, e não ao interesse de nenhum dos presentes). Há também um candidato potencial a variável unicamente presente na hipótese sobrevivencista, que seria os Locais Assombrados. Braude diz, em Immortal Remains (2003), que os Locais Assombrados poderiam ser exemplos de criações físicas (através de psi, segundo ele) do tipo duradouras (em oposição à materialização de espíritos, que normalmente são criações físicas temporárias), criações essas onde estariam sendo criados "processos" (como uma fita de vídeo + video cassete + televisão, onde fica sendo repetido um  processo; ou como num computador em reboot ou executando alguns programas, etc). Ora, se através de psi estaríamos de fato criando "processos", a idéia de um "computador psi" (lembra até os computadores quânticos...) parece natural e mesmo provida de evidências talvez já minimamente sólidas (os especialistas em Locais Assombrados poderão falar com maior propriedade sobre isso). E como é justamente em "computadores" que acreditamos que existam as consciências (Nos computadores orgânicos, pelo menos. Alguns cientistas, conforme mostrei a Leonardo Stern, já discutem seriamente a possibilidade de computadores não orgânicos também possuírem, já, consciência), a existência de "Lugares Assombrados" parece ser um fenômeno particularmente promissor para embasar hipóteses sobrevivencistas.

(Leonardo comentou que Locais Assombrados seriam talvez bem explicados por fenômenos psico-sociais. Não conheço desse assunto, e teria que ler mais sobre isso, e qualquer contribuição de Leonardo nesse sentido seria altamente rica para mim e para a lista também. Mas sinto de antemão que tal explicação psico-social me parece ser meio capenga)

Um quinto ponto de relevância surge da própria questão da (e do conceito de) transmissão de informação em psi. Inicialmente eu tinha a expectativa (ou esperança; ou medo...) de que Leonardo me apresentasse em seus comentários sobre o modelo da holorressonância uma explicação mais promissora e poderosa para tornar as hipóteses sobrevivencistas mais fracas em face às hipóteses do tipo Super-Psi. Contudo, tenho estado relativamente insatisfeito com os fragmentos holorressonantes que tem me sido passados por Stern. Ou seja, a meu ver, o "modelo holográfico" esbarra nos mesmos problemas e dificuldades dos demais modelos teóricos psi e dos demais modelos físicos ao tentar reduzir a "fenomenologia sobrevivencista" à psi (ESP + PK), que seriam: acesso a múltiplas fontes de informação de modo altamente bem orquestrado; superação da diluição natural da informação; ausência de lembranças (nos casos de reencarnação stevensonianos) de vidas futuras e de vidas co-presentes ou de vidas em animais, etc. Braude comenta um pouco sobre o problema do "externalismo" nas fenomenologias de Experiências Fora do Corpo (OBE - out of the body experiences) e de clarividência. Haveria de fato algo "saindo" do corpo? Mesmo nos casos onde o subjeito alega estar percebendo as coisas de um determinado ponto de vista "acima" do objeto, ou etc? Ele (Braude) se mostra relativamente (ou aparentemente) avesso a tal idéia, preferindo a explicação de que psi daria conta disso.

Contudo, eu achei especialmente interessante a exposição (bem sumária) que ele fez sobre determinados experimentos em ESP com cartas em baralho, ou com envelopes lacrados. Parece que há situações onde o indivíduo consegue saber (identificar) qual, por exemplo, a décima carta em um baralho lacrado, ou que texto está na página 50 de um livro fechado. A pergunta interessante que surge disso é a seguinte: que tipo de modelo físico dá conta de tal fenomenologia? A resposta que me parece ser a mais apropriada sugere algo de muito interessante...

Como ocorre a transmissão de informação na natureza, e como um sistema como o organismo humano adquire informações? Eu entendo que há quatro maneiras como isso ocorre. 1- Nós "vamos até" a informação (você vai à biblioteca, pega o livro, e abre na página 50, por exemplo). 2- A informação "vem até" nós (você olha pela janela de sua casa, e vê o prédio da biblioteca a cinco quilômetros de distância, e vê a janela da sala onde fica o livro, e vê a prateleira e o livro, fechado! E não lê o que está na página 50. Ou, se o livro estiver aberto com a página 50 virada para você, você lê, se estiver munido de possante sistema ótico, e dentro dos limites físicos possíveis). 3- Nós enviamos uma "sonda" que vai e busca a informação; isso ocorre com morcegos, que emitem sons para mapear um ambiente através do reflexo destes mesmos sons. 4- Nós na verdade não "vamos a" lugar nenhum, e nem nada "vem a" nós: nós e a informação somos, e já éramos e continuaremos a ser, a mesma coisa!

Braude fala uma coisa interessante: que alguns experimentos em ESP com baralhos de cartas lacrados (como citei acima) parecem excluir o modo 2 citado no meu parágrafo acima (emissão por parte do objeto fonte da informação). Podemos dizer que também poderia ser excluído o modo 3 citado por mim acima (ricocheteamento de alguma "sonda" enviada por nós, a là morcegos). Ficamos então com duas possibilidades: Ou algo em nós vai até a informação (modo 1), ou nós e a informação somos uma coisa só (modo 4). Acontece que o modo 4 sugere que nós, de alguma maneira, possuímos um conhecimento infinito a respeito do Universo, que nós SOMOS a totalidade do universo. E o modo 1 sugere que nós possuímos um módulo externalizável, assim como um olho que poderia viajar centenas de quilômetros e observar um cenário por vezes com precisão. Poderia então esse módulo sobreviver SEM o corpo, e sobreviver à morte do corpo físico, e albergar nossas capacidades de processamento mentais? A resposta é: Se somarmos a isso as ponderações a respeito dos Lugares Assombrados, talvez sim! E o modo 4, por si só, possui em si algo de intrinsicamente sobrevivencista, por sermos nós, segundo esse modo 4, algo bem parecido com a totalidade do Universo. Sobreviveremos então (no modo 4), enquanto sobreviver o Universo... Para os "Ockham maníacos", é apropriado que digamos que o modo 4 é bem mais violador de Ockham do que o modo 1, o que torna a hipótese "espíritos" tradicional muito mais parcimoniosa e plausível do que a hipótese "holoretumbante" (para diferenciá-la da "holorressonante" de Leonardo Stern, que, conforme eu disse, me parece carecer de elementos para dar conta do recado).

Finalmente, é interessante citar novamente um texto de Michael Levin, disponível em
http://perso.wanadoo.fr/basuyaux/parapsy_eng/documents/levin/ijp2001.pdf ,
com o títuloWhat is the Fundamental Nature of Consciousness? On the contribution of parapsychology to consciousness research. Nesse artigo, ele diz que "There have been several studies showing that mental volition can affect quantum phenomena, in the context of affecting statistical properties of binary bit streams generated by particle decay (Honorton, 1979; Jahn and Dunne, 1987); this perhaps lends support to the models (see above) whereby mind interacts with matter at the quantum level. Interestingly, in some experiments, the device "decided" (as determined by a quantum element) within 10 to minus 7 seconds whether a certain quantum event was going to count as a 0 or a 1. The brain works at time scales of milliseconds (10 to minus 3 seconds). Thus, it would appear that the physical brain simply is not fast enough to sense the switch and effect a proper response.".

Ou seja, o que Levin sugere é que nosso sistema mental individual (nossa "consciência" + nosso "inconsciente") parece realizar processamentos (nos experimentos com micro-PK) em uma velocidade simplesmente 10.000 vezes maior do que a admitida para o funcionamento material do cérebro! (curiosamente, um em 10.000 é também o efeito obtido em micro PK; mas isso deve ser só coincidência...). Será que isso sugere que há algo em nós além do cérebro capaz de realizar processamentos com tal velocidade? Pessoalmente, acho que sim.

Tomando tudo isso dito por mim nessa mensagem (quatro páginas) com o dito na mensagem anterior de mesmo nome (também quatro páginas), eu considero sinceramente, e racionalmente (e emocionalmente também, é claro), que a hipótese sobrevivencista do tipo "espíritos" é a mais plausível e parcimoniosa existente para dar conta do conjunto de dados disponíveis. E considero que a hipótese "holorretumbante" (Eu sou o Deus! - aliás, isso foi dito por Irwin Schroedinger, ao se manifestar pró brahmanismo!) é a  mais compatível com os conhecimentos que possuímos a respeito da física, da biologia, e da consciência.

Mas continuo achando que ainda não possuímos dados suficientes para falar a respeito da "sobrevivência subjetiva" (ou "ontológica", segundo Braude), que é a sobrevivência que de fato nos interessa (as experiências de quase morte são, talvez, o único insumo real para isso, e elas são enormemente introdutórias, por se darem de fato ainda muito distante daquilo que é verdadeiramente a morte do corpo físico). E continuo achando, e alertando, que mesmo se meu  raciocínio brahmanista (conforme expresso no meu texto das Maçãs Materialistas) estiver correto, não me parece haver motivo para crer em ou esperar por um porvir infinitamente feliz e eterno. Quanto à eternidade de nós, nada há a ser dito a partir de minhas reflexões enquanto não soubermos à respeito de se há ou não eternidade para próprio o Universo. E quanto à felicidade infinita, minhas perspectivas apontariam justamente para um sentido bem diferente disso, já que um plenum consciencial incluiria tanto os ápices infinitos do prazer, quanto os ápices infinitos da dor.

Um grande abraço,
Júlio.

Clique Aqui para ler o artigo sobre as dificuldades teórico-experimentais da hipótese materialista.