O Pomo da Discórdia: o Materialismo
está Morto...
O que se segue abaixo é uma série de mensagens
que enviei ao pessoal do fórum
internético do Victor
Stenger,
AVOID-L.
Nelas, eu exponho uma tese:
o materialismo viola a lei da conservação
de energia, e também viola o neo-darwinismo. Essa idéia
vem do mais puro raciocínio. Mas... seria tal idéia realmente
correta? A reação das pessoas no fórum de Victor Stenger
foi deveras bizarra. Eu sinto que eles têm uma tendência lá
de desprezar idéias daqueles que não sejam ateu-materialistas
como eles, e também de desprezar o raciocínio de quem não
domine os conhecimentos de física (no meu caso, some-se a isso o fato
de eu ter desafiado o Mestre deles... vejam
este
link). Um dos membros mais "atolado-na-física" (bitolado
pela física...) de tal fórum respondeu a essa minha tese rotulando-a
de "tola" (ele, obviamente, e convenientemente, não comentou nenhum
dos argumentos concretos do texto...). Eu simplesmente rebati dizendo que
mesmo se dez ganhadores do Prêmio Nobel em física mais dez ganhadores
do Prêmio Nobel em neurobiologia (medicina) se levantassem em defesa
da minha tese, mesmo assim eu próprio continuaria altamente cético
com relação ao raciocínio e conclusão a que
cheguei... Contudo, eu não posso negar. Eu cheguei de fato a essa
exata conclusão. E assim concluindo, como eu disse acima, através
do mais puro raciocínio...
Então, aqui está. Um raciocínio
que não é necessariamente alentador para os espiritualistas
(como os leitores verão...). Mas que é definitivamente devastador
para os materialistas. Espero que apreciem.
Julio Siqueira,
microbiologista (não praticante)
juliocbsiqueira@terra.com.br
______________________
Sat, 11 Aug 2007 10:47:59 -0700
"Julio Siqueira" <juliocbdsiqueira@YAHOO.COM>
Re: a ciência do divino
AVOID-L@HAWAII.EDU
Um volume de H2O ao nível
do mar e à temperatura ambiente exibirá propriedades que uma
quantidade equivalente dos elementos constituintes independentes, Hidrogênio
e Oxigênio, não exibirão, como por exemplo manter-se
em repouso no fundo de um poço gravitacional. Os resultados de combinarmos
os dois elementos oferecem um exemplo típico de emergência,
Um volume de H2O ao nível do mar e à temperatura
ambiente exibirá propriedades que o mesmo volume de H2O ao nível
do mar mas a uma "temperatura acima do ponto de ebulição" não
exibirá. Então, a pergunta é: essas propriedades seriam
1- verdadeiramente emergentes, ou 2- meramente sempre presentes lá
o tempo todo (como potenciais). Se 2 é a alternativa correta, então
elas não são verdadeiramente emergentes, e sim propriedades
redutíveis.
Atenciosamente,
Julio
xxxxxxxxxxxxxxxxxx
Sat, 11 Aug 2007 10:17:48 -0700
"Julio Siqueira" <juliocbdsiqueira@YAHOO.COM>
Re: a ciência do divino
AVOID-L@HAWAII.EDU
Dois parágrafos de Victor Stenger:
Então, o que moveu os quarks
e elétrons no cérebro dele? Teria sido alguma interação
com psychons que não são feitos de quarks e elétrons
mas por uma mente que também não seria feita de quarks e elétrons
e que emergiu de um sistema de quarks e elétrons quando tal sistema
atingiu um certo nível de complexidade e passou a ter novos poderes
que não podem ser reduzidos a quarks e elétrons?
Eu discordo. É uma questão
factual. Existe alguma força nova no universo que evoluiu da matéria
mas que agora transcende a matéria?
Eu vejo esses temas acima como uma verdadeira Caixa de
Pandora em uma casca de noz.... Falarei sobre isso no meu próximo email,
hoje mais tarde.
Atenciosamente,
Julio
xxxxxxxxxxxxxxxxxxx
Sat, 11 Aug 2007 11:23:26 -0700
"Julio Siqueira" <juliocbdsiqueira@YAHOO.COM>
Re: a ciência do divino
AVOID-L@HAWAII.EDU
Como eu disse, uma Caixa de Pandora em uma casca de noz.
Comentando sobre isso então:
Então, o que moveu os quarks
e elétrons no cérebro dele? Teria sido alguma interação
com psychons que não são feitos de quarks e elétrons
mas por uma mente que também não seria feita de quarks e elétrons
e que emergiu de um sistema de quarks e elétrons quando tal sistema
atingiu um certo nível de complexidade e passou a ter novos poderes
que não podem ser reduzidos a quarks e elétrons?
Eu discordo. É uma questão factual.
Existe alguma força nova no universo que evoluiu da matéria
mas que agora transcende a matéria?
A primeira questão marota aí presente
é a causalidade em si. Causalidade não é um fato. É
uma crença. Pode ser uma crença correta. Mas isso é
algo que jamais poderá ser comprovado. Nós acreditamos que
A causa Z. A ciência se põe a investigar isso; a explicar isso
(em inglês explicar é "ex-plain", ou seja, tornar completamente
plano; em português "ex-plicar" remete à idéia de desembaraçar,
desenrolar), e descobre que na verdade A causa M, e é M que causa
Z. Cientistas não ligados ao status quo acadêmico
refutam esse achado, e mostram-nos que, ao invés disso, A causa E
que causa M que causa R que causa Z. E assim vai. A ciência é,
na verdade, um multiplicador de mistérios... Mas mesmo se pudermos
ter realmente certeza que A causa B, sem nenhum intermediário, a causalidade
ainda é uma crença. O que nós podemos racionalmente
ter confiança é na "co-ocorrência" (um termo que é
raramente usado...). Co-relação implica (usualmente) em algum
tipo de causalidade, ainda que indireta. Coincidência implica em que
não há causalidade, e então este termo tem seu próprio
"ônus da prova" com o qual arcar...
Então, se você, Victor Stenger, estiver
falando sobre causalidade, e usando ela como parte do seu arcabouço
argumentativo, então faz sentido falarmos a respeito de causalidade
ascendente ou de causalidade descendente. Você afirma que a causalidade
ascendente está ok. Então, o que dizer de causalidade descendente?
Alguns exemplos foram dados por alguns membros deste forum. Eu não
desgostei deles, mas eu não gostei deles também. Um exemplo
que eu mesmo ofereceria seria engenharia genética. Trata-se de um
systema de alto nível (cérebro, ou mente) agindo causalmente
sobre um systema de nível básico (systemas genômicos).
Mas existe também uma segunda questão
marota na Caixa de Pandora: emergência. Nós podemos falar sobre
emergência epistemológica versus emergência ontológica,
e sobre emergência de propriedades vs emergência de substância.
Então, 1- propriedades epistemológicas emergentes, 2- substâncias
epistemológicas emergentes, 3- propriedades ontológicas emergentes,
4- substâncias ontológicas emergentes. E tudo isso aplicado
a... causalidade descendente. Eu continuarei deste ponto mais tarde.
Atenciosamente,
Julio
xxxxxxxxxxxxxxxxxx
Sun, 12 Aug 2007 14:08:43 -0700
"Julio Siqueira" <juliocbdsiqueira@YAHOO.COM>
Re: a ciência do divino
AVOID-L@HAWAII.EDU
Ainda tendo em mente esses dois parágrafos de
Victor Stenger:
Então, o que moveu os quarks
e elétrons no cérebro dele? Teria sido alguma interação
com psychons que não são feitos de quarks e elétrons
mas por uma mente que também não seria feita de quarks e elétrons
e que emergiu de um sistema de quarks e elétrons quando tal sistema
atingiu um certo nível de complexidade e passou a ter novos poderes
que não podem ser reduzidos a quarks e elétrons?
Eu discordo. É uma questão
factual. Existe alguma força nova no universo que evoluiu da matéria
mas que agora transcende a matéria?
Eu falei antes sobre como eu vejo a questão da
causalidade. Emergência é igualmente estranha. E igualmente
estranha é a sua contra-parte: o reducionismo. Nós normalmente
vemos o termo emergência ser usado em um (ou mais) dos 3 modos seguintes:
1- A “entidade emergente” (sela ela uma propriedade
ou uma substância) não é redutível ao que a ocasionou.
A “umidez” da água ao nível do mar na temperatura ambiente
não é reduzível nem a H ou a O (e nem mesmo é
redutível a H2O a 200 graus negativos). Uma boa pergunta neste exemplo
específico seria: é (a "umidez") realmente não redutível?
Ou talvez ela seja de fato redutível. Mesmo neste exemplo, nós
somos tentados a concluir que o que há sob o conceito de “emergência”
é nossa capacidade (ou falta de capacidade) de prever um dado curso
de acontecimentos...
2- Um dado resultado é “emergente” no sentido
de não ser “esperado” (nem predito, nem... previsível) por
nós. Isso é o que às vezes é dito de certos “comportamentos”
que emergem de alguns software, como o padrão espiralado de Victor
Stenger (em “God: the Failed Hypothesis”, 2007) que ele acredita que não
esteja dentro do seu algoritmo... Obviamente, neste exemplo e, em grande
medida, no exemplo do parágrafo anterior também, nós
meio que sentimos que o que realmente “emerge” não é algo no
mundo objetivo em si, mas antes algo dentro de nossa cognição
subjetiva: o que na verdade acontece é que nós apenas *passamos
a perceber* o pleno potencial de algo, um potencial que realmente estava
lá durante o tempo todo...
3- Uma entidade “torna-se” outra, como A tornando-se
B, e assim B é emergente. (Uma interessante “variação
extrema” deste número 3 seria A continuar a ser A mas “dando à
luz” B.. - Violação da Lei da Conservação de
Energia/Matéria? Talvez). Esta situação número
3 é em grande medida, digamos, “ilusória”. Os objetos macroscópicos
podem mudar, e ainda assim a estrutura atômica e subatômica subjacente
permanecer a mesma, e nesse caso então o A se transformando em B seria
mera ilusão. Contudo... alguns exemplos podem ser verdadeiramente
transformacionais. Aqueles que realmente podem verificar a validade destes
exemplos são físicos competentes. Os exemplos que eu posso
pensar são: elétron e pósitron tornando-se “energia
pura” (fótons); e matéria saindo do “vacuidade” do nada. E,
do que podemos concluir do nosso atual conhecimento a respeito do Universo...,
a consciência emergindo do cérebro se encaixa justamente no
exemplo do parênteses anterior... Ela é exatamente A (o cérebro
e seu funcionamento) continuando a ser A (o cérebro e seu funcionamento)
e dando à luz B (experiência subjetiva). Poderia ser que a consciência
é uma infração da lei de conservação
de energia?
Agora, vamos dar uma olhada cautelosa nas questões
levantadas por Victor Stenger à luz do que eu disse aqui:
Existe alguma força
nova no universo que evoluiu da matéria mas que agora transcende
a matéria?
Eu cheguei à conclusão que a "emergência",
na verdade, está em todo o lugar e em todas as coisas (e é
tudo). Uma coisa simplesmente se transforma em outra e nós simplesmente
não sabemos por que isso é assim (no sentido mais rigoroso
da palavra "saber"). Mesmo a continuidade é um tipo de "emergência".
Um prótom agora ainda será um prótom amanhã.
Por quê ele não mudou? Por quê ele continua "re-emergindo"
dia após dia como ele próprio? Então a resposta para
a pergunta acima de Victor Stenger é Sim e Não. Sim, algum
tipo de nova força emergiu, partículas do Vazio, fótons
de prótons, etc. E, Não, nada que nós conhecemos - ou
melhor: que nós PODEMOS conhecer! - é transcendente.
E isso é assim simplesmente por causa do fato que se algo é
transcendente, então por sua própria definição
esse algo está além de qualquer interação e além
de qualquer possibilidade de detecção. Então, como nós
poderíamos jamais saber? Por tudo que sabemos, pode de fato haver
muitas e muitas coisas surgindo da matéria, transcendendo a matéria,
e tornando-se para sempre indetectáveis (transcendentes).
Então, o que moveu os quarks
e elétrons no cérebro dele? Teria sido alguma interação
com psychons que não são feitos de quarks e elétrons
mas por uma mente que também não seria feita de quarks e elétrons
e que emergiu de um sistema de quarks e elétrons quando tal sistema
atingiu um certo nível de complexidade e passou a ter novos poderes
que não podem ser reduzidos a quarks e elétrons?
Isso acima é meio como dualismo de substância.
Talvez seja verdadeiro. Mas não resolve nada. E definitivamente não
é necessário para explicar as coisas e como elas funcionam.
Um psychon (se isso existir), em relação à matéria
comum conhecida, é tão imaterial e transcendente quanto um
fótom em relação a um prótom.
Durante toda a história da humanidade, e através
de todos os poderosos esforços da ciência e da filosofia, existe
apenas um único exemplo de emergência que desafia todas as tentativas
de explicação, e é: a consciência (experiência
subjetiva; qualia; o Hard Problem de Chalmers; consciência fenomênica/phenomenal
consciousness). Ela simplesmente não deveria existir. Ninguém
sabe como ela surgiu, e ninguém sabe para que diabos ela serve, e
que entidades a possuem verdadeiramente (não confie em ninguém
quanto a isso; os zumbis talvez espreitem na escuridão, e nas academias
científicas...). Tanto quanto sabemos, ela não possui absolutamente
nenhuma função no Universo. Ela não exerce nenhuma ação.
Mas... ela está estreitamente co-relacionada (estreitamente co-ocorrente)
com determinados estados da matéria (determinados estados do cérebro).
Causalidade descendente? Se Systema Cerebral -> Sistema
Genômico (engenharia genética), então Sim. Se
Consciência -> Sistema Genômico (ou mesmo Consciência
-> Sistema Cerebral), ninguém pode dizer...
Atenciosamente,
Julio
xxxxxxxxxxxxxxxx
Tue, 28 Aug 2007 08:16:37 -0700
"Julio Siqueira" <juliocbdsiqueira@YAHOO.COM>
Por Que o Materialismo Viola a Lei da Conservação de Energia.
AVOID-L@HAWAII.EDU
Olá Brent, e todos,
A razão pela qual o materialismo viola a lei
da conservação de energia é porque seu "orçamento"
passa a não estar equilibrado a partir do momento que você
introduz a consciência na equação. O materialismo alega
que tudo é matéria, e que a consciência brota (emerge)
dela. Isso se expressa por:
M -> M + C (matéria originando matéria
mais consciência).
Isso equivale a emergência de substância.
E de um modo que seria equivalente a 1 + 1 = 3. Isso certamente viola a
conservação de energia e viola o princípio do fechamento
causal (principle of causal closure - ao passo que, surpreendentemente,
o dualismo e o pampsiquismo lutam para manter esse tão acalantado
pilar da ciência e da lógica, com sucesso).
Então, esse desequilíbrio no orçamento
do materialismo ou leva a emergência de substância material,
violando a lei de conservação de massa-energia, ou, o que é
muito mais aterrador, leva a emergência de substância espiritual...
Escolham o que preferirem... :-)
Atenciosamente,
Julio
xxxxxxxxxxxxxxxx
Tue, 28 Aug 2007 18:04:38 -0700
"Julio Siqueira" <juliocbdsiqueira@YAHOO.COM>
Tese: Por Que o Materialismo Viola a Lei da Conservação de
Energia.
AVOID-L@HAWAII.EDU
O texto imediatamente abaixo
foi traduzido pelo estóico amigo Vitor Moura, e posteriormente revisado
por mim. Meus mais sinceros e profundos agradecimentos a ele por essa ajuda
crucial.!!!
Por que o Materialismo Viola a Lei de Conservação
de Energia...
É triste mas verdade. O bom e velho materialismo,
corajoso e elegante, viola um dos mais acalantados princípios da ciência
moderna: a lei de conservação de energia-matéria. Ou
estaria eu terrivelmente errado? Talvez eu esteja. Não obstante, deixe-me
explicar o que me leva a esta terrível conclusão.
Primeiro terei que definir o que eu quero dizer por “materialismo”. Segundo,
terei que explicar como cheguei a esta idéia tão estranha,
isso é, o que me pôs nesta trilha bizarra. E finalmente, deixarei
claro quais são exatamente as conseqüências se por acaso
eu estiver... certo! Os resultados não são necessariamente confortadores
para os espiritualistas tampouco.
Apenas para ser exato, refiro-me à *conservação de
energia* (i.e. conservação de matéria e energia) como
é explicada pelo físico Zoran Pazameta (em Skeptical Inquirer
Sep/Oct 2000, “The Laws of Nature: a Skeptic's Guide”) no link abaixo:
http://www.csicop.org/si/2000-09/laws.html
Assim, energia-matéria não pode ser criada nem pode ser destruída.
Só pode ser transformada [“Em geral, conservação significa
que num sistema isolado uma dada quantidade física não se altera
com o tempo. (Se houver interferência de fora, esta interferência
pode ser incluída estendendo-se a definição do “sistema”
e a conservação ainda se manterá). Uma lei de conservação
especialmente importante e útil é que matéria e/ou energia
não são nem criadas nem destruídas com o tempo; elas
meramente mudam de forma, e sua soma total sempre permanece a mesma”].
Basicamente, vejo dois tipos de materialismo: o materialismo religioso
e o materialismo científico (ou filosófico/pragmático).
Suspeito que ambos violam a conservação de energia. Nem todos
os tipos de materialismo violam a conservação de energia. Não
necessariamente, pelo menos. Por exemplo, o materialismo que nega totalmente
a existência de consciência (i.e. de experiência subjetiva)
muito provavelmente está cem por cento correto. Mas, em minha opinião,
o materialismo religioso e científico abrange quase todo o materialismo
que há de fato (aquele é aceito pelas pessoas). E estes estão
condenados desde o começo... Por que isso?
O problema é a experiência subjetiva, e como materialismo
pode explicá-la.
O materialismo científico alega que tudo o que existe é matéria
(ou matéria e o vazio), e que a conservação se mantém.
O materialismo religioso alega que a vida depois da morte não existe.
Especialmente, que a experiência subjetiva não continuará
depois da morte. Com a morte do cérebro, a consciência morre
também. O materialismo científico alega que a consciência
ou é *produzida* pelo cérebro ou *é* o próprio
cérebro trabalhando.
Agora, o que é a consciência (experiência subjetiva)?
Ela só pode ser uma de algumas poucas opções:
- Ela pode ser uma substância. No dualismo de substância isto
é exatamente o que ela é: o mundo material, feito de matéria
“morta” (inconsciente) vs o mundo “espiritual”, feito de material consciente.
Em algumas formas de pampsiquismo, a consciência também é
uma substância, como qualquer tipo de matéria é consciência
(consciência e matéria são a mesma coisa). Se a consciência
é uma substância, então em termos gramaticais nós
a chamaríamos um substantivo.
- A consciência pode, em vez disso, ser uma propriedade. O que é
uma propriedade? Em gramática, é chamada de um adjetivo. É
uma faceta de muitas facetas diferentes que um dado objeto tem. Por exemplo,
a água tem a propriedade de ser fluida. Propriedades são altamente
relacionais. Elas são como outros objetos “vêem” um dado objeto,
e elas são a maneira como outros objetos interagem com este dado objeto.
O problema aqui é que as propriedades são também meio
que “a definição do que as coisas são”. Em termos
lógicos, se você descreve todas as propriedades de um objeto,
você define o objeto em si. Alguém pode dizer que se um (hipotético)
objeto tem só uma propriedade, então neste caso esta propriedade
*é* a substância deste objeto. O que eu quero dizer é
que não é tão fácil de distinguir propriedades
de substâncias como muitas pessoas parecem acreditar...
- Uma terceira alternativa é que a consciência é uma
ilusão. O que é uma ilusão? Uma ilusão é
algo que verdadeiramente existe, mas que é mal interpretado. A luz
pode parecer ser água no deserto. Mas não tem as propriedades
da água e não saciará sua sede. Para nós aqui,
a coisa importante está esta: ilusões são reais! O fato
delas serem mal interpretadas não diminui sua realidade.
- A última alternativa para a consciência é a de ela
seja uma mentira. Isso é, a consciência pode simplesmente não
existir. Pode ser que todo mundo esteja mentindo e ninguém verdadeiramente
vivencie qualquer experiência subjetiva.
Então, resumindo:
A consciência é:
1- Uma substância.
2- Uma propriedade.
3- Uma ilusão (propriedade ou substância).
4- Uma mentira.
Agora, o que você acha que a consciência é?
Aqueles que alegam ter consciência freqüentemente enfatizam
que ela não é uma mentira. (Francis Crick, no seu “The Astonishing
Hypothesis: the Scientific Search for the Soul”, 1995, cita o eminente neurocientista
Benjamin Libet na abertura do seu capítulo final a esse respeito: “Nossa
própria vida interior subjetiva, incluindo as experiências sensoriais,
sentimentos, pensamentos, escolhas por meio da vontade, é o que realmente
importa a nós como seres humanos”. – Benjamin Libet). Então,
ela pode somente ser ou uma propriedade ou uma substância (já
que a ilusão em si só pode ser ou uma propriedade ou uma substância).
E nós vimos a dificuldade em distinguir propriedades de substâncias.
Sabemos pela física (lei da conservação de energia)
que as coisas não podem ser criadas nem pode ser destruídas.
Elas só podem ser transformadas. Esse é o âmago da noção
de *emergência*. E “emergência” é a maneira (i.e. o processo)
pela qual o materialismo explica o nascimento da consciência: é
dito que ela emerge do cérebro. E ela morre com ele. Mas nós
também sabemos que muitos pensadores bons (como o filósofo David
Chalmers, o físico Roger Penrose, e o matemático e cientista
computacional Stan Franklin, autor do livro Artificial Minds, 1995, somente
para nomear alguns) pensam ou sentem que a consciência é provavelmente
uma propriedade básica (substância?) do Universo.
Stan Franklin diz: “Seguindo Chalmers (1996) começo a ver a consciência
fenomênica (phenomenal consciousness) como um processo fundamental da
natureza comparável à massa ou à energia. Tanto massa
como energia só podem ser medidas indiretamente por seus efeitos embora
inferências possam ser extraídas de sua estrutura e atividade
(o que também são efeitos). Suspeito que o mesmo se provará
verdadeiro com relação à consciência fenomênica”.
(IDA. A Conscious Artifact? Stan Franklin. Journal of Consciousness Studies,
vol. 10, número 4-5, 2003, página 64).
De modo semelhante, Chalmers quase provoca um calafrio na espinha do leitor
ao dizer: “Devo frisar que as conclusões deste trabalho são
conclusões, no sentido mais forte. De acordo com o meu temperamento,
sou fortemente inclinado em direção a uma explicação
materialista reducionista, e eu não tenho fortes inclinações
espirituais ou religiosas. Por alguns anos, eu ansiava achar uma teoria materialista;
quando abandonei esta esperança, foi bem relutantemente. No final pareceu
claro para mim que estas conclusões eram inevitáveis a qualquer
um que queira levar a consciência a sério. O materialismo é
uma visão bela e convincente do mundo, mas para explicar a consciência,
nós temos que ir além dos recursos que ele fornece”. (The Conscious
Mind, 1996, página xiv). E mais para frente em: “Quando alguém
toca C médio no piano, uma cadeia complexa de acontecimentos ocorre.
O som vibra... para o meu ouvido. A onda é processada... dentro do
ouvido... no córtex auditivo (do cérebro). (...) Tudo isto
não é tão difícil de entender em princípio.
Mas por que isto deveria ser acompanhado por uma experiência”? (The
Conscious Mind, página 5).
O neurocientista Benjamin Libet, assumindo uma posição dualista,
afirma: “Concordo com Sutherland que nós não devemos aceitar
o medo apavorante, da maioria dos filósofos e provavelmente da maioria
dos cientistas cognitivos, segundo o qual toda teoria deva exorcizar qualquer
'fantasma-agente' implícito. As teorias que evitam qualquer 'fantasma'
não têm explicado com êxito nem convincentemente a unidade
de experiência consciente e a experiência de controle consciente
dos atos voluntários. Postular um 'fantasma' subjetivo não precisa
ser incompatível com as leis da natureza, como Schroedinger salientou.
O campo mental consciente (CMF), que eu postulei para explicar a unidade
da experiência (
subjetiva) e para explicar (
descrever)
um papel ativo para a intenção consciente agir (
ou seja,
para descrever como a intenção consciente age - Nota do Tradutor),
poderia ser visto como um tipo de 'fantasma'. (Em “How Can we Explain the
Unity of Conscious Experience?”, disponível online em
http://www.imprint.co.uk/online/libet.htm).
Então, a pergunta central é: o que acontece a um sistema
físico quando a consciência *emerge* dele? Para abordar esta
pergunta, nós temos que pelo menos esboçar como a emergência
ocorre.
Como disse em outra parte, a emergência pode “acontecer” de uma das
3 maneiras seguintes :
1- A “entidade emergente” (sela ela uma propriedade ou uma substância)
não é redutível ao que a ocasionou. A “umidez” da água
ao nível do mar na temperatura ambiente não é reduzível
nem a H ou a O (e nem mesmo é redutível a H2O a 200 graus negativos).
Uma boa pergunta neste exemplo específico seria: é (a "umidez")
realmente não redutível? Ou talvez ela seja de fato redutível.
Mesmo neste exemplo, nós somos tentados a concluir que o que há
sob o conceito de “emergência” é nossa capacidade (ou falta de
capacidade) de prever um dado curso de acontecimentos...
2- Um dado resultado é “emergente” no sentido de não ser
“esperado” (nem predito, nem... previsível) por nós. Isso é
o que às vezes é dito de certos “comportamentos” que emergem
de alguns software, como o padrão espiralado de Victor Stenger (em
“God: the Failed Hypothesis”, 2007) que ele acredita que não esteja
dentro do seu algoritmo... Obviamente, neste exemplo e, em grande medida,
no exemplo do parágrafo anterior também, nós meio que
sentimos que o que realmente “emerge” não é algo no mundo objetivo
em si, mas antes algo dentro de nossa cognição subjetiva: o
que na verdade acontece é que nós apenas *passamos a perceber*
o pleno potencial de algo, um potencial que realmente estava lá durante
o tempo todo...
3- Uma entidade “torna-se” outra, como A tornando-se B, e assim B é
emergente. (Uma interessante “variação extrema” deste número
3 seria A continuar a ser A mas “dando à luz” B.. - Violação
da Lei da Conservação de Energia/Matéria? Talvez). Esta
situação número 3 é em grande medida, digamos,
“ilusória”. Os objetos macroscópicos podem mudar, e ainda assim
a estrutura atômica e subatômica subjacente permanecer a mesma,
e nesse caso então o A se transformando em B seria mera ilusão.
Contudo... alguns exemplos podem ser verdadeiramente transformacionais. Aqueles
que realmente podem verificar a validade destes exemplos são físicos
competentes. Os exemplos que eu posso pensar são: elétron e
pósitron tornando-se “energia pura” (fótons); e matéria
saindo do “vacuidade” do nada. E, do que podemos concluir do nosso atual conhecimento
a respeito do Universo..., a consciência emergindo do cérebro
se encaixa justamente no exemplo do parênteses anterior... Ela é
exatamente A (o cérebro e seu funcionamento) continuando a ser A (o
cérebro e seu funcionamento) e dando à luz B (experiência
subjetiva). Poderia ser que a consciência é uma infração
da lei de conservação de energia?
Para avaliarmos se a consciência poderia talvez violar a conservação
de energia, nós temos que olhar o que nós sabemos sobre a consciência,
e também o que nós simplesmente não podemos saber sobre
ela. Curiosamente, existem alguns mitos sobre esse assunto que quase sempre
passam despercebidos por completo. Expondo esse assunto de forma breve, nós
podemos dizer que: 1- A consciência varia em sua “intensidade”, isso
é, às vezes é muito atenuada, e às vezes é
muito vívida e “forte”. 2- A consciência vem em muitos diferentes
“sabores”, ou seja,
qualia (elementos da experiência subjetiva,
como a vermelhidão do vermelho, a doçura do açucar,
etc). 3 - A consciência está estreitamente associada (“co-ocorrente”)
com certos estados neuronais (NCC de Francis Crick - estados neurais correlacionados
à consciência). 4- *Eu* tenho consciência! É também
importante ter em mente que quando qualquer sentido específico é
bloqueado (como quando você fica cego), nós talvez melhor possamos
descrever esta situação não como ausência de percepção
e sim como “percepção da ausência”. Mais ainda, inconsciência
é algo que, por pura definição, não pode ser
experimentado. Portanto ninguém pode estar realmente seguro se inconsciência
existe ou não...
Agora voltemos à questão central: o que acontece a um sistema
físico (o cérebro humano, por exemplo) quando ele se torna
consciente? Vimos que a consciência é dita emergir dele. A matéria
inconsciente no cérebro torna-se matéria consciente. Então
ou temos a emergência de uma propriedade ou a emergência de uma
substância.
Ou isto é M tornando-se Mc (matéria inconsciente tornando-se
matéria com a *propriedade* de consciência) ou é M tornando-se
M + C (matéria inconsciente continuando a ser o que é, com
toda sua quantia total de matéria/energia inalterada, mais uma substância
consciente emergindo). Mas, ao que parece, quando a consciência brota,
M está de fato completamente inalterado (a quantia total de matéria/energia
está inalterada) mas ainda há um algo extra.
Da maneira que eu vejo essa questão - e sei que posso estar errado
nisso -, ou o materialismo leva-nos à conclusão que há
uma *substância material emergente* [portanto violando a lei de conservação
de energia, e grandemente minando sua (do materialismo) viabilidade enquanto
teoria], ou o materialismo nos leva à conclusão que há
uma *substância espiritual emergente* (portanto caracterizando o materialismo
como auto-refutativo em sua própria definição que tudo
o que existe é matéria).
Todo este raciocínio não torna coisas como espíritos
nem um pouco mais possíveis (ou menos improváveis, para aqueles
que vêem as coisas deste ângulo) do que já são.
E quanto a uma vida futura, as opções não são
necessariamente confortadoras. Pessoalmente, considero o pampsiquismo a melhor
alternativa disponível, e isso significaria que a consciência
continua pelo tempo afora, mas sem nenhuma esperança de felicidade
eterna. Muito pelo contrário, níveis variáveis de um
plenum consciencial talvez signifiquem, também, sofrimento e dor muito
além do que qualquer um jamais possa sonhar ... Rezemos, então,
para que os materialistas estejam certos!
Atenciosamente,
Julio
O texto imediatamente acima
foi traduzido pelo estóico amigo Vitor Moura, e posteriormente revisado
por mim. Meus mais sinceros e profundos agradecimentos a ele por essa ajuda
crucial.!!!
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Fri, 31 Aug 2007 07:26:00 -0700
"Julio Siqueira" <juliocbdsiqueira@YAHOO.COM>
O Materialismo, Assim Como a Hipótese do Design Inteligente, é
Incompatível com o Neodarwinismo...
AVOID-L@HAWAII.EDU
Todos nós sabemos e todos nós concordamos
que é imperativo que a religião seja mantida fora da sala
de aula, ou melhor, das aulas de ciência. Religião não
é ciência, apesar do que ambas de fato dividem vícios
e virtudes; afinal de contas, ambas são atividades humanas. A despeito
disso, a religião não é e provavelmente nunca será
ciência. Então, fora das aulas de ciência! E isso se
aplica tanto a religiões espiritualistas (como o credo do design
inteligente) quanto à religião materialista (ou seja,
ao materialismo enquanto religião). Todos nós sabemos que
a hipótese do design inteligente, muito provavelmente, é
incompatível com o Neo Darwinismo. O que muitos não sabem
é que, com total certeza, o materialismo *verdadeiramente* é
incompatível com o Neo Darwinismo...
Novamente. O que é o materialismo? Quase todo
materialismo que verdadeiramente existe é uma combinação
dessas inocentes afirmações: tudo
o que existe é a matéria e o vazio (vácuo); Deus e vida
pós morte não existem, e a consciência brota através
das atividades de alguns grupos de neurônios do cérebro e (a
consciência) irá morrer quando o cérebro morrer. E...
todos os seres humanos têm consciência.
Contudo, vimos o respeitável filósofo
David Chalmers asseverar: por quê deveria
qualquer (alguma) atividade cerebral vir acompanhada de experiência?
Chalmers não está sozinho. Longe disso...
A conclusão final é que, mesmo para a espécie sobre
a qual mais conhecemos na Terra, ou seja, o Homo sapiens, nós simplesmente
ainda não descobrimos, nos últimos 2.500 anos de poderosos
esforços intelectuais, qualquer função para essa coisa
chamada "consciência" (experiência subjetiva). Mais especificamente,
isso leva à conclusão garantida que... a consciência,
independente de qual seja seu exato status ontológico, muito provavelmente
não pode exercer absolutamente nenhum papel na evolução,
ou seja: ela é uma característica que não pode dar qualquer
vantagem adaptativa para qualquer indivíduo ou para qualquer espécie.
De acordo com o neo darwinismo, tais características podem de fato
existir. O que tais características não podem ser, normalmente,
é algo que todos os membros de uma espécie teriam. Características
neutras (ou seja, que não fornecem nenhuma vantagem ou desvantagem
adaptativa) estão sujeitas à deriva genética.
Conseqüentemente, deveria haver mais de 90% de
zumbis entre os seres humanos (completamente indetectáveis, mas ainda
assim zumbis). O materialismo (conforme definido acima) alega que não
existe nenhum zumbi... E isso simplesmente não pode ser assim.
Atenciosamente,
Julio
P.S.: então... fora da sala de aula!
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