
O PORQUÊ DESTE SITE
Os textos incluídos neste site têm uma postura de crítica ao espiritismo kardecista.
Sou da opinião de que toda ação humana, em especial a apresentação e a defesa de idéias, possui motivos responsáveis pelo seu aparecimento, possui históricos que podem explicar em parte o seu desenvolvimento. Expor abertamente tais motivos e históricos pode contribuir muito para o entendimento e avaliação do valor do trabalho apresentado.
Meu contato inicial com o espiritismo kardecista se deu quase ao início da minha vida adulta, e nele passei a ver um conjunto de idéias e "provas" experimentais fabulosamente coerente e bem construído. Contudo, após algum tempo, começou a parecer-me que havia alguns pontos mal resolvidos. Parecia-me, também, que "de dentro" do kardecismo pouco havia de autocrítica e de busca de um desenvolvimento do lado científico do trabalho inicial de Kardec. Algo como se Kardec tivesse sido um bom início, e que daí em diante nada ou quase nada se tivesse avançado, quando não retrocedido.
Foi preciso que se passassem quase duas décadas desse momento inicial para que eu tomasse contato com dois elementos viabilizadores desse projeto de elaborar um trabalho com uma postura crítica ao kardecismo: primeiro, a leitura de textos e artigos de autores kardecistas da atualidade que tentam (com um sucesso questionável) defender a cientificidade do kardecismo; segundo, o contato com materiais provenientes da "ciência tradicional" versando sobre questões que podem contribuir para o entendimento e a discussão de algumas das questões cruciais tratadas direta ou indiretamente dentro do kardecismo, e do espiritismo de uma forma mais ampla, questões essas como "existência e imortalidade da alma", "papel do corpo na sua relação com a mente", "determinismo e livre arbítrio", e "características do nosso universo relevantes para uma avaliação das proposições kardecistas-espíritas".
O elemento deflagrador dos meus estudos atuais, contudo, proveio de dois "eventos" diametralmente opostos (opostos entre si, e não em relação aos elementos descritos acima). Em primeiro lugar, o contato que travei com textos e artigos "defendendo" a cientificidade do kardecismo escritos por um pesquisador kardecista da atualidade, com formação acadêmica na área da física, Sílvio Seno Chibeni, em diversos artigos escritos na revista "O Reformador", órgão oficial de divulgação da Federação Espírita Brasileira. Em segundo lugar, a leitura de um livro escrito pelo falecido astrofísico norte-americano de renome, Carl Sagan, onde ele "ataca" as crenças em fenômenos paranormais, espíritas, e místicos de um modo geral, o livro "O Mundo Assombrado pelos Demônios: a Ciência Vista como uma Vela no Escuro" (Editora Companhia das Letras, 1997; título em inglês "The Demon-Haunted World").
De fato, essas duas fontes acima possuem muitos pontos em comum. São trabalhos bem elaborados, ricos em informações importantes, e respeitosos em relação aos oponentes em idéias. Possuem em comum para mim, também, um fato curioso: bem analisadas, acabam provando justamente o contrário do que se propõe a provar.
O livro de Carl Sagan, tentando atacar as crenças no misticismo-espiritualismo, é uma arena onde ele desenvolve em extensão suas idéias e críticas que em obras anteriores, versando sobre outros temas, ele já havia introduzido de forma bem "homeopática". Carl Sagan, além de mostrar-se em seus trabalhos como adepto do materialismo-ateísmo, mas normalmente declarando-se apenas como um "cético", é um escritor claro e lúcido, excepcional divulgador dos conhecimentos científicos, humanista, e respeitoso para com seus oponentes, apesar de eventualmente sarcástico e levemente ácido em suas críticas. Sem dúvida, ele seria um dos merecedores dos comentários de "Emmanuel" (entidade considerada nos meios kardecistas como de grande elevação espiritual que se "manifesta" psicograficamente através do médium Chico Xavier) sobre alguns ateus: "Vós outros, os que me ouvis, sem jamais haverdes freqüentado os núcleos do Espiritismo, não vos impressioneis com minhas assertivas. No Espaço, uma das modernas tradições é a de que, ultimamente, chegam às portas do céu somente os ateus e materialistas generosos que trazem o bem pelo bem, alheios às convenções e aos sentidos das recompensas. Com essa lembrança não desejo menosprezar os esforços da fé, mas quero lembrar a necessidade do trabalho sincero, perseverante, decidido e leal nas mais belas expressões de solidariedade real e de simplicidade na vida!" (citado no livro "Allan Kardec: Pesquisa Bibliográfica e Ensaios de Interpretação", volume III - página 254, de Zêus Wantuil e Francisco Thiesen, editado pela Federação Espírita Brasileira - frase de "Emmanuel" datando, provavelmente, de 1939).
Profundo conhecedor dos assuntos sobre os quais fala, Sagan mereceu do famoso escritor e cientista Isaac Asimov a seguinte dedicatória em um livro deste último sobre astronomia e cosmologia: "A Carl Sagan, que possui um conhecimento muito maior do que o meu sobre os assuntos deste livro!" Contraditoriamente, porém, nos momentos em que criticava o "misticismo-espiritualismo" (e a parapsicologia também, rotulada de "pseudo-ciência"), Sagan sempre se mostrava estranhamente superficial, salvo em algumas poucas críticas técnicas em relação à astrologia. Quando finalmente resolveu escrever um livro inteiro sobre suas críticas a esses assuntos, ao invés de realizar uma obra ao nível de seus trabalhos anteriores em áreas de sua especialidade, apenas repetiu a superficialidade de suas abordagens pregressas (400 páginas de superficialidades; apesar de haver conteúdos muito valiosos, inclusive o que eu considero como a segunda possível prova já vista por mim da não existência de vida após a morte...). Simplesmente nada do que eu esperava encontrar. Nada de avaliações profundas e sagazes de fenômenos como os descritos no espiritismo já há mais de cem anos, como a "clarividência", a "escrita direta", a "psicografia", as indicações (provas) de reencarnações, etc, para os quais a hipótese da "fraude consciente ou inconsciente", apesar de válida em muitos casos, simplesmente não parece conseguir explicar a totalidade das evidências.
Do lado oposto do front "materialismo versus espiritualismo", os artigos escritos pelo pesquisador kardecista Sílvio Chibeni apresentam uma clareza e riqueza de informações notáveis com relação à discussão do que é ciência, qual seu valor e limitações, e que correntes filosóficas e ideológicas fluem ocultas por sob sua cândida face de mera descobridora e expositora da realidade objetiva. Quase todos seus artigos com os quais pude ter contato se encontram acessíveis no site do "Grupo de Estudos Espíritas da Unicamp" - GEEU - (http://www.geocities.com/chibeni/), juntamente com artigos de outros autores, igualmente de boa qualidade quanto ao conteúdo e clareza de exposição. Basicamente, defendem que o kardecismo ("espiritismo", como é citado pelos artigos) possui uma sólida base científica, e que esse lado científico do "espiritismo" surgiu e se desenvolveu (muito decorrente dos trabalhos de Allan Kardec) obedecendo a uma verdadeira "excelência metodológica".
Conforme afirmado acima, os artigos de Sílvio Chibeni (bem como os artigos de outros autores do Site do GEEU) são ricos em informações importantes, especialmente quanto à filosofia da ciência. Com relação à defesa da cientificidade do "espiritismo" propriamente dita, porém, o efeito que causou em mim a leitura de seus artigos foi justamente o oposto do objetivado. Passei a achar que a base científica do kardecismo é bem mais frágil do que eu havia anteriormente julgado. Para explicar de forma objetiva o porque dessa minha opinião, teria que discorrer mais explicitamente sobre os vários conteúdos argumentativos presentes nos diversos artigos (tarefa que pretendo realizar em parte em seções deste site a serem escritas posteriormente). O fato é que a leitura desses artigos remetia a algumas obras kardecistas, basicamente algumas de Kardec e de Chico Xavier, cuja leitura só fez aumentar ainda mais minha "desconfiança" na "base científica" do kardecismo e do espiritismo de um modo mais geral.
Vi-me, então, em uma situação sui generis. Havia procurado a obra de um cético-materialista para conhecer seus argumentos contra a cientificidade do espiritismo, e emergi da leitura dessa obra com um "ceticismo quanto ao ceticismo". Procurei a obra de um pesquisador espírita para conhecer as bases da cientificidade kardecista, e saí do contato com essa obra com uma "impressão científica da fragilidade da cientificidade espírita".
Nesse momento então, identifiquei (talvez equivocadamente...) que minha posição era realmente um tanto quanto sui generis (na verdade, não tão sui generis, nem original, conforme tentarei demonstrar posteriormente), e que se quisesse acessar o tipo de conhecimento que pareço intuir que há no universo, eu teria que começar a buscá-lo por mim mesmo, rompendo com as interpretações ortodoxas espíritas-kardecistas, me inteirando o máximo possível a respeito do "conhecimento" já estabelecido nesse campo, e tentando identificar quais as possíveis falhas nos sistemas desenvolvidos até agora.
Dentro desse contexto, portanto, o alvo dos meus estudos nessa área que poderia ser definida como "misticismo", "espiritualismo-espiritismo", e "kardecismo" passou a ser principalmente a interpretação dos fenômenos mediúnicos, tendo eu escolhido o "kardecismo" principalmente devido à sua forte presença no Brasil, à sua construção teórica "elegante" e (aparentemente) "coerente", e a sua origem ligada a um homem bastante perceptivo quanto à realidade e engenhosamente racional: Allan Kardec.
Não sei até que ponto o estudo do kardecismo, seus erros e acertos, poderá me levar a adotar uma interpretação dos fenômenos mediúnicos diferente da professada no kardecismo (iniciada com "O Livro dos Espíritos", "codificado" por Kardec em 1857). Mas sinto como se nesse assunto (como em tantos outros da história do conhecimento humano do Universo) a Natureza não houvesse entregado ainda seus segredos tão facilmente quanto muitos têm imaginado nos últimos 140 anos...