Mensagens de Julio Siqueira no forum Ceticismo Aberto, em 21 de abril de 2004.
 
De: Julio Siqueira
Data: Qua Abr 21, 2004 12:36 am
Assunto: The Juju Report - ou... MataMoscas Vs Homeopatia.

Esse negócio de "ceiticismo" é um saco. A gente tem que ler uma tonelada de material para arcar com o tal do "ônus da prova". E para piorar, vez por outra a gente ainda acaba se dando conta de que estava "defendendo o lado errado"! Shit!!! Vou largar esse negócio...

Caros companheiros da lista,

Perdoem o desabafo acima. Gostaria de encaminhar uma pré-resposta na questão da homeopatia (The Juju Report).

Em primeiro lugar, as contribuições de Vitor, Homero, e Ricardo foram inestimáveis. Agradecimentos sinceros a todos os três.

Em segundo lugar, gostaria de agradecer também a contribuição igualmente inestimável de Luis Fernando Waib. As consultas finais que ele fez ao Medline foram especialmente primorosas e informativas (e com certeza bastante trabalhosas).

Vou ainda apresentar um texto mais completo, primeiro com respostas a alguns dos envolvidos nessas exóticas discussões. E depois com alguns dados interessantes que achei também, inclusive com relação à legislação, e história da homeopatia. Mas gostaria de colocar minha impressão no momento, tendo já lido todos os emails e materiais que me chegaram e que pude localizar por mim.

Primeiro: como atento leitor de matérias controversas, a minha sensação foi que a leitura de mais e mais material a respeito da homeopatia leva-nos a uma posição diametralmente oposta da que vêm da leitura de mais e mais materiais sobre pesquisas parapsicológicas em Ganzfeld: ou seja, quanto mais eu leio sobre homeopatia, mais eu acho o embasamento fraco e dúbio (ao contrário de Ganzfeld, onde: quanto mais se lê, mais se confia!).

Segundo: há coisas esquisitíssimas nesse negócio da "homeopatia estabelecida", que eu comentarei mais a fundo em breve, mas que basicamente se refere a essa questão de como um campo com uma comprovação tão controversa conseguiu atingir uma posição institucinal tão sólida (ou seja, ser reconhecido como especialidade médica).

Enfim, em breve maiores comentários,

Um abraço

Júlio_Benveniste

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De: Julio Siqueira
Data: Qua Abr 21, 2004 11:34 pm
Assunto: Homeopatia - Uma Conclusão...

INVESTIGAÇÕES INTERNÁUTICAS SOBRE A HOMEOPATIA: VIAGEM A UM DOS PONTOS MAIS INSÓLITOS DO UNIVERSO...

Caros colegas,

(Atenção: o site da STR também tem um material interessante sobre homeopatia, no debate sobre homeopatia, link:


http://www.str.com.br/Debate/debate0200.htm)
Vou tentar ser suscinto (cinco páginas do Word...) em expor o que eu consegui localizar a respeito da homeopatia, e que tipo de análise e conclusões realizei e tirei desse material.

Vou expor algumas infromações (e reflexões) históricas, algumas informações (e reflexões) a respeito dos medicamentos homeopáticos e suas respectivas regulamentações, e algumas informações (e reflexões) sobre os terapeutas homeopatas e seu reconhecimento como especialidade médica, e alguns outros pontos.

É algo informal, reflexivo, e exploratório, OK pessoal (aliás, de acordo com o esperado e até mesmo possível no âmbito de um fórum internético).

1- Primeiro, o aspecto histórico: pelo que pude verificar na internet, inclusive no link http://www.homeopatiaveterinaria.com.br/hishombr.htm, sobre a história da homeopatia no Brasil e em outro site sobre a história da homeopatia no mundo (mas que fala mais sobre os EUA), houve uma quase extinção da homeopatia nas primeiras décadas do século XX (devido às novas drogas médicas de grande efeito curativo, como os antibióticos). No Brasil, a sobrevivência mais expressiva foi no Rio e em São Paulo (capitais), donde a diferença de percepções entre mim e Luis Fernando. Ou seja, o que ele disse de fato bate com o que encontrei, o tal ressurgimento da homeopatia junto com os hippies, nova era, décadas de 60 e 70, etc, e que culminou com o reconhecimento em 1980 pelo CFM da homeopatia como especialidade médica.

2- Segundo, sobre os "medicamentos" homeopáticos: dei uma olhada nas legislações sobre os remédios, que inclusive isentam os medicamentos homeopáticos de registro. Existe, no Brasil, uma situação curiosa. Só peço aos colegas que, caso forem usar essas informações para alguma citação ou conversa importante, me solicitem posterior embasamento factual mais detalhado, pois estou no momento preferindo expor informalmente o que vi e lembro, e posso incorrer em imprecisões relativamente perigosas. OK? Legislações de meados da década de 70 (século XX) isentam os remédios homeopatas de registro. Isso é em parte justificado na lei devido justamente às baixíssimas (ou seja, nulas!) quantidades de princípios ativos (sob o ponto de vista da química clássica, ou da "única química", se preferirem). Ou seja: não precisa de registro porque não pode fazer mal, já que não tem nada! Mas, ao mesmo tempo, é chamado de "medicação"! A ANVISA usa tal legislação, e adendos posteriores, para normatizar tal situação. Há então atualmente a figura do medicamento homeopático SEM eficácia comprovada contra doença. Este não precisa de registro. Não pode ter mais de um componente em sua fórmula. E tem que ter diluição que ultrapasse os níveis mínimos de toxicidade para a substância respectiva (arsênico por exemplo...). Esses medicamentos NÃO PODEM ter no rótulo indicação da doença-alvo a que se destinam (coerente com o fato de não terem sua eficácia comprovada). Há uma outra figura: dos medicamentos homeopáticos COM eficácia comprovada. Esses TÊM que ter registro (alguém conhece algum? Não? Nem a ANVISA...). Ou seja, a legislação até que não me pareceu ruim, apesar de "esquisita prá cacete": Permite-se que seja chamado de "medicamento" algo que não tem eficácia comprovada, o que é ruim, mas impede-se que esse algo apresente indicação da doença-alvo (o que é por vezes desrespeitado pelas farmácias). Nos Estados Unidos a situação parece um pouco pior, no sentido que além dos "medicamentos" homeopáticos serem isentos da exigência de testes, eles TÊM que ter a indicação da doença-alvo em seus rótulos! Também não há, junto ao FDA, nenhum medicamento homeopático que seja classificado como de "eficácia comprovada".

3- Terceiro, sobre as pesquisas embasando a homeopatia: estudos repetidos, por grupos independentes, que comprovem a eficácia de algum medicamento homeopático, não consegui localizar nenhum. Um estudo interessante, de 1994 (já meio velhinho...), é uma replicação, mas possivelmente do mesmo grupo, e talvez Luis Fernando conheça (talvez até tenha comentado e eu não tenha percebido. Se for o caso, desculpe-me Luis Fernando):

Is Evidence for Homoeopathy Reproducible? Lancet, December 10, 1994, 344:1601-6. D. Reilly, M. Taylor, N. Beattie, et al., This study successfully reproduced evidence from two previous double-blinded trials all of which used the same model of homeopathic immunotherapy in inhalant allergy. In this third study, 9 of 11 patients on homeopathic treatment improved compared to only 5 of 13 patients on placebo. The researchers concluded that either homeopathic medicines work or controlled studies don't. Their work has again be recently replicated and is submitted for publication.

Um ponto importante nessa questão é o fato de, apesar da base "fraca e dúbia", de fato há artigos em revistas médicas respeitáveis relatando resultados positivos, ainda que não reproduzidos em outros grupos ou mesmo no próprio grupo de pesquisadores (Lancet, BMJ). Isso cria na prática um problema e um impecilho fortíssimos para aqueles que queiram se opor à homeopatia... (isso é apenas um comentário estratégico).
 
4- Quarto, outras questões sobre legislação: para os interessados, recomendo que dêem um pulinho no site do CFM (www.cfm.org.br) e consultem pareceres e resoluções do CFM buscando pela palavra chave "homeopatia". Uma questão interessante é a da vacinação, que muitos homeopatas eram contra (aparentemente em qualquer situação, para qualquer pessoa), e que aparentemente foi resolvida no sentido de obrigar os homeopatas a aceitarem a posição oficial governamental, a ponto da associação brasileira de medicina homeopática recomendar a vacinação (salvo em caso de contra-indicação individual). Aparentemente, e de acordo com o dito por Luis Fernando (é verdade que, após uma leve "espremida", ou, se preferirem, após vigorosas "sucções homeopáticas" de minha parte... Pode ter parecido cruel, mas pelo menos foi um avanço para mim que costumava "macerar" céticos, quando não submetê-los a diluições muito além do número de avogrado), há uma segurança mínima da população no "enquadramento" dos homeopatas com relação a doenças que exijam um protocolo de tratamento mais específico, como Luís Fernando citou para pneumonia (se não me engano), e com é o caso de câncer. Isso é importante, pois torna o exemplo do Sabbatini no site da SBCR um exemplo no máximo de erro médico, e não de erro da "homeopatia" conforme normatizada no país. Conforme tenho dito, há que se reavaliar os "alvos", o tipo de "artilharia", e o tipo de "munição" que se deve utilizar nessa "guerra" por uma medicina mais saudável para nosso povo!

5- Quinto, a questão da "teoria homeopata das doenças": Acho que esse é um dos encantos, quase míticos, que a homeopatia oferece a seus interessados. A teoria homeopática é bela, e possui alguns itens bem interessantes e de acordo (a princípio!) com as visões atuais a respeito do funcionamento do corpo humano, doenças, etc. Chega a ser estranho os homeopatas (ou alguns deles) terem se batido, ou se baterem, contra a vacinação... Então eu entendo os motivos "estéticos" da sedução pela homeopatia. Mas a partir daí é preciso comprovar-se que a homeopatia de fato funciona. E esse é, e tem sido, o problema. Um ponto especialmente problemático é o das altas diluições. O argumento talvez mais interessante contra a homeopatia se refere ao problema dos contaminantes, que também deveriam estar presente "dinamizados" (ou seja, com seus poderes aumentados pelas diluições infinitas). Ou seja, dentro de tudo o que eu entendo e conheço sobre o mundo e sobre o funcionamento do universo, o esperado seria que a homeopatia NÃO FUNCIONASSE. Se ela de fato funcionar, ainda que em situações excepcionais, isso provavelmente não se dará devido aos motivos que pensam os homeopatas. Mas se a homeopatia funcionar DEVIDO às dinamizações através das ultradiluições, então nós vivemos em um Universo muito, muito estranho...(não descarto essa possibilidade - na verdade, para mim já vivemos em um Universo estranho ao extremo. Mas ainda acho que ele não é tão estranho a ponto de tornar possível o mecanismo proposto pelos homeopatas).

6- Sexto, a questão da homeopatia como especialidade reconhecida pelo CFM, e como especialidade médica: nos Estados Unidos, três estados licenciam médicos homeopatas (Three states, Connecticut, Arizona, and Nevada, license medical doctors specifically for homeopathy. - http://nccam.nih.gov/health/homeopathy/). No Brasil, é especialidade médica reconhecida. Isso faz com que os homeopatas sejam antes de mais nada médicos como todos os outros (e aptos a medicar "alopaticamente"), e estejam regulados pelo CFM, o que, como Luis Fernando disse, é algo bom. Mas de fato é muito estranho que haja uma especialidade médica (no Brasil ou em qualquer outro lugar do mundo) sobre uma área que carece de comprovação científica de modo aparentemente total... Por quê aconteceu uma coisa dessas? Minha humilde posição é de que houve um "erro" do CFM, ou da "sociedade", ao reconhecer a homeopatia como especialidade médica em 1980. A impressão que eu tenho é que esse "erro" talvez tenha se dado devido ao fato de nessa época a questão da "experiência pessoal do médico" ainda ser algo de muito mais força política (junto aos próprios médicos e junto à sociedade) do que atualmente, quando (ou seja, agora) está ganhando força a nova visão da ciência do "consenso internacional e das reproduções independentes". Talvez ainda houvesse uma lembrança, em 1980, daqueles saudosos mestres homeopatas da "velha guarda". Talvez mesmo políticos influentes (e idosos então) tivessem se tratado com homeopatia na infância. E somou-se a isso a questão da "Nova Era" e companhia, com todos seus pontos positivos e negativos. Enfim, especulações histórico-antropológicas de minha parte.

O fato é que atualmente no Brasil os homeopatas são médicos, e ao exercerem a "homeopatia" estão se utilizando de remédios que, nenhum deles, possui eficácia científica e clínica comprovada e oficialmente reconhecida, o que equivale a dizer que os médicos homeopatas ativos exercem uma especialidade SEM efeitos científico-clínicos comprovados. Isso é uma situação bizarra ao extremo... (o ser humano cria cada coisa esquisita!).

Contudo, discordo que os médicos que exerçam a homeopatia incorram em curandeirismo, e considero que qualquer médico que alegar isso incorre em ofensa à ética, além de adotar uma postura contraproducente para a melhoria da saúde pública por exercer um embate estrategicamente mal orientado. O médico (e a medicina), a meu ver, ainda é em primeiro lugar um terapeuta (e a medicina uma terapia), e em segundo lugar um cientista (e a medicina é ciência em segundo lugar). O médico tem, a meu ver, a liberdade de se utilizar até de "extratos concentrados de flattus bovinus" para conseguir curar (de preferência com aroma artificial de hortelã...), se assim indicar sua experiência médica, ou usar dessa ou de outras substâncias de modo experimental, COM conhecimento de seu paciente. As legislações médicas do país parecem suficientes para regular essa matéria de modo salutar, e têm em algumas situações se mostrado eficazes. Cabe a nós, e aos colegas médicos dos homeopatas, usarmos das legislações existentes para melhorar a situação.

Concordo com os critérios que Luis Fernando usou para definir uma boa prática homeopática: uso de pouca homeopatia, associada à medicina tradicional "quando" e "se" necessário, e em doenças psicossomáticas (acho que foi essa a definição dele - o cara agora tá aceitando a cura pela fé... Desculpe a brincadeira, Luis Fernando. Sabe como é aquele velho ditado: preferivel perder-se até um amigo do que perder a oportunidade da piada...).
 
Um ponto que eu considero muitíssimo necessário é o da informação aos pacientes. O paciente tem o DIREITO de saber que está tomando um medicamento SEM eficácia comprovada. E isso não só perante as leis médicas, mas provavelmente até diante o código do consumidor. Esse é um ponto que os opositores (de boa vontade) da homeopatia talvez devessem considerar: atuar junto aos procon's e junto aos próprios homeopatas no sentido de alertar para os riscos que os próprios médicos correm com suas práticas atuais. Tem gente que ganha a vida processando outras pessoas nos tribunais de pequenas causas. Dá prá tirar até uns 4.000 na moleza!!! (o fato de não haver UM ÚNICO medicamento homeopático registrado junto à ANVISA, havendo a figura do "medicamento" que devido à eficácia comprovada exige registro junto à ANVISA, já é um baita respaldo legal para se defender esse ponto de vista jurídico perante um tribunal! Pensem nisso, homeopatas...) Agora imagine se esse pessoal descobre esse calcanhar de aquiles dos homeopatas? Em um ano, ao invés de seis mil homeopatas (números de Sabbatini em 2000 - STR), teremos mais seis mil mendigos nas ruas...(comendo bolinhas de açucar). Um outro ponto a meu ver fertilíssimo é a cobrança da sociedade (isto é, da comunidade científica nacional e internacional) de que a homeopatia PROVE que funciona. Por um lado, desconfio que a homeopatia não consiguirá arcar com esse ônus... Por outro lado, a existência de trabalhos publicados em revistas altamente respeitáveis (Lancet e BMJ) se constitui em "indício sugestivo", para o bem ou para o mal...(até na hora dos processos judiciais).

O debate na STR é interessante (do ano 2000). Vale a pena dar uma olhada. Inclusive, com algumas escorregadelas de Sabbatini (que é um dos debatedores). Pensei que ele era médico. Para desgraça dele, que estava se vangloriando da Unicamp não ter curso de homeopatia, estava para se realizar justamente na Unicamp um congresso homeopático. Ele se gabou ainda de ser o "único profissional de saúde do Brasil a combater a homeopatia". Palavras textuais dele: "sou apenas um dos únicos profissionais de saúde do Brasil, se não o único, que procura chamar a atenção da mídia para o amontoado de pseudociência e falsa ciência que caracteriza a assim chamada 'medicina alternativa' no País. Por que será que os outros 210 mil médicos que não são homeopatas nunca se manifestam, apesar de saberem muito bem os interesses que estão por trás da homeopatia?". E seu debatedor o desmentiu, dizendo: "Se existe uma área da medicina que é freqüentemente atacada pelos próprios colegas médicos, esta área é a homeopatia.(...) (...)Existem sim, numerosos críticos à homeopatia dentro das universidades e com grande peso e poder como os prof. ISAIAS RAW e Prof. Dr. Vicente Amato da USP e que por diversas vezes apresentaram-se na grande imprensa criticando a Homeopatia.". Fiquei com a impressão de que houve, da parte de Sabbatini, um misto de personalismo com "síndrome de pantaleão". Esse Sabbatini...

Enfim, minha conclusão é de que estive andando nos últimos dias por alguns dos caminhos mais bizarros de toda a minha vida. E que iniciei essa empreitada achando que ia descobrir mais um nicho de descalabros do pseudo-ceticismo e que o que acabei encontrando foi justamente o contrário do que imaginava.

Mas... Como o próprio Sabbatini disse no fim do debate, o confronto continua... E justamente quando eu estava procurando um termo para fazer uma brincadeira com o Luis Fernando (o termo "sucção"), qual não foi minha surpresa ao encontrar o link abaixo, com um trabalho in vitro (de mestrado o doutorado, não lembro agora) sugestivo de atuação de princípio ativo em concentrações abaixo do número de avogrado... Vale a pena conferir. EFEITO ANTIOXIDANTE IN VITRO DOS MEDICAMENTOS HOMEOPÁTICOS ARSENICUM ALBUM, CUPRUM METALLICUM, MANGANUM E ZINCUM METALLICUM. CELSO FERNANDES BATELLO . O link no cache do google é:

ESTE LINK.

Um abraço,

Júlio Benveniste

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