A Ciência, a Fé, e os Fatos

 

        O kardecismo é uma religião, ou talvez fosse melhor dizer "uma corrente de pensamento", sui generis. Com certeza é uma das poucas religiões que diz ser também uma "Ciência". Isso já era afirmado por Allan Kardec desde o início de suas publicações a respeito do tema, e tem sido reafirmado por seus continuadores desde então até a presente data.

        Na nossa sociedade ocidental atual, uma afirmação como essa tem diversas implicações. A Ciência passou a ser a principal (para alguns mesmo a única)  fonte de validação do conhecimento sobre o mundo objetivo (e talvez até sobre o mundo subjetivo...). A "Fé", em oposição, apesar de respeitada, é vista quase que somente como "crença", fonte de uma convicção baseada apenas em necessidades ou carências emocionais, resultado de um pensamento não racional, ou melhor, "irracional", "mágico", "fantástico". Em suma: Fé não é Conhecimento; Fé é crença! Aliás, crença cega e, bem possivelmente, errônea a respeito da verdade factual do mundo objetivo.

        Essa visão acima possui um desdobramento curioso. A Fé, que no passado era imposta a todos, como por exemplo a Fé Católica em diversos países da Idade Média, sendo portanto invasiva, passou a ser predominantemente (mas não exclusivamente) algo privado e de foro íntimo, não imposto aos outros. Quando alguém faz uma "afirmação de Fé", como por exemplo "Jesus Cristo é Deus, junto com o Deus Pai e o Espírito Santo", entende-se que isso é verdade para aquela pessoa, que ela crê nisso, e não que isso faça parte do mundo objetivo comum a nós todos. Contrariamente a isso, quando alguém faz uma afirmação "científica", entende-se que aquilo é um fato da realidade objetiva; e mesmo que possa ser um conhecimento incompleto da realidade, é, contudo, o conhecimento alcançado pela humanidade até aquele momento. A Ciência é, portanto, "Conhecimento", "Fato", pertence ao mundo objetivo comum a todos nós, é pública, e também invasiva no sentido que, independente de a aceitarmos ou não, o que ela diz é "certo".

        A Ciência portanto assumiu na nossa sociedade atual, paradoxalmente, um pouco (ou muito...) do papel exercido pela Religião no passado. Num certo sentido, a Ciência é a Religião do mundo moderno.

           Um dado curioso nessa dinâmica é que a própria Ciência erra com freqüência, e se reformula mesmo com relação a pontos e teorias razoavelmente bem sedimentadas. Isso sem dúvida é, em grande medida, uma virtude da Ciência, pois ela própria é a promotora de sua constante revisão. Porém, tal fato também deveria, ao mesmo tempo, relativizar a maneira como a Ciência é "vista e reverenciada" pela Sociedade enquanto fornecedora de informações factuais sobre o mundo objetivo, mas, estranhamente, isso parece não se dar de tal forma.  Seria o caso, penso, de nos perguntarmos se, ao invés de constituir-se na única fonte de conhecimento válido sobre o mundo real, a Ciência não seria na verdade apenas mais uma forma de olhar a realidade, o olhar da Ciência, que teria suas virtudes, seus métodos, seus pontos de excelência, e seus pontos vulneráveis. Talvez até mesmo, seus pontos cegos (ou seja, haveria coisas que a ciência talvez jamais seria capaz de abordar).

         Ao contrário do que me parece ser a visão predominante nas nossas Sociedades atuais,  penso que a Visão da Fé é, também, igualmente como a Visão da Ciência, uma fonte válida de conhecimento sobre o mundo objetivo. Algo como uma Fé-Intuição (ao invés da Fé-crença), capaz de guiar-nos de algum modo pelos caminhos e descaminhos desse estranho Universo que habitamos; uma outra fonte de acesso à realidade dos fatos, assim como a Ciência, na qual podemos beber da água do proibido conhecimento do bem e do mal.

        Quando o Kardecismo diz ser uma Ciência (ou melhor, quando os kardecistas dizem que o Kardecismo é também uma Ciência, além de ser uma Religião e uma Filosofia), isso leva, dentro de tudo que foi exposto acima, a uma série de situações bem especiais. Em primeiro lugar, sem dúvida há no Kardecismo elementos científicos (bem como também há tais elementos em algumas outras "religiões" ou atividades humanas similares): no Kardecismo existe a presença de fenômenos, como por exemplo a psicografia, que são passíveis de um olhar e um tratamento científico. Penso porém que alguns kardecistas, devido a essa faceta científica da sua Religião, vêem o Kardecismo como algo que é mais do que uma crença ou convicção pessoal e privada, mas sim um fato da realidade comum a nós todos, uma verdade científica, um Fato do Mundo Objetivo.

        Visto desse modo, o Kardecismo passa a constituir-se em um elemento "invasivo" e "público", conforme exposto anteriormente. A dupla conseqüência disso seria, primeiro, que o aspecto "invasivo" atuaria de um modo agressivo e desrespeitoso para com as crenças alheias (sem entrarmos em detalhes a respeito de como tais agressividades e desrespeitos se materializariam), e segundo, que o aspecto "público" colocaria o Kardecismo em uma arena igual à qual estão situadas as demais Ciências, ou seja, uma arena onde qualquer pessoa (minimamente bem informada) tem pleno direito de discutí-lo e questioná-lo em seus aspectos fenomênicos e factuais, e em suas interpretações a esses fenômenos e fatos.

        Minha abordagem na análise e discussão do Kardecismo é unicamente uma abordagem científica. Ou seja, partindo de um ponto de vista no qual a Ciência não é a  fonte exclusiva de conhecimento válido a respeito do mundo objetivo, mas apenas uma das fontes nas quais podemos absorver conhecimentos, pretendo identificar pontos "errados" cientificamente dentro das afirmações kardecistas, e tentar olhar e entender tais "erros", seus significados e revelações. Essa abordagem não pretende ter competência para discutir a Fé, que a meu ver é na verdade mais que a Fé-crença, e mais até mesmo que a ilusória Fé raciocinada, conforme descrita por Allan Kardec  (aliás, julgo mesmo a Fé incompatível com o modo de pensar racional, e muitas vezes me parece que a Fé raciocinada mais parece algum tipo de Fé envergonhada...).

        A Fé como a vejo atualmente, a Fé-Intuição, expressão de algum tipo de conhecimento possuído a respeito do Universo por nós, que somos produtos complexos de um processo evolutivo de bilhões de anos, com capacidades e percepções ainda precariamente conhecidas, seria uma Fé a ser contemplada com um respeito todo especial: o respeito e a humildade que devemos ter ao observarmos o desconhecido.

        Por isso acho que, mesmo que meus questionamentos afetem alguns ítens do conjunto de verdades factuais kardecistas, esses questionamentos não devem ser jamais vistos como verdades absolutas que tensionem ou que sejam capazes de esmagar as afirmações da Fé kardecista. Aquilo que alguma pessoa sente como sendo verdadeiro pode muito bem sê-lo em algum sentido muito real, mesmo que seja aparentemente contraditório com o conhecimento científico estabelecido (uma consulta a modernos e respeitados filósofos da ciência, como Alan Chalmers, Thomas Kuhn e Paul Feyerabend, fornece, creio, um embasamento bem forte às principais afirmações dos parágrafos anteriores).

        Ao pensar nessas duas fontes de acesso ao conhecimento dos Fatos (a Ciência e a Fé), freqüentemente me vejo remetido a um trecho de uma música popular brasileira de alguns poucos anos atrás que me parece expressar de modo fiel e tocante essa realidade em uma frase simples:

 

"A voz da fé é a sombra que te guia."

( Unicamente - Débora Blando. )                    .