Trechos Relativos a Mecanismos Evolutivos da Revisão Bibliográfica da Dissertação de Mestrado de Júlio César de Siqueira Barros, UERJ 2001, Microbiologia - Bacteriologia Clínica.
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Universidade do Estado do Rio de Janeiro Resistência a Aminoglicosídeos em Enterobactérias Isoladas de Fezes de Pacientes Hospitalares Júlio César de Siqueira Barros Dissertação apresentada à Faculdade de Ciências Médicas da Universidade do Estado do Rio de Janeiro para obtenção do grau de Mestre em Microbiologia (Bacteriologia Clínica) Rio de Janeiro - 2001 |
1.2 - Desenvolvimento e Aquisição de Resistência e Multirresistência a Antimicrobianos
O problema da resistência bacteriana aos agentes antimicrobianos se apresenta como um grave complicador da infecção hospitalar, além de também freqüentemente se estender às infecções comunitárias, endêmicas ou epidêmicas. O surgimento da resistência foi observado praticamente logo após à introdução do uso clínico dos antibióticos, algumas vezes em menos de dez anos após o início do uso terapêutico de determinadas drogas. Vários mecanismos têm sido identificados ou aventados como responsáveis por essa emergência da resistência, em especial a transmissão de determinantes genéticos de resistência dos próprios organismos produtores de antibióticos (como actinomicetos, por exemplo) para patógenos humanos e animais, bem como o próprio desenvolvimento "endógeno" da resistência por mutações genéticas (Sonea, 1983; Cairns, 1988).
Com relação à transmissão dos determinantes de resistência no sentido dos organismos produtores para os patógenos humanos-animais, tradicionalmente postula-se a passagem de actinomicetos como bactérias de solo do gênero Streptomyces e Micromonospora (Gram positivas) para bactérias comensais e patógenas Gram positivas. Haveria também a passagem de tais determinantes das bactérias Gram positivas para bactérias Gram negativas, com freqüência bem mais baixa devido às grandes dificuldades de transferência de material genético entre bactérias Gram positivas e Gram negativas (Timmis et al, 1986). Uma via potencial peculiar e insidiosa foi postulada com a descoberta de que preparos comercialmente disponíveis de antibióticos continham fragmentos de DNA, inclusive de determinantes de resistência aos próprios antibióticos em questão, oriundos dos organismos que haviam produzido tais antibióticos (Webb, 1993). Viabilizando e potencializando tais transferências entre bactérias diversas, várias entidades genéticas como transposons, plasmídeos conjugativos, integrons, e mesmo bacteriófagos, mostram-se como agentes de primeira ordem na dinâmica de disseminação de determinantes de resistência.
Se por um lado a hipótese da aquisição de determinantes de resistência evidencia as amplas capacidades dos organismos bacterianos de troca de material genético entre si, desfrutando de certa forma de um verdadeiro pool gênico virtualmente de proporções globais (Sonea, 1983; Doolittle, 1999), a hipótese do desenvolvimento "endógeno" de determinantes de resistência toca nas questões mais fundamentais com relação à evolução bacteriana, e com relação à evolução dos seres vivos de um modo mais geral. Em uma palavra: quais os mecanismos conhecidos e propostos para o aparecimento das variações que serão selecionadas pelo meio ambiente? Qual a origem dos mutantes? (Futuyma, 1992; Cairns, 1988; Margulis, 1998; Hameroff, 1998a).
Visões mais tradicionalmente veiculadas a respeito do DNA consideravam (ou apresentavam) os genomas como relativamente estáticos, mudando apenas na lenta escala de tempo da evolução (Levine, 1987). Até meados desse século, desenvolveu-se e consolidou-se uma determinada construção intelectual-científica sobre o substrato teórico darwinista que passou a ser conhecida como "síntese evolutiva", "síntese moderna", ou "neo-darwinismo", fruto, em grande parte, aos avanços e aproximações entre a genética, a sistemática, e a paleontologia (Futuyma, 1992).
Muito do que se conhece popularmente como "darwinismo", e até certo ponto também academicamente, se refere à essa construção científica, somada a um desenvolvimento anterior relacionado à noção da separação (em seres como os do filo Chordata) entre as células somáticas e as células germinativas (Steele), estabelecida principalmente por August Weismann no final do século passado. Essa separação, por vezes citada como "barreira de Weismann" constitui-se em elemento impeditivo à herança das características adquiridas (herança essa, também "popularmente", associada ao "lamarckismo"). Dentro da visão neo-darwinista, ainda hoje predominante no meio científico, as mutações ocorreriam ao acaso, no sentido em que a probabilidade de ocorrência de uma dada mutação não é afetada pela utilidade que essa mutação possa vir a ter. As mudanças em um gene ocorreriam por mutações pontuais ou por recombinações mais extensas, durante a replicação do DNA (ou seja, durante a multiplicação de uma célula). Populações de uma determinada espécie evoluiriam em uma taxa gradual e constante por mudanças na freqüência gênicas devido a mecanismos como a deriva genética aleatória, o fluxo gênico, e a seleção natural.
O caminho científico que conduziu à síntese neo-darwinista apresenta, como todos os frutos mais complexos do movimento humano, peculiaridades curiosas. Em especial, uma conseqüente rejeição de "Lamarck" e aceitação de "Darwin". Futuyma chama a atenção, contudo, para o fato que Lamarck foi talvez o primeiro a fornecer uma descrição mecanicista para a origem das espécies mais independente da visão criacionista dominante à sua época, visão mecanicista essa que já vinha sendo esboçada em fins do século XVIII por figuras como Maupertuis, Diderot, e Goethe, ainda que de forma mais ou menos mesclada ao criacionismo. Uma das questões determinantes para a rejeição a Lamarck no século passado teria sido, paradoxalmente, sua idéia da origem das espécies através da evolução, ou seja, da mudança das espécies pré-existentes. Na verdade, através do modelo do "uso e desuso" e da "herança das características adquiridas" ele teria fornecido o que talvez seja uma das primeiras descrições mecânico-naturais para o aparecimento das espécies. Um salto de qualidade apresentado pelo pensamento de Darwin teria sido a introdução da questão da seleção natural como componente crucial do processo evolutivo.
Um forte apelo da visão darwinista, ou melhor, da visão neo-darwinista, é precisamente a apresentação de uma descrição mecânico-causalística para o processo evolutivo. "Darwin, entretanto, mostrou que as causas materiais são uma explicação suficiente não apenas para os fenômenos físicos, como Descartes e Newton haviam feito, mas também para os fenômenos biológicos, com toda sua aparente evidência de desígnio e de propósito. Ao juntar a variação não finalista, e não dirigida, ao processo de seleção natural, cego e desvinculado, Darwin tornou supérfluas as explicações teológicas ou espirituais dos processos vitais. Juntamente com a teoria materialística da história e sociedade de Marx e a atribuição do comportamento humano a influências sobre as quais temos pouco controle, feita por Freud, a teoria da evolução de Darwin foi um elemento crucial na plataforma do mecanicismo e materialismo - em grande parte da ciência - a qual tem sido, desde então, o palco da maior parte do pensamento ocidental" (Futuyma, 1992). Um acréscimo interessante, do mesmo autor, é a afirmação que "sendo a seleção natural tão mecânica quanto a gravidade", o que ilustra a aparente solidez da nossa confiança nas descrições mecânicas da realidade (bem como na confiança em que a gravidade, por exemplo, possui uma fiel descrição mecânica e que nós entendemos a lógica subjacente a essa mecânica, como o nosso senso comum entende a lógica mecânica de um relógio, por exemplo). Esse apelo da identificação de uma lógica mecânica como um pré-requisito para explicações científicas, mesmo na área da biologia, é bem expresso na afirmação de Richard Gallagher, editor chefe de Biologia do periódico científico Nature, a respeito do resultado que a comunidade científica poderia esperar dos seqüenciamentos de genomas (somados a outras abordagens de estudos biológicos): "um genoma seqüenciado apresenta a promessa de novas abordagens radicais na medicina e se somará a outras abordagens nas ciências biológicas para fornecer nada menos que uma compreensão mecanística da vida em si." (Gallagher, 2001).
Em termos bacteriológicos, um desenvolvimento marcante aos moldes neo-darwinistas foi assinalado com os experimentos (e a interpretação de tais experimentos) realizados no início da década de 40 pelo físico alemão Max Delbrück (que se aproximou da Microbiologia, em especial do estudo de bacteriófagos), e pelo microbiologista Salvador Luria (Schrödinger, 1992; Cairns, 1988; Ben-Jacob, 1998a). De acordo com Ben-Jacob (1998a), tais experimentos visavam demonstrar a existência de mutações aleatórias, e o próprio Delbrück assinalara que somente células com mutações específicas pré-existentes poderiam sobreviver ao experimento, uma vez que células não adaptadas morreriam imediatamente sem nenhuma oportunidade de realizar mutação "em resposta" à pressão seletiva utilizada: bacteriófagos T1 que matam imediatamente células não previamente resistentes. Na verdade, mesmo células que tivessem logrado efetuar uma mutação em resposta adaptativa à pressão seletiva teriam morrido, devido ao fato dessa característica vantajosa específica só se manifestar fenotipicamente após várias gerações, necessárias para o desaparecimento das proteínas de membrana responsáveis pela aderência e penetração do phago na célula bacteriana (Cairns, 1988; Shapiro, 1984). Os experimentos de Luria e Delbrück teriam tido sua interpretação "distorcida" para resultar posteriormente em uma conclusão para o qual eles na verdade não se adequavam, a conclusão de que todas as mutações são aleatórias, e não direcionadas por possíveis benefícios que possam trazer ao organismo. Essa "distorção" interpretativa teria como possível motivador uma rejeição de explicações vitalistas (e similares) para o fenômeno da vida e da origem das espécies, e suas lógicas aparentemente não mecanicistas; mas traria também, como um subproduto insidioso, uma rejeição a explicações alternativas, mesmo que tais explicações possuíssem uma capacidade descritiva mecânica em potencial (e isso é pertinente mesmo com relação ao "lamarckismo" e a algumas variações desta teoria).
Ao mesmo tempo em que era construída e consolidada a visão neo-darwinista, outras visões a respeito da evolução e da origem das espécies co-existiam, mais ou menos heterodoxas com relação à síntese moderna. Um fator de motivação importante na sobrevivência de tais visões (não necessariamente o fator determinante, mas certamente um fator de grande importância) era a aparente dificuldade de se vislumbrar um mecanismo eficaz para, através de mutações aleatórias, graduais, escolhidas (ou melhor, poupadas) pela seleção natural chegar-se ao desenvolvimento de características complexas (como ocorre na epistasia e características poligênicas em geral) e à especiação. Um exemplo bem representativo dessa dificuldade se dá no fato de que quase todas as características de um organismo serem poligênicas, e também no fato de nunca se ter observado o aparecimento de uma nova espécie, na verdade com uma única exceção desconcertante para a ótica neo-darwinista...(por incluir a participação crucial da endosimbiose nesse processo específico de especiação, o que extrapola à visão neo-darwinista - Futuyma, 1992; Margulis, 1998).
Pelo menos quatro visões (ou esboços de visões) mais ou menos alternativas ao neo-darwinismo podiam ser encontradas com certo grau de vitalidade e embasamento experimental mesmo entre os anos 40 e 80 do nosso século, fornecendo alguma contribuição potencial de valor para o entendimento da evolução:
1.2.1 - "Neo-Lamarckismo" e Visões Relacionadas
Primeiro, pode-se dizer que houve uma sobrevivência (muitas vezes, provavelmente, um tanto quanto críptica) de visões e expectativas "neo-lamarckistas" com relação ao entendimento da evolução biológica.
Aquilo que freqüentemente é citado como "lamarckismo" se refere a uma interpretação mais ou menos estereotipada das obras de Lamarck (o mesmo, sem dúvida, ocorrendo com relação ao darwinismo, e às obras de muitos outros autores). Na maioria das vezes, os conceitos associados ao lamarckismo, e considerados como tendo sido suplantados pelo darwinismo/neo-darwinismo, se referem às noções do "uso e desuso" e à "herança das características adquiridas", conforme citamos mais acima (Steele, 2000). A frase seguinte, extraída da obra de um respeitado naturalista do século passado, ilustra bem esses conceitos: "Dos fatos aludidos no primeiro capítulo, penso não poder haver dúvida que o uso nos nossos animais domésticos fortaleceu e aumentou certas partes, e o desuso diminuiu-as; e que tais modificações são herdadas". Essa frase, tipicamente "lamarckista", foi na verdade extraída do início do sexto parágrafo do quinto capítulo do livro "A Origem das Espécies" de Charles Darwin (é importante assinalar que muitas das objeções que são feitas com relação à herança das características adquiridas não se aplicam a seres como as bactérias, que não se multiplicam de forma sexuada).
Adicionalmente, também, tem sido há muito reconhecida a participação, mesmo em organismos como os vertebrados, da herança citoplasmática, em um relaxamento das barreiras postuladas por Weismann (Futuyma, 1992). Visões "neo-lamarckistas" seriam, conseqüentemente, aquelas que advocassem a noção do "uso e desuso" como modo de origem da variabilidade, bem como que advocassem a possibilidade de tais variabilidade adquirida ser herdada, ou seja, transmitida para a progênie.
A questão do "uso e desuso" parece tocar também em duas outras questões que, na verdade, não deveriam ser necessariamente associadas a ela: a questão de um hipotético fluxo da informação genética no heterodoxo sentido das proteínas para o DNA, e a questão da participação de algum componente de intencionalidade (e inteligência) no processo evolutivo. Esses dois últimos pontos talvez se constituam como fatores de rejeição adicionais de explicações e abordagens com alguma "aura" lamarckista, por postularem, no primeiro caso, uma "mecânica reversa" no sentido fenótipo > genótipo (mecânica essa ainda não bem explicada, ao contrário do fluxo no sentido RNA > DNA), e no segundo caso um quase rompimento com qualquer mecânica conhecida, uma vez que, na verdade, não possuímos uma boa descrição mecânica para as interações entre a "intenção" ( consciência) e os fenômenos materiais. Uma sobrevivência, ainda que mais ou menos críptica, de fragmentos de noções lamarckistas poderia se dever a diversos elementos.
No âmbito específico da microbiologia, o fato dos experimentos de Luria e Delbrück apenas provarem a existência de mutações aleatórias (não excluindo a possibilidade de mutações não aleatórias) por si só já seria suficiente para a manutenção de dúvidas quanto à natureza e potencial das mutações. Deveria somar-se a isso o fato dos experimentos de Ryan, em meados da década de 50, evidenciarem a possibilidade de mutações durante a fase estacionária do crescimento bacteriano, bem como revelarem que tais mutações exibiam uma freqüência incompatível com as mutações aleatórias descritas por Luria e Delbrück (Ryan, apud Ben-Jacob, 1998a; Ryan, apud Cairns, 1988).
Mais recentemente, no início da década de 80, os trabalhos de Gorczynski e Steele pareciam fornecer evidências iniciais com relação à possibilidade de herança de características adquiridas em mamíferos, em superação à barreira somato-germinal de Weismann, tendo como modelo o sistema imune (Gorczynski, apud Futuyma, 1992). Tais trabalhos têm tido, inclusive, sua base experimental ampliada nos últimos anos (Steele, 2000), constituindo-se aparentemente em uma sólida e respeitada explicação (Blanden et al, 1998), em especial para determinadas peculiaridades do genoma de vertebrados relacionadas à questão dos pseudogenes, dentre outras. Como um último exemplo, a partir de 1988 tem se referido explicitamente ao peculiar fenômeno bacteriano (presente também em eucariotos) das mutações "direcionadas" ou "adaptativas" (Cairns, 1988; Hall, 1998), fenômeno esse que já em 1984 se encontrava implícito nos trabalhos de Shapiro (1984), que em 1982 já parecia ser antevisto por Walter Fitch (Fitch, apud Hall, 1998), e que havia sido abordado de modo introdutório já em 1954 (Ryan, apud Ben jacob, 1998a). O fenômeno das mutações "direcionadas-adaptativas" possui algumas semelhanças com o evento da hipermutação somática em linfócitos B (sendo, inclusive, uma das explicações para as mutações "direcionadas-adaptativas" um estado "hipermutável" das células bacterianas em questão). Nas hipermutações somáticas (Janeway-Jr & Travers, 1997), considera-se que os linfócitos entrem em um estado de alta mutabilidade genética como conseqüência da interação com o antígeno correspondente, o que deflagraria mutações pontuais em alguns locais específicos do genoma (mais especificamente as regiões codificantes das porções variáveis do receptor do antígeno, e dentro das porções variáveis, as regiões responsáveis pela ligação antígeno-receptor). Outras regiões do genoma dos linfócitos B não sofrem os efeitos da hipermutação somática. Dois aspectos notáveis das hipermutações somáticas seriam, portanto, a especificidade "temática" das mutações, e a origem de tais mutações nas interações com o ambiente (talvez não possa ser afirmado que esse seja um exemplo do fluxo de "informação" no sentido proteínas > DNA, mas sem dúvida é um exemplo onde algo minimamente similar ao conceito de informação flui em tal sentido).
Fenômenos e fatos como os descritos acima têm levado alguns autores mais recentemente a chamar a atenção para o fato de que o neo-darwinismo, apesar de apresentar vários pontos elucidativos enquanto teoria, não consegue resolver muitos dos problemas e eventos observados com relação aos processos vitais evolutivos (Shapiro , 1997b).
1.2.2 - O Caráter Altamente Dinâmico do DNA
Uma descrição altamente dinâmica dos genomas já se encontrava implícita nos trabalhos de Barbara McClintock (McClintock, apud Shapiro, 1999b). Nestes trabalhos, não só pode ser encontrada a constatação da existência dos elementos genéticos transponíveis (em muitos anos anterior à sua plena aceitação pela comunidade científica), como também era introduzida a visão de tais elementos como "elementos controladores". Esta visão talvez só agora (quase cinqüenta anos depois) esteja novamente sendo considerada (Hall, 1999; Shapiro, 1999b), e ela oferece uma instigante oposição à noção do "DNA egoísta", muito presente nos últimos 20 anos (Doolittle, 1999). O dinamismo genômico exposto nas pesquisas de McClintock entrevia recursos evolutivos mais amplos aos genomas do que as simples "mutações-erros".
Uma das questões que durante muito tempo intrigou os pesquisadores a respeito do material genético era como este conseguia se manter íntegro a despeito das inevitáveis lesões a que provavelmente estava sujeito. Mesmo antes de se conhecer a estrutura da molécula de DNA, pesquisadores com conhecimento privilegiado a respeito das prováveis lesões físico-químicas a que estava sujeita uma estrutura com as dimensões estimadas do material hereditário celular manifestavam sua perplexidade diante da fidelidade com que a informação genética parecia se manter nas espécies vivas (Schrödinger, apud Alberts et al, 1997).
Em pleno acordo com tais antevisões, sabe-se hoje que, somente como resultado de flutuações térmicas, o DNA sofre grandes mudanças-lesões, com cerca de 5.000 bases de purinas (adenina e guanina) sendo perdidas por dia em cada célula humana devido a disrupção térmica, bem como cerca de 100 bases de citosina perdidas por desaminação espontânea a uracil. Além dessas, várias outras mudanças espontâneas ou induzidas podem ocorrer no DNA (Alberts et al, 1997). Soma-se a isso, o estado altamente dinâmico e "acelerado" da molécula de DNA, bem como do RNA, e do metabolismo celular de um modo geral: moléculas de mRNA são sintetizadas a taxas de 30 nucleotídeos por segundo; as proteínas, em E. coli, são sintetizadas com acréscimos de 20 aminoácidos por segundo; a molécula de DNA, em mamíferos, é polimerizada a taxa de 50 nucleotídeos por segundo, e em bactérias essa taxa chega a 500 nucleotídeos por segundo; o DNA, durante sua replicação, precisa ter constantemente suas torções aliviadas, processo durante o qual sofre uma rotação da ordem de milhares de rotações por minuto, comparável à velocidade de uma centrífuga de alta rotação (Lehninger, 1976). As ações dos elementos genéticos transponíveis e demais replicons mais ou menos independentes (como plasmídeos conjugativos, por exemplo), intensifica em muito esse quadro dinâmico (Lin et al, 1984; Grinsted, 1986).
A descoberta dos muitos mecanismos de reparo de que dispõem as células trouxe uma explicação para o paradoxo que opunha, de um lado, as altas taxa de alteração ou lesão físico-química, e de outro, a fidelidade da hereditariedade. As alterações e as novidades genéticas (ou seja, as mutações), conseqüentemente, se deviam, pensava-se, exclusivamente ou predominantemente a erros e lesões não reparadas. O fruto de um tal processo seria, na maioria das vezes, deletério (Futuyma, 1992). O aparecimento eventual de mutações benéficas forneceria o ensejo para a seleção de tal característica. Essa visão da mutação-erro ainda permeia muito do material acadêmico relativo à biologia molecular e evolução (Futuyma, 1992; Alberts et al, 1997).
Alguns autores, contudo, chamam a atenção para o fato de que os mecanismo de reparo de que dispõem as células são tão sofisticados e eficazes que possivelmente o papel daquilo que poderia ser considerado como "erro" ou "dano" é mínimo no processo de geração de novidades genéticas (Shapiro, 1997b, 1999a). De fato, pelo menos 130 genes participam dos processos de reparo do material genético em humanos, e, igualmente, mesmo espécies procarióticas possuem mecanismos de reparo por vezes surpreendentemente eficazes contra agentes ambientais extremamente agressivos, como por exemplo a bactéria Deinococcus radiodurans (Wood et al, 2001).
A noção de que "mutações" são equivalentes a "erros" tem tido talvez uma conseqüência pouco perceptível e desestimuladora a determinadas linhas investigativas. Em nossas sociedades contemporâneas, o erro é visto de forma extremamente negativa, condicionando uma postura psicológica quase eugênica com relação a ele. A idéia de que as mutações são fruto de erros parece sugerir que não há nada de muito inteligente e criativo nesse processo (nem de muito atrativo). Podemos talvez considerar o processo como algo interessante, de grande importância mesmo, em especial na medida em que ele é responsável pelo surgimento de uma infinidade de alterações hereditárias predominantemente deletérias, mas provavelmente nunca olharíamos esse processo mutacional como algo onde buscássemos encontrar um elegante e sofisticado sistema digno de ser incluído no rol dos fenômenos biológicos esteticamente admiráveis.
Curiosamente, contudo, o "erro", num sentido geral, muito freqüentemente se revela como uma fonte de riqueza, lógica, coerência interna, e conseqüência potencialmente criativa, bem além de nossas expectativas comuns. Isso é verdade em muitas áreas da experiência humana, como por exemplo no âmbito da lingüística, onde os "erros gramaticais" da fala (tanto de crianças aprendendo uma primeira língua, como de falantes adultos que possuam pouca cultura escolar formal) revelam quase sempre uma percepção do falante com relação à lógica e às regras da língua e da relação entre esta e o mundo.
Similarmente, no âmbito das experiências sociais-históricas humanas, alguns autores ressaltam a importância e a riqueza de se estudar os eventos que "deram errado", como por exemplo as revoluções sociais fracassadas, sendo um exemplo rico a amplamente desconhecida revolução socialista alemã de 1918 (Gay, 1978; Reis Filho, 1984), eventos estes junto aos quais seria muito mais fácil obter-se informações menos estereotipadas com relação aos processos sociais, em oposição às revoluções vitoriosas, como as revoluções socialistas russa e cubana.
Igualmente, no processo de aprendizagem e construção do conhecimento escolar básico, alguns autores destacam a importância da distinção entre três tipos de ponto de vista com relação ao erro: o "erro-desvio", que seria o erro visto como necessariamente nocivo e carente de correção; o "erro-desafio", que seria o erro tido como um obstáculo estimulador e construtivo, talvez mesmo indispensável ou inevitável, mas ainda assim, como o tipo anterior, carente de retificação-superação; um terceiro tipo de perspectiva seria ver o erro (ou certos tipos de erro) como "erro-informação", como a manifestação da presença da própria transformação, um erro que não necessita ser corrigido, mas sim ser incorporado (Dupret, 1999).
Muitos "erros biológicos", muitas mutações estando aí incluídas, parecem freqüentemente se enquadrar nessa terceira categorização do erro, isto é, parecem melhor descritos tomando-se a terceira perspectiva de abordagem do erro, o "erro-informação". Contudo, é bem possível que nossas disposições emocionais altamente repressoras com relação ao erro acabem nos condicionando a ver e nos portar com relação a tais fenômenos mais como se eles devessem receber o tratamento relegados ao erro do tipo "erro-desvio". Isso talvez tenha tido alguma participação no fato de por quatro décadas não ter sido corretamente avaliada a questão das mutações adaptativas-direcionadas (cairns, 1988; Hall, 1998).
As evidências de que as células e seus genomas são o palco de eventos complexos, ordenados, e altamente criativos em suas interações com o ambiente são reforçadas pelas descobertas efetuadas nas últimas décadas. Desta maneira, por exemplo, apesar do genoma de mamíferos possuir grande quantidade de introns "não codificantes" eles se dispõem de modo tão conservado no DNA que constituem-se indicadores confiáveis de homologia entre espécies e ordens (Logsdon & Doolittle, 1997). Vários elementos genéticos potencialmente transponíveis podem ser encontrados nos genomas dos mais diversos seres vivos, como por exemplo: introns mesmo em bactérias (Martinez-Abarca & Toro, 2000; Strauss-Soukup & Strobel, 2000;), freqüentemente associados a (isto é, codificantes de) ribozimas ou RNA do tipo self splicing (Alberts et al, 1997); retrotransposons em organismos como moscas, leveduras, e mamíferos; transposons (muitas vezes retrotransposons) constituindo freqüentemente um percentual da ordem de pelo menos mais de 10 % do DNA de eucariotos, mesmo em primatas, que são "aparentemente infestados" por retrotransposons do tipo L1 e ALU (constituindo talvez mais de 15 % do genoma desta ordem animal, o que, obviamente, se refere também ao ser humano - Alberts et al, 1997; Lander, 2001). Várias "entidades genéticas" ("individuais" ou "coletivas") como operons e regulons procarióticos, grupos "sinergicamente expressados" (synexpression groups - Niehrs & Pollet, 1999) em eucariotos (similares a regulons ou operons bacterianos), e mesmo operons em eucariotos (Evans et al, 1997; Blumenthal, 1998), somados (mais especificamente em eucariotos) a extensas seqüências "não codificantes" por vezes entituladas de "DNA lixo" (que apesar de tal rotulação depreciativa, perfazem algo em torno de 98% do genoma humano, levando atualmente a fortes suspeitas de uma participação muito mais significativa na estrutura e dinâmica do genoma eucariótico - Vogel, 2001) compõem uma arquitetura em intricado mosaico dinâmico espécie-específico integrado ativamente em verdadeiras "redes de informações" intra (e inter) celulares, tanto em eucariotos multi-unicelulares como em procariotos "unicelulares" (Shapiro, 1999a, 1999b).
Tem sido possível encontrar na literatura mesmo reavaliações e questionamentos mais ou menos profundos com relação à propriedade do uso mais generalizado do termo "DNA egoísta" com relação aos elementos transponíveis (Doolittle, 1999; Hall, 1999; Shapiro, 1999b). "A teoria do DNA egoísta, atualmente com 20 anos de existência, postulava que plasmídeos e elementos transponíveis deveriam ser vistos como parasitas genéticos, cujos eventuais efeitos benéficos na evolução a longo prazo dos hospedeiros procarióticos era mera coincidência" (Doolittle, 1999). Mesmo Doolittle ressalta significativos eventos onde tais elementos se integram de modo não parasitário, mas simbiótico, o que demanda conseqüentemente uma "reelaboração teórica". Hall (1999) e Shapiro (1999b) fornecem considerações mais avançadas, remetendo a uma noção mais próxima à idéia dos "elementos reguladores" (McClintock, apud Shapiro, 1999b). Em possível acordo com tal visão, é curioso o fato de que mais da metade das mutações expontâneas de Drosophila se devem a inserção de transposons (Alberts et al, 1997). Igualmente, o fato de aproximadamente 40 % do DNA humano ser composto de seqüências repetitivas provavelmente do tipo "DNA egoísta" parece demandar reavaliações quanto a propriedade do uso deste termo, até por levarem a interpretações paradoxais, exemplificadas na significativa afirmação de um pesquisador: "É quase como se não estivéssemos no controle do nosso próprio genoma" (Green, apud Lander, 2001).
1.2.3 - Simbiose, Endosimbiose, e Transferência Genômica Horizontal
A simbiose é um fenômeno amplamente disseminado entre os seres vivos, e apresenta diversas características notáveis em termos de contribuições potenciais aos processos evolutivos. Ela se apresenta como o "elemento das interações cooperativas" nas relações interespecíficas, em oposição ao panorama "dominante" (pelo menos ideologicamente) da "competição e sobrevivência do mais forte" (Margulis, 1998).
Em especial a endosimbiose acrescenta ao já bastante complexo quadro da "maquinaria" evolutiva celular um componente verdadeiramente "anastomótico" (ou mesmo "afunilativo") no cenário da evolução. A teoria da endosimbiose apresenta a idéia da origem de algumas organelas intracelulares, em especial mitocôndrias e plastídeos (cloroplastos), como descendentes de antigos organismos bacterianos endosimbióticos. Apesar dessa teoria ter tido seu desenvolvimento mais claro em direção a uma posição de ortodoxia científica nos anos 60 e 70 (especificamente quanto a suas afirmações com relação a mitocôndrias e plastídeos - Margulis, apud Doolittle, 1998), ela já se encontrava presente em algum grau inicial de elaboração mesmo em fins do século passado, nos relatos de pesquisadores como Wallin, Merezhkovsky, e Famintsyn (Margulis, 1998). As visões decorrentes dessa teoria ressaltam a participação das transferências horizontais (de genomas e mesmo de organismos inteiros) na evolução dos seres vivos. Margulis (1998) ressalta que a endosimbiose possui um certo elemento "lamarckista" ao viabilizar a herança de "conjuntos genômicos adquiridos" (inheritance of acquired genome sets).
Inúmeras novidades orgânicas surgem através dos processos da simbiose e da endosimbiose. Vários organismos, incluindo alguns vermes, abrigam em seus tecidos (extracelularmente) microorganismos fotossintetizadores (como, por exemplo, a espécie Convoluta roscoffensis, que abriga grandes populações de algas do gênero Platymonas), tornando-se verdadeiros animais fotossintetizadores, a ponto de terem suas bocas atrofiadas. Algumas células eucarióticas possuem cianobactérias verdadeiras no interior de seus citoplasmas, como é o caso da espécie Cyanophora paradoxa (Alberts et al, 1997). A associação entre algumas espécies bacterianas do gênero Rhizobium (fixadoras de nitrogênio e indutoras da formação de nódulos nas raízes de determinados vegetais) e certas espécies de plantas atinge um grau de especialização tal que estabelece-se uma organização espacial da distribuição das cepas-espécies bacterianas no próprio solo próximo à raiz do vegetal, de modo a garantir que as espécies no solo "aparentadas" aos simbiontes no interior dos nódulos radiculares sejam beneficiadas com os produtos exsudativos da nodulação. Em um dado um tanto "desconcertante" para a teoria neo-darwinista, os únicos casos conhecidos de especiação envolvem a participação de endosimbiontes: um evento de especiação observado em Drosophila paulistorum, associado a uma bactéria endosimbionte do gênero Wolbachia (Futuyma, 1992; Margulis, 1998; Hadfield & Axton, 1999), o mesmo se dando em eventos de especiação observados em amebas, também relacionados a simbiose (Margulis, 1998).
Propostas mais extremas da teoria endosimbiótica postulam a origem de centrossomos e cinetoplastos também como produto de associações (endocitose, provavelmente) de eucariotos com bactérias (proposta esta enfraquecida com a visão predominante atual da não existência de DNA nos centrossomos - Marshall, 2000), e até mesmo a própria origem dos eucariotos como fruto de associação simbiótica entre um membro originário do domínio Archaea (possivelmente um termoacidófilo) e outro membro originário do domínio Bacteria ( possivelmente uma bactéria similar a Spirochaeta ou Hollandina - Margulis 2000).
A participação de eventos de simbiose-endosimbiose e transferência genética horizontal como contribuição para o aparecimento de novidades evolutivas tem tido um estímulo experimental-teórico mais recente com descobertas como a presença de mais de 200 genes em seres humanos de possível origem bacteriana (e ausentes de seres muito mais próximos a nós, como fungos, moscas, ou vermes), sugerindo uma transferência horizontal relativamente mais recente (Lander, 2001); igualmente, a semelhança entre genes relacionados à apoptose em eucariotos em geral e certos genes presentes em eubactérias, mas ausentes em arqueobactérias, talvez sugira uma transferência horizontal mais antiga entre eubactérias e eucariotos primitivos (Aravind et al, 2001).
Talvez o ponto mais extremo das "teorias evolutivas simbióticas" seja a Hipótese Gaia, uma idéia que apresenta nuances variando da noção que o meio ambiente e a vida terrestre co-evoluem de forma acoplada, até à hipótese de que a superfície do planeta inteiro se constituiria em um sistema vivo (mas não um organismo vivo), onde o elemento vivo promoveria uma homeostase de diversos aspectos globais, como temperaturas superficiais, composição dos gases reativos atmosféricos, e os equilíbrios do pH de diversos ambientes (Lovelock, apud Margulis, 1998).
A despeito de em que exata medida fenômenos como a simbiose-endosimbiose e as transferências laterais participam da dinâmica evolucionária do planeta, a importância de tais fenômenos é atualmente sem dúvida solidamente estabelecida. Um dado curioso é o fato de o corpo humano possuir algo próximo a 1013 células, enquanto possui provavelmente em torno de 1014 simbiontes bacterianos (Baron, 1996), o que sob uma ótica popular nos assemelharia mais a uma "federação" do que a um organismo. Ou seja, em termos metafóricos, se nosso organismo fosse uma "democracia", seríamos "voto vencido", tanto com relação aos simbiontes bacterianos como em relação aos "elementos genéticos egoístas".
1.2.4 - Multicelularidade Bacteriana
A questão da "multicelularidade bacteriana" aparenta inicialmente estar mais limitada ao âmbito estritamente microbiológico e ao entendimento das relações e interdependências entre diferentes espécies bacterianas. Talvez não seja um exagero dizer, contudo, que seu crescente estudo em anos recentes e o aprofundamento das descobertas a ela relacionadas têm extendido seus potenciais teórico-descritivos para uma área bem mais ampla do cenário da hipóteses evolutivas.
A própria definição de "espécie bacteriana" sempre apresentou aspectos mal resolvidos. Além de não se poder contar com o critério do isolamento reprodutivo (interbreeding barriers, freqüentemente incorporado nos parâmetros definidores de espécie em outros organismos), muitas vezes não é possível se contar mesmo com um isolamento genético, devido aos vários mecanismos de troca de material genético, como conjugação, transposição, transdução, e transformação (Lin, 1984). Igualmente, com relação a uma tentativa de caracterização genômica de espécies bacterianas, em uma mesma "espécie" o tamanho do genoma, por exemplo, pode variar consideravelmente, pelo menos entre 4.8 Mpb e 5.3 Mpb em E. coli (na verdade, como tais valores se referem às médias dos tamanhos dos genomas de E. coli da coleção ECOR, respectivamente grupos A e D, provavelmente a disparidade ultrapassa os 500 Kpb se forem tomados os valores mínimos e máximos de cada grupo - Bergthorsson, 1995). E entre "espécies" diferentes, as semelhanças genéticas podem ser tão extremas a ponto de, em alguns exemplos, os organismos serem considerados como pertencentes à mesma espécie quanto à similaridade genômica, como ocorre com E. coli e Shigella (Baron, 1996; Rolland , 1998; Pupo, 2000).
Além das dificuldades quanto a uma mais clara demarcação entre as várias espécies que compõem os grupos bacterianos, diversos aspectos de suas interações intra-interespecíficas e de seus modos de crescimento têm levado muitos autores a ressaltarem uma faceta verdadeiramente multicelular de sua natureza. Andrews (1998), afirma que as bactérias apresentam as características de seres "modulares" em suas associações multicelulares, como plantas, corais, etc, onde não há um plano corporal fixo com número limitado de partes (a exemplo de vertebrados e insetos, por exemplo), mas sim unidades (módulos) que se repetem, bem como relações acentuadas de parentesco ou mesmo clonalidade, apresentando também o caráter "imortal" de seus indivíduos, ao se multiplicarem indefinidamente. Ele argumenta, conseqüentemente, a favor da possibilidade de, em organismos procariotos, serem encontradas as origens dos genes ligados à morfogênese modular de organismos mais complexos, como plantas por exemplo. Dworkin (em Shapiro, 1997a) enfoca a longa história da oposição entre a visão unicelular e multicelular com relação às bactérias, datando de pelo menos fins do século passado, opondo bacteriologistas ligados a trabalhos e pesquisas clínicas, como Pasteur e Koch (que teriam contribuído para a visão "unicelular"), e microbiologistas envolvidos com pesquisa em solos, como Sergei Winogradsky (que possuía uma perspectiva mais "multicelular" com relação às bactérias).
Atualmente, a quantidade de fenômenos conhecidos que embasam uma perspectiva multicelular do mundo procariótico é grande e variada. Mesmo microorganismos "arquetípicos", como E. coli, apresentam aspectos multicelulares de desenvolvimento marcantes, havendo, por exemplo, uma complexidade pelo menos razoável mesmo dentro de uma colônia isolada crescendo na superfície de um meio de cultura sólido (como agar Mueller Hinton, por exemplo). Essa complexidade-variação afetaria a expressão gênica, evidenciando-se tanto de modo concêntrico quanto de modo vertical, incluindo camadas de bactérias "mortas" com significado-função desconhecida, mas talvez ligada ao desenvolvimento de estratégias de defesa contra inimigos como bacteriófagos (Shapiro, 1997a) , possivelmente utilizando-se de recursos de morte celular programada, hipótese reforçada pela presença, em bactérias, de precursores genético-proteicos dos sistema apoptóticos de organismos mais "complexos" (como de mamíferos, por exemplo - Aravind, 2001).
Igualmente, os mecanismos envolvidos tanto nos processos de quorum sensing (permitindo às bactérias "avaliarem" a presença de uma massa crítica antes de lançarem mão de recursos fenotípicos dispendiosos, tanto com valor simbiótico, como bioluminescência em V. fischeri, como com valor patogênico, como diversos fatores extracelulares excretados por P. aeruginosa - Shapiro, 1997a; Kievit & Iglewski, 2000) como também nos sistemas de sinalização intercelulares mais gerais, como quimioatrativos e quimiorrepelentes (atraindo bactérias relacionadas para locais vantajosos, e alertando-as para se afastarem de locais inóspitos - Ben Jacob, 1998b), têm revelado grande riqueza e versatilidade nos processos comunicativos bacterianos. São descritas desde, por exemplo, modificações em morfologias de crescimento coloniais em resposta possivelmente defensiva (de modo coletivo) à presença de antibiótico em meio de cultura, até, em alguns casos, alterações herdáveis em padrões coloniais complexos morfológico-comportamentais (morphotype transitions - Ben Jacob, 1998b, 2000). Recentemente, a possibilidade de que tais características bacterianas (somadas às transferências genéticas horizontais) justifiquem uma certa definição desse grupo como um "superorganismo" (Sonea, 1983) tem tido aparentemente uma maior aceitabilidade (Doolittle, 1999).
Talvez o ponto mais avançado dos fenômenos de organização coletiva bacteriana seja as estruturas conhecidas como biofilmes (biofilms). Na verdade, tais estruturas diferem em muito entre si, tanto em número de espécies envolvidas, como em complexidade morfológico-estrutural, e em espessura. Curiosamente, algo em torno de 99,9 % das espécies bacterianas da maior parte dos biofilmes em praticamente qualquer ecossistema não podem ser cultivadas (Wimpenny, 2000). Este fato, bem como vários outros relacionados às características organizacionais presentes em certos biofilmes, apresenta um quadro desconcertante para uma visão estritamente unicelular dos fenômenos bacterianos. Observa-se, por exemplo, a formação em alguns biofilmes de estruturas como canais, viabilizando uma certa liberação dos subprodutos indesejáveis do metabolismo e uma circulação mais ampla de nutrientes, talvez mesmo contribuindo para primórdios de uma homeostase dentro do grupo.
Um dado notável é o fato das estruturas mais antigas indicativas da vida na Terra serem freqüentemente prováveis fósseis de biofilmes bacterianos (com mais de 3,5 bilhões de anos). Com relação a metazoários eucarióticos, por outro lado, as estruturas mais antigas seriam fósseis de esponjas (em torno de 700 milhões de anos - Gould, 1990). Estudos têm revelado uma insuspeitada relação simbiótica entre esponjas e vários grupos bacterianos, algumas esponjas possuindo biomassa total composta de mais de 66 % de bactérias. Algumas hipóteses com relação ao início do aparecimento das estruturas metazoárias eucarióticas, conseqüentemente, têm aventado a possibilidade de células eucarióticas planctônicas primitivas (relacionados a choanoflagelados) terem inicialmente se estabelecido junto a ou dentro de biofilmes bacterianos. Se tal fato corresponder de forma mais ampla ao ocorrido no longínquo passado evolutivo, então possivelmente a "multicelularidade" bacteriana pode ter servido como uma forma de substrato (morfológico-informacional) para o aparecimento da multicelularidade eucariótica, participando de modo crucial na deflagração de um novo e revolucionário caminho evolutivo no planeta.
1.3 - Nosso Olhar para os "Fatos" Científicos
Os quatro desenvolvimentos, isto é, as quatro visões evolutivas relativamente "heterodoxas" expostas acima ("neo-lamarckismo"; "o caráter altamente dinâmico do DNA"; " a simbiose, endosimbiose, e transferência genômica horizontal"; e a "multicelularidade bacteriana") na verdade fazem mais do que contribuir para o entendimento da origem e evolução dos organismos. Elas possuem algo a dizer também sobre como nós construímos o conhecimento e a ciência.
Sendo a ciência, de certa forma, uma busca de informações a respeito dos fatos do mundo, ou seja, de conhecer o que existe, o que acontece, e de tentar obter indicações do que não existe e do que não acontece, ela é muitas vezes descrita (ou vista) como um método privilegiado de obtenção de conhecimento a respeito do mundo, e um método onde tal conhecimento é acrescido de forma contínua e unidirecional (ou seja, em contínua ascensão - Kuhn, 1998). Todos os quatro desenvolvimentos citados anteriormente possuem uma trajetória que está longe de se enquadrar em uma descrição de avanço linear e plácido. De modo condizente com a história dos desenvolvimentos por nós citados, uma consulta ao trabalho de pesquisadores que se dedicaram ao estudo da história da ciência parece indicar uma descrição bem mais oscilante e "humana" (com seus defeitos e também com suas virtudes!) dos movimentos científicos.
Até o século passado, havia uma pronunciada valorização da "visão indutivista" da ciência, onde ela seria construída através da combinação e da alternância da "indução" e da "dedução", com um papel iniciador (e também, conseqüentemente, um papel de certa forma preponderante, pelo menos em hierarquia temporal) da etapa indutiva (Francis Bacon, apud Chalmers, 1999). Hoje, muitos acham que tal visão se enquadrava mais em uma tentativa de prescrever como a ciência deveria ser feita do que em uma real descrição de como a ciência era verdadeiramente feita. Durante esse século várias tentativas de entender como os seres humanos fazem ciência levaram muitos pesquisadores a proporem idéias enriquecedoras, desde Popper, com a noção do falsificacionismo (que, em linhas gerais, definiria uma teoria como verdadeiramente científica se ela puder ser falsificada, ou seja, desafiada experimentalmente quanto à sua validade; um ponto que muitos consideram contraproducente em tal visão filosófica da ciência é que ela acaba não considerando exatamente como "ciências maduras" campos do conhecimento onde experimentos aos moldes dos executados na física, na química, ou na biologia não puderem ser efetuados, como por exemplo a história, a sociologia, a psicologia, e a psicanálise), passando por Kuhn (1998), com a idéia das alternâncias entre os períodos de ciência normal e os de revoluções científicas (entre os quais haveria as mudanças dos paradigmas utilizados), e indo até a extremos como a posição do filósofo Feyerabend, que defenderia a inexistência de um método científico como modo privilegiado de aquisição do conhecimento sobre o mundo, ou mesmo a inexistência de um método científico único, posição filosófica esta por vezes rotulada como uma anarquista visão "vale-tudo" (anything goes) do movimento científico. "De acordo com a visão mais extremada dos escritos de Feyerabend, a ciência não tem características especiais que a tornem intrinsecamente superior a outros ramos do conhecimento tais como mitos antigos ou vodu. A ciência deve parte da sua alta estima ao fato de ser vista como a religião moderna" (Chalmers, 1999).
Muitos pesquisadores não tão diretamente ligados à filosofia da ciência relatam experiências pessoais que condizem com certos aspectos de pelo menos algumas das visões acima. Maturana (1995) ressalta a presença de muitas afirmações científicas que teriam conteúdo muito mais metafórico do que factual-descritivo, mas que são assumidas quase que como pura "descrição objetiva" dos fatos (como a afirmação de que um gene codifica uma proteína e é auto-replicável). Margulis (1998) afirma, por exemplo, que "quando a cultura e ciência entram em um embate, a cultura sempre vence", descrevendo adicionalmente situações de quase total isolamento acadêmico entre departamentos proximamente relacionados (como a os departamentos de paleontologia e os de genética em várias universidades norte americanas nos anos 70, fato ressaltado também por Futuyma), e, paradoxalmente, exemplos de aproximação entre departamentos relacionados ou não em outras universidades no mesmo país, ilustrando o forte componente social da criação do conhecimento científico.
A forte influência de visões estéticas nutridas pelos cientistas ao conduzirem suas pesquisas (tanto potencializando o avanço do conhecimento, como, por vezes, impedindo tal avanço) é por muitas vezes citada, como em Penrose (1993), ao comentar que "A adequação do sistema de números reais não é questionada com freqüência"..."Essa confiança, talvez indevida, deve repousar (embora esse fato não seja reconhecido com freqüência) na elegância lógica, coerência e poder matemático do sistema de números reais, juntamente com a crença na profunda harmonia matemática da Natureza." Similarmente, Novello (1997) afirma, ao comentar sobre os esforços de unificação da física, que "Esta unidade de descrição tem encantado os cientistas, que, por razões pouco conhecidas, possuem uma paixão desmesurada pela unidade, resquício de uma simplicidade que se perdeu."
Chalmers (filósofo da ciência) chama a atenção para uma inscrição na fachada do prédio de pesquisas em ciências sociais (!) da Universidade de Chicago, Estados Unidos, onde se lê "Se você não pode mensurar, seu conhecimento é escasso e insatisfatório" (Chalmers, 1999).
Em uma afirmação aparentemente bem lúcida e descritiva do caminho da ciência, Dewey (Dewey, apud Futuyma, 1992) afirma que "Nós não resolvemos os problemas, passamos por cima deles."
Alguns autores ressaltam não só a influência de fatores emocionais, sociais, e culturais nas construções científicas. Mesmo o idioma por nós falado poderia ter uma participação importante e quase sempre imperceptível em nossas visões de mundo e movimentos de construção do conhecimento. Etnolingüistas como Edward Sapir e Benjamin Lee Whorf, dentre outros, se dedicaram ao estudo comparativo de diversas culturas, como os povos ocidentais e os povos indígenas norte americanos, estudando as relações entre a língua e a maneira de ver e entender o mundo, em especial as influências da estrutura gramatical e do vocabulário sobre tais percepções (Kuhn, 1998). As diferenças, mesmo entre as línguas diretamente ligadas à cultura ocidental européia, são marcantes, fornecendo possível base para percepções diferenciadas (mais ou menos extensas) quanto às diversas facetas da realidade.
O alemão, por exemplo, possui como uma das peculiaridades de seu vocabulário a existência muito grande de palavras compostas de "radicais vivos", como por exemplo a palavra mitarbeiten, cuja tradução em português seria "colaborar": arbeiten significa "trabalhar", e mit significa "com", o que é o exatamente o mesmo do significado original latino do equivalente português "co-laborar", onde laborar também significa trabalhar, e co, igualmente, significa junto (Irmen, 1980). Na língua portuguesa, e em muitas outras da Europa ocidental (como o inglês, o francês, o espanhol, e o holandês, por exemplo), tais significados originais se encontram mais ou menos crípticos, e exemplos como esse são muito abundantes na língua alemã. Igualmente, a palavra lápis, em português, é uma palavra constituída de um único bloco, ou seja, não possui nenhuma subdivisão ou segmentação perceptível. O equivalente alemão, bleistift, por sua vez é composto de blei, que significa "chumbo" (alusivo à cor de determinados preparos industriais do grafite, ou à própria composição química do composto), e stift, que significa "ponta"(Irmen, 1980). Em uma interpretação comparativa superficial, poderia-se dizer que o alemão tende a enfatizar o lado da realidade e dos objetos como compostos de subunidades menores descritíveis, enquanto que o português enfatizaria o caráter inteiro e integral dos objetos, ambos lados sendo, contudo, descrições fidedignas e elucidativas a respeito da realidade.
A oposição entre línguas com estruturas sintáticas mais analíticas e outras com estruturas mais sintéticas também mostra-se reveladora. Em português, se dizemos por um lado, "Pedro ama Helena", e depois, "Helena ama Pedro", estamos fazendo afirmações com significados totalmente diferentes (quanto a sujeito e objeto). Em latim, contudo, uma língua mais sintética nesse aspecto que o português, não faz diferença dizer-se Petrus amat Helenam, ou Helenam amat Petrus, as duas frases significando que "Pedro ama Helena" (Valente, 1953). Em línguas mais sintéticas (como o latim), portanto, a importância da ordem das palavras é menor do que em línguas mais analíticas (como o português, inglês, etc), podendo imaginarmos que línguas sintéticas ressaltariam o aspecto não linear de muitas relações no mundo (como no DNA, por exemplo), enquanto que línguas analíticas ressaltariam a faceta da linearidade em muitas relações (igualmente, como no DNA), novamente ambos aspectos fidedignos e elucidativos quanto a uma descrição do mundo real.
Einstein expõe um exemplo interessante de como a língua pode se relacionar com a estrutura da realidade, ao comentar: " ‘A alteração de um campo elétrico é acompanhada de um campo magnético’. Se intercambiarmos as palavras ‘magnético’ e ‘elétrico’, essa sentença se tornará: ‘A alteração de um campo magnético é acompanhada de um campo elétrico’. Somente uma experiência poderá determinar se essa declaração é ou não verdadeira. Mas a idéia de formular esse problema é sugerida pelo uso da linguagem do campo" (Einstein, 1980).
Capra (1984) descreve as peculiares características altamente sintéticas e pictóricas da escrita chinesa em ideogramas, relacionando isto ao modo de pensar chinês menos "racional" e mais "intuitivo" que o pensamento ocidental, mas, paradoxalmente, altamente pragmático.
Penrose (1993) acrescenta interessantes subsídios ao discorrer sobre as características de uma outra língua que, à semelhança dos ideogramas chineses, possui uma natureza altamente imagética: a linguagem matemática. Ressalta uma intrigante indefinição filosófica sobre se tal língua se constituiria em um "mapa" ou se seria o próprio "território" (ou seja, se a matemática seria apenas um recurso poderoso ao entendimento da realidade, ou se ela, alternativamente seria na verdade um aspecto fundamental ou mesmo a própria base do mundo real). Em uma rica e elucidativa exposição, ele mostra exemplos do desenvolvimento matemático que embasam ambas as proposições, ilustrando que a matemática por vezes se assemelha a uma mera metáfora, e por outras vezes parece refletir de modo mais integral uma identidade com o real. Talvez as próprias línguas que falamos não sejam, em um certo aspecto, mais do que teorias a respeito do mundo.
Uma contribuição interessante à questão dos componentes que interferem na nossa percepção da realidade e na nossa capacidade de construir uma ciência mais ou menos objetiva é feita por Lewontin (2001) ao comentar uma obra de Lily Kay, historiadora de biologia molecular. Lewontin expõe a contribuição (descrita por Kay) de diversas metáforas ao desenvolvimento da ciência em geral, e da biologia molecular mais especificamente. Haveria um problema, contudo, ao confundirmos as metáforas com a realidade, quando por exemplo assumimos de forma absoluta afirmações metafóricas mais ou menos precisas como "o DNA é informação escrita em uma língua cujas palavras estão em um código que é transcrito em RNA e traduzido em proteínas". Em alguns casos, as metáforas seriam claramente erradas e indutoras de erro quanto à descrição e compreensão da Natureza, como ao descrever-se o DNA como "auto-replicativo", ou "fazendo proteínas", e "determinando os organismos". A visão do DNA como "o livro da vida" teria resultado em alguns danos conceituais, ao elevar-se o DNA ao status de molécula mestre da célula. Segundo Lewontin "a noção do papel primordial do DNA como uma ‘fonte da informação’ [blueprint] e do papel meramente mecânico e secundário da maquinaria celular que usa essa fonte de informação é mais uma faceta do profundo preconceito cultural (característico do moderno capitalismo) que dita que o trabalho mental é superior ao trabalho meramente físico, um preconceito que é reproduzido por toda a estrutura da vida no laboratório" (Lewontin, 2001).
De fato, as dificuldades na construção de um conhecimento científico sobre o mundo parecem possuir duas faces quase indistingüíveis: de um lado, nossos condicionamentos humanos; e de outro lado, a natureza por vezes desconcertante do mundo real em contraste com nosso senso comum.
Sagan (1997), por exemplo, comenta: "Considere-se a seguinte afirmação: enquanto caminho, o tempo (medido pelo meu relógio de pulso ou pelo meu processo de envelhecimento) atrasa para mim [mas não para alguém que esteja parado]; eu também encolho na direção do movimento; e também me torno mais pesado."..."em todo o Universo, a matéria e a antimatéria estão sendo criadas a partir do nada o tempo todo."..."uma vez na vida, outra na morte, o carro passará espontaneamente através da parede de tijolos da garagem [sem quebrá-los] e será encontrado na rua na manhã seguinte"..."a primeira afirmação é uma declaração da relatividade especial e as outras duas são conseqüências da mecânica quântica. "..."Goste-se ou não, o mundo é assim."
De fato, nosso senso comum já "resolveu" (ou, segundo Dewey, "passou por cima") de longa data questões que a filosofia e a ciência sequer conseguiram começar a abordar de modo promissor, como a questão de se os eventos no mundo são deterministas, aleatórios ou sujeitos à influência de um livre arbítrio; ou a intrigante (mas cientificamente respeitável) questão dos múltiplos mundos (Everett, apud Penrose, 1997; Everett, apud Gell-Mann, 1996) na teoria mecânica quântica, segundo a qual todas as possibilidades aparentemente não realizadas coexistiriam em mundos paralelos; ou as dificuldades com relação à definição de para onde a seta do tempo realmente aponta (Penrose, 1993; Hawking, 1989; Gell-Mann, 1996; Novello, 1997; Schrödinger, 1992).
Um ponto curioso é justamente a questão do livre arbítrio. E também, quase que completamente sobreposta, a questão da intencionalidade. Nossas descrições e teorias físicas são quase que completamente deterministas. Os poucos pontos alternativos apresentam fenômenos que possuiriam comportamentos aleatórios (Penrose, 1993). Não parece haver um lugar para a interferência de nossas mentes nos processos do mundo, ou seja, um lugar para as escolhas não aleatório-deterministas (como no comportamento de uma girafa, que resolve esticar seu pescoço para alcançar o alimento, ao invés de desenvolver uma tromba com o mesmo propósito).
Nossas teorias físicas não possuem uma boa descrição mecânica para a relação entre a mente e a matéria, para a relação de nossas consciências com o mundo (ou com nossos corpos), e para o processo da escolha arbitrada livremente (Penrose, 1993). Não obstante, temos a nítida impressão de que somos, até certo ponto, "senhores" de nossos atos e opções. Provavelmente, então, uma de duas alternativas deve ocorrer: ou nossas impressões são ilusórias, e na verdade não existe livre arbítrio (da mesma maneira que não existe tempo absoluto segundo revelado pela teoria da relatividade, a despeito disso chocar nosso senso comum), ou então nossas teorias são, ainda, incompletas (segundo pensam alguns físicos como Einstein e Penrose).
As duas alternativas são, à luz dos desenvolvimentos históricos do conhecimento humano, razoáveis e possíveis. Se, porém, houver uma real participação do livre arbítrio consciente nos processos do mundo, então é possível indagarmos se haveria algum papel para a intencionalidade (da teleologia) na evolução dos seres vivos.
Isso está de certa forma implícito em algumas descrições mais popularizadas a respeito do lamarckismo. A girafa que se esforça para esticar seu pescoço para atingir as folhas mais altas das árvores não estaria apenas forçando seu fenótipo a modificar seu genótipo para uma condição mais adaptativa; não estaria apenas, também, rompendo grosseiramente a barreira de Weismann e transmitindo tais mudanças para suas células germinativas, garantindo a herança dos caracteres adquiridos. Ela estaria, de algum modo, percebendo, inteligente e conscientemente, que mudanças são necessárias à sua adaptabilidade, e se esforçando deliberadamente (teleologicamente) para efetuar tais mudanças. Ela estaria mudando porque quer.
Haveria algum papel para visões teleológicas no cenário evolutivo? Dois trabalhos interessantes desenvolvem uma discussão seguindo essas linhas. Hameroff e Penrose desenvolveram uma hipótese que tenta combinar alguns conhecimentos da mecânica quântica com informações da neurologia em uma teoria que objetiva explicar como a consciência surge no cérebro humano (Hameroff & Penrose, 1996; Hameroff, 1998b). Elucidativo a respeito de como esse tipo de pesquisa é visto pela comunidade científica, o neurologista português radicado nos Estados Unidos Antônio Damásio (2000) comenta que "Estudar a consciência não era absolutamente uma coisa aconselhável antes de conseguir a efetivação na universidade, e, mesmo depois de consegui-la, dedicar-se a essa área era visto com desconfiança. Apenas em anos recentes a consciência tornou-se um tema de investigação científica um pouco mais seguro." O próprio Damásio apresenta, em recente obra de divulgação, contribuições especulativas a respeito do processo de geração da consciência no cérebro humano, bem como interessantes subsídios a uma discussão a respeito das possíveis vantagens evolutivas-adaptativas conferidas a um organismo no qual a consciência se manifesta, abordadas também, de modo menos direto, em obra sua anterior (Damásio, 1998).
Um ponto particularmente curioso na teoria de Penrose-Hameroff é que ela prevê a possibilidade de primórdios da consciência serem encontrados em metazoários de pequenas proporções, como em pequenos vermes, e mesmo na grande maioria dos organismos que já estavam presentes por ocasião da explosão cambriana, há 600 milhões de anos, quando segundo a visão paleontológica corrente ocorreu o súbito aparecimento de praticamente todos os filos atuais de metazoários mais complexos (até então só existiriam metazoários bem mais simples, como esponjas, corais, e medusas, por exemplo - Gould, 1990). Hameroff indaga, conseqüentemente, sobre a possibilidade de primórdios rudimentares do que entendemos por consciência ter tomado parte, em alguma medida, no explosivo fenômeno de especiação ocorrido no período cambriano.
Uma tese similar é desenvolvida por Ben Jacob (1998a), teorizando a respeito do que ele intitula de "redes genômicas criativas". Indaga sobre a possibilidade das redes cooperativas entre microorganismos bacterianos (superorganismos - Sonea, 1983; Doolittle, 1999) estabelecerem propriedades e capacidades emergentes superiores à soma de suas partes, atingindo algum tipo de "auto-consciência" (self-awareness, expressão também usada por Shapiro e que não deve necessariamente ser entendida de modo literal, ou seja, como se o organismo possuísse uma consciência semelhante ou relacionada à consciência humana, podendo talvez ser apenas um termo operacional), bem como capacidades de efetuar "melhorias genômicas" em seus membros individuais (ou seja, bactérias isoladas) como fruto de um supraconhecimento coletivo.
Essas hipóteses parecem de certo modo estranhas e contrárias ao senso comum. Mas, quer gostemos ou não, a ortodoxia científica dominante atualmente afirma que nós vivemos exatamente em um universo estranho e contrário ao senso comum (o que não quer dizer que qualquer coisa estranha seja aceitável, mas alerta-nos a não rejeitar alguma hipótese apenas baseados no fato dela parecer contrária ao senso comum).
Poderiam as bactérias ter, real ou operacionalmente, algum tipo de consciência (self-awareness - Ben Jacob, 1998a; Shapiro, 1997b)? E poderia tal propriedade ter alguma participação nos processos genético-fisiológicos uni-multicelulares observados nesses organismos, como o desenvolvimento e transmissão de determinantes de resistência a antimicrobianos?
No atual estágio do conhecimento científico a respeito de tais questões, não parece haver como abordá-las ou mesmo indagá-las de modo verdadeiramente ou reconhecidamente científico. Igualmente, mesmo que algo assim se revelasse verificável (e verificado), estaríamos muito longe de poder incorporar tais questões nos esforços de solucionamento das graves questões ligadas à patogenicidade microbiana. Mas o fato de trabalhos publicados em revistas científicas respeitáveis tocar de modo inicial em questões intimamente relacionadas a essas talvez seja uma indicação de que estejamos próximos a avanços possivelmente bem produtivos com relação a facetas até então de difícil investigação dos organismos vivos, e suas interações entre si e com o ambiente; avanços esses que, a médio ou longo prazo, seguramente trariam benefícios ao nosso entendimento e à nossa capacidade de interferência nas características indesejáveis dos organismos bacterianos.
É importante ressaltar que desenvolvimentos como esses não seriam, na verdade, nada diferentes do que temos vistos nos últimos dez anos, por exemplo, com relação aos avanços nos conhecimentos a respeito dos genomas.
O filósofo da ciência Alan Chalmers (1999) cita um interessante provérbio a respeito das investigações intelectuais-científicas, que parece, de um certo modo, refletir um pouco da perspectiva que se deslumbramos ao abordarmos com alguma profundidade aspectos não plenamente resolvidos das construções científicas humanas, um panorama ao mesmo tempo incômodo e produtivo: "Nós começamos confusos; e terminamos confusos em um nível mais elevado".
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