Mensagem de Julio Siqueira ao fórum SBCR em 19 de março de 2005.
To: sbcr@yahoogrupos.com.br
From: Julio Siqueira <juliocbsiqueira@terra.com.br>
Subject: [sbcr] Repensando o Design Inteligente Religioso Ativista
Mensagem de 19 de março de 2005
Este email, destinado ao fórum cético sbcr yahoo groups br, está sendo enviado com cópia para Julio Cesar Pieczarka, e Enézio E. de A. Filho, que estiveram envolvidos diretamente na recente discussão sobre design inteligente no Jornal da Ciência:
Olá todos,
Esta mensagem discorre sobre a questão do confronto de opiniões entre Júlio biólogo do Pará e Enézio membro do movimento pró design inteligente, conforme apresentadas no Jornal da Ciência online da SBPC, nos links abaixo:
http://www.jornaldaciencia.org.br/Detalhe.jsp?id=25540
http://www.jornaldaciencia.org.br/Detalhe.jsp?id=25892
http://www.jornaldaciencia.org.br/Detalhe.jsp?id=26339
Bem, vou apresentar um texto bem menor do que o que eu não remeti, indo nos pontos essenciais e de um modo mais responsavelmente informado sobre essa complicada briga religiosa.
PRIMEIRO, CITAÇÕES INTERESSANTES E INFORMATIVAS:
O Júlio Pieczarka forneceu uma indicação de leitura interessante, de Pennock 2003, mas não forneceu nenhum link onde ela possa ser acessada. Indico então o link abaixo onde os interessados poderão ler esse importante, ainda que longe de perfeito, artigo de alerta a respeito das estratégias dos criacionistas de se infiltrarem no ensino de ciências das escolas públicas estados-unidenses:"Creationism and Intelligent Design". Robert T. Pennock. Annual Review of Genomics and Human Genetics. Vol. 4: 143-163, Sept. 2003
http://www.msu.edu/~pennock5/research/papers/Pennock*Creationism%2BID.pdf
Enézio, em seu texto no Jornal da Ciência, citou um trecho atribuído ao respeitado biólogo molecular James Shapiro. É um texto forte e que questiona a solidez das explicações mais tradicionais e simples do neo-darwinismo clássico. A citação é a abaixo: SHAPIRO: "Não há explicações darwinistas detalhadas para a evolução de qualquer sistema bioquímico ou celular fundamentais, somente uma variação de especulações de que isso fosse realidade. É notável que o darwinismo é aceito como uma explicação satisfatória de tal vasto assunto -- evolução -- com tão pouco exame rigoroso de quão corretamente funcionam suas teses em iluminar instâncias específicas de adaptação ou diversidade biológicas" [in ‘Genome System Architecture and Natural Genetic Engineering in Evolution’, Annals of the New York Academy of Sciences 870 (18 May 1999): 23-35.
Conforme eu disse em email a Enézio ontem, esse comentário não consta do artigo acima citado, que eu, por um acaso, possuo. Ele então corrigiu a citação, indicando que havia sido dita por Shapiro no National Review. De fato, no link abaixo, é dito isso mesmo por Phillip Johnson:
http://members.aol.com/Mszlazak/Intelligent.html
No caso, Johnson conta que tal comentário de Shapiro foi em resenha ao livro de Behe, Darwin's Black Box, resenha essa onde Shapiro também fez críticas ao pensamento de Behe. O texto em inglês, citado por Johnson, é: "There are no detailed Darwinian accounts for the evolution of any fundamental biochemical or cellular system, only a variety of wishful speculations. It is remarkable that Darwinism is accepted as a satisfactory explanation for such a vast subject-- evolution-with so little rigorous examination of how well its basic theses work in illuminating specific instances of biological adaptation or diversity.".
Johnson é citado por Pennock (2003) como o primeiro e principal mentor do movimento organizado pró design inteligente. Johnson cita, nesse link acima, as críticas de Shapiro, basicamente uma certa condenação a se vincular a idéia do design inteligente a algum tipo de super ser. Shapiro assinala que isso é retornar às lutas do passado, e não olhar para a frente, já que temos agora condições de ver essa questão com olhos mais amplos, e entendermos que os próprios organismos ou sistemas podem ser os "designers", de modo "inteligente", da mesma maneira que obtemos isso em nossos modernos computadores. Johnson critica Shapiro por isso, e considera que Shapiro apenas se rende à ideologia materialista dominante. Penso que não é bem assim. Talvez o caminho sugerido pela lógica de Shapiro não resolva todos os problemas básicos da bioquímica da vida, mas possivelmente pode atender a uma boa parte deles.
COM RELAÇÃO AO CERNE DA ARGUMENTAÇÃO DE ENÉZIO, E A ALGUNS PONTOS DA ARGUMENTAÇÃO DE JÚLIO:
Primeiro comentando alguns pontos de Júlio. Ele disse:
http://www.jornaldaciencia.org.br/Detalhe.jsp?id=25540
"Quando se vai argumentar contra uma teoria é preciso pelo menos conhecer o que ela afirma. Infelizmente, porém, parece que os defensores do DI tem uma visão bastante errônea sobre a Teoria da Evolução, já que eles afirmam ser impossível as estruturas complexas do mundo atual serem explicadas por puro acaso."
Penso que Júlio foi bastante incorreto nesse trecho acima. No meu entendimento, alguns dos defensores do design inteligente entendem bem de evolução, e esse é o caso de Behe. Concordo que há de fato um problema em se afirmar que é IMPOSSÍVEL que uma determinada estrutura se desenvolva pelos processos atualmente conhecidos. E isso principalmente porque é sempre muito problemático usarmos da palavra "Impossível". Ela demanda uma demonstração muito poderosa por parte do argumentador, e eu não sinto sinais de tal força em Behe (apesar de eu ainda não o ter lido em detalhes - deverei lê-lo nas próximas semanas).
Júlio diz também:
"Com relação à complexidade irredutível, efetivamente a ratoeira é um exemplo deste tipo de complexidade (represas de castores; vias metabólicas) e que foi, portanto, projetada de modo inteligente. Projetada por um ser humano! Mas não há exemplos na natureza deste tipo de complexidade. A literatura disponível sobre biologia molecular contradiz este conceito, ao mostrar que estruturas aparentemente irredutíveis, na verdade, podem ser decompostas em etapas, através da duplicação de alguns genes."
Essa coisa da ratoeira é interessante. Não sei se algum dos críticos de Behe já reparou nisso, mas o maior problema da ratoreira é que ela NÃO É um sistema vivo ou similar dotado de metabolismo e capacidade reprodutiva (ou seja, não é uma célula ou programa de computador de simulação de evolução). Um gato é exatamente igual a uma ratoeira, mas é um ser vivo. Ele tem uma base (o corpo), uma estrutura de detecção do rato (olhos, ouvidos, nariz), e mecanismos de captura (patas, garras, boca). Behe deveria usar o gato como exemplo, e não a ratoeira... Júlio afirma que não há exemplos de complexidade irredutível na natureza. Primeiro apenas pegando no pé de Júlio: há sim, as colméias de abelhas, as represas de castores, os ninhos de aves, etc, etc. Não era disso, obviamente, que Júlio estava falando. Ele estava se referindo a coisas como vias metabólicas, etc. Acho um baita exagero dizer que NÃO HÁ tais exemplos na natureza. E também é, penso eu, um baita exagero dizer QUE HÁ. No atual estado do nosso conhecimento e poder explicativo, penso que só podemos dizer que PARECE HAVER, ou que PARECE NÃO HAVER.
Júlio também diz, em sua tréplica
(http://www.jornaldaciencia.org.br/Detalhe.jsp?id=26339), que:
"As críticas apresentadas esgotam totalmente as propostas de Behe. De acordo com Pennock, R.T., 2003 (Creationism and Intelligent Design. Annual Review of Genomics and Human Genetics 4: 143-163) Behe concede que precisa revisar suas propostas e expressa a esperança de reparar os erros em um futuro artigo, que até agora não aconteceu."
Me parece, também, um exagero desinformador dizer que as críticas apresentadas esgotam totalmente as propostas de Behe. Isso porque para que isso fosse verdade teriam que ser esgotados todos os problemas apresentados por Behe, e Shapiro mesmo concorda que não é bem assim, os problemas permanecem. Talvez de fato as propostas de Behe tenham sido demonstradas como incapazes de responder aos problemas apontados. Mas acho isso bem improvável. Dizer que "É IMPOSSÍVEL que as propostas de Behe tenham alguma validade explicativa para a origem dos seres vivos" (que é, penso eu, uma maneira perfeita de refrasear o que foi dito por Júlio acima) me soa tão falacioso quanto dizer que "É IMPOSSÍVEL que os mecanismos neo-darwinistas clássicos somados aos acréscimos teórico-empíricos das últimas décadas tenham alguma validade explicativa para a origem dos seres vivos". Novamente, aparece o imenso peso ligado à palavra "IMPOSSÍVEL".
Enézio afirmou (em http://www.jornaldaciencia.org.br/Detalhe.jsp?id=25892) que (com comentários meus já inseridos abaixo):
"A TDI oferece as seguintes proposições científicas:"
- Por TDI, Enézio quer dize Teoria do Design Inteligente.
"DI 1: A complexidade especificada [CE] e a complexidade irredutível [CI] são indicadores ou marcas seguras de design."
- Pelo que eu pude entender até agora, complexidade especificada é uma "complexidade" que tenha uma função específica. Por exemplo, o ciclo de krebs apresenta uma complexidade, e ele tem uma função dentro da célula. A complexidade irredutível, conforme definida por Behe e repetida por Enézio (sistema que só funciona se todas as partes estiverem presentes) me parece falha. Ou seja, não vejo porque essa definição teria que ser de fato algo "irredutível" ou "jamais criável por métodos neo-darwinistas clássicos". Então esse papo disso tudo ser "marca segura de design" me parece uma boa dose de forçação de barra.
"DI 2: Os sistemas biológicos exibem CE e empregam subsistemas de CI."
- Se de fato existir complexidade irredutível, então há possivelmente CI nos sistemas vivos.
"DI 3: Os mecanismos naturalistas ou causas não-dirigidas não são suficientes para explicar a origem da CE ou CI."
- Penso eu que seria melhor dizer: "Não parecem ser suficientes". Por vezes, aquilo que parece incapaz de criar algo acaba se revelando plenamente capaz de fazê-lo. Usando um exemplo um tanto quanto distante, é como o que Einstein costumava dizer a respeito da Teoria da Relatividade: "Ela demonstra que o retorno ao passado é IMPOSSÍVEL". Aí veio Goedel, mais de trinta anos depois (!!!), e demonstrou que na verdade ela mostra que o retorno ao passado é ALTAMENTE PROVÁVEL.
"DI 4: Por isso, o design inteligente é a melhor explicação para a origem da CE e da CI em sistemas biológicos."
- Eu, humildemente, acho que nesse campo nós estamos atrapalhados demais para ficarmos querendo definir quem é o melhor e quem é o pior (melhor explicação ou não).
Enézio também disse (com meus comentários inseridos):
"Pieczarcka et al. desconhecem as etapas da suficiência epistêmica do DI como teoria científica:"
"Observação -- As maneiras dos agentes inteligentes agirem podem ser observadas e descritas no mundo natural. Quando eles agem, observa-se a produção de ‘informação complexa especificada’ (ICE). A ICE é um cenário improvável de acontecer (tornando-a complexa), e se conforma a um padrão (tornando-a especificada). A linguagem e as máquinas são bons exemplos de coisas contendo muita ICE. Da nossa compreensão do mundo, altos níveis de ICE sempre são produtos de design inteligente."
- Interessante, no trecho acima, que Enézio iguala improbabilidade a complexidade. Pode ser que isso seja correto. Não sei. Contudo, o interessante é que ele diz "a ICE é um cenário improvável de acontecer". É a "Escalada à Montanha Improvável" de Dawkins, que eu já disse que me interessa muito menos do que a "Escalada à Montanha Impossível". Ou seja, Enézio não diz que se trata de algo impossível, e sim improvável. E daí conclui que a explicação evolutiva tradicional é...impossível! Parece haver clara incoerência nisso. Em todo o caso, sou fortemente tentado a concordar com a última frase dele, onde ele diz que ICE é sempre produto de design inteligente (por exemplo: relógios, colméias, alguns ninhos complexos de aves, cromossomos, etc - observem que eu incluí cromossomos na lista; mas eu não sou agnóstico com relação ao designer. Para mim o designer, inteligente, é a célula mesmo; se ela têm consciência ou não, ou se desfruta de livre arbítrio, são outras questões completamente diferentes).
"Hipótese -- Se um objeto no mundo natural tem características de design intencional, nós devemos ser capazes de examiná-lo e achar os mesmos altos níveis de ICE no mundo natural que achamos em objetos planejados por humanos."
- Aqui acima um novo problema. O que era meramente "inteligente" agora passou a ser também dotado de "intencionalidade", o que parece remeter à presença de consciência, ou seja, experiência subjetiva, sem falar na capacidade de exercer livre arbítrio (escolha). Não sei se há como calcular o nível de ICE, mas ele deve ser alto em relógios, colméias, ninhos, cromossomos, etc
"Experimentos -- Nós podemos examinar estruturas biológicas, testando-as para ver se existe alto índice de ICE. Quando consideramos objetos naturais em biologia, nós descobrimos muitas estruturas tipo máquinas que são especificadas, porque elas têm uma disposição particular das partes necessária para o funcionamento delas, e complexa porque elas têm uma disposição improvável de muitas partes interagindo entre si. Essas máquinas biológicas são ‘irredutivelmente complexas’, pois qualquer mudança na natureza ou disposição dessas partes destruiria a sua função."
- Notem novamente o uso do termo "improvável" ao invés de "impossível"... Existe uma máquina intracelular interessante, a mitocôndria, que se encaixa bem no que é dito acima por Enézio. Como uma célula conseguiu fazer um treco desse? Era difícil, a princípio, e antes da década de 60 (século 20), abordar essa questão dentro do paradigma neo-darwinista clássico. Mas todos concordavam que o produto da mitocôndria era vantajoso para a célula. Então imaginemos que Deus, em sua infinita misericórdia, visse uma célula nucleada sem mitocôndrias e se compadecesse da falta de energia que essa célula sofria. Então, ele fez com que chovesse uma espécie de "maná microscópico", as mitocôndrias, e aí elas caíram dentro das células e tudo ficou bem melhor. Bem, na verdade é quase isso que a ciência atual postula para o caso. As mitocôndrias foram um presente da natureza para as células, e um presente que já veio prontinho! Ou seja, elas se originaram de bactérias (talvez arqueobactérias) que ou invadiram a célula hospedeira e não conseguiram matá-la ou então que foram devoradas pela célula predadora que acabou não conseguindo digerí-las. Ou seja, aquilo que sob um ponto de vista poderia parecer irredutivelmente complexo, sob outro ponto de vista pode parecer um tanto quanto diferente disso.
"As estruturas de CI não podem ser construídas por meio de uma teoria alternativa, como a evolução darwinista, porque a evolução darwinista exige que uma estrutura biológica seja funcional em cada pequena etapa de sua evolução. A ‘engenharia reversa’ dessas estruturas mostra que elas deixam de funcionar se forem levemente alteradas."
- Acima ocorre o que eu já assinalei. Como é ALTAMENTE IMPROVÁVEL que tais estruturas se desenvolvam por processos aleatórios, então se conclui que é COMPLETAMENTE IMPOSSÍVEL que elas tenham surgido por tais processos. Ou seja, a equação da lógica acima é essa:ALTAMENTE IMPROVÁVEL = COMPLETAMENTE IMPOSSÍVEL...
"Conclusão -- Por exibirem altos níveis de ICE, uma qualidade conhecida como unicamente produzida por design inteligente, e porque não há nenhum outro mecanismo conhecido para explicar a origem dessas estruturas biológica ‘irredutivelmente complexas’, nós concluímos que essas estruturas biológicas se originaram através de processo(s) exclusivo(s) de design inteligente."
- Essa conclusão é talvez o grande problema do design inteligente (no campo da teoria; no campo social há problemas maiores). Primeiro, não parece ser ponto pacífico que altos níveis de ICE só venham por design inteligente (a questão do improvável vs impossível). Segundo, o próprio fato de se dizer que é "improvável" que tais estruturas apareçam por processos randômicos traz em si implícita a idéia de que o processo randômico é sim um mecanismo conhecido e viável para explicar essas estruturas biológicas. E terceiro, há um fechamento a meu ver bitolante na idéia de que só o design inteligente explicaria isso. Como eu já disse: esse campo parece por demais matreiro e confuso para nos fixarmos em uma única hipótese, seja ela neo-darwinista clássica ou seja ela design inteligente.
À luz disso dito por Enézio acima, Júlio rebateu nesses termos:
"Por fim, às etapas da suficiência epistêmica do DI como teoria científica expostas pelo Sr. Enézio desabam como um castelo de cartas se observarmos que tudo gira em torno da afirmativa de que ‘Da nossa compreensão do mundo, altos níveis de ICE (Informação Complexa Especificada) sempre são produtos de design inteligente’, a qual se trata de opinião pessoal e não de fato."
- Por mais que eu considere importante não aceitarmos que altos níveis de ICE sejam forçosamente causados por designers inteligentes, acho que a hipótese pode, e até deve, ser levada a sério. O ideal seria romper totalmente com os apoios religiosos (tanto das religiões espiritualistas quanto das religião materialista) e ficarmos livres para pensar sobre esses conceitos de "design", "inteligência", "complexidade", "irredutibilidade", "livre arbítrio" (escolha), e "intencionalidade" (teleologia).
BRIGUINHAS RELIGIOSAS...
O artigo de Pennock (2003) "Creationism and Intelligent Design" é muito bom. Mas tem graves falhas a meu ver.
- Primeiro, ele passa a impressão de que está tudo sombra e água fresca no front da teoria evolutiva atual. Dá até a impressão de que o neo-darwinismo clássico (o de 1945) explica tudo muito bem... Quando Júlio fala e insiste na questão da necessidade da "honestidade intelectual" nesse debate, eu penso que ele bem que poderia enviar um email para o Pennock cobrando dele também isso (possivelmente eu mesmo virei a enviar um em breve...). Pois simplesmente não é possível que James Shapiro publique tantos artigos mostrando problemas com as visões evolutivas mais tradicionais (e sugira alternativas tão interessantes e inteligentes), e publique tais artigos em diversas revistas científicas de enorme prestígio internacional, e que tudo isso seja pura porra-louquice da cabeça do Shapiro.
- Segundo, Pennock insiste o tempo todo que o design inteligente é sempre um tipo de criacionismo (falácia seguida por Júlio). E cita Behe como um dos mais importantes dessa trupe. Aí ele mesmo (Pennock) diz que a Igreja Católica não é criacionista. Pô, mas o Behe se diz católico! E na fala de Behe nada me soa diferente do de um católico normal. Qual é a de Pennock afinal de contas??!!
- Terceiro, Pennock fica o tempo todo dizendo que o design inteligente se bate contra a teoria da evolução. Vindo de um filósofo da ciência (Pennock), isso chega a soar como maracutaia, pois que Pennock está careca de saber que existem várias teorias da evolução. O lamarckismo é uma teoria da evolução. O darwinismo de Darwin é outra teoria da evolução. O neo-darwinismo clássico (síntese moderna) é outra teoria da evolução. Aquilo que poderíamos chamar de "neo-darwinismo extendido" (neo-darwinismo clássico + teoria da origem de novidades evolutivas através da simbiose e endossimbiose - Lynn Margulis) é outra teoria da evolução. A proposição de James Shapiro é outra teoria da evolução (Evolução através de Engenharia Genética Natural). Pode-se até dizer que há um neo-lamarckismo (em especial associado ao imunologista Edward Steele). E mesmo o design inteligente, conforme colocado por Behe, é uma teoria da evolução. Ou seja, Pennock me parece nisso também faltar com a devida honestidade intelectual. Ele deveria usar o termo: neo-darwinismo clássico, pois que a impressão que dá é que ele não está falando sequer do neo-darwinismo extendido (endossimbiose).
- Quarto, com relação à reação de Behe ao ataque dos críticos, ele diz: "A reação de Behe tem sido dizer que seus críticos o entenderam errado.". Mas "meu Deus", tá cheio de artigos no site dele (do Behe) onde ele se propõe a rebater a crítica de alguns dos críticos. Será que é tudo coisa totalmente infértil? Pode até ser que seja. Mas, sinceramente, me parece ser muito difícil que isso seja assim.
Um ponto especialmente bom do artigo de Pennock é ele sugerir que os cientistas diferenciem "Materialismo Metodológico" (aquele que tem que ser usado pela ciência, devido a limitações práticas mesmo) de "Materialismo Metafísico" (a idéia de que tudo é matéria e de que não existe nem Deus nem espíritos, etc). Isso tornaria a ciência, mesmo quando divulgada por algum cientista ateu materialista, menos pedante, menos ofensiva para com os crentes de todos os credos, enfim, mais de fato isenta de contaminações ideológicas que podem gerar sofrimento indevido nas pessoas e conseqüentemente retaliações dos grupos religiosos organizados. A sensação que eu fiquei, contudo, é que mesmo Pennock acaba escorregando no quiabo nessa questão...
Enfim, eu acho que há uma queixa mais do que justa de grupos religiosos com relação à atual situação dentro dos estabelecimentos científicos. Impera de fato, nos EUA pelo menos, e creio que na Inglaterra também, uma religião materialista dentro da "ciência", religião materialista essa que acaba ofendendo indevida e rotundamente a diversas crenças com suas afirmações canhestras. Grupos como o CSICOP e colaboradores parecem claramente envolvidos em uma militância ativa pró materialismo enquanto visão metafísica do mundo (entenda-se: enquanto religião, em substituição às demais religiões!). Richard Dawkins vive falando as maiores bobagens a respeito das religiões, chegando às raias das infamidades hediondas mesmo (videm o artigo "Os Mísseis Desgovernados da Religião"). E os exemplos, vindos de outros "cientistas", abundam além da capacidade de citação. Contudo essa coisa de movimento organizado pró design inteligente é o fim da picada. Quando alguns poucos e heróicos gatos pingados, liderados pela barulhenta Lynn Margulis, questionaram o esquemão Neo-Darwinista Chatinho (clássico) com a muito bem embasada teoria da origem de novidades evolutivas através da endossimbiose, não houve um cristão que viésse lhes dar apoio. Se os religiosos dessem excelentes exemplos humanos com mais freqüência, ao invés dos não incomuns eventos do tipo "pastores eletrônicos sendo pegos roubando e fornicando" (Jimmy Swaggert) e "clérigos abusando sexualmente de criancinhas", com certeza que o movimento religioso não precisaria de nenhum apoio nem da ciência nem da escola pública. Não adianta querer correr atrás do prejuízo tentando entrar pela porta dos fundos em locais onde, sinceramente, não resgatarão a respeitabilidade perdida em outras instâncias. O que deve se intensificar, isso sim, são os bons exemplos de alguns pastores e clérigos dessas mesmas religiões (que existem, e em quantidade!), e que são de fato pessoas construtivas na sua interação com a sociedade.
Quanto ao designer, ele pode ser qualquer um ou qualquer coisa. Quando um membro inominável do nosso fórum se deu o desrespeitoso direito de dizer que o designer seria "burro e míope" (e Júlio Pieczarka disse algo bem parecido no Jornal da Ciência...), ele ficou contudo ofendido ao eu dizer que o designer era ele próprio!... (ou seja, o "designer" seriam as células do organismo dele, conforme expus, idéia veementemente negada pelo inominável). Contudo é exatamente isso que Shapiro ensina.
No artigo "Genome System Architecture and Natural Genetic Engineering in Evolution" (Annals of the New York Academy of Sciences vol.870. pp.23-35. 1999), James Shapiro situa a fraqueza explicativa neo-darwinista nesses termos: "Conventional explanations that randomly generated advantageous changes in complex characters accumulate one locus at a time are unconvincing on both functional and probabilistic grounds, because there is too much interconnectivity and too many degrees of mutational freedom.". (página 31 - tradução livre: As explicações convencionais de que mudanças vantajosas geradas aleatoriamente em características complexas se acumulariam um locus a cada vez não são convincentes tanto sob o ponto de vista funcional quanto sob o ponto de vista probabilístico, porque existe muita interconectividade e muitos graus de liberdade mutacionais). Na conclusão desse artigo, Shapiro completa esse pensamento: "Rather than being restricted to contemplating a slow process depending on random (i.e., blind) genetic variation and gradual phenotypic change, we are now free to think in realistic molecular ways about rapid genome restructuring guided by biological feedback networks". [página 32 - tradução: Ao invés de ficarmos restritos a contemplarmos um processo lento dependente de variação genética aleatória (ou seja, cega) e mudança fenotípica gradual, nós agora estamos livres para pensar sobre maneiras moleculares realistas de reestruturação rápida do genoma guiada por redes de feedbacks biológicas]. E logo abaixo, em "acknowledgements" (agradecimentos), ele diz: "I also thank my colleagues (...) for helping me realize how skillfull the E. coli K12 cell can be as a genetic engineer". Ou seja, "Eu também agradeço aos meus colegas (...) por me ajudarem a perceber o quão habilidosa a bactéria E. coli K12 pode ser como engenheira genética".
Se alguém tem pressa em achar um designer, um Deus, bem, então aí está Ele. Uma simples e humilde bactéria (tão humilde, ou mais, do que o carpinteiro de Nazaré...). Ou, como é dito em um antigo aforismo do judaísmo hassídico:
"Deus Viaja Incognito".
Um grande abraço,
Julio Siqueira
P.S.: se alguém tem alguma dúvida a respeito da humildade da E. coli K12, apresento então seu nome mais popular: Coliforme Fecal...