Alguns Argumentos, e Evidências, Embasando

a Possibilidade de Vida Após a Morte

 

 

Os textos abaixo foram tirados de minhas contribuições ao fórum PesquisaPsi em dezembro de 2003.

 

Introduzi algumas leves modificações, e retirei uma parte inicial que era uma troca de idéias com o moderador da lista, o Doutor em Psicologia e Pesquisador Psi (de parapsicologia) Wellington Zangari (o trecho retirado só tem sentido no contexto das diversas mensagens, e aqueles que o acharem interessante terão melhor proveito em lê-lo diretamente no link acima indicado, onde poderão ler todas as mensagens relacionadas).

Os trechos incluídos aqui são os seguintes, seguidos de um resumo e de sua completa exposição:

1- Defesa do Pampsiquismo Brahmanista, e Exposição das Falhas Lógico-Empíricas do Materialismo.

2- Exposição das Fenomenologias que Embasam a Hipótese "Espíritos", e que Potencialmente a Diferem da Hipótese Psi.

 

Resumos:

1- Defesa do Pampsiquismo, e Ataque ao Materialismo: Nesse interessante e bizarro texto, discuto algumas visões cosmológicas e ontológicas a respeito do mundo à luz da questão do aparecimento da consciência no Universo (ou seja, da experiência subjetiva). Falo sobre o "transcendentalismo", ou dualismo radical. Falo sobre as duas principais formas de materialismo, a epifenomenalista (que eu considero uma bizarrice epistemológica, na verdade abraçada por poucos, e bem provavelmente violadora da primeira lei da termodinâmica) e a interacionista (que é o materialismo "das massas", ou seja, popular). Falo também sobre duas formas de pampsiquismo a meu ver distintas: o Proto-Consciencialismo (ou "Pampsiquismo Fraco") e o Hiper-Consciencialismo Brahmanista (ou "Pampsiquismo Forte"). Comento algumas questões a meu ver altamente espinhosas para o materialismo interacionista (que é o único que possui, em termos filosófico-científicos, algo de promissor), incluindo vultuosos ônus ainda não saldados (se é que algum dia serão saldados...) por tal hipótese extraordinária e violadora do princípio de Ockham (e, potencialmente também, violadora da primeira lei da termodinâmica). Concluo que o Pampsiquismo Brahmanista é internamente coerente, parcimonioso (William of Ockham adoraria...), filosoficamente impecável, e cientificamente elegante. Pode ser uma hipótese equivocada, mas, utilizando-me de uma expressão de Carl Sagan (ao falar, então, sobre a Ciência), é, a meu ver, o melhor que temos...

2- Fenômenos que Embasam a Hipótese "Espíritos", e que a Diferem da Hipótese "Super-Psi": Nesse informativo e bem embasado texto (não é nenhuma "Brastemp", mas ficou bonzinho...) discuto principalmente três fenomenologias que, a meu ver, fornecem algum embasamento empírico (ainda que fraco e dúbio) para a hipótese da sobreviviência de nossas consciências ao fenômeno da morte física. São elas: Lembranças Expontâneas de Vidas Passadas, por crianças com entre 2 e 8 anos de idade (os casos estudados por Ian Stevenson e alguns poucos outros pesquisadores). Experiências de Quase Morte (NDE- Near-Death Experiences). E Mediunidade. Falo também um pouco sobre TCI (Transcomunicação Instrumental), e meu "pessimismo" com relação à essa linha investigativa. Exponho, principalmente, os pontos que parecem apontar para uma possibilidade razoável de distinguirmos, nessas fenomenologias, a hipótese "espíritos" da hipótese "Super-Psi".

 

Nota Importante: por "consciência", nesses textos abaixo, quero em grande medida dizer "experiência subjetiva", ou, de um modo um pouco mais ampliado, "experiência subjetiva mais alguma atividade de processamento de informações mais alguma memória".


 

Porque o Materialismo é 0 (zero) e o Pampsiquismo é 10 (dez)

 

Bem, ok. O materialismo não é zero. E o Pampsiquismo não é dez. Nem é o pampsiquismo necessariamente melhor do que o materialismo. Eu apenas quero mostrar alguns problemas do materialismo que muitas vezes são negligenciados pelos adeptos, bem como mostrar algumas forças potenciais do espiritualismo brahmanista.

A questão inicial se prende justamente à questão da "emergência". Como pôde uma coisa como a experiência subjetiva (e vou incluir nessa discussão também, sempre junto da experiência subjetiva, a questão da auto-consciência, ou seja, a "percepção subjetiva de si mesmo") simplesmente emergir de um Universo onde anteriormente não havia tal coisa? Bem, de certa forma, estamos acostumados a ver isso acontecer o tempo todo. Átomos e moléculas (massa) "emergem" da pura energia (fótons). Bolos "emergem" de farinhas e ovos. Comportamentos aparentemente imprevisíveis e inesperados "emergem" de sistemas complexos, como nos programas de Vida Artificial ou em sociedades animais, ou por exemplo, nos processos macro econômicos que brotam do somatório das operações micro econômicas individuais. E a experiência subjetiva (junto com a auto-consciência) "emerge" de cérebros (segundo os materialistas).

Volto a dizer que o emergentismo é para mim algo ainda confuso. Para mim, em parte, o bolo é redutível aos seus ingredientes. Ainda acho que o emergentismo tem a ver (ou deveria ter a ver) com a questão da imprevisibilidade do desenrolar de um acontecimento. O emergentismo pode ser, até certo ponto, um juízo de valor, e aí incluir a emergência de "objetos" que teriam surgido por diferentes processos: processos algoritmicos; processos não algoritimicos (e não previsíveis) mas deterministas; e processos aleatórios não deterministas. Eu acredito (acredito!) que a experiência subjetiva talvez não tenha se originado por nenhum dos processos expostos na frase anterior! Tais processos não me parecem (não me parecem) capazes de explicar o aparecimento da experiência subjetiva.

Mas isso é apenas o início das pistas que me levam ao pampsiquismo brahmanista.

Há vários modelos que tentam lidar com essa questão da mente vs matéria (ou do subjetivo vs objetivo). Eu citaria, talvez de modo quase exaustivo, os seguintes (com certa dose de interpretação e criação de minha parte):

- O transcendentalismo (ou dualismo radical): nesse, os mundos materiais e mentais são distintos, e talvez tenham tido origens diferentes, e daí se encontraram e conseguiram "se entender" (atuar um sobre o outro). É um modelo bastante problemático, em especial devido ao problema do encaixe. Ou seja, como dois mundos tão diferentes conseguiram se entender? Há vários sistemas do nosso próprio mundo que não conseguem "se entender e atuar um sobre o outro" (por exemplo, há bactérias que não conseguem nos colonizar e infectar devido à ausência de meios de interação com nossas células; há seres, como os humanos, que não conseguem "entender" a comunicação dos elefantes a baixa freqüência sonora devido ao fato de não conseguirmos perceber os sons em tais freqüências), que dirá então dois mundos tão distintos em natureza e origem. Acho esse modelo possível. Mas ele não me seduz (O kardecismo clássico possui fortes elementos transcendentalistas. Nesse caso, eles "resolveram" o problema do encaixe através da criação do perispírito. Ou seja, resolveram um problema criando outro. Pelo menos, eles falam de apenas três entidades, ou "corpos". Há quem fale de sete, como na teosofia).

- O materialismo epifenomenalista: Nesse, a consciência (experiência subjetiva) é algo que emerge do cérebro, mas que não atua de volta sobre ele. Trata-se, a meu ver, de uma bizarrice epistemológica (esposada, a que sei, por uma minoria de materialistas). Esse sistema tem dois problemas: primeiro, se essa "consciência emergente" de fato não atuar de volta sobre o corpo, então ela viola a primeira lei da termodinâmica (a famigerada lei da conservação de massa e energia - na natureza nada se cria, nada se perde: tudo se transforma). E segundo, por não atuar sobre o sistema, essa consciência não é essencial para a sobrevivência da espécie, e é portanto uma característica facultativa, e não obrigatória ou ubíqüa mesmo entre os seres humanos vivos (ou seja, a consciência, mesmo entre os humanos que você conhece, seria uma característica bem possivelmente rara!). Por esse modelo, espere bastantes zumbis à sua volta! (bem provavelmente a quase totalidade de pessoas que você conhece...).

- O materialismo interacionista: esse é provavelmente o materialismo mais popular. Nele, a consciência (experiência subjetiva + auto-consciência) "emerge" dos estados neurais (na verdade, apenas de alguns estados neurais) e é idêntica a eles. É um modelo bonitinho e bem coerente. Mas ele tem, infelizmente, alguns probleminhas...

A primeira questão é, por quê a experiência subjetiva "emerge" de alguns estados neurais e não de todos? De quais estados neurais a experiência subjetiva emerge, e de quais ela não emerge, e por quê? Essa primeira questão é tão grave que já se chegou a dizer que o lado direito do cérebro não possui consciência (nas pessoas submetidas à cirurgia de seccionamento do corpo caloso - split brain patients - segundo relatado pelo físico Roger Penrose em "A Mente Nova do Rei", 1989, pg 427). Isso pelo menos até o aparecimento de um paciente cujo lado direito do "cérebro" (do córtex cerebral) dizia querer ser corredor automobilístico, enquanto o lado esquerdo alegava querer ser um "desenhista" ("draftsman" no original - breve relato disponível Neste Link). Qualquer dia vai aparecer alguém cujo cerebelo alega querer ser carpinteiro, a base cerebral alega querer ser violinista, as amígdalas cerebrais alegam querer ser assistente social, e os nervos do dedão do pé alegam querer ser auxiliar de babá em creche... Ou seja, a neurociência cognitiva está mais enrolada do que normalmente se imagina, e corre o risco de acabar se confundindo com alguma forma de pampsiquismo (de certa forma, os modernos conceitos de "multi-mind" e "society of minds", segundo relatados por Stan Franklin no livro "Artificial Minds" - 1995 -, bem como até mesmo a própria idéia dos memes, segundo Susan Blackmore, são conceitos que remetem a isso, ainda que de modo introdutório e não muito claro).

Um segundo problema do materialismo interacionista é, já que a experiência subjetiva emergiu provavelmente através de processos evolutivos neo-darwinistas, qual a vantagem adaptativa que a experiência subjetiva confere? A primeira impressão é que na verdade a experiência subjetiva não confere absolutamente nenhuma vantagem adaptativa, e os sistemas poderiam viver muito bem sem ela, obrigado. Então por quê essa joça surgiu? Ou seja, aos materialista interacionistas cabe um enorme ônus de identificar e explicar qual a vantagem adaptativa da experiência subjetiva, se é que há alguma. Só aí poderemos falar em subjetividades para todos (uma espécie de Fome Zero materialista)! Se não houver tal vantagem adaptativa, então é bem provável que a experiência subjetiva seja facultativa, e rara, mesmo entre humanos.

Como se isso não fosse o bastante, há de fato alguns indícios de que a experiência subjetiva não serve para nada, constituindo tais indícios em um terceiro problema para o materialismo interacionista. Me refiro a situações como as relatadas por Susan Blackmore em OBE (out-of-body experiences, experiências fora do corpo), onde por vezes a "consciência" (experiência subjetiva) se percebe "deixando o corpo" mas vê o corpo atuando normalmente (conversando, etc). Na fenomenologia mediúnica isso também ocorre por vezes. Há também o altamente similar estado de mindfulness, conforme descrito por Benjamin Libet (em Editors' Introduction: The Volitional Brain Towards A Neuroscience of Free Will - Journal of Consciousness Studies, 6, No. 8-9, 1999, pp. ix-xxiii Benjamin Libet, Anthony Freeman and Keith Sutherland). E há também os bizarros e perturbardores fenômenos estudados e relatados pelo próprio Libet (no mesmo artigo acima) implicando na possível não existência de livre arbítrio, ou seja: a experiência subjetiva se percebe desejando, optando, e deflagrando o exercício da opção; mas o corpo já acionou o exercício da opção antes mesmo da "consciência de fato se sentir atuando". Em resumo, a experiência subjetiva não serviria para nada e, conseqüentemente, seria facultativa à luz da hipótese materialista evolutiva (zumbis por todos os lados! Esse Universo é um verdadeiro Quilombo).

Esses dados aproximam o materialismo interacionista do materialismo epifenomenalista, e remetem também a possíveis violações da primeira lei da termodinâmica. Costuma-se dizer nos meios céticos mal informados que o espiritualismo viola a primeira lei. Isso é falso. Na verdade, é o materialismo que potencialmene a viola (mas cá para nós; eu não tou nem aí com a primeira lei!).

Mas não acabou ainda. Mesmo que se consiga mostrar uma utilidade evolutiva para a experiência subjetiva, ainda haverá um quarto problema para o materialismo interacionista, que é o que eu costumo chamar dos "Qualia Ocultos" (Hidden Qualia). Aparentemente, além do estado de consciência normal, possuímos vários outros onde inclusive brotam experiências (qualia) absolutamente sem função e/ou vantagem evolutiva (presumivelmente). Libet, no artigo dele citado acima, narra uma esperiência mística desse tipo vivenciada por Krishnamurti. Kenneth Ring comenta sobre pacientes que tiveram NDE (e também pessoas em estado meditativo) onde relatam terem visto em todas as direções ao mesmo tempo (omnidirecional e 360 graus - descrito no livro "Mindsight", 1999, pg. 161-162 - um paciente disse: "Three hundred and sixty degree spherical vision. And not just spherical. Detailed!"). Pra que diabos serve uma coisa dessas dentro do paradigma materialista interacionista? Penrose narra, em "A Mente Nova do Rei", pg. 468, casos de um globalismo de experiência subjetiva extrema, envolvendo criações (ou descobertas) matemáticas de Poincaré e também criações musicais de Mozart. Deveríamos inclusive lembrar o intrigante fato de que muito disso que se encaixa no que eu chamo de Hidden Qualia fornece paralelos justamente com a mecânica quântica, conforme relatado e analisado por Fritjof Capra em "O Tao da Física". Ora, mas uma vivência da mecânica quântica está muito além da nossa experiência de vida conforme o esperado pelo materialismo interacionista evolutivo! Pra que servem então esses Hidden Qualia? Resposta: para nada!

Há ainda, segundo vejo, um quinto e último problema para o materialismo interacionista, que é a própria ocorrência de experiências subjetivas do tipo NDE em estados onde não esperaríamos que o cérebro as produzisse. Falarei um pouco mais sobre esse ponto ao falar sobre NDE especificamente.

Sinceramente? O materialismo interacionista não é um paradigma perdido, mas está mais furado que peneira! Passando agora para o outro modelo:

- Proto-Consciencialismo (ou "Pampsiquismo Fraco"): nesse modelo, a "consciência" (experiência subjetiva) é uma propriedade básica do Universo (existe sob a forma de proto-consciência que poderia ser progressivamente "aumentada") e tudo que é construído mexe com ela. A hipótese Penrose-Hameroff possui elementos desse tipo de Pampsiquismo. Dentro do proto-consciencialismo, talvez esperássemos que fossem os sistemas complexos (e sistemas adaptativos complexos) que se constituíssem em bons candidatos a possuírem experiência subjetiva (incluindo alguns programas de computador). Mas o proto-consciencialismo na verdade é talvez bem mais próximo do materialismo interacionista do que pode à primeira vista parecer (apesar de possuir diferenças, e talvez estar livre de alguns dos ônus desse materialismo), em especial com relação à questão da "vantagem evolutiva" necessária para a experiência subjetiva ubíqüa entre humanos.

- Hiper-Consciencialismo Brahmanista (ou "Pampsiquismo Forte"): segundo esse modelo (esposado por... mim), existe um plenum hiperconsciencial no Universo, tão básico quanto qualquer outra das propriedades básicas do Universo. Como Brahman no induísmo, dele todos "nós" (ou seja, nossas experiências subjetivas) emanamos, e a ele todos "nós" estamos conectados. Os estados da matéria mexeriam com esse plenum, embotando-o ou moldando-o em suas características experienciais subjetivas. Esse modelo possui certa similaridade (eu diria mesmo, grande similaridade) com outro modelo que, à primeira vista, é radicalmente diferente: o solipsismo. Até mesmo o site cético "Infidels", em artigo onde comentam sobre a Navalha de Ockham, admite relutantemente que o solipsismo possui enorme simplicidade interna (veja detalhes Neste Link, onde é dito que "Unfortunately, some argue that there is a third even more simple solution -instead of God + Universe or instead of Universe alone: There isn't an incredibly intricate and complex universe out there. We just imagine that there is. This third option leads us logically towards solipsism, which many people find unacceptable."). Conforme ressaltei anteriormente, o solipsismo é assaltado (e desencastelado) pela dor e pela necessidade da busca do prazer. O Hiper-Consciencialimo Brahmanista consegue conciliar, de modo simples e elegante, o solipsismo com o objetivismo (independente do Brahmanismo ser verdadeiro ou não). No Brahmanismo, a grande questão é o por quê de tudo isso a nossa volta, e o fato é que nossa ciência (e mesmo nossa intuição, e etc) está ainda muito longe de abarcar essa questão. Podemos apenas tentar nossas melhores advinhações quanto a isso.

Para mim o Universo é apenas uma ilusão criada por Brahman. Brahman quis se iludir (ou, como diria Wellington Zangari, "cair na brincadeira" - in ludere). A evolução do Universo se dá por modos razoavelmente Lamarckistas-Teleológicos (o que, aliás, é bem compatível com os resultados obtidos em micro-PK), e Brahman busca de modo deliberado os vários graus de atenuação e de modulação de sua hiper-consciência através da manipulação dos estados materiais. Poderíamos perguntar, por que diabos alguém iria querer fazer uma coisa dessas. A princípio, essa seria uma pergunta que não deveríamos tentar responder. Acontece que me ocorreu uma possível resposta, ainda que, obviamente, fornecida mais como entretenimento do que como argumento sólido: Um plenum consciencial envolveria tanto ápices prazeirosos (Céu) como ápices dolorosos (Inferno). Possivelmente, longe de ser a existência plena de prazeres que os religiosos e teólogos de todas as eras nos vêm contando, a existência de Deus (ou de Brahman) é a eterna e atemporal convivência do Céu e do Inferno. Bem, se eu vivesse em uma situação dessas, eu iria sim querer inventar um modo de pelo menos ter lembranças de períodos onde ocorressem apenas vivências prazeirosas. O Universo surge então, em sua multiplicidade consciencial, como uma reles e básica busca do prazer, e fuga da dor.

Nesse ponto gostaria de chamar a atenção dos intrépidos leitores que conseguiram ler todos esses meus devaneios para o seguinte fato: A melhor explicação filosófico-científica que eu consegui achar, após longos esforços e leituras, para o dilema mente vs matéria (ou subjetivismo vs objetivismo) é justamente uma verdadeira Narrativa Mitológica!

É importante também ressaltar um último ponto com relação à consciência (experiência subjetiva): nossa percepção do fluir do tempo (unidimensional e unidirecional) não possui embasamento em quase nenhuma de nossas teorias físicas. Apenas a entropia parece possuir uma correlação com nossa percepção consciencial. Se for de fato um item emergente, a consciência é dos mais singulares. O físico Ilya Prigogine (talvez a maior autoridade mundial em termodinâmica), em seu livro "The End of Certainty", 1997, com resenha minha no site do Amazon Neste Link , fornece interessantes elementos de raciocínio pampsiquista ao falar sobre emergência de complexidade em sistema adaptativos complexos e estruturas e sobre auto-organização em estruturas dissipativas. Ele usa freqüentemente termos como "a matéria começa a ver", e "o sistema escolhe". E a diferença encontrada na pesquisa psi (enorme, creio eu) ao compararmos o tamanho do efeito (effect-size) obtido em Ganzfeld ("telepatia" entre humanos) com o tamanho do efeito obtido em micro-PK ("psicocinese" entre humanos e sistemas aleatórios) parece também indicar, ainda que levemente (ou talvez não tão levemente) que a "consciência" é algo relativamente diferente da "matéria". Essa diferença no tamanho do efeito me parece mais compatível com uma realidade Brahmanista do que com uma realidade materialista, pelo menos a princípio, pois por quê então o cérebro teria tanta dificuldade em influenciar um sistema tão simples como um REG (Random Event Generator), e teria tanta mais facilidade em influenciar um outro sistema físico muitíssimo mais complexo, como outro cérebro? (Lembrando que, sob uma perspectiva psi materialista, os experimentos Ganzfeld testam ao mesmo tempo ESP para o sujeito receptor, e PK para o sujeito emissor. Já sob uma perspectiva Brahmanista, Ganzfeld seria apenas uma situação em que Atma recobra um pouco de sua lembrança de que é Brahman, ou seja, os envolvidos na pesquisa passam a compartilhar, e fundir, suas subjetividades).

Não acho razoável, nem interessante, descartarmos a hipótese materialista. Mas acho que o fato de não enxergarmos nas hipóteses "não materialistas" um valor, é algo que só se justifica por motivos religiosos. Com relação ao desafio da consciência, e também o desafio Psi, estamos diante de tempos difíceis e desafiadores em termos experimentais (fenomenológicos) e hipotéticos. Precisamos de liberdade mental, liberdade para hipotizar, cotejar e entreter várias alternativas possíveis. Precisamos que, pelo menos em alguns momentos, a ciência deixe um pouco de lado sua austeridade empresarial e abrace um pouco a liberdade poético-literária (e ficcional).

É hora de colocarmos a Navalha de Ockham no armário.


 Argumentos que Embasam a Hipótese Vida Após a Vida, e que Diferem Tal Hipótese da Hipótese Super-Psi ou Super-ESP

 

Vou tentar ser bem suscinto nessa seção. Comecemos por pesquisas como as de Ian Stevenson, com casos de lembrança expontânea de vidas passadas por crianças com entre dois e sete anos de idade, que ele denomina Cases Of The Reincarnation Type (CORT).

CORT- Há que se falar brevemente sobre as fraquezas desse programa de pesquisas. Primeiro, há poucos pesquisadores na área. Segundo, os casos se desenvolvem em um ambiente totalmente aberto a vazamentos sensoriais (sensorial leakage), pelo menos potencialmente. Terceiro, apesar de Stevenson ter em seus arquivos algo em torno de 3.000 casos desse tipo, apenas algo em torno de 10 pode ser classificado como de alta qualidade (pelo menos por mim), ou seja, casos com registros escritos do que a criança alega feitos pelo próprio pesquisador antes de esforços para se localizar a encarnação prévia, bem como localização da personalidade prévia feita pelo próprio pesquisador. Há três casos desse tipo relatados por Erlandur Haraldsson (1991 e 1994) e quatro relatados por Stevenson (1966 e 1988), além de outros relatos de Stevenson desse tipo em um livro de 1977 (Cases of the Reincarnation Type 2: Ten Cases in Sri Lanka). Nesse último livro, não sei quantos casos desse tipo há, mas acredito que devam ser um ou dois. Mesmo se forem quatro (o que não acredito), isso leva o total de tais casos para 11, o que é pouco (apesar de interessante, ou seja, bom). Todos esses casos, a exceção do caso libanês Imad Elawar, ocorreram em Sri Lanka. (alerto ao leitor que pode haver algumas imprecisões nesse meu relato) Talvez seja mais apropriado dizer, então, que há uma base empírica minimamente confiável para hipotizarmos que, por vezes, algumas pessoas de Sri Lanka (e só de Sri Lanka!) conseguem reencarnar... Quarto, do meu ponto de vista, Stevenson tem uma certa briga (ou seja, dificuldade) com a estatística. Ele cometeu um erro estranho em um artigo de 1993 sobre Birthmarks/Birth-Defects-sinais de nascença/defeitos de nascença (identicado por Daniel Sottomaior, da Sociedade da Terra Redonda, e a mim relatado por ele), posteriormente repetido no livro de 1997 sobre esse mesmo assunto. Igualmente, no caso Imad Elawar (Líbano, 1966), Stevenson se mostrou excessivamente cabeça-dura em reconhecer problemas em sua tabulação do caso, conforme expostos por Leonard Angel (que de fato foi bastante tendencioso em sua análise, mas que apresentou pontos interessantes e válidos), e Stevenson acabou não dando o braço a torcer mesmo nos pontos onde ele, a meu ver, deveria ter admitido falhas e excessos (o que não invalida o caso Imad Elawar, de acordo com minha minuciosa re-análise do caso à luz das críticas de Angel, disponível em inglês neste link).

Apesar de tudo isso, os casos são interessantes. Sob o ponto de vista psicológico, sociológico, e antropológico, eles são inegavelmente ricos. Sob o ponto de vista parapsicológico (psi) eles fornecem, na melhor das hipóteses, algum embasamento (mínimo) para a alegação de que existe, por vezes, a presença de um elemento paranormal neles. Ou seja, como eu disse em minha resenha no site da Amazon (www.amazon.com) ao livro "Reincarnation: a Critical Examination", "As evidências são fracas. Mas elas estão claramente lá!" (Resenha Disponível Neste Link). Além disso, Stevenson e colaboradores tentaram, com certo grau de sucesso, mostrar que os casos mais fracos se assemelham aos mais fortes, o que sugeriria que mesmo nos mais fracos há a possibilidade da presença de tais elementos paranormais (a idéia é: uma etiologia comum para os dois tipos de casos, pelo menos em parte).

A questão então é: admitindo que haja algo paranormal, como de fato parece haver (e não podemos, nesse programa de pesquisas, ir além do parece), trataria-se de ESP ou de algum tipo de "reencarnação"? E se for reencarnação, isso se igualaria minimamente a uma "sobrevivência de nossas individualidades à morte de nossos corpos físicos"? (da mesma maneira que nossas individualidades parecem - e, novamente, não podemos, nesse caso, ir além do parecem - sobreviver ao ocaso de nossas consciências durante os períodos de inconsciência noturna, de inconsciência anestésica, e etc).

Stevenson discute longamente a distinção entre a explicação ESP e as explicações sobrevivenciais (survivalists), incluindo reencarnação, em sua Discussão Geral em seu livro Vinte Casos Sugestivos de Reencarnação (Twenty Cases... ao que sei sem tradução para o português). Há argumentações similares e/ou complementares por outros autores em outras obras, e vou apresentar algumas das que me pareceram mais convincentes em estabelecer uma sugestão de diferença entre as hipóteses ESP e Reencarnação.

Primeiro: as características comportamentais da criança (behavioral features: incorporando a personalidade anterior - personation -, se comportando em alguns aspectos como ela, e alegando ter sido ela) parecem se situar além do esperado para ESP.

Segundo: características específicas desses casos com relação ao binômio emissor-receptor (sender-target) parecem indicar que é inadequada uma explicação meramente ESP. Ou seja, de um lado teria que haver uma Super-ESP, capaz de incorporar elementos informacionais, comportamentais, e personificadores, e de outro lado essa Super-ESP teria que ser, estranhamente, específica, e a criança não incorporaria informações de outras pessoas próximas à personalidade anterior, não saberia coisas que a personalidade anterior não teria sabido, etc. Esse último ponto é o que Stevenson fala como sendo o "padrão informacional" do caso. Ou seja, o padrão é compatível com o emissor, mas somente com ele. E com ele ao longo de vários anos da vida do emissor (ou seja, da personalidade prévia).

Terceiro: habilidades são, pelo menos segundo alguns, não muito compatíveis de serem aprendidas exclusivamente através de percepção (Titus Rivas comenta isso no artigo que indiquei anteriormente, com sugestões bibliográficas sobre esse assunto, Reincarnation research: In search of the most parsimonious sufficient hypothesis, em http://members.lycos.nl/Kritisch/index-53.html). Contudo, Stevenson comenta em artigo do ano de 2000 na revista Medical Hypotheses que "habilidades não ensinadas raramente ocorrem nas crianças por nós estudadas". Nada como "Habilidades completamente formadas, como os gênios Mozart e Gauss manifestaram durante suas infâncias". Nesse ponto Stevenson parece diferir relativamente de Rivas em sua interpretação da fenomenologia disponível. Stevenson inclusive parece não considerar o caso Swarnlata Mishra como representativo de habilidades inatas, enquanto Rivas parece considerar. Mas as crianças freqüentemente demonstram interesses, e aptidões compatíveis com a personalidade prévia.

(Detalhe, nesse mesmo artigo, Stevenson afirma que sua base de dados não embasa a idéia do karma, ou seja, da retribuição, negativa ou positiva, pelos atos praticados em vida anterior. Inclusive, os defeitos de nascença parecem ir na direção contrária da justiça kármica, pois se um criminoso lhe torturar, arrancar sua perna, e lhe matar, provavelmente será você, e não o seu algoz, que renascerá sem a perna, ou sem a visão, etc)

Quarto: uma identificação intensa com a personalidade anterior (bem como memórias, etc) se extende durante anos, e depois vai esvanecendo.

Quinto: esse item cinco é quase uma forçação de barra minha. Há um caso onde dois gêmeos idênticos (em Sri Lanka, pra variar...) do mesmo sexo alegam lembrarem-se de vidas passadas em personalidades prévias bem diferentes! Já que eles são tão similares genotipicamente (genotipicamente), há que se perguntar por quê não lembram terem sido a mesma pessoa (há várias visões espiritualistas que advogam a reencarnação em duas pessoas ao mesmo tempo. Vide o filme "O Pequeno Buda", com Keanu Reaves). Contudo, é importante levar em conta a complexidade dessa questão dos "gêmeos idênticos", fartamente discutida por mim, dentre outros assuntos, em debate com Ronaldo Cordeiro (ex coordenador da comissão de ciência do Fórum Cético Brasileiro) disponível neste link.

Sexto: essa é minha. Dentre várias fenomenologias psi, os casos do tipo CORT me parecem serem os únicos que se mostram sensíveis à questão do quadrado da distância (ou seja, "reencarnação" em locais próximos) e unidirecionais com relação ao fluxo do tempo (até efeito positivo de preces retroativos no tempo já foram apresentados em artigos publicados em revistas científicas médicas de alta respeitabilidade!!! - Effects of remote, retroactive intercessory prayer on outcomes in patients with bloodstream infection: randomised controlled trial. BMJ. Vol. 323. pp. 22–29 December 2001, disponível online em http://www.bmj.com). Não há, ao que parece, crianças que alegam serem a reencarnação de personalidades que ainda virão a existir. A hipótese Super-ESP preveria justamente o contrário, ou seja, uma indiferença com relação à seta do tempo, bem como igualmente uma independência com relação à distância. Isso não se deve a uma falta de empenho dos pesquisadores desse tipo de casos, pois até casos de encarnações prévias em bois já foram descritos (vide a abrangente e excelente revisão desse tipo de casos feita pelo antropologista James Matlock em 1990). O casos CORT parecem seguir o fluxo normal consciencial, o que para mim os coloca mais amenos a explicações reencarnacionistas do que a explicações ESP, mesmo se colocarmos uma capa de super-homem nessa ESP.

Passemos agora para o segundo tipo de casos: NDE

NDE - As experiências de Quase Morte (EQM ou NDE, near-death experiences) também possuem elementos que parecem melhor explicados por sobrevivência (potencial) à morte física do que meramente ESP.

Indiquei em mensagem anterior cinco artigos interessantíssimos para tal distinção. Vou comentar tais distinções brevemente.

Os três primeiros (Em termos cronológicos. 1998; 2000; e 2001) são do grupo de Stevenson, que também estuda NDE. Eles abordam especificamente essa questão da diferenciação da hipótese ESP da hipótese "sobrevivência pós morte" no estudo de casos NDE. Eles obviamente assinalam o problema inicial de tal diferenciação, que é o fato de que todos os que já tiveram NDE (incluindo Pam Reynolds, que é talvez o caso mais impressionante) nunca morreram de fato, pelo menos não morreram em um sentido muito importante: voltaram à vida! O cérebro de uma pessoa que efetivamente continue avançando no processo de morte física sofre rápida destruição em suas células, o que inviabilizaria mesmo um retorno à vida, e o fato é que mesmo que exista vida após a morte, e mesmo que as NDEs puderem fornecer algum embasamento empírico para isso, ninguém pode ao certo saber (baseado apenas em NDEs) que tipo de experiência subjetiva alguém vivenciará a partir desses momentos mais extremos de destruição tecidual irreversível e etc. O que ocorreria? Manutenção de uma identidade relativamente similar à vivenciada enquanto o corpo estava vivo? Integração a um plenum consciencial divino (como uma gota de chuva caindo no mar, Atma fundindo-se em Brahman)? Busca frenética por parte da "consciência" por algum corpo onde possa se enfiar, para fugir a um adormecimento consciencial (morte pós morte...)?

Em todo o caso, esses três artigos apresentam as seguintes ponderações:

- Quatro fatores parecem se situar relativamente fora da capacidade explicativa das teorias materialistas normais (teorias não psi):

1- Aumento da capacidade mental (enhanced mentation) ou manutenção da capacidade mental normal em uma situação onde seria esperado justamente o contrário.

2- Vivenciação de experiências fora do corpo (Out of Body Experiences - OBE).

3- Percepção "paranormal" de eventos (como no caso de Pam Reynolds, conseguir ver, e posteriormente descrever em detalhes, eventos de sua operação, sonoros e visuais, que claramente estavam além de suas possibilidades normais na hora em que ocorreram).

4- Visão, durante as NDEs, de pessoas que já haviam falecido anteriormente.

Em especial, os autores chamam a atenção para as situações onde esses quatro elementos ocorrem na mesma experiência (convergence of features), tornando mais difícil explicá-los todos em conjunto por hipóteses não sobrevivencistas (como materialismo não psi ou materialismo psi). Emily Kelly (2001) chama a atenção para a visão de outras pessoas já anteriormente falecidas, e pergunta: por quê aparecem tantas pessoas não identificadas? (nesse caso, obviamente, não sabemos se são pessoas de fato já falecidas ou mesmo se são pessoas que de fato já existiram). Por quê não aparecem normalmente bichos de estimação já falecidos? Por quê aparecem algumas pessoas que o paciente sabia estarem mortas, mas que não possuíam laços emocionais com ele? Por quê a grande ausência de vivos nessas visões? Por quê não existe uma diferença entre esse padrão ao se comparar os pacientes jovens que tiveram NDE com os pacientes já idosos? Ao refletir sobre tais perguntas, a autora do artigo diz que tais questões parecem indicar que o conteúdo das NDEs parece não estar relacionado à questão da expectativa do paciente, ou a criações mentais (alucinações) do próprio paciente. (ela ainda apresenta um dado interessante, de que em NDEs o "avistamento de pessoas já anteriormente falecidas" está correlacionado a três outros fatores: OBE; vivenciamento do túnel ou de escuridão; e visão da luz.).

Os dois últimos artigos, de Parnia e colaboradores (2001) e de van Lommel e colaboradores (2001) apresentam alguns dados interessantes para questionar a relação mente-corpo conforme é vista classicamente pelas neurociências cognitivas materialistas. van Lommel diz que fatores clínicos somente (medical factors) não podem explicar a ocorrência de NDEs. Todos os pacientes estudados por ele estiveram clinicamente mortos, mas apemas 18% relataram ter tido NDE. Se fatores puramente fisiológicos estivessem envolvidos, seria esperado que a maioria dos pacientes tivesse tido NDE. O grau de severidade da condição do paciente não se mostrou correlacionado com a incidência das esperiências, nem com sua profundidade. Fatores psicológicos pareceram igualmente não determinantes, pois o "medo da morte" se mostrou não correlacionado também. NDE se mostrou correlacionado com a idade, e pessoas jovens tenderam a relatar mais do que pessoas idosas, o que segundo os autores parece indicar que boa memória de curta duração (good short-term memory) parece importante para poder relembrar posteriormente NDE. (A propósito: van Lommel comenta incorretamente o caso Pam Reynolds, dizendo que ela teve vivências corroboráveis por terceiros durante o período em que ela esteve com EEG reto. Na verdade, tais vivências de Pam se deram antes do Standstill, apesar de já estar anestesiada e de estar com os olhos vendados e os ouvidos tapados).

Parnia é talvez ainda mais interessante. Apenas 12% de seus pacientes tiveram NDE (ou seja, um percentual pequeno, do mesmo modo que foi encontrado por van Lommel). Ele afirma que seus dados sugerem que em seu modelo trabalhando com pacientes com parada cardíaca, as NDE surgem durante o período de inconsciência (ou seja, durante períodos durante os quais, pelo materialismo não psi ou pelo materialismo psi, esperaríamos que o cérebro não estivesse produzindo nenhuma sensação de experiência subjetiva). Ele afirma que durante paradas cardíacas a atividade da base cerebral (brain stem) é rapidamente perdida. van Lommel fornece subsídios interessantes nesse sentido, dizendo que após 10 segundos do início das paradas cardíacas o EEG normalmente fica reto. Essa condição também leva a sensível diminuição da circulação sanguínea no cérebro (o que, aliás, é o motivo do EEG reto e da inatividade da base cerebral). Parnia diz ainda que em paradas cardíacas, a perda da função cortical do cérebro (que é medida pelo EEG) precede a rápida perda da atividade da base do cérebro.

Enfim (e somando a isso acima o caso Pam Reynolds na íntegra bem como o caso Al Sulivan, descrito pelo artigo que citei de 1998), parece haver base empírica suficiente em NDE para presumirmos que talvez NDEs ocorram durante momentos em que o cérebro está completamente inoperante, o que é um verdadeiro soco-no-estômago do materialismo xiita (não psi ou psi). Além disso, a convergência de fatores conforme discutida pelo grupo de Stevenson, coloca um fardo bem pesado sobre os ombros da hipótese ESP (parece que tem que ser mesmo algo meio como "Super-ESP").

Mediunidade - O que pode haver de promissor no estudo da mediunidade para separar a hipótese ESP da hipótese vida após a morte? Bem, o que pode haver em mediunidade afinal?

Em mediunidade temos o médium, temos o "espírito" (vamos assumir que de fato se trate de um espírito), e temos também o pesquisador e de preferência alguém com quem o espírito esteja ligado emocionalmente (um parente ainda vivo). O que pode surgir desse grupo de pessoas?

Primeiro, o "espírito" pode relatar fatos verdadeiros que somente ele e o ente querido vivente sabem, e que o pesquisador e o médium não sabem. (legal, mas não exclui ESP).

Segundo, o "espírito" pode relatar fatos verdadeiros que ninguém, nem mesmo o ente querido vivente, sabe. (legal, mas também não exclui ESP, em especial se observarmos os protocolos dos experimentos de visão remota).

Terceiro, o "espírito" pode relatar fatos verdadeiros que ninguém na Terra conhece ainda (alguma nova teoria científica, por exemplo). (legal, mas também não exclui ESP, pelos mesmos motivos expostos logo acima, somados à premonição).

Quarto, podemos aumentar meu experimento com cinqüenta médiuns videntes em cabines isoladas sensorialmente direcionadas para um mesmo ponto e relatando de modo fiel e coerente um espírito. Com cinqüenta médiuns, Wellington Zangari disse que isso não controlaria ESP. Talvez com cem médiums ele já comece a aceitar... Na verdade, esse experimento é inócuo. Não se acha cinqüenta médiuns videntes que vão dizer a mesma coisa. Acaso se achasse, a hipótese ESP seria plausível, mas muito improvável. Seria necessário, sim, uma Super-ESP. Em todo o caso, esse experimento parece além das possibilidades dos médiuns.

Mas me parece haver uma possibilidade interessante, e ela vem justamente da grafoscopia. Se em algum modelo bem construído e bem conduzido (e isso leva anos de pesquisa), duplo cego, obter-se grafia do médium compatível com a grafia do defunto, e principalmente se a cada mensagem essa semelhança com a grafia do defunto aumentar, então isso parece, para mim pelo menos, indicativo de que algo além de ESP está envolvido nisso, devido à presença de um elemento de desenvolvimento de habilidade, que muitos parecem julgar (como o filósofo e psicólogo Titus Rivas) além do esperado através unicamente de percepção. E esse modelo é muitíssimo mais fácil de montar do que o modelo dos cinqüenta médiuns (o que não quer dizer que se consiga resultados positivos nisso).

TCI - sou muito pessimista com relação às possibilidades da transcomunicação instrumental. Do livro que li, de Sonia Rinaldi, fiquei com uma impressão bem ruim com relação ao fenômeno. Além disso, a julgar pela dificuldade de humanos em influenciar REG, e da talvez incapacidade de influenciar PseudoREG, não creio que haja grandes esperanças de que espíritos consigam influenciar lá muito bem os nossos equipamentos eletrônicos.

Comentários finais sobre as dificuldades de estabelecer os limites de ESP, e de diferenciá-la da hipótese Vida Após a Morte: Bem, na verdade acho que essa questão é de fato de uma enorme relevância. Psi mexe demais com a questão dos limites e dos controles, rompe limites talvez ao máximo, e isso de fato torna muito delicada qualquer tentativa de delimitação deste fenômeno (ou destes fenômenos). No entanto, limites são necessários, até na hora de dizermos que não há limites...

Veja, não conhecemos os limites de psi e de ESP. Então pode muito bem ser que eu ou você sejamos cegos-surdos-mudos de nascença, e que nem eu, você, nem ninguém tenha jamais percebido isso (e que nem jamais perceberão) devido ao simples fato de levarmos toda nossa vida sensória baseada em... Psi-ESP (inclusive levando os outros a achar que enxergamos pelos olhos, ouvimos pelos ouvidos, incluindo o oculista e o otorrino). Afinal, como segurar esse "Psi Saci Pererê"?

O que esse papo acaba ilustrando é justamente o quanto os limites que identificamos cotidianamente são arbitrários e ilusórios. Não é "os limites de Psi" que nós não conhecemos (como alega Wellington Zangari). Nós na verdade não conhecemos os limites de absolutamente nada! Apenas trabalhamos com limites (e mapeamentos da realidade) arbitrários, ilusórios, mas que...Funcionam. Não há, provavelmente, como agir de modo diferente com relação a Psi-Esp vs Vida Pós Morte.

Só nos resta, na verdade, criarmos limites, para com eles nos iludirmos e tocarmos nossas vidas, religiosas ou científicas.


Adendo interessante aos textos acima postado por mim na lista PesquisaPsi ainda em Dezembro de 2003

Caros Wellington Zangari, Leonardo Stern, e demais membros da lista interessados no assunto,

Fui recentemente avisado (por Vitor Moura, membro da lista Ceticismo Aberto, que tem me fornecido e enviado com freqüência materias de grande interesse) sobre dois artigos interessantes para a discussão sobre Evolução e Psi e sobre Consciência. Tratam-se dos seguintes artigos:

- On The Lack of Evidence for the Evolution of Psi as an Argument Against the Reality of the Paranormal (disponível neste link)

- What is the Fundamental Nature of Consciousness? On the contribution of parapsychology to consciousness research (disponível neste link)

Ambos são do biólogo estados-unidense Michael Levin (www.drmichaellevin.org/), ao que parece anteriormente ligado à Universidade de Harvard e atualmente ao Forsyth Institute. Não sei se ele é um pesquisador Psi, mas os dois artigos acima possuem um conteúdo bastante interessante e enriquecedor para esses dois temas recentemente discutidos por Wellington, Leonardo, e por mim aqui na lista PesquisaPsi.

Do primeiro artigo (sobre Evolução e Psi), gostaria de citar o seguinte trecho:

Perhaps, neural processing of data arriving through such a complex information channel (aqui ele se refere ao "canal Psi de informação") requires computation far beyond the complexity of any nervous system that has so far arisen through evolution. Thus, the apparently fickle and unreliable psi we observe in human subjects today may represent the evolutionary origin of a nervous system which is just beginning to become complex enough to be able to handle usefully such a challenging feature of the physical world. Although initially plausible, this is difficult to reconcile with the recorded instances manifested in "lower" organisms (for example, see Johnson, 1982, Lepes, 1992, Metta, 1972, Randall, 1971, Richmond, 1952, and Schmidt, 1970).

Do segundo (sobre Consciência e Psi) cito os seguintes trechos (seguidos de comentários contextualizadores):

1- There are several positions within cognitive science as regards the status of consciousness. Functionalism (Dennett 1981, 1991) asserts that the hard problem does not exist, and that consciousness and the sense of self is an illusion. Various identity theories deny the existence of anything but matter/energy, and hold that consciousness is identical with physical processes in the brain, or their functional relationships to each other. Epiphenomenalism, the position tacitly assumed by most working psychologists, asserts that conscious experience exists (in some vague definition of "existing"), and somehow accompanies physical processes, but that mental states are completely determined by physical states of the brain, rendering free will an illusion.

Segundo isso dito acima por Levin, a visão epifenomenalista é muito mais disseminada do que eu imaginava (o que, para mim, equivale a dizer que o materialismo vai pior das pernas do que eu imaginava...). A noção de "epifenômeno" é drasticamente diferente da noção de "fenômeno emergente". Epifenômenos (que são originados, creio eu, quase sempre, ou sempre, através de processos emergentistas) não possuem ação retroativa (feedback) sobre os sistemas que os geraram. Eles recebem os efeitos de ações, mas não agem em retorno sobre o sistema. Pelo menos não de modo "útil". Isso é o que me leva a considerar que pela visão epifenomenalista deveríamos esperar que muitos seres humanos (um alto percentual) não possuam experiência subjetiva (ou seja, sejam na verdade meros zumbis autômatos, ainda que muito convincentes), já que, à luz do neo-darwinismo, características não essenciais (e não úteis) tendem a ser facultativas e/ou raras na população. Se essa não retroatividade se mostrar de modo extremo, tal epifenomenalismo seria bem provavelmente violador potencial da primeira lei da termodinâmica (a lei da conservação de massa e energia), verdadeiros "buracos negros" sorvedores de massa e energia. Isso corrobora a impressão que tenho dos textos de autores como Susan Blackmore, Benjamin Libet, Guy Claxton, e Francis Crick (mas, de fato, conforme ressalta Wellington, ninguém diz que a experiência subjetiva não existe; afinal, não é muito fácil arranjar emprego nas áreas de neurociências cognitivas e psicologia...).

Francis Crick parece construtivamente engajado em identificar uma possível utilidade evolutiva na experiência subjetiva.

2- In mathematics, it has been argued based on Gödel's theorem that the human mind is able to perform functions which no physical machine can (Lucas 1961, 1968, 1970; MacKay, 1960; Penrose, 1991). In neuro-psychology (see Wald, 1984), cases such as fully functional patients with drastic reductions in brain mass (Lorber, 1981) and autistic subjects who perform mathematical feats without prior training (Smith, 1983) cast doubts on the assumption that all abilities truly reside in the physical brain. [Lorber, J. (1981). Is your brain really necessary?, Nursing Mirror, 152, 29-30. // Wald, G. (1984). Life and mind in the universe, International Journal of Quantum Chemistry: quantum biology symposium, 11, 1-15.]

No trecho acima, Levin apresenta o que ele considera serem fraturas do paradigma monista materialista.

3- In some pilot studies (Alvarado, 1982; Moss, 1974, Tart, 1967), it was shown that OBE practitioners can "travel to" and report upon waking a target outside the lab. The interesting twist was that when the target was actually a mirror reflection of the real target, telepaths guess the number (it is usually a sequence of digits) the way it really is, while most people who report themselves visiting the site out of their physical body describe the target as it would be seen by someone facing the reversed mirror image (although this result is not universally found in all such studies).

Nesse trecho acima, são mostrados alguns experimentos que poderiam atender ao que Wellington alerta com relação à "hipótese espíritos", ou seja, algo potencialmente diferenciador de uma ação "Psi" de uma ação "Espíritos".

4- There have been several studies showing that mental volition can affect quantum phenomena, in the context of affecting statistical properties of binary bit streams generated by particle decay (Honorton, 1979; Jahn and Dunne, 1987); this perhaps lends support to the models (see above) whereby mind interacts with matter at the quantum level. Interestingly, in some experiments, the device "decided" (as determined by a quantum element) within 10-7 seconds.whether a certain quantum event was going to count as a 0 or a 1. The brain works at time scales of milliseconds (10-3 seconds). Thus, it would appear that the physical brain simply is not fast enough to sense the switch and effect a proper response.

Esse trecho acima é interessante (desafiador) para aqueles que consideram que Psi reside (é fruto do) cérebro.

5- I have attempted to show that parapsychology provides a wealth of phenomena which complement some arguments from the traditional sciences in pointing out that materialistic monism is ontologically incomplete.

Isso acima é também o meu ponto de vista, ainda que eu considere o paradigma materialista bastante respeitável (e possivelmente correto, para minha desgraça...).

Enfim, é isso. A única verdade nisso tudo parece ser que a cada passo que damos o mistério aumenta...

Um grande abraço para todos,

Júlio Siqueira.