http://listas.pucsp.br/pipermail/pesquisapsi/2004-July/008703.html
Julio Siqueira
Esse texto foi originalmente postado no fórum Pesquisa Psi, na internet.
Posteriormente, adicionei alguns poucos pontos, mas mantive o formato de
exposição a um fórum internético.
Domingo, Julho 11 11:22:23 BRT 2004
Revisto e atualizado em julho de 2005.
Caros colegas,
Nesse texto abaixo, bem longuinho..., eu exponho em boa dose de minúcias
meus motivos teórico-lógicos para considerar o materialismo como gravemente
falho, e TÃO OU MAIS CONFLITANTE COM AS CIÊNCIAS ESTABELECIDAS (física e
biologia) QUANTO O ESPIRITUALISMO. Esse texto é uma elaboração mais aperfeiçoada
de uma versão anteriormente apresentada no fórum Ceticismo Aberto, originalmente
endereçado à Lígia Amorese, tendo recebido enriquecedores comentários de
Homero. Essa versão mais elaborada atende especialmente a questionamentos
de Venício Loenert, e incorpora algumas contribuições físico-quantitativas
de Leonardo Stern.
Não é minha intenção com esse texto arrancar ninguém da crença ateísta-materialista,
mas... espero que possam dormir sem medo de assombração durante a próxima
noite...
Insuficiências Lógicas e Empíricas do Materialismo, ou:
AS DEZ MILHÕES DE MAÇÃS PERDIDAS DO MATERIALISMO...
Este texto é uma explanação sobre alguns gravíssimos problemas lógico-empíricos
das diversas visões materialistas. Nelo exponho meu ponto de vista de que
as principais versões do materialismo são tão ou mais conflitantes com as
"ciências estabelecidas" (física e biologia) do que o espiritualismo. Na
verdade, eu passei recentemente a considerar o materialismo extremamente
fraco em termos teóricos, o que, contudo, não quer dizer que ele não seja
verdadeiro.
Como trata-se necessariamente de uma comparação entre as "visões espiritualistas"
e as "visões materialistas", vou incialmente comentar por quê eu considero
que o espiritualismo não conflita necessariamente com as ciências estabelecidas
(física e biologia especificamente), em seguida mostrar como e por quê as
"principais versões do materialismo" conflitam com tais ciências, e finalmente
comentar quais deveriam ser as conclusões possíveis (ou, as alternativas...)
em vista dessa situação.
Três críticas principais são tradicionalmente feitas ao espiritualismo dualista
(ou seja, aquele que advoga, por exemplo, a existência de espíritos). Primeiro:
os estados mentais (ou conscienciais) se mostram tão intimamente associados
aos estados cerebrais que parece inegável uma relação pura e simples de causalidade
no sentido "Cérebro Criando a Mente" (consciência). Segundo: à luz dos conhecimentos
biológicos e neurológicos, o espiritualismo é redundante (por preconizar
a existência de "mecanismos de processamento cerebrais espirituais" paralelos
ao cérebro físico) e conseqüentemente desnecessário. E terceiro: à luz dos
conhecimentos da física moderna, o espiritualismo viola leis físicas muito
bem estabelecidas, em especial a primeira lei da termodinâmica, a lei da
conservação de massa e energia (essa lei estabelece que massa e energia não
podem ser criadas ou destruídas, apenas modificadas).
É inegável a existência de sólida correlação entre os estados cerebrais
e os estados da consciência. Contudo, há de fato motivos para dúvidas quanto
a uma real "causalidade pura e simples" do tipo a consciência sendo criada
pelo cérebro e não persistindo sem ele. Fenômenos como a mediunidade, as
lembranças de vidas passadas, e as experiências de quase morte, parecem oferecer
um certo questionamento à visão neurológica tradicional da relação cérebro-consciência.
E não há, também, como negar o aspecto redundante da proposição da existência
de um corpo espiritual. Mas, redundâncias de fato existem no Universo. Nesse
caso, a questão seria se existem ou não evidências desses bizarros corpos
espirituais, independente de eventuais redundâncias. Uma vez detectados satisfatoriamente,
seria então necessário entendermos os motivos (causas) de tais corpos e de
tais redundâncias. Mas uma redundância, por mais estranha que seja, não é
(a princípio) uma incompatibilidade com algum conhecimento científico estabelecido.
Violações de leis físicas podem ser indícios mais rastreáveis. O físico
Zoran Pazameta apresenta a versão talvez mais clássica disso nos seguintes
termos: "...ao desaparecerem do mundo deles e aparecerem no nosso, os espíritos
violam a lei da conservação de matéria em ambos os mundos! E no nosso, isso
simplesmente não pode ocorrer!" (dito em artigo da revista cética Skeptical
Inquirer, edição de setembro/outubro de 2000, "The Laws of Nature - A Skeptic's
Guide" - As Leis da Natureza - Um Guia Cético - disponível na internet).
Uma versão mais elaborada e bem mais interessante desta proposição é feita
pelo biólogo David Wilson no artigo "Mind-Brain Interaction and Violation
of Physical Laws" (Interação Mente-Corpo e Violações de Leis da Física).
David L. Wilson. Journal of Consciousness Studies, 6, No.8-9, 1999, pp. 185-20
(tenho esse artigo em pdf, disponível mediante solicitação). O artigo de
Wilson é interessante e detalhado, tentando quantificar o dispêndio energético
do funcionamento neuronal e mostrando a dificuldade da visão "espiritualista".
Contudo, Wilson não chega na verdade a ir além da frase de Pazameta acima,
e talvez a maior contribuição do artigo de Wilson seja assinalar que mesmo
a abertura (de forma biologicamente útil) de um único canal de íons em um
único neurônio exigiria mais energia do que o esperado para situações "quânticas"
(ou seja, situações onde imperaria o princípio da incerteza da mecânica quântica,
e que são presumivelmente isentas dos limites da lei da conservação da energia,
ao que me parece, dependendo unicamente da aleatoridade quântica).
Resumindo: na verdade a única coisa que Pazameta e outros mostram é que
se espíritos existirem, eles têm que ser detectáveis, e têm que entrar nas
contabilidades das leis físicas, em especial da lei da conservação de energia.
O grande problema nisso é justamente que isso não é, e nem poderia jamais
logicamente ser, um problema! Isso porque, segundo entendo, a lei da conservação
da energia, e seus primos-irmãos físico-químicos (como a afirmação "Na natureza
nada se cria, nada se perde. Tudo se transforma!", ou a terceira lei de Newton,
"A cada ação corresponde uma reação em igual intensidade e em sentido contrário")
é muito menos uma realidade empiricamente demonstrada (ou empiricamente demonstrável!)
do que um princípio lógico inescapável, princípio lógico esse que poderia
ser exposto nos seguintes (e necessariamente redundantes) termos: "Coisas
em interação interagem!". Ou: "Não pode haver interação sem interação.".
Adendo em julho de 2005: esse parágrafo anterior é uma interpretação minha
daquilo que é dito pelos físicos. Imagino que a quase totalidade dos físicos
discorde de mim (e lembrando: meus conhecimentos de física são bem fracos,
ou seja, me baseio em artigos e livros escritos por físicos para leigos,
como os livros de Stephen Hawkin, Roger Penrose, e Murray Gell-mann). Mas
esse papo da violação da lei da conservação da energia é para mim muito estranho.
A impressão que me dá é que na verdade não há violações reais, e sim aparentes
violações. Se algo aparece e não sabemos de onde esse algo veio, então presumimos
que ele veio do nada, e que a quantidade total de massa do Universo aumentou.
Mas como saber isso ao certo? Como saber se na verdade a coisa apenas veio
de outro lugar, através de mecanismos já conhecidos de transmissão de energia
e massa. No caso dos "fenômenos mediúnicos", isso parece bem difícil de detectar.
No caso da chamada "telepatia", conforme estudada
sob o protocolo Ganzfeld, isso (ou seja, violações da primeira lei) é a princípio
mais razoável de ser afirmado. Se tanto o emissor quanto o receptor estiverem
isolados acusticamente e eletromagneticamente, então é bem razoável afirmarmos
que está havendo transmissão de informação, e conseqüentemente de energia,
através de mecanismo desconhecido. (parece que normalmente Ganzfeld não é
feito com isolamento eletromagnético; mas há experimentos similares que são).
Um artigo que comenta alguns pontos interessantes nessa linha está disponível
neste link. Mas ainda assim penso que, a rigor, dizer que "telepatia
em Ganzfeld viola a lei da conservação de energia" é tão temerário quanto
dizer que "o fenômeno do tunelamento quântico viola tal lei" (exemplificado
pelo "salto quântico" de elétrons de uma órbita para outra, onde o elétron
"teletransporta-se de um lugar para outro sem atravessar o espaço interveniente).
Então, penso não haver na física também nenhum impedimento, a princípio,
para a existência de espíritos. O que pode haver (e creio de fato haver)
é ausência de demonstrações satisfatórias.
Contudo, ao pensarmos a respeito do materialismo, a coisa fica, por mais
incrível que possa parecer, bem mais complicada... Isso é especialmente curioso,
já que aparentemente a ideologia dominante nos meios científicos mais poderosos
(em especial nos EUA) é uma "Interpretação Materialista das Ciências Físicas
e Biológicas".
Acontece que o materialismo seria de fato perfeito, e perfeitamente harmonizado
com os nossos conhecimentos físicos e biológicos, se não fosse por um pequeno
detalhe... A Consciência! E, por "consciência", quero dizer basicamente a
"experiência subjetiva" que creio que todos têm e devem saber o que é. Se
não existisse a consciência, o materialismo rodaria redondinho. Com ela,
contudo, o materialismo simplesmente colapsa fragorosamente... (A experiência
subjetiva se constitui a meu ver de três componentes visceralmente relacionados:
primeiro, os "qualia", que seriam os elementos da percepção, como
a vermelhidão que vemos no vermelho, ou a tristeza que sentimos na dor física
ou emocional, etc;
segundo, o sentimento da intencionalidade; e
terceiro,
o sentimento de que entendemos alguma coisa, ou que descobrimos alguma coisa,
ou que acreditamos em alguma coisa, sendo por vezes descrito em inglês como
o "Aha Feeling", ou Momento Eureka!... . O primeiro é perceptivo. O segundo
é "proto-ativo". E o terceiro é associativo)
O problema da consciência pode ser exposto da seguinte forma: De onde diabos
surgiu esse treco de "consciência" (esperiência subjetiva), e quando isso
ocorreu? E também, qual a função disso?
Pode-se, em princípio, admitir três "respostas" para tais questões:
A- A consciência sempre existiu, e existe em tudo, em toda a matéria, e
é um princípio básico do Universo. Esta visão é estreitamente relacionada
ao pampsiquismo, apesar do próprio materialismo clássico ser bem similar
a ela também, ao propor que os estados mentais são idênticos aos estados
cerebrais (esse modo de materialismo é chamado em inglês de "identity view",
ou seja, "a noção de que há uma identidade-igualdade" entre os estados cerebrais
(em especial os estados neurais) e os estados conscienciais, conforme descrito
por Paul Edwards em "Reincarnation: a Critical Examination", 1996 - pag 291,
e por Stan Franklin em "Artificial Minds", 1995 - pag 28). Dois extremos
dessa visão (em seu modo pampsiquista) seriam: primeiro, imaginarmos que
tudo no Universo possui experiência subjetiva, mesmo fótons, mas em um modo
proto-consciencialista, e que talvez os diversos estados organizacionais
da matéria potencializem (ou seja, aumentem) tal experiência subjetiva. Eu
chamo isso de pampsiquismo protoconciencialista. Segundo, imaginarmos que
existe uma Hiperconsciência Universal, e que os diversos estados organizacionais
da matéria atenuam tal hiperconsciência. Essa segunda visão é similar ao
brahmanismo, e eu a chamo de pampsiquismo hiperconsciencialista. A visão
de que a consciência é um atributo básico do Universo por vezes aparece na
literatura científica mais tradicional. Vide link do Journal of Consciousness
Studies, com artigo de John Smythies de 2003: "Space, Time and Consciousness"
- Vol.10, No.3:
http://www.imprint.co.uk/pdf/smythies.pdf
B- A consciência "emergiu" (é uma propriedade emergente do Universo, ou
seja, uma entidade diferente daquilo que lhe deu origem, não equivalendo
a mera soma das partes) em um dado momento da história evolutiva universal,
devido a determinadas condições físico-biológicas bem específicas. A consciência
emegente poderia ser um epifenômeno, ou, alternativamente, ser uma "entidade"
de fato interativa. Essa visão é intrinsicamente dualista, mas muitos materialistas
(não sobrevivencistas) abraçam visões extremamente similares a essa.
C- O "nosso" Universo físico material não consciencial é acoplado a um outro
Universo mental consciencial. A visão de Penrose-Hameroff pode, talvez, ser
vista desse modo ("platonismo"). Vide o link abaixo:
http://www.consciousness.arizona.edu/hameroff/Pen-Ham/Funda-Mentality/Fundamentality.htm
e também o livro de Penrose, O Grande o Pequeno e a Mente Humana (ano 2000).
É inescapável reparar aqui e ali que muitos pensadores dessa área (da área
dos estudos da consciência) assinalam direta ou indiretamete problemas com
a visão da "consciência emergente" (o que, para bom entendedor, equivale
a dizer: problemas com o materialismo). Um sintoma disso é a própria visão
epifenomenalista, segundo a qual a consciência não serve para nada. Vide
a definição no link:
http://plato.stanford.edu/entries/epiphenomenalism/
Nesse link, da Stanford Encyclopedia of Philosophy, é dito que "O epifenomenalismo
é a visão segundo a qual os eventos mentais são causados por eventos físicos
no cérebro, mas não exercem nenhum efeito em qualquer evento físico (Epiphenomenalism
is the view that mental events are caused by physical events in the brain,
but have no effects upon any physical events).
Essa visão é aparentemente bem mais badalada do que eu supunha anteriormente.
O biólogo Michael Levin afirma em um artigo na internet que o epifenomenalismo
é a posição tacitamente aceita pela maioria dos "psicólogos atuantes" ("working
psychologists"). Isso é dito no artigo "What is the Fundamental Nature of
Consciousness? On the contribution of parapsychology to consciousness research"
(Qual a natureza fundamental da consciência? Sobre a contribuição da parapsicologia
para a pesquisa sobre a consciência), disponível no link:
http://perso.wanadoo.fr/basuyaux/parapsy_eng/documents/levin/ijp2001.pdf
Ora, pergunta-se lógicamente sob uma perspectiva neo-darwinista: se a consciência,
conforme vista pelo epifenomenalismo, não serve para nada, então por quê
existe? A resposta seria: porque sim! O cético do CSICOP, filósofo Paul Edwards,
diz exatamente isso em seu livro Reincarnation: a Critical Examination -
1996 - página 294 - apesar dele não parecer ser exatamente epifenomenalista.
Esse "porque sim" nos leva a uma conclusão inescapável: a existência de consciência
(ou seja, de experiência subjetiva) não é uma característica biológica necessária
para a sobrevivência de qualquer espécie, nem mesmo do ser humano. Então,
ela é uma característica neutra, e como tal deve ser facultativa, ou mesmo
rara. Ou seja, pelo epifenomenalismo, deveríamos esperar que muitas das pessoas
à nossa volta (talvez quase todos...) sejam meros zumbis, criaturas que se
comportam em todos os sentidos como se de fato tivessem experiências subjetivas,
mas que na verdade não a possuem.
Existem dois artigos interessantes do Journal of Consciousness Studies que
abordam essa questão, dentre os disponíveis para download. Um é: Todd C.
Moody, "Conversations with zombies" (Volume 1, No.2) - 1994
http://www.imprint.co.uk/Moody_zombies.html
E o outro é: Allin Cottrell, "Sniffing the Camembert: on the conceivability
of zombies" (Volume 6, No.1) - 1999
http://www.imprint.co.uk/cottrell.html
Também Francis Crick oferece insumos altamente interessantes e instigantes
para essa discussão, em seus artigos publicados na Nature em 2001 e em 2003:
"The Zombie Within" - 2001 - Nature (concepts) e "A Framework for Consciousness"
- 2003 - Nature Neuroscience (commentary) (Possuo ambos artigos em pdf, disponíveis
mediante solicitação).
(Para uma exposição sobre os "zumbis" nesse sentido, vide o link abaixo
no Dicionário Cético:
http://brazil.skepdic.com/zombies.html)
Muita coisa estranha é dita por tais autores... Por exemplo, Moody, em 1994,
diz:
"Esse cenário de zumbis, apesar de surpreendente, é uma possibilidade sugerida
por uma teoria recentemente denominada por Owen Flanagan de ‘Inessencialismo
da Consciência’, que é definida assim: ‘A teoria da mente filosoficamente
dominante, funcionalismo computacional, estava (e ainda está) associada à
visão do Inessencialismo da Consciência. Segundo essa visão qualquer atividade
mental ‘M’ realizada em qualquer domínio cognitivo ‘D’, mesmo se ‘M’ for
realizada com presença concomitante de consciência, ‘M’ pode em princípio
ser realizada sem presença concomitante de consciência.’.".
(This scenario of zombies, though surprising, is a possibility suggested
by a theory recently referred to by Owen Flanagan as `conscious inessentialism',
which is defined as follows: "the dominant philosophical theory of mind,
computational functionalism was, and still is, committed to the view of conscious
inessentialism. This is the view that for any mental activity M performed
in any cognitive domain D, even if we do M with conscious accompaniments,
M can in principle be done without these conscious accompaniments) - (Flanagan,
1991)
Ou seja, Flanagan disse em 1991 que a teoria filosoficamente dominante da
mente, que ele chamou de funcionalismo computacional, incorpora a noção da
Inessencialidade da Consciência: qualquer atividade mental possível e imaginável
que seja acompanhada de consciência (experiência subjetiva) pode ser também
realizada, presumivelmente, SEM que tal acessório venha acompanhando. Isso
é uma forma "soft" de epifenomenalismo. Talvez os sistemas biológicos do
planeta Terra ainda não tenham descoberto o "truque" de como colocar um cérebro
humano para funcionar sem que venha junto a DESNECESSÁRIA E INÚTIL CONSCIÊNCIA.
Mas a idéia é que o truque é possível. Mas se é possível, então quem garante
que o truque já não foi descoberto? Então: zumbis, talvez, por todos os lados.
O artigo de Allin Cottrell citado acima, "Sniffing the Camembert: on the
conceivability of zombies", comenta sobre a posição de David Chalmers em
"The Conscious Mind" (em oposição a Daniel Dennet em "Consciousness Explained")
que defende a possibilidade lógica da existência de zumbis (segundo Cottrell,
apesar de Chalmers dizer considerar isso possível logicamente, Chalmers afirma
que seria uma impossibilidade natural devido à "invariância organizacional":
por haver a mesma organização funcional, há que haver a mesma experienciação
subjetiva, como uma necessidade natural. Para mim esse papo de Chalmers parece
incoerente e muito esquisito...)
Então, no Epifenomenalismo: os Zumbis estão por todo o lado!
E no Inessencialismo da Consciência: os Zumbis podem estar por todo o lado!
Agora vem a questão: se dois sistemas funcionam, e eles são idênticos, com
a única diferença que um deles "produz" consciência (experiência subjetiva),
então o sistema que "produz" consciência deve ser, pelas visões tradicionais
da ciência moderna (neo-darwinismo e lei da conservação de energia), mais
dispendioso energeticamente. Alguma forma de energia ou massa em especial
deve ser produzida e dissipada, e isso então seria a consciência (que um
sistema tem e outro não).
Ou seja, a única forma de materialismo que de fato é coerente com o neo-darwinismo
e com a física (ou seja, coerente com a ciência...) é a que aceita a seguinte
proposição:
"A consciência emerge em alguns sistemas complexos, e age de volta de modo
eficaz e adaptativo sobre o sistema do qual ela emergiu." (isso quase equivale
a "o corpo criando o espírito"...)
Existem indicações, como as que vêm dos experimentos de Benjamin Libet,
de que a consciência ou não serve para nada ou serve para algo muito diferente
do que imaginamos (o que equivale a dizer: não sabemos ainda para que diabos
a consciência serve). Os fenômenos relatados por Susan Blackmore, e por seu
"guru" Guy Claxton, da prática de "mindfulness" (aparentemente uma técnica
que seria meio que o "oposto" da meditação), parecem sugerir também que a
consciência "não serve para nada". Até conversar e pensar são atividades
que parecem poder ser executadas "ao largo" da consciência (ao que parece,
na prática de mindfulness o indivíduo se vê pensando e falando sem qualquer
interferência no processo!). Crick chega a dizer que nossos pensamentos talvez
não sejam acessíveis à consciência no momento em que são de fato efetuados!
(em "A Framework for Consciousness", Nature Neuroscience, 2003).
Agora, se a consciência é "criada pelo sistema", e "não oferece um retorno
útil" (epifenomenalismo), então ela viola o neo-darwinismo (isso se alguém
quiser que ela esteja presente em TODOS os seres humanos). Mas se além disso
ela não oferecer retorno nenhum (houver ação, mas não reação), então ela
viola a primeira lei da termodinâmica (conservação de energia), e nossas
consciências seriam na verdade "buracos negros" sorvedores de massa e energia
para "fora" do Universo (isso pode ser bom para impedirmos um big crunch,
e essa talvez seja a única função imaginável para a consciência até o presente
momento...). Mas se há um retorno físico (ação-reação), e não ainda um "retorno
útil", a tendência é que se chegue logo a um "retorno útil" através dos métodos
de tentativa e erro do neo-darwinismo. Se isso não ocorreu ainda, pode ser
uma indicação de que a ausência de um retorno útil seja devido a uma ausência
de retorno físico (ação sem reação).
Quanto de energia estaria desaparecendo do Universo devido ao materialismo
epifenomenalista?
Usa-se o termo "qualia" para se referir aos itens de experienciação subjetiva,
como a vermelhidão que percebemos na maçã ou o azul que percebemos no céu,
ou a sensação de odor doce que percebemos em algumas frutas, ou alguma determinade
tonalidade sonora que percebemos em uma música, etc. Os qualia seriam as
"unidades" (não necessariamente quantificáveis) da experiência subjetiva.
Seriam a essência da consciência.
Imagino que podemos presumir que o corpo "produz" qualia (qualia visual)
a uma taxa semelhante à produzida em um sistema de vídeo do tipo DVD (pelo
menos!). Isso daria os seguintes cálculos abaixo (com conclusão bem simplificada
logo a seguir):
QUANTOS BITS DE QUALIA (EXPERIÊNCIA SUBJETIVA) POR PESSOA POR SEGUNDO?
- 720 pixels x 480 pixels x 30 quadros por segundo x 15 bits (32.768 cores;
eu poderia ter usado 64 mil cores ou 16 milhões, o que daria 16 bits e 24
bits, ou até mais,
mas optei por número menor) = 155.520.000 bits/seg
QUANTO DE ENERGIA PARA CADA BIT DE INFORMAÇÃO?
No nosso mundo, informação se encontra associada (é transmitida por) a massa
ou a energia.
Optei por utilizar como sinônimo de UM BIT uma unidade de
energia relativamente baixa, ou seja, um único fóton da freqüência do
infravermelho. O infravermelho é também uma faixa, e não um ponto, e dentro
desta faixa eu escolhi o que seria o ponto com mais energia. Isso equivaleria
a um fóton com 1 kiloeletrovolt (1 KeV - Obrigado a Leonardo Stern, membro
do fórum internético PesquisaPsi e dono do site Holorresonância, pelos insumos
sobre isso. Qualquer erro terá sido por minha conta). Estou presumindo que
sistemas que utilizem como unidades de informação (bits) fótons menos energéticos
são sistemas mais "sábios evolutivamente" (mais econônicos) do que sistemas
que utilizem fótons mais energéticos como unidades de informação (bits).
Os sistemas neurais muitas vezes se utilizam de unidades de informação bem
mais "dispendiosas" do que a que eu escolhi. Os próprios neurônios da retina,
que são talvez nossos sistemas mais sensívies e "econônicos", utilizam MUITOS
fótons, e fótons MAIS energéticos do que os infravermelhos, como unidades
de informação.
Então acredito ter escolhido uma unidade informacional
muito mais econômica do que a utilizada em qualquer sistema biológico, ou
pelo menos na imensa maioria deles.
Então:
- Para cada bit = um fóton infravermelho com 1 KeV.
QUANTO DE ENERGIA POR PESSOA POR SEGUNDO PARA PRODUÇÃO DE EXPERIÊNCIA SUBJETIVA?
- 1.5 x 10
8 KeV/pessoa/seg
E POR PESSOA POR DIA?
- em 16hs (descontei o sono), 8.5 x 10
12 KeV/pessoa/dia
E POR TODA A POPULAÇÃO MUNDIAL POR DIA (seis bilhões de pessoas)?
- 5 x 10
22 KeV/pop mund/dia = 8 x 10
6 Joule/pop mund/dia
Arredondando para 10
7 J/dia (incluí os sonhos noturnos para fazer
tal arredondamento...), 10 milhões de Joules/dia.
CONCLUSÃO FINAL DESSES CÁLCULOS: Se considerarmos somente os seres humanos
do nosso planeta, estamos "produzindo consciência" pelo menos a uma taxa
de 10 milhões de Joules por dia. Como cada Joule dá para levantar uma maçã
(pouco mais de 100 gramas) a um metro, isso daria para, a cada dia, utilizarmos
tal produção perdida de energia (segundo o epifenomenalismo) para escondermos
10 milhões de maçãs a cada dia!
Alguém por acaso viu onde foram parar as 10 milhões de maçãs perdidas (por
dia!) do materialismo epifenomenalista?
E com relação às outras formas de materialismo. Elas se sairiam, talvez,
melhor do que o epifenomenalismo?
É muito difícil pensar em qual seria a função (biológica) da experiência
subjetiva. E, igualmente, é muito difícil imaginar qualquer situação onde
um sistema biológico dotado de uma protoconsciência pudesse utilizar tal
atributo para competir vantajosamente com seu correlato não consciente. Me
parece muito mais plausível considerar a consciência como algo que sempre
existiu, por mais bizarro e mágico que isso pareça.
A visão que eu chamo de "Materialismo Emergentista Interacionista" (onde
a consciência é algo que emerge do sistema e interage com ele, de modo vantajoso
evolutivamente) atende às demandas do neo-darwinismo e da física (lei da
conservação de energia). Contudo, do mesmo modo que o epifenomenalismo, essa
visão é também bastante dualista, e acaba "criando espíritos" apesar de execrá-los.
Imagina-se que a consciência emergiria de determinados sistemas, e lhes conferiria
vantagem adaptativa. Poderíamos pensar nessa consciência emergindo mesmo
em quaisquer um dos "três sistemas mais primitivos" (classificação minha):
1- Partículas subatômicas interagindo entre si (gerando portanto átomos conscientes);
2- Átomos interagindo entre si (gerando portanto moléculas conscientes);
3- Moléculas interagindo entre si (gerando vias metabólicas conscientes,
ou células conscientes). Mais classicamente, imaginamos que a consciência
emerge "do quarto tipo" de sistemas: células interagindo entre si. E não
apenas quaisquer tipos de células: de células neuronais de alguns seres.
E mais especificamente: de alguns sistemas neuronais do cérebro humano e
de alguns outros animais.
Notem que nas descrições do funcionamento dos neurônios, conforme o moderno
conhecimento das neurociências da cognição e conforme as teorizações computacionais
correlatas, em nenhum momento e em nenhum lugar entra a
consciência.
Em nenhum momento é dito que o sistema neuronal W, justamente
por ter
se tornado consciente, passou a ser mais capaz de influenciar o sistema
neuronal adjacente K, ou mais capaz de influenciar a si próprio, etc. As
descrições que conseguimos oferecer do processo segue solenemente como se
a consciência fosse de fato um produto colateral de importância nula. Daí
inclusive o próprio surgimento da idéia epifenomenalista, ou da visão do
inessencialismo da consciência, etc. Um materialismo emergentista seria mais
viável se um determinado sistema neuronal do cérebro humano gerasse (causasse
a emergência de) um "algo extra" detectável, massa ou energia, que, esse
sim, seria dotado de experiência subjetiva. Não que isso de fato resolvesse
o problema, mas tornaria o materialismo emergentista mais palatável...
Eu digo que não resolveria o problema porque alguém poderia dizer que esse
"algo extra" já existe, e que é o próprio sistema neuronal consciente, que
foi criado por outros sistemas neuronais anteriores não conscientes. Mas
aí entra a questão do por quê esse novo sistema
tem que ser consciente,
e em que essa consciência adicionaria qualidade ao sistema, ou seja, onde
a consciência entraria nas equações deterministas do sistema neuronal? E
esses últimos questionamentos também podem ser extendidos à esse novo "algo
extra" que aludi mais acima, devolvendo ao materialismo emergentista sua
feição claramente impalatável. Por isso que no modelo "materialista emergentista"
de Penrose-Hameroff temos na verdade uma condição no cérebro que de fato
emerge, mas que por si só não
gera consciência, nem faz com que ela
emerja, na verdade
apenas mobilizando um plenum consciencial pré-existente
e básico no Universo (que Penrose parece igualar ao Mundo Platônico).
O Materialismo Emergentista Interacionista é também assolado pelo grave
problema do "Para Quê Serve a Consciência?", e pela dificuldade de imaginarmos
uma situação onde um sistema protoconsciente pudesse competir vantajosamente
com seus correlatos não conscientes.
A visão que talvez deva ser considerada como o "Materialismo Clássico" é
a que é chamada de "Identity View", ou visão da identidade e igualdade entre
os estados cerebrais e os estados da consciência. A primeira pergunta que
surge (novamente) ao pensarmos sobre essa visão é por quê e para quê a consciência
aparece associada a estados cerebrais? Há uma tendência inicial a responder-se
"Porque Sim!" (ou, alternativamente, a "responder" apresentando a pergunta
"Por quê Não?", como fez o filósofo Paul Edwards em "Reincarnation: a Critical
Examination", página 294). Isso dá um desagradável sabor de epifenomenalismo,
ou melhor dizendo, de inutilidade, à consciência. É como se ou a consciência
seria algo inútil mas que viria compulsoriamente junto com alguns sistemas
(e sem que jamais possamos saber o motivo disso), ou seria "algo útil" mas
não "algo extra" (não seria massa ou energia extra ao sistema). Ora, se ela
é algo inútil (a là epifenomenalismo), não há como sabermos ou teorizarmos
a respeito de quão ubíqüa ela de fato é (e então os zumbis retornam...),
e além disso passa a ser forte candidata a violações do neo-darwinismo e
da lei da conservação de energia. Se ela é algo útil mas não cria "algo extra"
(massa ou energia), então ela está em paz com o neo-darwinismo, mas afronta
acintosamente a lei da conservação de energia.
Dá a clara impressão de que o materialismo clássico também nos leva a perder
algo bem próximo a dez milhões de maçãs por dia...
Pessoalmente, a visão que me parece mais aceitável, ou "menos ruim", é o
pampsiquismo hiperconsciencialista brahmanista, onde a consciência seria
máxima (um "plenum" consciencial) mas atenuada pelos diversos estados organizacionais
da matéria (a visão de Penrose-Hameroff apresenta similaridades a isso).
O pampsiquismo proto-consciencialista, onde tudo teria consciência mas em
modo rudimentar (e onde tal protoconsciência seria amplificada talvez pelos
estados organizacionais da matéria) é por demais similar ao materialismo
clássico, ou ao materialismo emergentista interacionista, incorporando algumas
de suas dificuldades. Justamente pela consciência (proto) estar presente
em tudo, teríamos uma situação bastante similar (em termos biológico-evolutivos)
à situação onde a consciência não está em nada (materialismo); e a explicação
para o aparecimento de estados conscienciais aumentados (como o de humanos)
acabaria exigindo a "emergência" de um tipo de consciência especial (isso
se quisermos que haja alguma diferença entre a consciência de humanos e a
consciência de liquidificadores), que seria então evolutivamente vantajosa
em relação aos outros tipos de consciência; enfim, repetindo os problemas
observados nos exemplos "materialistas" citados mais acima.
É importante frisar que mesmo se minhas reflexões forem cem porcento acertadas,
isso não quer dizer necessariamente que haja espíritos, ou que vamos encontrar
nossos entes queridos no pós morte, ou que vamos viver a eternidade em plenitude
feliz no seio de Deus. Se de fato a consciência for permanente e, de certa
forma, indestrutível, nada disso nos dá a menor indicação de que tipo de
experiências teremos no pós morte. Eternidade feliz, eternidade infeliz,
maior ou menor poder consciencial, tudo seriam possibilidades cujas probabilidades
não conhecemos absolutamente nada a respeito. O que temos certeza, através
de nossa experiência pessoal subjetiva, é de que existem diversos estados
de consciência: vigília normal, vigília sob o efeito de drogas, sonolência,
alucinação psicótica, etc. E, na verdade, não podemos dizer que haja períodos
de inconsciência, mas apenas períodos de "ausência de lembrança". Mas sabemos
que existem períodos de ausência de consciência visual (cegueira), auditiva
(surdez), etc (na verdade, talvez nem isso, pois que ao invés de haver "
ausência
de percepção visual de estímulos", o que talvez ocorra seja "
percepção
visual da ausência de estímulos"...).. Então as perpectivas pós morte
não precisam ser, infelizmente, necessariamente boas...
Os motivos pelos quais a idéia de "espíritos", especificamente, é rejeitada
por muitos me parecem ser:
- Ação negativa de "religiosidade malévola" sobre a sociedade, levando parcelas
significativas da "ciência" a ver com suspeição a religião.
- Evidências mal embasadas da existência de espíritos.
- Espíritos acabam sendo tão materiais quanto a matéria ordinária (o que
transparece até no espiritismo kardecista, haja vista o que é dito no Livro
dos Espíritos perguntas 79 e 82 - também no hinduísmo existe essa noção),
e não resolvem em nada o mistério da consciência, apenas jogando tal mistério
"para frente" (ou, como prefeririam alguns, "empurrando com a barriga"...),
e constituindo-se em mera redundância (apesar de talvez real).
É interessante assinalar que há, à luz disso, na verdade dois tipos de "sobrevivências
pós morte" bem distintas: Sobrevivência Objetiva; e Sobrevivência Subjetiva.
A sobrevivência objetiva incluiria: continuidade da substância, das memórias,
e de padrão mental, incluindo alguns aspectos da personalidade.
A sobrevivência subjetiva incluiria basicamente a continuidade da experiência
subjetiva.
Talvez seja prudente introduzirmos a idéia de que, a rigor, a ocorrência
de um dos tipos de sobrevivência acima não implica necessariamente na ocorrência
do outro tipo... E, igualmente, pensarmos melhor a respeito do conceito de
"sobrevivência subjetiva ANTES da morte"!
Clique Aqui para ler o texto
defendendo a cientificidade da Hipótese da Sobrevivência pós Morte.