http://listas.pucsp.br/pipermail/pesquisapsi/2004-July/008703.html

Julio Siqueira


Esse texto foi originalmente postado no fórum Pesquisa Psi, na internet. Posteriormente, adicionei alguns poucos pontos, mas mantive o formato de exposição a um fórum internético.

Domingo, Julho 11 11:22:23 BRT 2004
Revisto e atualizado em julho de 2005.

Caros colegas,

Nesse texto abaixo, bem longuinho..., eu exponho em boa dose de minúcias meus motivos teórico-lógicos para considerar o materialismo como gravemente falho, e TÃO OU MAIS CONFLITANTE COM AS CIÊNCIAS ESTABELECIDAS (física e biologia) QUANTO O ESPIRITUALISMO. Esse texto é uma elaboração mais aperfeiçoada de uma versão anteriormente apresentada no fórum Ceticismo Aberto, originalmente endereçado à Lígia Amorese, tendo recebido enriquecedores comentários de Homero. Essa versão mais elaborada atende especialmente a questionamentos de Venício Loenert, e incorpora algumas contribuições físico-quantitativas de Leonardo Stern.

Não é minha intenção com esse texto arrancar ninguém da crença ateísta-materialista, mas... espero que possam dormir sem medo de assombração durante a próxima noite...

Insuficiências Lógicas e Empíricas do Materialismo, ou:


AS   DEZ   MILHÕES   DE   MAÇÃS   PERDIDAS   DO   MATERIALISMO...



Este texto é uma explanação sobre alguns gravíssimos problemas lógico-empíricos das diversas visões materialistas. Nelo exponho meu ponto de vista de que as principais versões do materialismo são tão ou mais conflitantes com as "ciências estabelecidas" (física e biologia) do que o espiritualismo. Na verdade, eu passei recentemente a considerar o materialismo extremamente fraco em termos teóricos, o que, contudo, não quer dizer que ele não seja verdadeiro.

Como trata-se necessariamente de uma comparação entre as "visões espiritualistas" e as "visões materialistas", vou incialmente comentar por quê eu considero que o espiritualismo não conflita necessariamente com as ciências estabelecidas (física e biologia especificamente), em seguida mostrar como e por quê as "principais versões do materialismo" conflitam com tais ciências, e finalmente comentar quais deveriam ser as conclusões possíveis (ou, as alternativas...) em vista dessa situação.

Três críticas principais são tradicionalmente feitas ao espiritualismo dualista (ou seja, aquele que advoga, por exemplo, a existência de espíritos). Primeiro: os estados mentais (ou conscienciais) se mostram tão intimamente associados aos estados cerebrais que parece inegável uma relação pura e simples de causalidade no sentido "Cérebro Criando a Mente" (consciência). Segundo: à luz dos conhecimentos biológicos e neurológicos, o espiritualismo é redundante (por preconizar a existência de "mecanismos de processamento cerebrais espirituais" paralelos ao cérebro físico) e conseqüentemente desnecessário. E terceiro: à luz dos conhecimentos da física moderna, o espiritualismo viola leis físicas muito bem estabelecidas, em especial a primeira lei da termodinâmica, a lei da conservação de massa e energia (essa lei estabelece que massa e energia não podem ser criadas ou destruídas, apenas modificadas).

É inegável a existência de sólida correlação entre os estados cerebrais e os estados da consciência. Contudo, há de fato motivos para dúvidas quanto a uma real "causalidade pura e simples" do tipo a consciência sendo criada pelo cérebro e não persistindo sem ele. Fenômenos como a mediunidade, as lembranças de vidas passadas, e as experiências de quase morte, parecem oferecer um certo questionamento à visão neurológica tradicional da relação cérebro-consciência.

E não há, também, como negar o aspecto redundante da proposição da existência de um corpo espiritual. Mas, redundâncias de fato existem no Universo. Nesse caso, a questão seria se existem ou não evidências desses bizarros corpos espirituais, independente de eventuais redundâncias. Uma vez detectados satisfatoriamente, seria então necessário entendermos os motivos (causas) de tais corpos e de tais redundâncias. Mas uma redundância, por mais estranha que seja, não é (a princípio) uma incompatibilidade com algum conhecimento científico estabelecido.

Violações de leis físicas podem ser indícios mais rastreáveis. O físico Zoran Pazameta apresenta a versão talvez mais clássica disso nos seguintes termos: "...ao desaparecerem do mundo deles e aparecerem no nosso, os espíritos violam a lei da conservação de matéria em ambos os mundos! E no nosso, isso simplesmente não pode ocorrer!" (dito em artigo da revista cética Skeptical Inquirer, edição de setembro/outubro de 2000, "The Laws of Nature - A Skeptic's Guide" - As Leis da Natureza - Um Guia Cético - disponível na internet).

Uma versão mais elaborada e bem mais interessante desta proposição é feita pelo biólogo David Wilson no artigo "Mind-Brain Interaction and Violation of Physical Laws" (Interação Mente-Corpo e Violações de Leis da Física). David L. Wilson. Journal of Consciousness Studies, 6, No.8-9, 1999, pp. 185-20 (tenho esse artigo em pdf, disponível mediante solicitação). O artigo de Wilson é interessante e detalhado, tentando quantificar o dispêndio energético do funcionamento neuronal e mostrando a dificuldade da visão "espiritualista".

Contudo, Wilson não chega na verdade a ir além da frase de Pazameta acima, e talvez a maior contribuição do artigo de Wilson seja assinalar que mesmo a abertura (de forma biologicamente útil) de um único canal de íons em um único neurônio exigiria mais energia do que o esperado para situações "quânticas" (ou seja, situações onde imperaria o princípio da incerteza da mecânica quântica, e que são presumivelmente isentas dos limites da lei da conservação da energia, ao que me parece, dependendo unicamente da aleatoridade quântica).

Resumindo: na verdade a única coisa que Pazameta e outros mostram é que se espíritos existirem, eles têm que ser detectáveis, e têm que entrar nas contabilidades das leis físicas, em especial da lei da conservação de energia. O grande problema nisso é justamente que isso não é, e nem poderia jamais logicamente ser, um problema! Isso porque, segundo entendo, a lei da conservação da energia, e seus primos-irmãos físico-químicos (como a afirmação "Na natureza nada se cria, nada se perde. Tudo se transforma!", ou a terceira lei de Newton, "A cada ação corresponde uma reação em igual intensidade e em sentido contrário") é muito menos uma realidade empiricamente demonstrada (ou empiricamente demonstrável!) do que um princípio lógico inescapável, princípio lógico esse que poderia ser exposto nos seguintes (e necessariamente redundantes) termos: "Coisas em interação interagem!". Ou: "Não pode haver interação sem interação.".

Adendo em julho de 2005: esse parágrafo anterior é uma interpretação minha daquilo que é dito pelos físicos. Imagino que a quase totalidade dos físicos discorde de mim (e lembrando: meus conhecimentos de física são bem fracos, ou seja, me baseio em artigos e livros escritos por físicos para leigos, como os livros de Stephen Hawkin, Roger Penrose, e Murray Gell-mann). Mas esse papo da violação da lei da conservação da energia é para mim muito estranho. A impressão que me dá é que na verdade não há violações reais, e sim aparentes violações. Se algo aparece e não sabemos de onde esse algo veio, então presumimos que ele veio do nada, e que a quantidade total de massa do Universo aumentou. Mas como saber isso ao certo? Como saber se na verdade a coisa apenas veio de outro lugar, através de mecanismos já conhecidos de transmissão de energia e massa. No caso dos "fenômenos mediúnicos", isso parece bem difícil de detectar. No caso da chamada "telepatia", conforme estudada sob o protocolo Ganzfeld, isso (ou seja, violações da primeira lei) é a princípio mais razoável de ser afirmado. Se tanto o emissor quanto o receptor estiverem isolados acusticamente e eletromagneticamente, então é bem razoável afirmarmos que está havendo transmissão de informação, e conseqüentemente de energia, através de mecanismo desconhecido. (parece que normalmente Ganzfeld não é feito com isolamento eletromagnético; mas há experimentos similares que são). Um artigo que comenta alguns pontos interessantes nessa linha está disponível neste link. Mas ainda assim penso que, a rigor, dizer que "telepatia em Ganzfeld viola a lei da conservação de energia" é tão temerário quanto dizer que "o fenômeno do tunelamento quântico viola tal lei" (exemplificado pelo "salto quântico" de elétrons de uma órbita para outra, onde o elétron "teletransporta-se de um lugar para outro sem atravessar o espaço interveniente).

Então, penso não haver na física também nenhum impedimento, a princípio, para a existência de espíritos. O que pode haver (e creio de fato haver) é ausência de demonstrações satisfatórias.

Contudo, ao pensarmos a respeito do materialismo, a coisa fica, por mais incrível que possa parecer, bem mais complicada... Isso é especialmente curioso, já que aparentemente a ideologia dominante nos meios científicos mais poderosos (em especial nos EUA) é uma "Interpretação Materialista das Ciências Físicas e Biológicas".

Acontece que o materialismo seria de fato perfeito, e perfeitamente harmonizado com os nossos conhecimentos físicos e biológicos, se não fosse  por um pequeno detalhe... A Consciência! E, por "consciência", quero dizer basicamente a "experiência subjetiva" que creio que todos têm e devem saber o que é. Se não existisse a consciência, o materialismo rodaria redondinho. Com ela, contudo, o materialismo simplesmente colapsa fragorosamente... (A experiência subjetiva se constitui a meu ver de três componentes visceralmente relacionados: primeiro, os "qualia", que seriam os elementos da percepção, como a vermelhidão que vemos no vermelho, ou a tristeza que sentimos na dor física ou emocional, etc; segundo, o sentimento da intencionalidade; e terceiro, o sentimento de que entendemos alguma coisa, ou que descobrimos alguma coisa, ou que acreditamos em alguma coisa, sendo por vezes descrito em inglês como o "Aha Feeling", ou Momento Eureka!... . O primeiro é perceptivo. O segundo é "proto-ativo". E o terceiro é associativo)

O problema da consciência pode ser exposto da seguinte forma: De onde diabos surgiu esse treco de "consciência" (esperiência subjetiva), e quando isso ocorreu? E também, qual a função disso?

Pode-se, em princípio, admitir três "respostas" para tais questões:

A- A consciência sempre existiu, e existe em tudo, em toda a matéria, e é um princípio básico do Universo. Esta visão é estreitamente relacionada ao pampsiquismo, apesar do próprio materialismo clássico ser bem similar a ela também, ao propor que os estados mentais são idênticos aos estados cerebrais (esse modo de materialismo é chamado em inglês de "identity view", ou seja, "a noção de que há uma identidade-igualdade" entre os estados cerebrais (em especial os estados neurais) e os estados conscienciais, conforme descrito por Paul Edwards em "Reincarnation: a Critical Examination", 1996 - pag 291, e por Stan Franklin em "Artificial Minds", 1995 - pag 28). Dois extremos dessa visão (em seu modo pampsiquista) seriam: primeiro, imaginarmos que tudo no Universo possui experiência subjetiva, mesmo fótons, mas em um modo proto-consciencialista, e que talvez os diversos estados organizacionais da matéria potencializem (ou seja, aumentem) tal experiência subjetiva. Eu chamo isso de pampsiquismo protoconciencialista. Segundo, imaginarmos que existe uma Hiperconsciência Universal, e que os diversos estados organizacionais da matéria atenuam tal hiperconsciência. Essa segunda visão é similar ao brahmanismo, e eu a chamo de pampsiquismo hiperconsciencialista. A visão de que a consciência é um atributo básico do Universo por vezes aparece na literatura científica mais tradicional. Vide link do Journal of Consciousness Studies, com artigo de John Smythies de 2003: "Space, Time and Consciousness" - Vol.10, No.3:
http://www.imprint.co.uk/pdf/smythies.pdf

B- A consciência "emergiu" (é uma propriedade emergente do Universo, ou seja, uma entidade diferente daquilo que lhe deu origem, não equivalendo a mera soma das partes) em um dado momento da história evolutiva universal, devido a determinadas condições físico-biológicas bem específicas. A consciência emegente poderia ser um epifenômeno, ou, alternativamente, ser uma "entidade" de fato interativa. Essa visão é intrinsicamente dualista, mas muitos materialistas (não sobrevivencistas) abraçam visões extremamente similares a essa.

C- O "nosso" Universo físico material não consciencial é acoplado a um outro Universo mental consciencial. A visão de Penrose-Hameroff pode, talvez, ser vista desse modo ("platonismo"). Vide o link abaixo:
http://www.consciousness.arizona.edu/hameroff/Pen-Ham/Funda-Mentality/Fundamentality.htm
e também o livro de Penrose, O Grande o Pequeno e a Mente Humana (ano 2000).

É inescapável reparar aqui e ali que muitos pensadores dessa área (da área dos estudos da consciência) assinalam direta ou indiretamete problemas com a visão da "consciência emergente" (o que, para bom entendedor, equivale a dizer: problemas com o materialismo). Um sintoma disso é a própria visão epifenomenalista, segundo a qual a consciência não serve para nada. Vide a definição no link:

http://plato.stanford.edu/entries/epiphenomenalism/

Nesse link, da Stanford Encyclopedia of Philosophy, é dito que "O epifenomenalismo é a visão segundo a qual os eventos mentais são causados por eventos físicos no cérebro, mas não exercem nenhum efeito em qualquer evento físico (Epiphenomenalism is the view that mental events are caused by physical events in the brain, but have no effects upon any physical events).

Essa visão é aparentemente bem mais badalada do que eu supunha anteriormente. O biólogo Michael Levin afirma em um artigo na internet que o epifenomenalismo é a posição tacitamente aceita pela maioria dos "psicólogos atuantes" ("working psychologists"). Isso é dito no artigo "What is the Fundamental Nature of Consciousness? On the contribution of parapsychology to consciousness research" (Qual a natureza fundamental da consciência? Sobre a contribuição da parapsicologia para a pesquisa sobre a consciência), disponível no link:
http://perso.wanadoo.fr/basuyaux/parapsy_eng/documents/levin/ijp2001.pdf

Ora, pergunta-se lógicamente sob uma perspectiva neo-darwinista: se a consciência, conforme vista pelo epifenomenalismo, não serve para nada, então por quê existe? A resposta seria: porque sim! O cético do CSICOP, filósofo Paul Edwards, diz exatamente isso em seu livro Reincarnation: a Critical Examination - 1996 - página 294 - apesar dele não parecer ser exatamente epifenomenalista. Esse "porque sim" nos leva a uma conclusão inescapável: a existência de consciência (ou seja, de experiência subjetiva) não é uma característica biológica necessária para a sobrevivência de qualquer espécie, nem mesmo do ser humano. Então, ela é uma característica neutra, e como tal deve ser facultativa, ou mesmo rara. Ou seja, pelo epifenomenalismo, deveríamos esperar que muitas das pessoas à nossa volta (talvez quase todos...) sejam meros zumbis, criaturas que se comportam em todos os sentidos como se de fato tivessem experiências subjetivas, mas que na verdade não a possuem.

Existem dois artigos interessantes do Journal of Consciousness Studies que abordam essa questão, dentre os disponíveis para download. Um é: Todd C. Moody, "Conversations with zombies" (Volume 1, No.2) - 1994
http://www.imprint.co.uk/Moody_zombies.html

E o outro é: Allin Cottrell, "Sniffing the Camembert: on the conceivability of zombies" (Volume 6, No.1) - 1999
http://www.imprint.co.uk/cottrell.html

Também Francis Crick oferece insumos altamente interessantes e instigantes para essa discussão, em seus artigos publicados na Nature em 2001 e em 2003: "The Zombie Within" - 2001 - Nature (concepts) e "A Framework for Consciousness" - 2003 - Nature Neuroscience (commentary) (Possuo ambos artigos em pdf, disponíveis mediante solicitação).

(Para uma exposição sobre os "zumbis" nesse sentido, vide o link abaixo no Dicionário Cético:
http://brazil.skepdic.com/zombies.html)

Muita coisa estranha é dita por tais autores... Por exemplo, Moody, em 1994, diz:

"Esse cenário de zumbis, apesar de surpreendente, é uma possibilidade sugerida por uma teoria recentemente denominada por Owen Flanagan de ‘Inessencialismo da Consciência’, que é definida assim: ‘A teoria da mente filosoficamente dominante, funcionalismo computacional, estava (e ainda está) associada à visão do Inessencialismo da Consciência. Segundo essa visão qualquer atividade mental ‘M’ realizada em qualquer domínio cognitivo ‘D’, mesmo se ‘M’ for realizada com presença concomitante de consciência, ‘M’ pode em princípio ser realizada sem presença concomitante de consciência.’.".

(This scenario of zombies, though surprising, is a possibility suggested by a theory recently referred to by Owen Flanagan as `conscious inessentialism', which is defined as follows: "the dominant philosophical theory of mind, computational functionalism was, and still is, committed to the view of conscious inessentialism. This is the view that for any mental activity M performed in any cognitive domain D, even if we do M with conscious accompaniments, M can in principle be done without these conscious accompaniments) - (Flanagan, 1991)

Ou seja, Flanagan disse em 1991 que a teoria filosoficamente dominante da mente, que ele chamou de funcionalismo computacional, incorpora a noção da Inessencialidade da Consciência: qualquer atividade mental possível e imaginável que seja acompanhada de consciência (experiência subjetiva) pode ser também realizada, presumivelmente, SEM que tal acessório venha acompanhando. Isso é uma forma "soft" de epifenomenalismo. Talvez os sistemas biológicos do planeta Terra ainda não tenham descoberto o "truque" de como colocar um cérebro humano para funcionar sem que venha junto a DESNECESSÁRIA E INÚTIL CONSCIÊNCIA. Mas a idéia é que o truque é possível. Mas se é possível, então quem garante que o truque já não foi descoberto? Então: zumbis, talvez, por todos os lados.

O artigo de Allin Cottrell citado acima, "Sniffing the Camembert: on the conceivability of zombies", comenta sobre a posição de David Chalmers em "The Conscious Mind" (em oposição a Daniel Dennet em "Consciousness Explained") que defende a possibilidade lógica da existência de zumbis (segundo Cottrell, apesar de Chalmers dizer considerar isso possível logicamente, Chalmers afirma que seria uma impossibilidade natural devido à "invariância organizacional": por haver a mesma organização funcional, há que haver a mesma experienciação subjetiva, como uma necessidade natural. Para mim esse papo de Chalmers parece incoerente e muito esquisito...)

Então, no Epifenomenalismo: os Zumbis estão por todo o lado!

E no Inessencialismo da Consciência: os Zumbis podem estar por todo o lado!

Agora vem a questão: se dois sistemas funcionam, e eles são idênticos, com a única diferença que um deles "produz" consciência (experiência subjetiva), então o sistema que "produz" consciência deve ser, pelas visões tradicionais da ciência moderna (neo-darwinismo e lei da conservação de energia), mais dispendioso energeticamente. Alguma forma de energia ou massa em especial deve ser produzida e dissipada, e isso então seria a consciência (que um sistema tem e outro não).

Ou seja, a única forma de materialismo que de fato é coerente com o neo-darwinismo e com a física (ou seja, coerente com a ciência...) é a que aceita a seguinte proposição:

"A consciência emerge em alguns sistemas complexos, e age de volta de modo eficaz e adaptativo sobre o sistema do qual ela emergiu." (isso quase equivale a "o corpo criando o espírito"...)

Existem indicações, como as que vêm dos experimentos de Benjamin Libet, de que a consciência ou não serve para nada ou serve para algo muito diferente do que imaginamos (o que equivale a dizer: não sabemos ainda para que diabos a consciência serve). Os fenômenos relatados por Susan Blackmore, e por seu "guru" Guy Claxton, da prática de "mindfulness" (aparentemente uma técnica que seria meio que o "oposto" da meditação), parecem sugerir também que a consciência "não serve para nada". Até conversar e pensar são atividades que parecem poder ser executadas "ao largo" da consciência (ao que parece, na prática de mindfulness o indivíduo se vê pensando e falando sem qualquer interferência no processo!). Crick chega a dizer que nossos pensamentos talvez não sejam acessíveis à consciência no momento em que são de fato efetuados! (em "A Framework for Consciousness", Nature Neuroscience, 2003).

Agora, se a consciência é "criada pelo sistema", e "não oferece um retorno útil" (epifenomenalismo), então ela viola o neo-darwinismo (isso se alguém quiser que ela esteja presente em TODOS os seres humanos). Mas se além disso ela não oferecer retorno nenhum (houver ação, mas não reação), então ela viola a primeira lei da termodinâmica (conservação de energia), e nossas consciências seriam na verdade "buracos negros" sorvedores de massa e energia para "fora" do Universo (isso pode ser bom para impedirmos um big crunch, e essa talvez seja a única função imaginável para a consciência até o presente momento...). Mas se há um retorno físico (ação-reação), e não ainda um "retorno útil", a tendência é que se chegue logo a um "retorno útil" através dos métodos de tentativa e erro do neo-darwinismo. Se isso não ocorreu ainda, pode ser uma indicação de que a ausência de um retorno útil seja devido a uma ausência de retorno físico (ação sem reação).

Quanto de energia estaria desaparecendo do Universo devido ao materialismo epifenomenalista?

Usa-se o termo "qualia" para se referir aos itens de experienciação subjetiva, como a vermelhidão que percebemos na maçã ou o azul que percebemos no céu, ou a sensação de odor doce que percebemos em algumas frutas, ou alguma determinade tonalidade sonora que percebemos em uma música, etc. Os qualia seriam as "unidades" (não necessariamente quantificáveis) da experiência subjetiva. Seriam a essência da consciência.

Imagino que podemos presumir que o corpo "produz" qualia (qualia visual) a uma taxa semelhante à produzida em um sistema de vídeo do tipo DVD (pelo menos!). Isso daria os seguintes cálculos abaixo (com conclusão bem simplificada logo a seguir):

QUANTOS BITS DE QUALIA (EXPERIÊNCIA SUBJETIVA) POR PESSOA POR SEGUNDO?

- 720 pixels x 480 pixels x 30 quadros por segundo x 15 bits (32.768 cores; eu poderia ter usado 64 mil cores ou 16 milhões, o que daria 16 bits e 24 bits, ou até mais, mas optei por número menor) = 155.520.000 bits/seg

QUANTO DE ENERGIA PARA CADA BIT DE INFORMAÇÃO?

No nosso mundo, informação se encontra associada (é transmitida por) a massa ou a energia. Optei por utilizar como sinônimo de UM BIT uma unidade de energia relativamente baixa, ou seja, um único fóton da freqüência do infravermelho. O infravermelho é também uma faixa, e não um ponto, e dentro desta faixa eu escolhi o que seria o ponto com mais energia. Isso equivaleria a um fóton com 1 kiloeletrovolt (1 KeV - Obrigado a Leonardo Stern, membro do fórum internético PesquisaPsi e dono do site Holorresonância, pelos insumos sobre isso. Qualquer erro terá sido por minha conta). Estou presumindo que sistemas que utilizem como unidades de informação (bits) fótons menos energéticos são sistemas mais "sábios evolutivamente" (mais econônicos) do que sistemas que utilizem fótons mais energéticos como unidades de informação (bits). Os sistemas neurais muitas vezes se utilizam de unidades de informação bem mais "dispendiosas" do que a que eu escolhi. Os próprios neurônios da retina, que são talvez nossos sistemas mais sensívies e "econônicos", utilizam MUITOS fótons, e fótons MAIS energéticos do que os infravermelhos, como unidades de informação. Então acredito ter escolhido uma unidade informacional muito mais econômica do que a utilizada em qualquer sistema biológico, ou pelo menos na imensa maioria deles.

Então:
- Para cada bit =  um fóton infravermelho com 1 KeV.

QUANTO DE ENERGIA POR PESSOA POR SEGUNDO PARA PRODUÇÃO DE EXPERIÊNCIA SUBJETIVA?

- 1.5 x 108 KeV/pessoa/seg

E POR PESSOA POR DIA?
- em 16hs (descontei o sono), 8.5 x 1012 KeV/pessoa/dia

E POR TODA A POPULAÇÃO MUNDIAL POR DIA (seis bilhões de pessoas)?
- 5 x 1022 KeV/pop mund/dia = 8 x 106 Joule/pop mund/dia

Arredondando para 107 J/dia (incluí os sonhos noturnos para fazer tal arredondamento...), 10 milhões de Joules/dia.

CONCLUSÃO FINAL DESSES CÁLCULOS: Se considerarmos somente os seres humanos do nosso planeta, estamos "produzindo consciência" pelo menos a uma taxa de 10 milhões de Joules por dia. Como cada Joule dá para levantar uma maçã (pouco mais de 100 gramas) a um metro, isso daria para, a cada dia, utilizarmos tal produção perdida de energia (segundo o epifenomenalismo) para escondermos 10 milhões de maçãs a cada dia!

Alguém por acaso viu onde foram parar as 10 milhões de maçãs perdidas (por dia!) do materialismo epifenomenalista?

E com relação às outras formas de materialismo. Elas se sairiam, talvez, melhor do que o epifenomenalismo?

É muito difícil pensar em qual seria a função (biológica) da experiência subjetiva. E, igualmente, é muito difícil imaginar qualquer situação onde um sistema biológico dotado de uma protoconsciência pudesse utilizar tal atributo para competir vantajosamente com seu correlato não consciente. Me parece muito mais plausível considerar a consciência como algo que sempre existiu, por mais bizarro e mágico que isso pareça.

A visão que eu chamo de "Materialismo Emergentista Interacionista" (onde a consciência é algo que emerge do sistema e interage com ele, de modo vantajoso evolutivamente) atende às demandas do neo-darwinismo e da física (lei da conservação de energia). Contudo, do mesmo modo que o epifenomenalismo, essa visão é também bastante dualista, e acaba "criando espíritos" apesar de execrá-los. Imagina-se que a consciência emergiria de determinados sistemas, e lhes conferiria vantagem adaptativa. Poderíamos pensar nessa consciência emergindo mesmo em quaisquer um dos "três sistemas mais primitivos" (classificação minha): 1- Partículas subatômicas interagindo entre si (gerando portanto átomos conscientes); 2- Átomos interagindo entre si (gerando portanto moléculas conscientes); 3- Moléculas interagindo entre si (gerando vias metabólicas conscientes, ou células conscientes). Mais classicamente, imaginamos que a consciência emerge "do quarto tipo" de sistemas: células interagindo entre si. E não apenas quaisquer tipos de células: de células neuronais de alguns seres. E mais especificamente: de alguns sistemas neuronais do cérebro humano e de alguns outros animais.

Notem que nas descrições do funcionamento dos neurônios, conforme o moderno conhecimento das neurociências da cognição e conforme as teorizações computacionais correlatas, em nenhum momento e em nenhum lugar entra a consciência. Em nenhum momento é dito que o sistema neuronal W, justamente por ter se tornado consciente, passou a ser mais capaz de influenciar o sistema neuronal adjacente K, ou mais capaz de influenciar a si próprio, etc. As descrições que conseguimos oferecer do processo segue solenemente como se a consciência fosse de fato um produto colateral de importância nula. Daí inclusive o próprio surgimento da idéia epifenomenalista, ou da visão do inessencialismo da consciência, etc. Um materialismo emergentista seria mais viável se um determinado sistema neuronal do cérebro humano gerasse (causasse a emergência de) um "algo extra" detectável, massa ou energia, que, esse sim, seria dotado de experiência subjetiva. Não que isso de fato resolvesse o problema, mas tornaria o materialismo emergentista mais palatável...

Eu digo que não resolveria o problema porque alguém poderia dizer que esse "algo extra" já existe, e que é o próprio sistema neuronal consciente, que foi criado por outros sistemas neuronais anteriores não conscientes. Mas aí entra a questão do por quê esse novo sistema tem que ser consciente, e em que essa consciência adicionaria qualidade ao sistema, ou seja, onde a consciência entraria nas equações deterministas do sistema neuronal? E esses últimos questionamentos também podem ser extendidos à esse novo "algo extra" que aludi mais acima, devolvendo ao materialismo emergentista sua feição claramente impalatável. Por isso que no modelo "materialista emergentista" de Penrose-Hameroff temos na verdade uma condição no cérebro que de fato emerge, mas que por si só não gera consciência, nem faz com que ela emerja, na verdade apenas mobilizando um plenum consciencial pré-existente e básico no Universo (que Penrose parece igualar ao Mundo Platônico).

O Materialismo Emergentista Interacionista é também assolado pelo grave problema do "Para Quê Serve a Consciência?", e pela dificuldade de imaginarmos uma situação onde um sistema protoconsciente pudesse competir vantajosamente com seus correlatos não conscientes.

A visão que talvez deva ser considerada como o "Materialismo Clássico" é a que é chamada de "Identity View", ou visão da identidade e igualdade entre os estados cerebrais e os estados da consciência. A primeira pergunta que surge (novamente) ao pensarmos sobre essa visão é por quê e para quê a consciência aparece associada a estados cerebrais? Há uma tendência inicial a responder-se "Porque Sim!" (ou, alternativamente, a "responder" apresentando a pergunta "Por quê Não?", como fez o filósofo Paul Edwards em "Reincarnation: a Critical Examination", página 294). Isso dá um desagradável sabor de epifenomenalismo, ou melhor dizendo, de inutilidade, à consciência. É como se ou a consciência seria algo inútil mas que viria compulsoriamente junto com alguns sistemas (e sem que jamais  possamos saber o motivo disso), ou seria "algo útil" mas não "algo extra" (não seria massa ou energia extra ao sistema). Ora, se ela é algo inútil (a là epifenomenalismo), não há como sabermos ou teorizarmos a respeito de quão ubíqüa ela de fato é (e então os zumbis retornam...), e além disso passa a ser forte candidata a violações do neo-darwinismo e da lei da conservação de energia. Se ela é algo útil mas não cria "algo extra" (massa ou energia), então ela está em paz com o neo-darwinismo, mas afronta acintosamente a lei da conservação de energia.

Dá a clara impressão de que o materialismo clássico também nos leva a perder algo bem próximo a dez milhões de maçãs por dia...

Pessoalmente, a visão que me parece mais aceitável, ou "menos ruim", é o pampsiquismo hiperconsciencialista brahmanista, onde a consciência seria máxima (um "plenum" consciencial) mas atenuada pelos diversos estados organizacionais da matéria (a visão de Penrose-Hameroff apresenta similaridades a isso). O pampsiquismo proto-consciencialista, onde tudo teria consciência mas em modo rudimentar (e onde tal protoconsciência seria amplificada talvez pelos estados organizacionais da matéria) é por demais similar ao materialismo clássico, ou ao materialismo emergentista interacionista, incorporando algumas de suas dificuldades. Justamente pela consciência (proto) estar presente em tudo, teríamos uma situação bastante similar (em termos biológico-evolutivos) à situação onde a consciência não está em nada (materialismo); e a explicação para o aparecimento de estados conscienciais aumentados (como o de humanos) acabaria exigindo a "emergência" de um tipo de consciência especial (isso se quisermos que haja alguma diferença entre a consciência de humanos e a consciência de liquidificadores), que seria então evolutivamente vantajosa em relação aos outros tipos de consciência; enfim, repetindo os problemas observados nos exemplos "materialistas" citados mais acima.

É importante frisar que mesmo se minhas reflexões forem cem porcento acertadas, isso não quer dizer necessariamente que haja espíritos, ou que vamos encontrar nossos entes queridos no pós morte, ou que vamos viver a eternidade em plenitude feliz no seio de Deus. Se de fato a consciência for permanente e, de certa forma, indestrutível, nada disso nos dá a menor indicação de que tipo de experiências teremos no pós morte. Eternidade feliz, eternidade infeliz, maior ou menor poder consciencial, tudo seriam possibilidades cujas probabilidades não conhecemos absolutamente nada a respeito. O que temos certeza, através de nossa experiência pessoal subjetiva, é de que existem diversos estados de consciência: vigília normal, vigília sob o efeito de drogas, sonolência, alucinação psicótica, etc. E, na verdade, não podemos dizer que haja períodos de inconsciência, mas apenas períodos de "ausência de lembrança". Mas sabemos que existem períodos de ausência de consciência visual (cegueira), auditiva (surdez), etc (na verdade, talvez nem isso, pois que ao invés de haver "ausência de percepção visual de estímulos", o que talvez ocorra seja "percepção visual da ausência de estímulos"...).. Então as perpectivas pós morte não precisam ser, infelizmente, necessariamente boas...

Os motivos pelos quais a idéia de "espíritos", especificamente, é rejeitada por muitos me parecem ser:

- Ação negativa de "religiosidade malévola" sobre a sociedade, levando parcelas significativas da "ciência" a ver com suspeição a religião.
- Evidências mal embasadas da existência de espíritos.
- Espíritos acabam sendo tão materiais quanto a matéria ordinária (o que transparece até no espiritismo kardecista, haja vista o que é dito no Livro dos Espíritos perguntas 79 e 82 - também no hinduísmo existe essa noção), e não resolvem em nada o mistério da consciência, apenas jogando tal mistério "para frente" (ou, como prefeririam alguns, "empurrando com a barriga"...), e constituindo-se em mera redundância (apesar de talvez real).

É interessante assinalar que há, à luz disso, na verdade dois tipos de "sobrevivências pós morte" bem distintas: Sobrevivência Objetiva; e Sobrevivência Subjetiva.

A sobrevivência objetiva incluiria: continuidade da substância, das memórias, e de padrão mental, incluindo alguns aspectos da personalidade.

A sobrevivência subjetiva incluiria basicamente a continuidade da experiência subjetiva.

Talvez seja prudente introduzirmos a idéia de que, a rigor, a ocorrência de um dos tipos de sobrevivência acima não implica necessariamente na ocorrência do outro tipo... E, igualmente, pensarmos melhor a respeito do conceito de "sobrevivência subjetiva ANTES da morte"!

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