Páginas do Editor
QUEM PODE TRADUZIR A PRIMEIRA PEDRA?
Gustavo Bernardo
Publicado em Jornal do Brasil, 16/07/2005.
Hans-Georg Gadamer. Quem sou eu, quem és tu?
Tradução de Raquel Abi-Sâmara. Rio de Janeiro: EdUERJ, 2005.
O pensador suíço Rainer Guldin, em artigo de 2002, ressalta o caráter de duplo vínculo (double-bind) de todos os processos de tradução, revelado através do confronto de necessidades contraditórias entre si: de manter fidelidade ao texto original e, ao mesmo tempo, de adaptar esse texto original ao contexto da nova língua. O tradutor consciente desse caráter, portanto da armadilha que escolhe para si mesmo, acostuma-se a aceitar o fracasso da sua tarefa como seu próprio destino. O problema naturalmente se torna maior quando a tarefa que se apresenta é a de traduzir poesia.
O que dizer então de um tradutor que se arvora em traduzir um livro sobre poesia, no qual precisará também traduzir os poemas? A língua do livro e dos poemas não precisa nem ser o alemão para o desafio já se mostrar suficientemente grande. O livro que resenhamos, porém, foi escrito pelo filósofo alemão Hans-Georg Gadamer (1900-2002) para comentar um conjunto de poemas do romeno Paul Celan (1920-1970), escritos originalmente também em alemão. A tradutora, que dá conta do recado, ou, se quisermos, “fracassa” brilhantemente, chama-se Raquel Abi-Sâmara.
A ênfase no seu nome, logo, na tradução, explica-se não somente para homenagear todos aqueles que escolhem este trabalho de Sísifo como profissão, mas também por conta do próprio livro traduzido. Os leitores são contemplados com o prefácio de Raquel, condensação da sua tese de doutorado sobre Gadamer, onde se tecem considerações deveras importantes, sobre a tradução em geral, e sobre esta tradução em particular. Por exemplo: que a tessitura de um poema exige uma negociação ao ser traduzida: ora se ganha no aspecto sonoro, métrico, ora se ganha no aspecto semântico, de sentido, e isto, ora na língua de partida, ora na língua de chegada. O que se ganha num aspecto e numa língua, no entanto, perde-se em outro aspecto e na outra língua. O tradutor precisa conviver com essas perdas, para minimizar a carência dos leitores que não podem ler no original daquela língua.
Depois, os leitores são apresentados aos poemas do livro de Celan, Atemkristall, traduzido como Hausto-Cristal. São os poemas desse livro que Gadamer comenta. Os poemas são densos e difíceis, escritos por um poeta que perdeu os pais, assassinados pelos nazistas enquanto ele mesmo era preso, por quase dois anos, num campo de concentração alemão. É esse poeta que traduziu mais de quarenta poetas, de diferentes línguas, inclusive o português de Fernando Pessoa, para o alemão. É esse poeta que escreveu poemas, e em alemão, não apenas depois da sua própria experiência terrível, como depois da célebre e polêmica frase de Theodor Adorno: “escrever um poema após Auschwitz é um ato bárbaro”. Na verdade, Paul Celan escreve poesia após, apesar de e por causa de Auschwitz. Pois são de Paul Celan versos como estes:
|
Nos rios ao norte do futuro lanço a rede que tu hesitante lastreias de sombras escritas com pedras. |
In dem Flüssen nördlich der Zukunft werf ich das Netz aus, das du zögernd beschwerst mit von Steinen geschriebenen Schätten. |
Os comentários de Gadamer a estes e aos demais versos lhes fazem jus, mostrando a mesma densidade. O filósofo, autor do conhecido Verdade e método (1960), insiste na intraduzibilidade da poesia, quer de uma língua para a outra, quer para a mesma língua. Com isso, ele diz que a poesia é intraduzível e ininterpretável – mesmo assim, é preciso tentar a tradução e tentar a interpretação, desde que se tenha claro o horizonte de fracasso que se tem pela frente. Como lembrava Celan, “a realidade não é, a realidade vai ser procurada”.
A experiência de leitura é já uma experiência de tradução. Ler é como traduzir – Lesen ist wie Übersetzen –, afirma Gadamer, em ensaio de 1989. Por isso, é preciso não ser um leitor apressado. A compreensão total jamais chega. Nunca se sabe “o que o autor quis dizer”. Aliás, nem o autor costuma saber exatamente o que quis dizer, porque lhe importa, antes, o ato mesmo de dizê-lo. No entanto, se o leitor for paciente, “se continuar ouvindo”, alguma compreensão lhe chega. O que esse leitor paciente precisa saber? A resposta do filósofo não poderia ser mais generosa: “ele deve saber somente aquilo que o ouvido poético pode suportar sem ficar surdo. Freqüentemente isto será muito pouco, mas será ainda muito mais daquilo que ele já sabia antes”.
O título do livro de Gadamer, Quem sou eu, quem és tu?, remete, sob forma de questão permanente, ao verso de Celan: “sou tu quando sou eu” (ich bin du, wenn ich ich bin). O verso, é claro, ecoa Rimbaud: “eu é um outro” (je est un autre). As pessoas do discurso, neste caso pessoas poéticas, põem sob suspeita a própria noção de identidade. Esta noção esconde, sem que o percebamos, o seu contrário: se “tenho” uma identidade, significa que sou “idêntico”, mas a quê? Decerto, a um modelo recalcado. O que menos se sabe, apesar do oráculo de Delfos, apesar de Descartes, é sobre si mesmo. Este é um saber também destinado ao fracasso, porque, no dizer do próprio Gadamer, “o Ser que pode ser compreendido é linguagem”.
A tradução deste livro exigiu a paciência que Gadamer pede de qualquer leitor. Raquel Abi-Sâmara chegou a fazer, na Alemanha, uma longa entrevista pessoal com o filósofo quando ele já contava 101 anos. A conversa entre a tradutora e o pensador, fundamental para a tradução e para o ensaio introdutório de Raquel, se deu pouco depois de o mundo se acabar, isto é, pouco dias depois da queda das torres gêmeas. Pela circunstância e pela conversa em si, também deveria estar publicada no volume. Essa é a única restrição que faço a este livro absolutamente precioso.