DUBITO ERGO SUM

 Páginas do Editor

VIVENDO A TEORIA

Gustavo Bernardo

 

 

Maria Antonieta Jordão de Oliveira Borba.
Tópicos de teoria:
para a investigação do discurso literário.
Rio de Janeiro: 7Letras, 2004.

Resenha publicada no Suplemento Idéias,
do Jornal do Brasil, em 05/02/2005.

 

 

Nos extremos, a disciplina Teoria da Literatura pode ser encarada ora como "perfumologia", ora como "indecidibililogia". Compreendem-na no primeiro caso aquelas pessoas que têm muito pouca intimidade com literatura, a ponto de ainda acharem, como o cura de Don Quijote de La Mancha há 400 anos, que a leitura de livros de poesia ou ficção "faz mal", afastando-nos da "realidade". Compreendem-na no segundo caso aquelas pessoas que já têm bastante intimidade com literatura, mas se ressentem não apenas do jargão pesado dos textos teóricos, como também das longas discussões sobre aporias e impasses que, por definição, não podem ser resolvidos.

Entre estes extremos, um pecando por excesso de ignorância e o outro, talvez, por excesso de presunção, encontra-se a alternativa de perceber a Teoria da Literatura como uma espécie de epistemologia, isto é, de teoria do conhecimento. Na medida em que a literatura parte de elementos do real para produzir uma "nova realidade", que para bom leitor parece mais intensa do que "a realidade mesma", coloca-se em crise justamente o conhecimento que se tem do real. Ao deslocar a perspectiva cotidiana do leitor, forçando-o, mas com o seu consentimento, a acompanhar por dentro a perpectiva do outro, por exemplo do narrador, reconfigura-se o entendimento do mundo.

É neste momento que a Teoria da Literatura comparece, explicitando, aprofundando e discutindo a suspeita que a literatura levantara sobre o que supúnhamos conhecer. No que estuda esse curioso processo de perspectivização, termina por estudar o próprio estudo, ou seja, as maneiras como conhecemos, desconhecemos e reconhecemos. A Teoria da Literatura se torna, portanto, uma epistemologia da melhor qualidade. Ora, o livro de Maria Antonieta Jordão de Oliveira Borba, Tópicos de teoria, se insere à perfeição nesta terceira via.

Entendendo que a disciplina necessariamente dialoga o tempo todo com os demais saberes das ciências ditas humanas e sociais, como os da Lingüística e da Psicanálise, a autora combate as concepções imanentistas de linguagem que prevaleceram em muitas das abordagens do fenômeno literário, concepções estas que favoreceram a vertente "perfumológica", quer dizer, a vertente que monumentaliza a literatura e os seus autores, reificando-os e congelando-os em quadros estáticos, como o dos famigerados estilos de época, de desagradável lembrança para os que passaram pelo ensino médio e sofreram com as simplificações dos seus livros didáticos (entre as quais aquela gangorra absurda entre os séculos, ora marcados pela "razão", ora pela "emoção"). Ao combater essas concepções, Antonieta tomou o texto literário não como uma "coisa em si", mas sim como parte de um processo que envolve o texto e o contexto, o autor e o leitor, o presente e o passado, o que se conhece e o que não se conhece: a palavra e a lacuna, em suma.

Para tanto, estudou as correntes críticas a partir dos princípios controladores do discurso; as relações da Teoria da Literatura com a Lingüística e a Psicanálise; as teorias da interpretação de Foucault, Derrida e Barthes; e a teoria do efeito estético de Wolfgang Iser. Todos os pontos deste livro são altos, mas o ponto mais alto, digamos, seu momento culminante, encontra-se exatamente na discussão da teoria do efeito estético. Na concepção de Iser, estudada por Maria Antonieta neste e no seu outro livro, Teoria do efeito estético (Niterói: EdUFF, 2003), importa menos descobrir a melhor metodologia para destrinchar o texto, e assim lhe extrair "a verdade", do que a investigação permanente e interminável dos acordos que os leitores fazem com os livros e dos efeitos que os livros provocam nos leitores.

Para dar apenas um pequeno exemplo: à página 146, a autora lembra que o comércio ficcional só se realiza quando o leitor se dispõe a "sair" de sua posição de sujeito da realidade para se tornar um "leitor implícito", isto é, uma espécie de personagem subterrâneo do próprio livro que lê, identificando-se com a narrativa ao mesmo tempo em que se distancia de si mesmo – ao mesmo tempo em que se torna um outro, cumprindo o ditame de Rimbaud: "je est un autre". A partir deste raciocínio, temos todos os elementos para compreender a catarse, constitutiva da literatura, como uma terapia, sim – mas como uma terapia da razão ensandecida pela auto-referência.

O leitor conhece que não se conhece, porque seu conhecimento de si escapa de si mesmo através da leitura e da catarse. Em conseqüência, ele precisa pôr sob suspeita o seu conhecimento sobre o "resto", forçando-se a abandonar a pretensão da "resposta certa", ou da "interpretação correta", em favor de continuar duvidando, investigando e lendo: os livros e o mundo. O significado, no dizer de Iser, deixa de ser um objeto a ser definido, tornando-se um efeito a ser experimentado – portanto, vivido.

É o que faz Maria Antonieta Jordão de Oliveira Borba, com esse seu nome aristocrático: vive magnificamente a sua teoria.