DUBITO ERGO SUM

 Páginas do Editor

A TEORIA DO AMOR

Gustavo Bernardo

 

 

FERREIRA, Nadiá Paulo.
A teoria do amor na psicanálise.

Rio de Janeiro: Jorge Zahar Editor, 2004. 

 

 

O que a psicanálise tem a dizer sobre o amor? Em conseqüência, o que se pode dizer sobre a felicidade e o desejo, ou sobre a dor e a verdade?

São essas perguntas que a psicanalista Nadiá Ferreira, também professora titular de literatura portuguesa na UERJ, tenta responder. Seu livro faz parte da Coleção Passo-a-Passo: Psicanálise, de Jorge Zahar Editor. Em linguagem muito clara, a autora apresenta um tema muito difícil: as teorias do amor elaboradas por Sigmund Freud e Jacques Lacan. Ela procura introduzir o leitor no universo dos afetos, universo este comandado por paradoxos e enigmas que não se podem desfazer, articulando a teoria psicanalítica com a “teoria” dos principais poetas portugueses.

Fernando Pessoa, por exemplo, abre a discussão com os versos d’O guardador de rebanhos: “porque quem ama nunca sabe o que ama / nem sabe por que ama, nem o que é amar”.  Estes versos interagem com a concepção lacaniana de que tanto o amor quanto a verdade têm uma estrutura de ficção: ambos existem como artifícios cuja função é a de criar uma tela protetora diante dos enigmas sem decifração. As verdades que se propagam e que se defendem por aí seriam, na melhor das hipóteses, meias-verdades, apresentando-se como tal na falta da verdade inteira, isto é, do que não se sabe mas se precisa saber. De forma equivalente, os amores que arrebatam e torturam estão no lugar daquela outra coisa ou daquele outro ser que se procura no reflexo dos espelhos e dos lagos cristalinos. Nesse sentido, tanto verdade quanto amor são apenas metáforas.

Tais metáforas, ainda que poderosas, aludem àquilo a que se referem mas não o esgotam nem o completam. Sentimos que nos aproximamos da realidade com as palavras, mas não temos como envolver a realidade toda: há sempre algum significado que falta. Sentimos que nos aproximamos do outro quando o amamos, mas nesse momento mesmo não podemos saber se somos correspondidos, ou pior: quem somos para esse outro. O significado que falta em ambas as situações levou Slavoj Zizek a encontrar uma “metáfora da metáfora” em um popular produto europeu chamado Kinder Surprise – no Brasil, “Kinder Ovo”. Trata-se de ovos ocos feitos de chocolate e embrulhados em papel colorido: depois de desembrulhar o ovo, quebra-se a casca e se descobre no interior um pequeno brinquedo plástico, ou pequenas partes com as quais se monta um brinquedo. A criança que desembrulha esse ovo quebra-o sem se importar em comer o chocolate, mais interessada no brinquedo. O vazio material no centro do ovo representa a lacuna estrutural por conta da qual nenhum bem é “realmente aquilo”: nenhum produto satisfaz a expectativa que desperta (Folha de São Paulo, 22/12/2002). Nos termos do desejo, queremos sempre outra coisa que não “isto”, outra coisa que não está “aqui”. Nos termos da linguagem, falamos menos do que queremos, se nunca se diz tudo, e, ao mesmo tempo, mais do que pretendíamos, se sempre se fala demais: assim nascem os equívocos e os mal-entendidos. Logo, a metáfora é uma promessa, ou uma aposta, dentro de um pequeno ovo de chocolate.

A condição metafórica da linguagem, portanto, da comunicação humana, obriga, por homologia, a desejarmos sempre o que não podemos ter ou sequer existe, como lembra o mesmo Fernando Pessoa: “Não quero rosas, desde que haja rosas. / Quero-as só quando não as possa haver”. Se isso é verdade, o movimento do desejo e seu corolário, a compulsão de amar, representam nossa única chance de realização e plenitude – o que equivale a reconhecer que não temos nenhuma chance de plenitude e realização. Por isso, o amor só pode ser ambivalente, constituído desde a origem pelo ódio: o objeto de desejo é tanto bom, porque o desejamos, quanto mau, porque escapa sempre. Não é bem que o amor rejeitado se transforme em ódio, mas sim que na origem o amor não se distingue do ódio, como aponta soneto de Camões: “mas como causar pode seu favor / nos corações humanos amizade / se tão contrário a si é o mesmo Amor?”.

Assim como a verdade é homóloga ao amor, a teoria do amor é homóloga à teoria da transferência, crucial para a psicanálise.  A sua terapia precisa provocar uma transferência de objeto, para que o sujeito reconheça o seu desejo e dele tome posse. Enquanto o analisando resiste a recordar para sustentar a insustentável ficção de que ama e é amado, o analista quer obrigá-lo a recordar para não se repetir e assim produzir-se como identidade. A ética da psicanálise se pode resumir, então, na seguinte fórmula: “desejo de que haja desejo”. Essa fórmula, na verdade, atualiza o primado categórico ancestral: “ser o que se é”. Da mesma maneira que é extremamente difícil “ter uma opinião”, se o que emitimos como opinião usualmente não passa de um mosaico desconexo de opiniões alheias, também se revela extremamente difícil “ser o que se é”: o que supomos como nossa identidade não é muito mais do que um mosaico desconexo do que os outros supõem que nós somos. Em termos lacanianos, o que caracteriza a subjetividade não é o ser, mas sim uma falta-a-ser.

Tais considerações são provocadas pelo excelente livro de Nadiá Ferreira, que cumpre com sobras o seu papel  de introdução às teorias psicanalíticas do amor. No entanto, como essa resenha é supostamente crítica, precisamos nos esforçar para encontrar um senão. Como quem procura acha (ou inventa), apressamo-nos a questionar a posição quase de estátuas que Lacan, e principalmente Freud, ocupam. Na página 40, por exemplo, a autora se refere à sábia ignorância de Freud que, “por amar a verdade, não só admitia seus erros, mas os tornava públicos em seus textos. E mais: quanto mais avançava em sua teoria, mais descobria que não se pode saber tudo, mais insistia em dizer que há enigmas na vida, na morte e na diferença sexual que o saber não decifra”. Isso é verdade, sim, mas, como no mais, meia-verdade: Freud soube camuflar, nos seus escritos, as principais influências que o ajudaram a forjar sua teoria, em particular aquelas de Georg Groddeck e Friedrich Nietzsche. Para não ofuscar seu brilho e levantar suspeitas sobre o trono de pai da psicanálise, ele se esforçava por não revelar a importância dos seus próprios pais intelectuais, bem como de seus pares. Ou seja, e em termos lacanianos: a verdade de Freud também é não-toda.

Acontece que essa crítica marginal não ofusca o brilho do livro de Nadiá Ferreira: trata-se não apenas de uma introdução competente às teorias psicanalíticas do amor como ainda de um livro muito agradável de se ler, pelo seu estilo e pelo seu tema que tanto nos perturba e, por que não dizer, derruba.

 

 

Publicado na Revista Matraga nº 16 - dezembro de 2004.