DUBITO ERGO SUM

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O VALOR DA IMPUREZA

Gustavo Bernardo

 

BARBIERI, Therezinha.
Ficção impura:
prosa brasileira dos anos 70, 80 e 90.
Rio de Janeiro: EdUERJ, 2003; 121 páginas.

 

Fernand Braudel já disse que a fumaça dos acontecimentos nubla a visão dos contemporâneos, nessa fórmula poética chamando a atenção para a dificuldade de se contar a história quando, ao mesmo tempo, se vive a história.

Indo bem mais para trás, lembraremos que, de acordo com a fórmula ancestral de Aristóteles, o historiador conta o que de fato aconteceu, enquanto que o poeta conta o que poderia ter acontecido. Ora, se somarmos a essa fórmula aquela de Platão, pela qual a linguagem cotidiana já é mímese, isto é, reprodução imperfeita do real, donde se deduz que a poesia é uma mímese segunda, isto é, reprodução duplamente imperfeita do real, teremos que o historiador não pode contar o que de fato aconteceu mas sim, no máximo, se aproximar do acontecimento, enquanto que o poeta consciente e programaticamente se afasta do real.

Se somarmos o resultado de Platão mais Aristóteles com a equação de Braudel, podemos concluir que o estudo da literatura contemporânea pelos contemporâneos só pode gerar três camadas grossas de neblina – a do prosador que se estuda, a do historiador que estuda, e finalmente a do historiador que estuda o seu próprio tempo – e não nenhuma forma de esclarecimento. O livro de Therezinha Barbieri, pelo seu título, já estaria desqualificado por esta conclusão se a autora pretendesse mapear a produção literária contemporânea para melhor classificá-la e enquadrá-la.

Entretanto, perfeitamente consciente dos problemas gerados pelo esforço de falar do presente que se vive, Therezinha não se dedica a apenas esclarecer seus leitores sobre a situação atual da literatura brasileira. Bem ao contrário, a ensaísta se esforça para discutir, como leitora interessada (e completaríamos, interessante), os problemas que afetam os escritores que militaram no Brasil nas três décadas finais do século da incerteza – do século XX.

Os problemas que ela levanta são: a profissionalização do escritor de literatura; o intercâmbio intersemiótico; a comutação história-ficção. A discussão dessas três questões gravita em torno de um termo-chave para a nossa época, a saber, o termo “simulacro”, não por acaso título sintomático de romance de Sérgio Sant’Anna publicado em 1977. A partir daí, Therezinha tentou não explicar a literatura ou o mundo contemporâneos, mas sim, nas suas palavras, “fazer uma sondagem do mundo contemporâneo através da literatura”.

A pretensão, modesta, a coloca em pé de igualdade com o leitor; a realização, no entanto, oferece ao mesmo leitor, segundo palavras do próprio Sérgio Sant’Anna na quarta capa, o desvelamento prazeroso, como se o de um livro da melhor fábrica literária, da contracena da ficção com a história. O comentário do escritor destaca uma das principais qualidades do livro: a maneira fluente com que foi escrito e, conseqüentemente, a maneira fluente com que se o lê. Esse estilo, bem diverso do de um scholar, respeita o leitor a ponto de lhe dar todo o espaço para se envolver na discussão ora se empolgando, ora se reservando a dúvida, ora concordando, ora discordando.

Discordaríamos, por exemplo, de se emprestar valor equivalente a autores como Sérgio Sant’Anna e, por exemplo, Fernando Gabeira. Essa nossa restrição, no entanto, é um pouco extemporânea, já que fez parte dos objetivos declarados deste ensaio uma leitura sem preconceitos daqueles trabalhos literários que fizeram alguma mossa, digamos assim, no cenário brasileiro.

Nesse caso, teríamos ainda uma discordância um pouco mais profunda, a saber, quanto à relação com o termo-chave, “simulacro”. A discordância afeta não apenas o livro de Therezinha Barbieri como grande parte dos textos de crítica dita pós-moderna, quando se suspeita, como se fosse uma coisa nova, que a realidade ou não existe ou a ela não temos acesso. Desde Guy Debord e seu discípulo apocalíptico, Jean Baudrillard, vivemos num mundo de simulacros, ou seja, alienados do real por conta do espetáculo capitalista das mercadorias.

A nossa questão é: concedendo que o termo “simulacro” seja novo (o que, se tivéssemos mais tempo, poderíamos também pôr em dúvida), não podemos aceitar que o que se aponta o seja. Desde Platão, como já lembramos, vivemos numa caverna de sombras, sombras estas que constituem a linguagem humana. Não temos e nunca tivemos acesso ao real porque não temos e nunca tivemos acesso ao real todo – pois, como lembraria Alain Badiou, a verdade só pode ser não-toda. Ora, da mesma maneira, essa nossa discordância é parcial, porque o ensaio de Therezinha não diz coisa diversa: apenas, reforça o ponto de vista de que essa circunstância, incerta e nebulosa, é contemporânea, ou pós-moderna, quando entendemos que isso não é novo – não somos “mais” modernos por sermos mais confusos, mas antes, continuamos confusos como sempre o fomos.

Quando, então, o argumento nos leva de volta a Braudel para contestá-lo também: se a fumaça dos acontecimentos nubla a visão dos contemporâneos, a distância no tempo e no espaço forçosamente nubla e compromete a perspectiva do historiador. Em outras palavras, transitamos sempre entre neblinas – ou ficções – impuras, como lembra bem o livro de Therezinha Barbieri.

 

Publicado na Revista Matraga nº 16 - dezembro de 2004.