DUBITO ERGO SUM

 Páginas do Editor

 

POR QUE PESSOAS FELIZES SÃO CÉTICAS?

Gustavo Bernardo

 

LYa luft 
As parceiras. 

Rio de Janeiro: Record, 2003. 128 p. 

Publicado no Suplemento Literário de Minas Gerais
em junho de 2004.

 

Resenhar romance lançado há 23 anos, traduzido para o alemão, reeditado e resenhado várias vezes, é uma temeridade – mas, tratando-se do primeiro romance de Lya Luft, uma temeridade necessária. Da mesma maneira que me parece um equívoco ler apenas os últimos romances de Machado de Assis, deixando no limbo, por exemplo, Ressurreição, no momento em que esta autora sofisticada alcança o status de best-seller torna-se uma imposição retornar a As parceiras, seu primeiro romance.

A comparação com Machado de Assis não quer colocá-la no mesmo nível, até porque em literatura não há “níveis”, mas sim chamar a atenção para uma característica comum a ambos os autores e, não por acaso, à melhor literatura: o ceticismo. Augusto Meyer, em 1935, via em Machado uma filosofia negativa e imaginava-o como um homem “engaiolado na autodestruição do seu niilismo”. Como muitos comentadores, Meyer pensava que o escritor seria bom apesar de ser tão cético. No meu fraco entender, isso é uma besteira: Machado é bom precisamente por causa do seu ceticismo irônico. A ironia é clara no primeiro romance, que mostra o seu protagonista, de nome Félix, como um sujeito infeliz e que nem sabe o quanto é infeliz.

Ou o pensamento é negativo – pelo menos, dubitativo – ou não é pensamento. Usamos o termo “refletir” tanto para o ato de pensar quanto para o “gesto” do espelho, mas o espelho reflete porque não se deixa atravessar. A dúvida moderna nasce com o espelho, esse “ser” que nega. No sentido ótico ou no metafórico, refletir implica negar – em outras palavras, implica pôr em dúvida a própria realidade. O homem, ao refletir, espelha o mundo também sem se deixar atravessar, atribuindo-lhe o seu sentido: “tudo o que dizemos: metáfora da mesma coisa” (p. 80). Ainda que tente ver os próprios olhos, o próprio ver, o ser humano, como a narradora de Lya, vê apenas a sua dúvida: “bem que me mirava no espelho para ver que cara a gente tem quando sofre tanto, mas era sempre o meu rosto.” (p. 85)

Daí, a contradição: autor de obra amarga, Machado de Assis, ao contrário do seu personagem Félix, foi reconhecido em vida e teve uma vida feliz, ao lado da sua Carolina. Da mesma maneira, Lya Luft define-se como “uma pessoa com um olho triste que escreve e um olho alegre que vive”; sua vida pode-se dizer plena. Seu último livro, Perdas e ganhos, freqüenta há semanas a lista dos mais vendidos porque fala, principalmente, dos ganhos de ser mulher e envelhecer. Em outro lugar, disse: “tento entender a vida, o mundo e o mistério e para isso escrevo. Não conseguirei jamais entender, mas tentar me dá uma enorme alegria”.

Por paradoxal que pareça, essa alegria combina com sua literatura, assim como a contradição é a condição sine qua non do pensamento. Em As parceiras, a protagonista, Anelise, fica à beira do abismo por 7 dias (7 capítulos), revendo seu passado e seus fantasmas: a avó Catarina, obrigada a casar aos 14 anos com um homem violento; a tia Beata, uma viúva virgem e rancorosa; a tia anã, uma figura grotesca que marca sua infância; a amiga Adélia, que morreu naquele mesmo abismo quando ambas tinham 12 anos. Há ainda outra tia, Dora, uma pintora que esboça anjos mas pinta apenas monstros: “para minha tia as coisas também não eram simples: havia sombras, ainda que de anjos. Reais mesmo eram os monstrengos” (p. 69).

Anelise se casara por amor e fora amada, mas ao tentar ter filhos parece repetir a maldição das mulheres da família: depois de uma série de abortos, nasce um menino-vegetal, com lesão cerebral. Em pouco tempo Lalo, o menino, também morre: “afundou mais no sono, foi-se por uma fresta. Uma frestinha qualquer bastava: era tão pequeno” (p. 119). A história parece uma ampliação dos nossos medos para os vermos melhor, ou, para ser mais exato, dos medos fundamentais da mulher, constituindo-se como um terrível, nem por isso menos belo, conto de fadas.

Tudo começa num sótão, “uma palavra triste e sozinha” (p. 12), com cheiro de alfazema, onde sua avó, que se parecia com Virgínia Woolf, se escondia do marido, do mundo e da realidade. O princípio é o terror do amor, em geral, do sexo e do homem, em particular. Esse terror combina com a dúvida essencial: “todos éramos pouco reais” (p. 18), porque o personagem não apenas não sabe quem é, mas também se é. Saber?; “não sabemos nem de nós mesmos” (p. 59). Anelise tenta recuperar a noção de realidade nos livros que lê, mas a maldição é renovada: “você lê demais, vai ficar louca também” (p. 44), diz sua irmã.

Ela lembra do amor que não podia sentir pela avó, pela amiga morta, pelo primo artista, mesmo pelo marido, e chora: “choro pelos acossados, os desamados, os dúbios, que não conseguem amar dentro do esquadro alheio” (p. 46). Evitava se aproximar de Deus por medo “de descobrir que em lugar dele nada havia senão duas velhas caspentas jogando no tabuleiro em que as sombras feito uns bonequinhos corriam, saltavam, devoravam-se. A gente acendendo velas como um desesperado, as bruxas soprando com força” (p. 57).

O ceticismo da narradora não é ateu (o ateísmo é uma variante do dogmatismo) mas sim assombrado, dando lugar justamente às parceiras do título: variantes das Moiras (ou Parcas, em latim), como bruxas medievais, elas jogam com o destino das personagens – quiçá, dos leitores e das leitoras – em um tabuleiro virtual. No entanto, eram três as Moiras, anciãs tecendo o destino humano: Cloto esticava o fio, Láquesis o media e Átropos o cortava. Falta, justamente, Átropos: o leitor vai encontrá-la ao final, confirmando a máxima estóica: o destino guia quem consente e arrasta quem recusa.