DUBITO ERGO SUM

 Páginas do Editor

UM PRÊMIO PARA A LUCIDEZ DA AMARGURA

Gustavo Bernardo

 

 

J. M. Coetzee. 
Vida e Época de Michael K. 

Tradução de José Rubens Siqueira. 
São Paulo: Companhia das Letras, 2003.
 

   

O sul-africano J. M. Coetzee ganhou, com Vida e época de Michael K, lançado em 1983, seu primeiro Booker Prize; o segundo ele recebeu com Desonra, que também tem edição brasileira. Trata-se do único escritor a ganhar duas vezes esse prêmio – e acaba de receber o Prêmio Nobel de Literatura. Por maiores que sejam as reservas que tenhamos contra os vencedores de prêmios literários (especialmente quando não os ganhamos nós), vemo-nos obrigados a conferir essa literatura.

O retorno é tão compensador quanto assustador. Alguns críticos se apressaram a relacionar o personagem Michael K com K, de Franz Kafka, em O processo; o autor se apressou a negar qualquer conexão consciente. Independentemente do que diga o escritor, a conexão é pertinente; no entanto, pouco se comenta relação mais estreita, que torna o personagem um assumido alter ego do autor e borra a fronteira entre a realidade e a ficção: J. M. é John Michael Coetzee, ou seja, Michael C. – ou K. Se seguirmos por essa linha pouco ortodoxa, encontraremos um alter ego espelhado, isto é, invertido: enquanto o escritor é branco, de origem holandesa, formado em Matemática e Literatura, o personagem K é negro, nasceu com lábio leporino, “o lábio enrolado como pé de caramujo” (p. 9), nunca foi “rápido de cabeça” (p. 10) e só conseguiu emprego ou como atendente noturno de lavatórios públicos, ou como jardineiro.

Reduzi-lo a uma letra, como o personagem de Kafka, faz sentido: Michael K não conheceu o pai e sua mãe, muito pobre, sentia vergonha dele. Não tinha amigos muito menos amigas, por conta de sua aparência e do seu jeito de falar. Quando a mãe fica muito doente, ela quer voltar à fazenda da sua infância – eles moram na Cidade do Cabo, mas o país vive uma eterna e indefinida guerra civil, os deslocamentos são permitidos apenas através de passes que nunca chegam. O filho tenta escapar às patrulhas e à completa falta de dinheiro carregando a mãe por estradas secundárias, numa espécie de carrinho de mão que ele mesmo fabricou com muita dificuldade.

A mãe morre no meio da viagem e K fica sozinho, agarrado às cinzas da velha senhora: “mas não sentiu saudades dela, descobriu, a não ser na medida em que sentira sua falta a vida inteira” (p. 44). Sem pensar, continua a procurar a fazenda que ela descrevia. Encontra uma fazenda parecida, abandonada, e começa a plantar sementes de abóbora. O neto dos antigos donos da fazenda retorna, desertando da guerra, e procura fazê-lo de empregado. K foge e acaba preso num campo de trabalho semelhante aos campos de concentração de Hitler e Stálin. Lá, pensa, a respeito de si mesmo: “sou que nem uma formiga que não sabe onde está seu formigueiro” (p. 99).

Foge de novo e volta à fazenda, procurando se esconder do herdeiro desertor, plantando e regando sua cultura apenas à noite. Escondido, lembra do pesadelo que foi sua infância num orfanato; sente que essa infância, lugar e sinônimo de desespero, metáfora da condição humana que não se ultrapassa, não começou nele nem terminará com ele: “eu venho de uma linhagem de crianças sem fim” (p. 136). Logo é preso por soldados, sob acusação de tomar conta de uma célula guerrilheira. Extremamente fraco, o enviam para um outro campo, onde um médico compassivo e amargo procura tratá-lo.

O apartheid não é nomeado, mas transformado numa alegoria que transcende a África do Sul. Sem qualquer maniqueísmo, todos, brancos e negros, soldados e guerrilheiros, são apresentados como sujeitos perdidos na guerra, que por sua vez não faz qualquer sentido: ninguém se lembra por que começou. Nessa alegoria, o longo primeiro capítulo traz um narrador que conta a história de K na sua perspectiva, como se estivesse às suas costas e na sua cabeça. O segundo capítulo, quando o personagem chega no segundo campo, traz uma modificação importante, pois passa a ser narrado em primeira pessoa pelo próprio médico que cuida dele e com ele se confronta: agora K é um velho pequeno, extremamente magro e subnutrido, pesando menos de quarenta quilos.

Aos poucos, o médico sente que seu paciente, sob a máscara de retardado, sabe mais do que ele, sabe mais do que a racionalidade da sua profissão, da sua civilização, poderia saber: “ele é como uma pedra, um seixo que, depois de jazer em algum lugar cuidando de suas coisas desde o começo dos tempos, é de repente apanhado e passado ao acaso de mão em mão. Uma pedrinha dura, mas consciente de seu entorno, voltada para si mesma e para sua vida interior. Ele passa por essas instituições, campos, hospitais e Deus sabe mais o quê, como uma pedra. Através do intestino da guerra” (p. 158).

A mudança narrativa é importante porque leva o leitor de volta ao jogo impresso e implícito na capa: John Michael Coetzee conta a história da life & times of Michael K. Porque um é o outro – ou quer ser o outro. A primeira pessoa do médico como que coloca um espelho na frente do primeiro espelho e reinverte, ou desinverte, a imagem. Fala o autor? Fala a voz do branco. Esse jogo de espelhos não é confortável. K se recusa a comer, o médico se recusa a deixá-lo morrer, como se naquele sujeito mirrado, obscuro e escuro residisse a dignidade humana. Quando tenta convencê-lo a comer dizendo tudo o que fez por ele, é forçado a escutar a resposta mal-educada: “nunca pedi tratamento especial”. Ao que o médico retruca de si para si e para o leitor: “você nunca pediu nada e assim mesmo virou um albatroz pendurado no meu pescoço”. (p. 169)

Porque K é uma alma universal, “uma alma abençoadamente intocada por doutrinas, intocada pela história, uma alma que bate as asas dentro desse rígido sarcófago, murmurando por trás dessa máscara de palhaço” (p. 176). K é herdeiro menos do K de Kafka, o autor tinha razão; sua linhagem remonta antes a Bartleby, de Melville, aquele que preferia não fazer e já nos forçava, no século XIX, a levantar do genuflexório e esfregar as pernas, com câimbra (moral).