DUBITO ERGO SUM

 Páginas de Ficção

CLONAGEM

Amôi Ribeiro

 

Quando eu deixar de ser único e ser dois ou três ou quatro... quando eu começar a viver num mundo comigo multiplicado, quando eu me encontrar na fila do banco, no estacionamento, na padaria comprando pãezinhos e outro eu vendendo pãezinhos. Estarei eu e mais dois de mim me cumprimentando e querendo saber o que eu desejo? Serei compreensivo, conhecido ou anônimo comigo mesmo? Saberei o que se passa comigo? Ou continuarei sendo eu ambíguo e inseguro e confuso diante de algumas coisas, diante de mim mesmo. Nunca fui de grandes paixões por mim, possuo um grande senso de autocrítica, mas agora que estou me aproximando da época em que deixarei de ser único, em que outros de mim estarão circulando por aí, quero me aproveitar, quero me conhecer e gostar de mim, antes que seja tarde demais e os outros de mim ocupem meu lugar, sejam eu por mim. Será que vou me perder neles? Será que minha multiplicação significa minha diluição? Eu, que às vezes, estou cansado de mim, cansado dos meus permanentes erros, eu, que às vezes, anseio uma mudança radical em mim, como vou, nesta época, me deparar com tantos de mim? Como vou me aceitar ou rejeitar? E como farei para controlá-los, como farei para ensiná-los a melhor maneira de se ser eu? Logo eu, que às vezes, não sou eu o tempo todo, que em alguns momentos sou o oposto de mim, aquilo que não irrompe de mim, instantes exógenos. Como eu serei quando encontrá-los sendo o oposto de mim? Seremos estranhos, uma cambada de eus estranhos perambulando pela calçada da minha rua, se encontrando comigo na escada do meu prédio? Seremos dois estranhos, será esta a minha única diversidade? Agora que estou me aproximando da época de eu não ser único e sim mais alguns, terei motivos para ter medo de mim? Não quero me diluir em mim e os outros eus não vão querer se diluir neles. Saberão que eu sou o original? Vão me respeitar ou vão querer ser o original de mim? Logo eu, que sempre fui pacífico e fraco, logo eu que sempre tive compaixão das pessoas, que sempre cedo no amor, sempre perco. Verei minhas perdas multiplicadas ou lutarei para vencer mais do que eu sou capaz de vencer e entrarei em conflito comigo que já atingi o meu limite? E se eu serei muitos, quem serão os outros? E quando o mundo estiver repleto de eu muitos e dos outros muitos acabaremos com os eus únicos? Não existirá mais nenhum único e sim cópias e mais cópias até se perder o original? Quantos originais sobrarão? E as minhas cópias que estarão vivendo por mim, que estarão sendo eu por mim, que estarão na ativa o tempo todo, farão de mim apenas um modelo arquivado, inativo, completamente passivo, quase ausente de vida, deixado de lado, usado apenas na hora de se produzir mais cópias? Certamente, vou me cansar desta vida de deixar de ser eu gradualmente ou ser eu apenas passivamente. Vou querer resgatar de novo a minha vida, a minha rotina, os meus medos, os meus sonhos, as minhas vitórias, os meus tropeços, as minhas doenças. Minhas próprias doenças que me farão frágil e mortal como sempre fui. Será que, quando formos menos frágeis e menos mortais atribuiremos mais valor à vida? Ou não sabemos que é exatamente por sermos frágeis e mortais que a vida é valorosa?

Não sei, não sei tantas respostas! Só sinto este algo no fundo do meu âmago: não posso fazer isto comigo mesmo. Mas talvez já não seja eu a estar dizendo isso.