DUBITO ERGO SUM

 Páginas de Ficção

 

CONCERTO PARA GAITA E TRÁFEGO: NAMORANDO

Antônio Carlos de Mello

 

ao amigo

Gustavo Bernardo

 

ALLEGRO

Uau! Por pouco! Quase que Lula, no lance, se não corre e não se esquiva, flamengueia o asfalto! Ciça, na calçada, assustada, pergunta por ele: tudo bem? Ele abre a mão e mostra a trouxinha intacta, salva, salve!, sorri e abraça Ciça. Tudo bem, responde. A Vossa Senhora de Copacabana está um caos, céus! Vamos por ali, pela galeria, diz Lula. Abraçados, logo que entram pela Alaska pra alcançar a praia, Lula solta o braco de Ciça e, sempre calmo, saca do bolso a seda, guardanapo que os caretas e eles também, às vezes, usam pra tirar da boca o açúcar do suco e/ou a gordura do sanduíche, certo? Ciça pergunta se ainda tem muito, os olhinhos castanhos catando a resposta. Lula abre a trouxinha mostrando que não, um fininho talvez, e assim, súbito, exclama morno, Ciça assustada, aqui tá a major sujeira, e fecha a mão e põe no bolso a trouxa, mexendo, então, somente com a seda, tirando aquelas duas partes que ficam viradas pra dentro, deixando apenas o centro, afinal o que serve sempre. E então, novamente súbito, sem explicar-se, Lula apanha, ainda na galeria, o fumo, espalhando-o pela seda, separando semente, contrariando o anteriormente dito. Ciça, então, guia, observando os outros passarem apressados, uns que olham, outros que não, o medo maior de alguém vir numa de descolar presença, esses que sempre pintam quando já não dá, os duros/preguiçosos/deitadores, como saber? Certo, dessa vez pintou a sorte, ninguém, nem tira nem filão pra atrapalhar. Os dois, tendo atravessado a galeria, olham a Atlântica: o bar, os garçons, os biriteiros, tudo bem. A praia parecia tranqüila. Algumas pessoas insistiam, na tarde sem sol, em aproveitar alguma coisa do nada que era servido. Lula apertava o baseado tomando cuidado com o vento e com os carros que passavam em desesperada. Ciça repetia, passando a mão nos cabelos, o gesto do vento. Quando os dois chegaram ao calçadão, Lula pediu que ela vigiasse a rua. Sentaram-se num banco. 0 mar estava calmo e a água aparentava fria. Um avião passava, lá em cima, tranqüilamente, e um lento navio ia sei lá pra onde, só sei que longe. Lula pediu a Ciça um pilão que ela não tinha e foi procurar. No meio-fio entre os carros, a água marrom e nada de fósforos. Ciça procurava no espaco entre as pedras portuguesas pretas-brancas alguma coisa além de uma ou outra formiga miúda e guimbas de cigarros, revezando o olhar com a quina da areia da praia e o meio-fio. Lula gritou cuméquié, e ele estava longe uns trinta metros. Revirando copos de mate e limão, maços de cigarro velhos, embolados, Ciça achou no lixo mais improvável da assim seleta caixa coletora o palito marrom, encardido pela chuva de dois, três seguidos dias. Riu como uma criança, falou neném pro palito entre os dedos e voltou pra Lula. Já não importavam mais as formigas miguinhas pretas, e talvez pisasse em algumas, quem sabe? Sentou-se, olhos ávidos olhando o tamanho armado pra, logo após, retomar a vigia dos carros, pássaros passando, azul e branco não, olha a sujeira, o medo, esconde. Lula disfarça e montam a farsa e fingem uma conversa e risos de bocas apenas e palavras vagas sem estrutura, enquanto a joaninha segue e some, escondida por um Opala vermelho, bé, caretas!

ADAGIO

Novamente mudos, Lula apanha o palito encardido caído no chão, do susto, e pila um pouco de um lado, um pouco de outro, aparando a seda em excesso, passando saliva. Ciça, no lance, sabendo, levanta-se atrás de filar um cigarro de um pessoal sentado na beira bestando. Vestida de estampado, tira a sandália, salta na areia fria e seus dedos afundam como barcos, as unhas aparadas em atrito com a areia úmida, levanta o pé direito e começa a andar. As pessoas na praia, sim, e sempre... Ciça pára, sacode o cabelo ao vento e, nisso, de relance, percebe Lula assim sentado, projeto assassinado de pai, agora que o filho é ex-filho, morto. Aquele coágulo que todos chamavam coágulo e que, no entanto, não era coágulo não, não e não, era já, e pra sempre, o filhinho inho de Ciça, que, agora, pá!, é um montuco de entulho num lixo (onde?), "aquilo" que "teve de ser feito" porque eles, os outros, não queriam que fosse vida uma coisa tão lindinha que seria, já que ela, Ciça, ainda era tão mocinha inha, só dezesseis aninhos inhos, pequena pequenininha, Ciça Cicinha não podia, não podia, e a cabeça dela ficou assim cheia de não, e paz mesmo só tinha com Lula, que entendia tudo porque estava na mesma dela e também porque estava na dela, sim, era isso. Nisso, Ciça voltou a cabeça pro mar e viu, lá na frente, o pessoal, os caretas sentados conversando coisas que não passam pela garganta de ninguém, argh! Sentou-se e começou a brincar com os dedos dos pés. Como eram engraçadinhos sujinhos de areia! Lula gostava de brincar com eles também, como ela, fazia cosquinha, fazia carinhos neles, nela. Quando Lula está muito louco é sempre assim, os dois calados, ligados em alguma coisa só deles dois como os pés de Ciça, anulando completamente o rasto de todo o resto, não ao não, alienadões como se diz no jornal. Lula gritou o nome dela e, quando ela olhou, fez com as mãos cuméquié. Ciça levantou-se. Sim, andar, os caretas, bé! Bate com a mão na bunda pra tirar a areia, faz um S com o corpo pra tentar sacar, nas costas, o canto que ainda agarre areia, porco! Minha bunda tá úmida!, reclama e ri. Volta a andar. Adiante, um maço de Hollywood ainda inteiro, que ela, pela falta de cigarros, retira o laminado, seco, que sorte!, com tanta chuva chovido, serve, ainda bem, e segue olhando o chão, procurando nada, olhando o pé entrando-saindo da areia, arrumando os cabelos que, com o vento, porque longos, caíam no rosto, às vezes em cima dos olhos, funcionando que nem chicote, e olhando o pessoal que, visto mais de perto, é duas mulheres, duas esteiras e duas bolsas de palha, plástico e couro, cada qual em seu lugar. Ciça fila um Charm depois de pedir tímida, acende num Cricket lilás, agradece e sobe. O vento, na volta, batendo, ao contrário, na nuca, dividindo o cabelo em duas partes louras fofas, que se encontram debaixo do queixo, na garganta, enquanto, em cima, na boca, Ciça traga fundo o fraco Charm e brinca com a fumaça, que sai rápida conforme a força que faça ao expulsá-la. Lula olhava longe alguma coisa. Também estava, como ela, triste com tudo, fel na boca, mas com tudo, com fé na louca vontade de fumar o mundo. Ciça acha engraçado quando ele está assim, fica bonito quando longe de tudo, parece um daqueles monges que ela curte nos filmes, a fala mansa de quem está assim, no fundo, tão longe quanto eles estão monge de tudo, fala de mudo.

CONFORME LHE TOQUE

Novamente junto a Lula, eles apenas esperam a babá passear o carrinho azul pra longe deles, no que Lula ri e com Charm acende o charro, como se dizia, ainda sentado, enquanto Ciça permanece na areia, de costas para o mar, olhando os carros e a cara retesada de Lula, pra, logo após, pegar o fininho e, de leve, como tranqüila, dançar a valsa um-pra-lá, um-pra-cá até que morra o charro e sobre o Charm. Lula diz que vai dispensar e Ciça diz tudo bem, e lá se vai o Charm voando e, plaf, caindo na areia, exatamente como Ciça observou com o olhar. Ciça já estava meio doidinha, sim, e já estava meio doidinha assim desde manhã quando Lula voltou do Vidigal trazendo a trouxinha que agora morria, como tudo morre, na santa paz do Sr., amém. Escarros rápidos passavam buzinando os ouvidos de todos. Tudo careta com pressa seguindo a Atlântica em direção ao Leme. Ciça sorri um sorriso de Lula. Escarros, né?, ele diz. Ciça ri. Nisso, Lula começa a remexer a bolsa de couro na cata da gaita que iria fazer um som pra eles em seu improviso solo. Ciça vira-se. Gaivotas vagam rasantes sobre o mar e, de repente, clun, uma delas mergulha, bóia um pouquinho muito pouco, e sobe novamente as asas num impulso lindo de ver, pintando o céu com seu contorno negro móvel que, depois, novamente, desce e some num mergulho, aparece e bóia e sobe num murmúrio - e este é o lance que os otários sempre pensam que é sacal, bah! Ciça senta-se na quina do calçadão e fica olhando o pessoal lá embaixo, de onde tinha trazido o Charm, e a marola que subia até bem perto, transparente, logo após invisível engolindo a outra, ostra traçando pérola dos resíduos, abandonos. Lula acha a gaita e começa a tocar, não se incomodando com o barulho rouco dos automóveis muitos passando na Atlântica do Atlântico, vindos da Copacabana de Copacabana - os não-possuídos pelo mar de um nem pelo ar da outra, apenas passantes ausentes, transeuntes, como se diz, barulho que não incomoda a gaita, não muda nada, sempre assim. E o som desafinado da gaita de Lula, embora baixo, basta aos dois: entre ouvir e não, o som é sempre leve. E deles.  

 

Antônio Carlos de Mello.

A metáfora de Drácula.

Rio de Janeiro: José Olympio, 1982.