DUBITO ERGO SUM

 Páginas de Ficção

 

POEMAS

Dora Ferreira da Silva

 

O NASCIMENTO DO POEMA

MÚRMURIOS / FLÜSTERN

A GUIMARÃES ROSA

OS POETAS ESTÃO COM MEDO...

RETRATO DE AMIGO

O AUSENTE

 

DO JOGO DE XADREZ

O SILÊNCIO

  NOVO ANTIGO

VICENTE

O REFLEXO QUE FOMOS

ADEUS

 

 

O NASCIMENTO DO POEMA

 

É preciso que venha de longe
do vento mais antigo
ou da morte
é preciso que venha impreciso
inesperado como a rosa
ou como o riso
o poema inecessário.

 

É preciso que ferido de amor

entre pombos

ou nas mansas colinas

que o ódio afaga

ele venha

sob o látego da insônia

morto e preservado.

 

E então desperta

para o rito da forma

lúcida

tranqüila:

senhor do duplo reino

coroado

de sóis e luas.   

Poesia reunida. Rio de Janeiro: Topbooks, 1999: p. 39.    

 

MÚRMURIOS

 

Pousa num ramo um sopro de agonia
dos que morrem (sem saber)
em nosso coração.

Suspira a noite no vento vadio.
Amados mortos: tentais dizer
o quanto amais ainda?

 

Poesia reunida. Rio de Janeiro: Topbooks, 1999: p. 319

 

FLÜSTERN

 

Auf einen Zweig landet ein Todeskampflutstob
Derer, die (ohne davon zu wiben)

In unserem Herzen sterben.

Es seufzt die Nacht im Spätwind.
Geliebte Tote: versucht ihr so sagen
Wie sehr ihr noch liebt?

 

 

Tradução de Vilém Flusser.

 

 

A GUIMARÃES ROSA

 

Rosa, contador de estórias
que arrepiam a alma a contrapelo.
Nasceste um dia,
mas a noite não marcou teu fim.
Recomeças.
És a Estória que sempre ouvimos
contando o que não se acaba.
Principia no fim.

 

Em círculo, ouvias sob a lua

o que recontarias

com palavras semeadas,

mortas-ressuscitadas

na glória final do Poema.

 

Tudo começa contigo, de algum modo,

neste grande desabrigo

que começa e recomeça

sob a asa do teu Poema.

Leste a mão da nossa terra?

Traçaste o mapa completo da vida

em cartografia?

Rosa, Rosa, sempre Rosa —

quiromante do Sertão. 

Poesia reunida. Rio de Janeiro: Topbooks, 1999: p. 65.

 

OS POETAS ESTÃO COM MEDO...

 

Os poetas estão com medo das palavras:
é o sinal evidente de que devem detoná-las.
A vida implora: quer ser refeita
sob os escombros. Tantas avenidas
trânsito parado rios enfermiços pássaros
em debandada: encontrarão talvez seu pouso
num disco voador receptivo ao vôo e ao canto.
Desencanto do presente. Economia economia
economia e a casa em desordem.
Um pouco de filosofia não fará mal nenhum.
Os jovens poetas lêem Giordano Bruno
Nietzsche e sabem que eles mais perto estiveram
do noumeno do que esses fenômenos de efeito
especial – barulho e repetição. O mal
é o alienígena, bárbaro à vista como sempre
e outrora. Detonem a palavra – poetas –
poetas é outro nome de guerreiros e amorosos
do ser. Venham com seus amores transfigurados
com sua energia nuclear. A destruição pela
palavra é um redemoinho no ar
para novas configurações do imaginário,
de um novo fabulário que liberte Andrômeda
de seus grilhões e torne o monstro
digestível. Tirem a palavra de sua bainha,
o coração, sem hesitar. A palavra
– sopro cosmogônico – nossa arma de predileção,
nossa bomba amorosa de efeito retardado
mas seguro. O mundo que se desmunda aí está
à espera de aragem sagrada de vossas bocas
dizei um novo Atharva-Veda poetas oficiantes
buscai o ponto de união de tantos cacos
dispersos; dizei o verso que vem aos trancos
e barrancos dependendo de vossa ousadia
e alegria, pois é sempre alegre
o gesto criador, a palavra inicial.  

Poesia reunida. Rio de Janeiro: Topbooks, 1999: p. 401.

 

RETRATO DE AMIGO

 

Olhavas – óculos na testa –

e vias com a lupa da alma

calando mistérios. Bastava a tarde

que dizia a superfície das coisas.

A luz se espreguiçava no terraço

com seus dedos de sombra. Amigos

iam chegando, a festa do pensamento se iniciara. 

Conceitos fugiam (ou símbolos )

e eram capturados na tapeçaria 

do dia quase findo. Cachimbo na mão

investias contra argumentos vacilantes 

e os deitavas por terra.

Amavas decifrar o sutil e ambíguo,

erguias paradoxos cambaleantes.

Nomes não davas. Acaso os suprimias 

e ao chão em que andavam. Bodenlos.

Assim olhavas o esvoaçar de gente, 

pensamentos. Bodenlos.

Enfim te atiravas à poltrona segura –

sorrindo – em silêncio.  

Cartografia do imaginário. São Paulo: T. A. Queiroz Editor, 2003: p. 111.

 

O AUSENTE

 

Tudo que foi luz

e hoje desmaia em treva

sob a lua errática

e suas confusas pétalas

tudo o que amamos e em desejo tivemos

com sede amarga de posse

em lábios angustiados

renasce deste silêncio de orfandade

e da vida faz cinza

e morte.

 

O inverno é que não estejas

senão nos olhos áridos da insônia

ai, que não estejas e o sol já não aquece

e o mar não dança entre rochedos

e o pássaro é um triste vôo

que adormece.

Poesia reunida. Rio de Janeiro: Topbooks, 1999: p. 40.

 

DO JOGO DE XADREZ

 

Sol tecera a tecelã, fios de ouro a rebrilhar no perfume da manhã que do Amado era o amar. Dos amantes já traçara a ternura sob a tenda, que o escuro iluminara na mais delicada renda. Entre eles, nada escura, clara pomba em seu pousar, de que tempo e que lugar, de que espaço de brancura? Erigida estava a tenda bem no meio do jardim, de jasmim toda florida para o início ou para o fim. Mas que sombra sem cuidado traçou o ciúme da lua, ou que espinho se insinua entre o par aconchegado? Quem perder do jogo a vida nessa mesa de xadrez, a alma terá ferida e a noite do dia em vez. Súbito a dama estremece, frágil rosa de emoção, sua face empalidece, o olhar cravado no chão. Ergue a fronte o cavalheiro hesitando um só momento, borda-lhe a dama o intento do amor do verdadeiro.

Poesia reunida. Rio de Janeiro: Topbooks, 1999: p. 53.

 

O SILÊNCIO

 

O silêncio tem uma porta

que se abre

para um silêncio maior:

antecâmara do último, 

que anuncia outro depois.

Poesia reunida. Rio de Janeiro: Topbooks, 1999: p. 110.

 

NOVO ANTIGO

 

Novos seres

gravam memórias

ao pé do muro.

Sussurros estalidos

a terra percute

e alguém escuta

no meu ouvido.

 

O novo é o antiquíssimo

que vem

de um alçapão.

Poesia reunida. Rio de Janeiro: Topbooks, 1999: p. 158.

 

VICENTE

 

Vejo-te completo (embora cega desta luz confusa)

e mergulho na luz dourada de teu rosto.

Remos gêmeos remamos: na esteira do passado

a beleza dos corpos iniciados por um deus risonho.

À ré amamos companheiro - cicatriz do meu destino -

marca do que o amor gravou mais fundo.

 

Empurra a maré - navegante eterna -

o barco a sós. Bate o sol na minha nuca a pá

do meio-dia. Estremeço em mar vasto

e atravesso a planície de agulhas verdes

deste mar. Adeus não disse; comigo estás

de um modo mais estranho -

na transparência do depois.

Poesia reunida. Rio de Janeiro: Topbooks, 1999: p. 177.

O REFLEXO QUE FOMOS

 

O reflexo que fomos na calçada

lado a lado: um deus e um quase nada

a modo de crianças calmas.

Não sei se nos olhamos

se tocamos nossas palmas

ou afloramos um do outro

a pele delicada e a alma.

A inocência de qualquer começo

do coração o arremesso

a estranha sorte dos que tentaram

reconhecer-se a fundo

distraídos de tudo em torno.

Que sabem os outros dessa rua

da tarde quase noite, da lua

de alguma palavra ali largada,

nua?

Cartografia do imaginário. São Paulo: T. A. Queiroz Editor, 2003: p. 58.

 

ADEUS

 

É ela quem me olha:

a indagadora janela. Abrem-se

portas rumorosas.

Esta morte me afasta de quem fui.

Cartografia do imaginário. São Paulo: T. A. Queiroz Editor, 2003: p. 72.