DUBITO ERGO SUM

 Machado de Assis

CAPITU NÃO TRAIU BENTINHO

Tova Sender

 

Adoro Millor Fernandes. Além de admirar-lhe o talento, admiro seu apreço literário por Iehuda Amichai, poeta israelense que foi meu professor de literatura numa escola para formação de professores em Jerusalém. Não conheço outro colunista que tenha publicado poesias de Amichai, diga-se de passagem, poesias que clamam por Paz. A coluna de Millor em VEJA de 26 de janeiro de 2005, "O outro lado de Dom Casmurro", chegou numa hora em que eu estava comentando Dom Casmurro para a minha dissertação de mestrado em literatura brasileira na Uerj. Como jamais desprezo as coincidências, mas as observo, achei que poderia propor uma polêmica do tipo CAPITU TRAIU OU NÃO TRAIU, já que estamos às portas do centenário de morte do Bruxo do Cosme Velho, nosso velho e querido Machado de Assis. Quem sabe, até 2008, possamos ter mais dados dessa investigação, ou, na melhor das hipóteses, deixar de lado esta questão, porque o principal do livro não está aqui, e acho que o próprio Machado não pensava provocar tanto alarido — que atravessou todo o século XX e permanece no XXI.

De fato, há sinais claros de que Bentinho sentia mais que amizade por Escobar, como bem assinalou Millor, trazendo uma nova possibilidade ao debate. As referências ao relacionamento entre os dois foram citadas por Millor. Mas, ainda que uma amizade de outra ordem unisse os dois homens — ou os dois casais: Escobar propôs irem os quatro à Europa, deixando nas entrelinhas a possibilidade de uma relação erótica, o que se nota também pela atitude sedutora de Sancha ao revelar a Bentinho o projeto, e pela troca de olhos e olhares entre os dois — , isso não demonstra que Capitu traiu Bentinho.

Dom Casmurro é um relato dramático. Bentinho, nascido sob o estigma de uma promessa da mãe de torná-lo padre, apresenta um caráter tímido e servil. De início, chamado de “casmurro” por um passageiro do trem da Central, foi criando uma história de traição. Seguindo pistas ambíguas, suas dúvidas se cristalizaram em certezas, e chegou a renegar o próprio filho, vendo nele a imagem do possível rival, seu melhor amigo. A importância que dá, em todo o relato, aos olhos e olhares, é como um sinal de delírio paranóide, em que está sempre sendo olhado, observado, perseguido, traído.

Pergunta-se até hoje se Capitu traiu ou não traiu Bentinho com Escobar. Enquanto Bentinho dá sinais de que Capitu o traiu com seu melhor amigo, Machado vai assinalando ao leitor que não, que Capitu não o traiu. O próprio Bentinho duvida das suas certezas, porque ele mesmo lembrou que a mãe de Sancha se parecia com Capitu, ainda que não houvesse, entre as duas, laço de parentesco, e que Desdêmona de Otelo era inocente, embora todas as pistas demonstrassem o contrário. A casmurrice envelheceu como paranóia, e Bentinho construiu uma idéia delirante. Será que o segredo do livro não está no título? Dom Casmurro não é uma alusão a Dom Quixote? Dom Casmurro (Bentinho) não teria a doença de Dom Quixote, as alucinações e os delírios?

Levando em conta que Dom Casmurro faz parte da trilogia que compõe com  Memórias Póstumas de Brás Cubas e Quincas Borba, os quais tratam da loucura de Quincas Borba e de Rubião, percebo em Dom Casmurro a narrativa da insanidade de Bentinho, descrevendo-a desde o momento mesmo de sua concepção no ventre materno, passando por sua natureza passiva e quase neurótica, remoendo os pensamentos até a exaustão, e culminando com o desenvolvimento de um delírio sistematizado.