DUBITO ERGO SUM

 Páginas de Ceticismo

 

O dilema de Fredric Brown:

a ironia do caos e o paradoxo do tempo em “A Experiência”

 

Ana Claudia de Lemos Monteiro

 

Não existe o acaso; o que existe é o Caos. E o Caos é a Ordem mal-interpretada. O mundo não é controlado por cabalas secretas, mas por pessoas que não entendem os sistemas por onde operam e são operadas; e então elas tentam adaptar estes sistemas a propósitos alternativos.

Harlan Ellison, roteirista da série de TV  “Além da Imaginação”

         Desde a teoria do tempo absoluto de Newton e Kant até a tese dos universos múltiplos, muito aplicada em filmes de ficção científica, sucessivas tentativas de se conceituar o tempo têm sido realizadas. O estabelecimento de relações entre a idéia de tempo e o desenvolvimento da mente humana, bem como a associação do tempo com a sucessão de nossas experiências no cotidiano são maneiras, ainda que insuficientes, de aumentar a percepção individual do que, a priori, parece não ter explicação. O pensamento, em geral, e a experiência, em particular, são o chão que o homem pisa; no entanto, podem levar a dilemas céticos, ou paradoxos, nos quais a busca da verdade fica seriamente comprometida (assumindo, é claro, que tal verdade exista). Pensar, por exemplo, que o tempo simplesmente é, como uma palavra sem substância, ou que ele se fragmenta infinitesimalmente, criando um mundo (ou mundos) de possibilidades, pode nos remeter a um redemoinho lógico, um paradoxo eterno e indefinido. Afinal, se eu tomar determinada decisão neste tempo, haverá um outro tempo em que as conseqüências da minha decisão podem ser sentidas?; e se, de repente, anular a decisão anterior, haverá um tempo onde tais conseqüências percam a razão, como um paralelo simétrico, anulando assim a mim mesmo?

         Em “A Experiência”, o escritor Fredric Brown parece apontar a reflexão do tempo para estas e para outras direções. No conto em questão, um cientista cria uma máquina do tempo para deslocar pequenos objetos tanto para o futuro quanto para o passado quase que imediatos. Para demonstrar a infalibilidade da máquina aos seus colegas, o cientista faz duas experiências: desloca um cubo de metal para cinco minutos no futuro e, em seguida, para cinco minutos no passado. Na primeira experiência não há paradoxo temporal, já que é inerente ao ser humano a concepção do tempo como um rio cuja corrente segue apenas para frente. A mente humana entende e aceita esta interpretação ficcional do tempo como uma verdade incontestável; assim, acompanha-se uma viagem ao futuro como um deslocamento natural. O ceticismo e a busca por respostas praticamente não cabem nesta primeira viagem, pois as respostas já parecem, como diria Kant, dadas a priori.

         A segunda hipótese, isto é, a viagem ao passado, é a que alimenta o pensamento cético. A dúvida, aliás, é a alavanca para a complicação da qual trata o conto. Para viabilizar o segundo experimento, o cientista estabelece um ponto num futuro não distante em que ele colocará o cubo na plataforma da máquina e ajusta o mecanismo para cinco minutos antes deste ponto no tempo, fazendo com que o objeto apareça na plataforma antes de quando deveria estar. Um dos seus colegas, intrigado com o fato de se estabelecer uma viagem ao passado baseado numa decisão arbitrária, indaga o inventor sobre a validade da experiência se o mesmo resolvesse não colocar o cubo na plataforma no horário determinado. A simples inclinação por parte do cientista em testar a hipótese do colega provoca o que chamamos de caos, ou a pequena coisa que provoca uma enorme mudança. A nova decisão do cientista, tão arbitrária quanto a primeira, causa uma espécie de curto-circuito na linha imaginária do tempo que, antes, seguia um curso considerado normal; em conseqüência, tudo o mais – laboratório, cientistas, o universo em si – deixa de existir, com exceção do cubo, que permanece na mesma posição. O paradoxo se estrutura: o ser que só se define a partir de algo que não se pode definir. Assim como não temos como nos definir, não podemos definir o tempo; o tempo é um dilema tão indecifrável quanto a natureza do ser [Bernardo: 77].

         Mesmo assim, há outros porquês; porque, por exemplo, o cubo não desaparece? Se ele está onde não deveria, por que não deixou de existir, como todo o resto? A ironia inerente ao conto é que não é a coisa grande, como uma viagem no tempo, que provoca o caos; é antes o detalhe, uma negação inacabada (o cientista diz apenas “Eu não vou...”) que desencadeia uma série de pequenas alterações (assim o supomos) que culminam com a derradeira inexistência do ser. É o que vários filósofos e cientistas chamam de efeito borboleta. O cubo, a decisão do cientista, são apenas metáforas de detalhe. Na teoria do caos, uma pequena alteração em algo pré-estabelecido no tempo e no espaço provoca várias pequenas e infinitas alterações, que por sua vez causam linhas alternativas neste mesmo tempo e espaço, linhas distintas e circulares que pouco se cruzam, sugerindo que elas partem de um ponto em comum que sofreu algum tipo de mutação temporal. O movimento regular destas linhas, representado graficamente, se assemelha a uma borboleta ou, não coincidentemente, ao número 8, conhecida representação do infinito. Assim, é o detalhe que abre a porta, e o caos que o detalhe provoca pode ser entendido como uma mímese das possibilidades (ou o famoso “e se...”).

         Em outras palavras, a decisão do cientista provocou, ao mesmo tempo, um paradoxo e uma ironia. Não colocar o cubo na hora marcada significa não existir o antes daquela hora, e o antes do antes daquela hora, a assim por diante: paradoxo. O homem não está preparado para deixar de ser; ao contrário, ele só entende o sendo, ou o tem sido [Bernardo: 78]. No momento em que algo deixa de existir, a ilusão de continuidade do individuo cai por terra. Em resumo, derruba-se uma ficção e constrói-se outra, paralela a primeira, onde apenas o cubo existe. Uma possibilidade dramática (dentre possíveis outras milimetricamente diferentes), que carrega a ironia do conto com ela: o pequeno é a chave do grande. O cubo derruba o universo à sua volta. O vazio em volta do cubo é a grande lacuna do conto, a ser preenchida pela reflexão do leitor. E então, é possível pensar o tempo? O cientista é a metáfora do ser humano inquisidor, criador das pequenas ficções e das grandes mudanças? Em qualquer caso, “A Experiência” de Brown é a também a experiência do leitor, um exercício tanto do pensamento crítico quanto da capacidade perspectivizadora da ficção.

 

Referências:

 

Bernardo, Gustavo. A ficção cética. São Paulo: Annablume, 2004.

Kant, Immanuel. A Crítica da Razão Pura.

http://www.geocities.com/inthechaos/histo.htm

http://www.butterflyeffectmovie.com/

http://www.utm.edu/research/iep/t/time.htm