DUBITO ERGO SUM

 Páginas de Ceticismo

 

A (DES)CONSTRUÇÃO DA REALIDADE EM DOGVILLE
Lúcia Facco

 

   

 “Perguntaram-me quantas cabeças rolariam e o silêncio envolveu o porto

 quando respondi: todas!” (Brecht)

  

O diretor dinamarquês Lars Von Trier é considerado um dos “pais” do movimento estético “Dogma 95”. Este reage contra a profusão de efeitos especiais no cinema e busca o verdadeiro cinema de arte, onde o diretor simplesmente coloca uma câmara no ombro e parte em busca das melhores cenas, ou antes, das cenas que melhor possam exprimir as idéias desejadas, usando a iluminação natural, abolindo cenários elaborados, etc.

No filme Dançando no escuro (2000) Von Trier já havia “traído o movimento” (AMÉRICO, 2003, p.1), utilizando vários efeitos e, especialmente, trabalhando com muitas câmaras. Já no filme Dogville ele faz algo como uma mistura entre o cinema que se utiliza de técnicas sofisticadas e o “pregado” pelo “Dogma 95”.

Realizado em 2003, Dogville é de uma originalidade extraordinária. Foi totalmente rodado dentro de um enorme galpão fechado localizado na Suécia. Não há cenário praticamente algum. A cidade é desenhada no chão negro com riscos de tinta branca (ou giz), como se fosse uma planta de arquitetura. Podemos ler no chão os nomes das ruas e dos proprietários das casas. A mina abandonada, onde a personagem Grace se esconde, não passa de uma estrutura de vigas de madeira. Como elementos cenográficos existem algumas cadeiras, uma vitrine solta, camas, um órgão, enfim, apenas o indispensável para que possa se passar a ação. Em Dogville há um cão chamado Moisés, mas este cão é desenhado no chão. Ou melhor, apenas seu contorno, como aqueles desenhos que vemos nos filmes, para marcar a posição dos cadáveres, tendo ao lado a palavra: “Dog”.

Lars Von Trier declarou que se inspirou no teatro de Brecht para escrever a história de Dogville. Ele disse “em entrevistas que a inspiração inicial foi a canção “Pirate Jenny”, do musical “A Ópera dos Três Vinténs”, de Brecht. No Brasil, o episódio é mais conhecido através da música “Geni e o Zepelim”, feita para a “Ópera do Malandro”, adaptação maravilhosa de Chico Buarque para a obra de Brecht”. (DOMINGUES, 2004, [s.p.]). Em uma entrevista a Stig Björkman, do Cahiers du Cinéma, em maio de 2003, Von Trier afirma, quanto a “Pirate Jenny”: “Ouvi-a muito e fiquei surpreendido pelo tema terrível da vingança na canção.” (BJÖRKMAN, 2003, p.4).

Dogville começa bruscamente, com a voz do ator inglês John Hurt narrando, em off, com a entonação de narrador de histórias para crianças, ao mesmo tempo em que se lê na tela: “O filme “Dogville” é contado em nove capítulos e um prólogo” (DOGVILLE). Durante todo o filme vão aparecendo os números dos capítulos e as indicações do que se passará em cada um deles: “O Prólogo (que nos apresenta a cidade e seus habitantes)”(DOGVILLE), ou, “Capítulo sete: No qual Grace se enche de Dogville, deixa a cidade e volta a ver a luz do dia.”(DOGVILLE). O narrador é onisciente e vai dizendo: então acontece isso, aquilo, Grace sentiu assim, pensou assado.

Enquanto nós, espectadores, vemos os atores se movimentando naquele cenário quase nu, desviando-se de paredes invisíveis, o narrador vai nos ajudando a conceber a ação. Se durante os primeiros minutos de filme podemos nos sentir incomodados, desconfortáveis diante do que vemos (como aconteceu comigo), vamos nos acostumando com o inusitado até que, definitivamente, abolimos a sensação de desconforto e passamos a achar muito natural os personagens abrirem portas inexistentes que rangem. Este foi o meu ponto de partida para estabelecer uma correlação entre Dogville e os textos de Vilém Flusser, que vinha estudando. Pensei na afirmativa: “Língua é realidade”, ou melhor ainda: “Língua constrói a realidade”. E, assim como acontece nos textos de Flusser, nos quais ele afirma algo, defende algum ponto de vista, para logo à frente desconstruí-lo, contestá-lo, percebi que, se a língua, em forma de narração do ator inglês, constrói uma determinada realidade, logo em seguida podemos ver que esta realidade construída não é absoluta, incontestável. Pelo contrário.

 No livro Língua e realidade Flusser afirma que uma das heranças de pensamento que os gregos nos deixaram foi a idéia de que “A filosofia, a religião, a ciência e a arte são os métodos pelos quais o espírito tenta penetrar através das aparências até a realidade e descobrir a verdade.” (FLUSSER, 1963, p.12). Ora, ele diz (FLUSSER, obra citada, p.13-14) que este esforço de descobrir a “verdade” está sujeito a três tipos de objeções: o ceticismo que nega a capacidade do espírito de penetrar as aparências, o niilismo que nega a “realidade” e o misticismo, segundo o qual é impossível articular e comunicar esta penetração.

A civilização sente-se ameaçada por estas objeções, já que elas anunciam um possível mergulho no caos, portanto elas se tornam inaceitáveis. Flusser contemporiza e afirma:

 

Verificaremos que “o conhecimento”, “a realidade” e “a verdade” que essas objeções pretendem negar não são aqueles que buscamos. (...) Poderemos, a despeito delas, continuar buscando, isto é, vivendo. O conhecimento, embora menos absoluto, continuará sendo conhecimento; a realidade, embora menos fundamental, continuará sendo realidade; e a verdade, embora menos imediata, continuará sendo verdade. Descobriremos mesmo que o conhecimento absoluto, a realidade fundamental e a verdade imediata não passam de conceitos não somente ocos, mas também desnecessários para a construção de um cosmos, e que, neste sentido, as objeções podem ser aceitas. (FLUSSER, obra citada, p.14)

 

Dogville vai ao encontro dessa idéia, quando desmascara a impossibilidade de apreendermos uma realidade única, fundamental, baseados nas palavras, que são, afinal, o seu único meio de comunicação, de representação.

O filme conta a história de uma cidade mínima, localizada nas montanhas dos EUA, habitada por 15 adultos e algumas poucas crianças, durante o período da Grande Recessão Americana. Um dia chega a Dogville uma moça linda, elegante, chamada Grace. Ela está fugindo de um bando de gângsters e é encontrada por Tom, o “filósofo da cidade”, que decide ajudá-la. Ele convoca uma reunião entre todos os habitantes de Dogville e pede-lhes que ajudem a proteger a moça de um destino provavelmente terrível, acolhendo-a e escondendo-a. Todos concordam que ela fique por duas semanas, durante as quais poderiam conhecê-la melhor e julgar se ela dizia a verdade e era tão inocente quanto parecia.

Durante este tempo, Tom aconselha Grace a ser útil e ela, diante da afirmativa de todos de que não precisavam de nada, se oferece, então, a fazer coisas que “não precisavam ser feitas”. Dentro de pouco tempo ela se torna indispensável. Com a visita da polícia à cidade, seus habitantes se sentem ameaçados e Tom recomenda a Grace que dobre as horas de trabalho, para que todos se considerem mais “recompensados” pelo risco que correm. O filme vai se encaminhando até um ponto em que Grace passa a ser explorada, humilhada e, após uma tentativa de fuga, é acorrentada a uma roda de ferro pesada, que ela precisa arrastar pela cidade para ir às casas onde continua a trabalhar mais que nunca. No ferro preso a seu pescoço é afixado um sino para que todos possam ouvir onde ela está. Todas as noites ela é sistematicamente estuprada por todos os homens adultos da cidade, exceto Tom que diz amá-la e pretender ajudá-la. Ele bola um plano segundo o qual Grace deve contar a verdade a todos, em uma reunião. Dizer o que cada um lhe fez. Ela o faz e a cidade, ao ouvir as verdades, se indigna e diz que são mentiras, já que todos se conhecem muito bem e sabem que nenhum deles seria capaz de agir daquela maneira.

Tom se diz decepcionado com todos, vai até a casa de Grace e tenta fazer amor com ela. Ele não contava absolutamente com sua reação. Grace lhe diz que não seria certo, pois deveriam estar ambos livres para que pudessem, enfim, realizar o seu amor, mas se ele quiser pode forçá-la, assim como todos os outros, como devia estar pensando em fazer. Tom fica indignado e sai da casa de Grace, não sem antes desejar-lhe boa noite. O narrador, conhecedor dos pensamentos mais profundos dos personagens, diz: “Tom estava bravo. E, no meio disso tudo, ele descobriu porquê. Não era por ter sido falsamente acusado, mas sim porque as acusações eram verdadeiras. Sua raiva se resumia ao sentimento desagradável de ser descoberto. Foi um choque para o jovem filósofo. (...) Grace era um perigo para a cidade, e para ele também.” (DOGVILLE). Ele retorna à reunião e todos resolvem entregar Grace aos gângsters. Todos começam a tratá-la melhor, mas cinco dias depois oito carros chegam à cidade.

É o “Capítulo nove: No qual Dogville recebe a tão esperada visita e o filme termina.”(DOGVILLE). Segundo Von Trier “Prelúdios assim estimulam a imaginação. (...) Esta técnica narrativa cria estratagemas dramáticos. Às vezes criam-se expectativas que depois não se cumprem.” (BJÖRKMAN, obra citada, p.4) Neste caso, o que acontece no final do capítulo não é, de modo algum, prenunciado pelo prelúdio. Grace era, na verdade, filha do chefão dos gângsters, de quem havia fugido por querer ser uma “pessoa melhor”. Ao buscar, no entanto, a convivência com pessoas de “bom-caráter”, vai chegar à conclusão que eram “as diferenças entre as pessoas de casa e as de Dogville mais amenas do que esperava.” (DOGVILLE). Ela, então, conclui que os habitantes de Dogville não tentavam ser bons o bastante, assume o poder que o pai lhe oferece, e manda que matem todos eles, com requintes de crueldade. Grace executa Tom pessoalmente. O único sobrevivente será Moisés, que foi sincero desde o início sobre seus sentimentos em relação a Grace. Definitivamente não gostava dela. Ao terminar o filme, Moisés se materializa e o desenho no chão se transforma em um cachorro “de verdade”.

Ao colocar um narrador, dividir o filme em capítulos (com aspecto de histórias para crianças) e fazer esse cenário propositadamente “falso”, Von Trier estabelece de cara um pacto ficcional com os espectadores. Como se dissesse: “Olhem bem, isto tudo que vocês irão ver não passa de ficção!” Em A dúvida de Flusser, Gustavo Bernardo conta a história de uma mulher que visitou o ateliê de Matisse e, ao olhar um quadro comentou que o braço da mulher estava muito comprido, ao que o pintor respondeu que aquilo não era uma mulher, e sim um quadro.

A mulher exigindo “realidade” equivale ao boboca que vai assistir a um filme de James Bond e logo nas cenas iniciais se irrita: “Mas que mentira!”. Ambos necessitam de ficção, tanto que vão ao ateliê de um pintor e a uma sala de projeção, mas ao mesmo tempo ambos não suportam ficção. Parece que o quadro e o filme, colocando sob suspeita o que vêem, põem em questão o restante, ou seja, a própria realidade.. O leitor de um romance, o observador de um quadro, o espectador de um filme, precisam suspender a descrença, mas também, lado a lado com o artista, precisam desmontar a matéria do real para refazê-la. (BERNARDO, 2002, p.145)

 

Para Paul Ricoeur “...muitas vezes estamos tão envolvidos pelas formas de vida, tradições e paradigmas da cultura em que nos inserimos que sequer as percebemos. Assim, o distanciamento gerado pelo texto pode servir para que possamos compreender inclusive a perspectiva limitada derivada deste envolvimento.” (RICOEUR apud JOBIM, 1999, p.213). Ao estabelecer este distanciamento, Lars Von Trier está exigindo do espectador uma cumplicidade no sentido de reconhecer, admitir o “fingimento” do texto.

Em Dogville, Von Trier não deixa sequer uma brecha para que o espectador possa ver aquilo como uma “história real”, não permite que ele se iluda, ao mesmo tempo em que afirma que ela poderia ser a história de qualquer cidadezinha americana, ou de outro país qualquer. Ou seja, ao mesmo tempo em que não é “real” é de uma probabilidade universal. Para Flusser “não nos cabe perguntar se as imagens técnicas são fictícias, mas sim o quanto são prováveis. Da mesma maneira, não nos cabe perguntar o quanto nós mesmos somos reais, mas apenas o quanto seríamos prováveis.” (BERNARDO, obra citada, p.160)

Por várias vezes Von Trier nos leva a perceber a “realidade” como imposição das palavras. E que esta nem sempre (ou quase nunca) condiz com a “verdade”, embora seja a única com a qual se pode contar, ou reconhecer.

Em Dogville a rua principal se chama Elm Street. O narrador, logo no prólogo, diz: “Embora alguma alma do leste tenha dado à rua principal o nome Elm e embora não haja olmo algum por aqui eles não viram razão para mudar coisa alguma”.(DOGVILLE). Afinal é apenas um nome, uma palavra, mas no capítulo sete o narrador continua: “O fim do verão chegou e, na rua Elm os esquilos subiam e desciam pelas pernas das pessoas procurando, em vão, pelos olmos inexistentes na rua Elm.”(DOGVILLE). A língua constrói a realidade. Ou não? Os esquilos procuram os olmos pois estes estão contidos na palavra que dá nome à rua. Mas eles, na “verdade” não existem...Nem os olmos, nem os esquilos que tampouco podem ser vistos nas cenas. Assim como o som do bate-estacas, citado pelo narrador e por Tom, não pode ser ouvido, embora o sino e o rangido das portas que são abertas pelos personagens, possam.

Em A dúvida de Flusser Gustavo Bernardo afirma que “por meio da teoria da literatura suspeita-se não somente da adequação entre a palavra e a coisa, mas da própria coisa.” (BERNARDO, obra citada, p.13) Von Trier leva, em Dogville, essa inadequação entre a palavra e a coisa até as últimas conseqüências, brincando com palavras e seus significados e associações. Tom, por exemplo, chama-se Thomas Edison Jr. , referência mais que óbvia a um dos mais produtivos inventores americanos (inventou, inclusive, o projetor de cinema), que contrasta vivamente com o inútil Tom que só pensa, fala palavras vazias e não resolve absolutamente nada. Na única vez em que o faz, mata a cidade inteira. Ele, muito cheio de si, segundo o narrador, se considerava escritor, embora sua obra toda se resumisse em “duas palavras: “grande” e “pequeno”, seguidas de ponto de interrogação” (DOGVILLE). Um autor estéril, sem obra, que se opõe, ironicamente, a um inventor produtivo.

No prólogo, o narrador afirma que os moradores de Dogville eram “residentes honestos”, mas a única vez em que são confrontados com a “verdade” contada por Grace, respondem com duas palavras: “Mentiras deslavadas!” (DOGVILLE). Alfred Hitchcock, em A sombra de uma dúvida, critica o “american way of life” e “o assassino que invade a vida de uma pacata família americana justifica seus atos dizendo que “o mundo é um chiqueiro: se tirarmos as fachadas das casas, veremos os porcos se refestelando na lama."”(AMÉRICO, obra citada, p.1) Ao retirar as paredes das casas desta cidade, Von Trier expõe os porcos, ou os cães, como preferir.

E Grace. A doce, linda e loura Grace é um presente, uma Graça concedida por Deus e incompreendida pelos habitantes da cidade, mas, no fundo, também não era isso. Era filha de um gângster e arrogante a ponto de pensar que era melhor, mais compreensiva e capaz de perdoar do que os outros, mas ao perceber que eles não “eram bons o bastante”, se mostra muito diferente e ordena a chacina da cidade. Ela se transforma em um Deus todo poderoso e vingativo que, como em nova Sodoma, destrói toda uma cidade, pois, “se alguém tivesse o poder de consertar as coisas esse alguém teria a obrigação de fazê-lo pelo bem das outras cidades, pelo bem da humanidade.” (DOGVILLE) Deus no lugar de uma (agora) gângster? Ou vice-versa? Ou Deus aqui é o pai de Grace, sendo ela um Cristo de saias lindo e louro que é martirizado pelo povo, só que no final não os perdoa porque não sabem o que fazem?

A própria confecção do filme e os motivos que levaram Lars Von Trier a fazê-lo indicam um movimento do diretor (intencional ou não, e isso não interessa) no sentido do questionamento da “realidade”.

José Geraldo Couto (COUTO, 2003) diz que “Quando lançou Dançando no escuro, o dinamarquês Lars Von Trier foi atacado por fazer um filme ambientado nos EUA sem jamais ter ido lá. (...) a reprimenda (...) reforçou o seu antiamericanismo e levou-o a conceber a trilogia “América, terra de possibilidades”, da qual Dogville é a primeira parte.

Von Trier ficou verdadeiramente incomodado com as críticas e disse ter “a pretensão de conhecer melhor a América através das imagens que passam nos media de que os americanos conheciam Marrocos quando fizeram Casablanca. (...) Hoje é difícil não ter informações sobre a América: 90% das atualidades e dos filmes vêm de lá.” (BJÖRKMAN, obra citada, p.5) Mas ele disse que apesar dos atores serem americanos, ele fez questão de um narrador inglês, para mostrar que o filme é contado pelo ponto de vista de um estrangeiro, do “outro”.

Engraçado se pensarmos na “Sociedade do Espetáculo”, onde tudo é ficção, inclusive os telejornais que “informam as verdades” às pessoas. Segundo o que vimos até agora, sobre a relação entre as palavras e as coisas, Von Trier está absolutamente certo, quando se diz tão habilitado para fazer não um filme, mas uma Trilogia, sobre um país, partindo das informações obtidas à distância, quanto qualquer cidadão deste país, pois que tudo seria ficção mesmo. Ou melhor, se as verdades absolutas não existem, mas sim as realidades momentâneas, naquele momento, naquele determinado contexto, aquela é a verdade, é a realidade. Não importa se eterna ou não, já que esta é impossível de ser apreendida, ou talvez (muito provavelmente) nem exista. Por que tanta celeuma a respeito de um filme se o pacto ficcional está ali mesmo? Voltamos à história do quadro de Matisse ou dos filmes de James Bond.

Acontece que a questão é mais profunda. Segundo Von Trier, referindo-se às críticas recebidas pelo filme Dançando no escuro, a “verdadeira motivação desta cabala está na acusação do filme ao sistema judiciário americano.” (BJÖRKMAN, obra citada, p.5).

Apesar de Von Trier ter afirmado que Dogville “fala dos Estados Unidos, mas também de qualquer cidadezinha do mundo” (BJÖRKMAN, obra citada, p.2), José Geraldo Couto diz: “Mas é claro que Von Trier não está falando do “homem em geral” e que concebe os horrores de Dogville como uma espécie de magma de onde surge a América atual, bélica e expansionista. No final, as fotos jornalísticas da Grande Depressão, ao som do inglês David Bowie cantando “Young americans”, não deixam dúvidas.” (COUTO, 2003, p.1)

Os americanos não viram Dogville com bons olhos, ainda mais por ter sido lançado após os atentados de 11 de setembro. Até porque, no final do filme, após acompanharmos a via crucis da Divina Grace, ao vermos um bebê ser assassinado friamente diante dos olhos da mãe desesperada, pensamos: “Coitado do bebê, mas ela teve o que mereceu.” Em entrevista, Lars Von Trier ainda reforça mais essa possibilidade de leitura que associa a história de Grace que, enquanto era frágil, foi explorada, abusada, sacaneada até o limite e esses maus-tratos provocam uma reação contra os todo poderosos habitantes de Dogville, aos atentados às Torres Gêmeas: Ele diz: “Não acho que os americanos sejam piores que os outros, mas também não os acho menos maus que os dos estados terroristas de que fala o Sr. Bush. Acho que as pessoas são iguais em todo o lado. Mas que dizer da América? O poder corrupto. É um facto. O poder dado às pessoas sobre outra, corrompe-as.” (BJÖRKMAN, obra citada, p.2).

Diante disso podemos nos lembrar de Grace, que de vítima frágil passa a algoz violenta, trocando de lugar, num piscar de olhos, com os moradores de Dogville. Mais uma vez a relativização da “realidade” que agora é outra.

Se Lars Von Trier, com Dogville, desmonta, desconfigura o mundo, denunciando os ideais de verdade americanos, também o faz com os espectadores, abalando as nossas verdades mais profundas, o conhecimento de nós mesmos. Grace, ao contar a verdade aos habitantes da cidade, aponta seus “eus” bem diferentes dos que desejariam, ou dos que conheciam e, ao fazê-lo assina sua sentença. Porém, assim como eram falhos em seu auto-conhecimento, também o eram em relação a ela, desconhecendo seu papel, sua verdadeira função na história toda.

O diretor também nos aponta nosso erro de julgamento por duas vezes, pelo menos: quando nos surpreendemos com a posição de Grace e sua vingança terrível e quando nos sentimos felizes com isso. Esta última constatação nos deixa (ou pelo menos a mim deixou) consternados. Afinal de contas quem somos nós? Como somos nós? “Civilizados” como desejaríamos?

“Os outros me vêem como sou, ou sou como me vêem os outros? O difícil não é saber como me vêem os outros. Posso lê-lo nos seus olhares. O difícil é descobrir quem sou eu.” (FLUSSER, 1972, [s.p.]). Sou?

 

Referências:  

 

AMÉRICO, Fernando de Castro. Joga pedra na Nicole, joga bosta na Nicole...ela é feita pra apanhar, ela é boa de cuspir. Nicole Kidman come o pão que Lars Von Trier amassou em Dogville. 2003. Disponível em: <http://www.rabisco.com.br/34/dogville.htm>. Acesso em: 12 jul. 2004.

BERNARDO, Gustavo. A dúvida de Flusser: filosofia e literatura. São Paulo: Globo, 2002. 316p.

BJÖRKMAN, Stig. Entrevista. Cahiers du cinéma, maio de 2003. Disponível em: <http://www.atalantafilmes.pt/2003/dogville/>. Acesso em: 10 jul. 2004.

COUTO, José Geraldo. Em “Dogville”, Von Trier expõe perversões da América belicista. 2003. Disponível em: <http://www1.folha.uol.com.br/folha/ilustrada/ult90u38344.shtml>. Acesso em: 10 jul. 2004.

DEBORD, Guy. A sociedade do espetáculo. Rio de Janeiro: Contraponto, 1997. 238p.

DOMINGUES, Sérgio. O mundo-cão de Dogville não se limita aos Estados Unidos. 2004. Disponível em: <http://www.revolutas.org/index.php?INTEGRA=’29’>. Acesso em: 14 jul. 2004.

FLUSSER, Vilém. Língua e realidade. São Paulo: Editora Herder, 1963. 238p.

______________. Máscaras. 1972. Acesso em: 09 jul. 2004.

JOBIM, José Luís. A ficção dos limites e os limites da ficção. In: Máscaras da mímesis: a obra de Luiz Costa Lima. Rio de Janeiro: Record, 1999. p. 201-218.

“DOGVILLE”. Dinamarca / Suíça / Reino Unido / EUA / França / Noruega / Alemanha / Finlândia / Itália / Japão, 2003. 178 minutos. Direção: Lars Von Trier. Estrelando: Nicole Kidman, Paul Bettany, John Hurt, Jean Marc-Barr, Chloe Sevigny, Lauren Bacall, Phillip Baker Hall, James Cann. Distribuidora: Imovision. Site oficial: www.dogville.dk/.