DUBITO ERGO SUM

 Páginas de Ceticismo

RIOBALDO: CAVALEIRO DA DÚVIDA?

Leonardo Vieira de Almeida *

 

A questão fundamental que atravessa o romance Grande Sertão: Veredas, de João Guimarães Rosa, é o questionamento sobre a existência ou não do mal. Na busca de uma resposta a essa pergunta se desdobra a narrativa, por mais de quinhentas páginas, enfrentando uma série de contradições que reflete a impossibilidade de decisão  em que se encontra o jagunço Riobaldo. Pretendo, neste estudo, analisar como o personagem experimenta o impasse cético em dois momentos da obra: o pacto nas Veredas-Mortas e as tentações que se seguem a este acontecimento. Para tanto, irei me servir, como pressuposto teórico principal, do pensamento de Vilém Flusser a partir das relações que estabeleceu entre literatura e ceticismo. Afinal, Riobaldo fez ou não o acordo com Satã?

Em A história do diabo, Flusser opta pelo ceticismo quando encara a filosofia como criadora de problemas a serem solucionados. Mas tudo não passa de jogo. A essência da filosofia é o seu próprio clima.[i] Gerando questões inteiramente irreais, é na tentativa de solucioná-las, que se mantém em giro a roda, samsara. Mas samsara é o mundo da representação. Flusser, discutindo Schopenhauer, diz que para se atingir samadhi, equilíbrio, o iogue indiano anula a vontade, sabe desvendar o véu de maya, liberta-se do mundo da representação. Gesto que pressupõe soberba. Ora, se o mundo da representação pode ser encarado como uma realidade diabólica, pois parente da ilusão, mentira, escapar desse mundo teria como conseqüência tomar uma atitude divina. Mas a soberba, diabólica, é pecado. Como então sair da situação absurda em que a mente percebe a ilusão que é o diabo e se usa de um gesto diabólico para anulá-lo?

A serpente que devora a própria cauda, Uroboros, virtualiza, de maneira pictórica, o nó que ata as inúmeras pontas da dúvida. A pergunta engole a si própria. É por rastros ambíguos que Riobaldo sobe ao campo das Veredas-Mortas para realizar o pacto: “Deus é muito contrariado. Deus deixou que eu fosse, em pé, por meu querer, como fui”.[ii] Aqui, o jogo, em nível semântico, tem início. Quem dá o primeiro lance: Deus ou o próprio personagem? É pelo seu querer, por sua vontade, que Riobaldo vai de encontro ao demo? Mas ele só vai porque “Deus deixou que eu fosse”.[iii] A individualidade perde seu ponto de referência. O sujeito fragmentado, disperso, tenta encontrar razões para os seus atos. A vontade do pactário, o jogo entre vida e morte que é sua emanação, enquanto fenômeno no espaço e no tempo vinculados pela causalidade, é aparência não-essencial, também uma grande ilusão. “Como podia? Eu era eu – mais mil vezes – que estava ali, querendo, próprio para afrontar relance tão demarcado. Destes meus olhos esbarrarem um ror de nada”.[iv]

Riobaldo aguarda o encontro com o vazio. As interrupções da fala criam a distância, as pausas atonais, expandindo a linguagem pura sem significado. A língua se estende em busca desse torvelinho mudo, em que cada palavra anseia pela sacralidade. A palavra viva se distancia de sua origem. Todo o espaço das Veredas-Mortas parece constituir esse intervalo entre a espera e o encontro com o diabo:  “Ao que não vinha – a lufa de um vendaval grande, com Ele em trono, contravisto, sentado de estadeira bem no centro. O que eu agora queria! Ah, acho que o que era meu, mas que o desconhecido era, duvidável”.[v] Momento que encarna o balbuciar caótico dos símbolos querendo se articular, mas também se diluir. Útero e morte. Eros e tanatos. Tentando escapar ao sopro gelado da dúvida, Riobaldo exclama: “Acabar com o Hermógenes! Reduzir aquele homem!...” Mas logo em seguida: “ [...] e isso figurei mais por precisar de firmar o espírito de alguma razão”.[vi]

A solução pela assertiva cartesiana se despedaça. O que resta são tropos dispersos: “tornopío do pé-de-vento”, “ró-ró girado mundo a fora”, “dobar, funil de final”, “...o Diabo na rua, no meio do redemunho”.[vii] Frase oracular para onde convergem em espiral a série de intervalos múltiplos e variáveis, as certezas da fé e incertezas do diabo. Toda essa composição parece derivada da figura fundamental: d-e-m-u. No vórtice que a tudo devora, está o próprio diabo. Diabo e Uroboros se internalizam. Numa ilustração do místico cristão Jacob Boehme, publicada em seu Theosophische Werke (Amsterdam, 1682), Uroboros é representada pela serpente da eternidade circundando o mundo pecaminoso da criação. O círculo inteiro converge para o centro, o olho plangente de Deus, o ponto onde a salvação, simbolizada pela pomba do Espírito Santo, pode ser alcançada pela compaixão e o amor.

A essa visão cristã, Carl Jung traduz Uroboros como símbolo dramático da integração e assimilação dos contrários, ao mesmo tempo representando a imortalidade, no momento em que a serpente devora a si mesma e é trazida novamente para a vida.[viii] Mas também Uroboros pode ser traduzido como o “O”, figura para o qual podem convergir todos os nomes de Satã.[ix] O círculo do inferno, o útero, a roda de samsara, a linha que abriga o mundo ou o nada, nirvana, zero, nonada.

Através de uma letra, um fonema, Guimarães Rosa instaura o ceticismo no próprio terreno do signo. Ao contrário do símbolo, o signo designa qualquer objeto, forma ou fenômeno que remete para algo diferente de si mesmo e que é usado no lugar deste. Assim, balança significa a justiça; a cruz, o cristianismo; a suástica, o nazismo. Ao caráter unívoco do signo contrapõe-se a ambigüidade do símbolo, sua analogia, a qual se pode atribuir mais de um significado. O “O”, vogal, mas também figura, não remete a uma única tradução. O conteúdo heteróclito gera um campo de possibilidades infinitas. Se Deus pode ser chamado de o Uno primordial, aquele que não pode ser invocado, IHWH, no misticismo judaico, o “O” também pode ser o Uno, a linha infinita que delimita o todo, ou voragem, o centro do redemunho que traga os múltiplos nomes, que os devolve à origem, metonímia de toda a linguagem.

Vilém Flusser, no ensaio O “Iapa” de Guimarães Rosa, traduz Grande Sertão: Veredas para o alemão por Grosses Holz: Holzwege.[x] “Holz” é uma antiga palavra alemã que significa “floresta”, mas também “madeira”. Flusser chega então à “matéria-prima”.  “Holzwege” são “veredas sem rumo”, veredas frustradas”. Desse modo, Grosses Holz: Holzwege, retraduzido para o português, seria: “Grande matéria-prima: esforço frustrado”. Aponta-se aqui para o que o Flusser considera como esforço tradutório, em Língua e realidade: “Toda tradução é um aniquilamento”.[xi] A “matéria-prima”, o “iapa”, a farinha mágica da língua libera-se da lógica, funda-se no abismo, fissura gerada entre o objeto de origem, o nomear adamítico, e a incapacidade do ficcional de retorno ao inconcebível do ato puro, despertador das coisas, chamando-as para o seu verdadeiro nome. A linguagem profana, posterior ao pecado original, degrada-se num mero balbuciar de signos, servindo apenas à comunicação. Toda palavra agora pode ser um nome do diabo, pois, ao se tomar posse do Nome, a inveja do homem corrompeu o gesto inicial.[xii] Em seu lugar a palavra, grito de guerra contra a unidade divina, tenta ao mesmo tempo voltar-se para o Uno. A dimensão nomeadora da linguagem, através de uma anamnesis, procura o solo paradisíaco. De qualquer forma, a busca da origem é inacessível. E só se procura atingir essa meta pela astúcia do diabo, o de imitar Deus. IHWH criou Adão, este deu sopro ao Nome. Mas Adão, o primeiro Fausto, procurou o conhecimento, a árvore do bem e do mal. Devorado pelo “O”, Riobaldo tenta salvar a palavra enquanto registro: “Só outro silêncio. O senhor sabe o que silêncio é? É a gente mesmo, demais”.[xiii] O “O” também poderia ser traduzido como balbucio, vereda para o silêncio.

Ao traduzir Trauerspiel, Walter Benjamin, em Origem do drama barroco alemão, dá a chave para a interpretação da instância transfiguradora do universo ficcional. Spiel é mero espetáculo. A vida é jogo, aparência, ilusão, maya: theatrum mundi. E Trauer é espetáculo lutuoso, reflexo de um mundo sem teleologia. O espetáculo é a ilusão lúdica que traduz o mundo ilusório.[xiv] É o espetáculo dentro do espetáculo, cuja única saída seria a transcendência, escapar de maya, retornar ao “O”, à própria vontade, certeza de que o pacto foi de fato realizado, que se uniram num único centro as máscaras múltiplas do Eu fragmentado, os cacos dispersos que devolverão ao pactário sua identidade, a força para acabar com o Hermógenes. Mas o artifício para desmascarar a dúvida remete a outra realidade, a princípio não-ilusória, mas que é apenas mais uma cena interposta entre outras. O jogo da ilusão e da realidade só pode ser revelado através das infinitas fissuras onde se dispõem os mosaicos da linguagem. No esforço lutuoso de encontrar o objeto perdido, de escapar ao círculo vicioso do ceticismo, de Uroboros, do “O”, o pactário é ser que oscila em sua própria falta de decisão. Contra o objetivo de Fausto, de transgredir o interdito, coloca-se o homem recém-saído como de um útero, sem chão, que se debateu ante a ausência do redemunho, como se ao sair de um palco onde procurava desfazer a ilusão caísse em outro, onde começa a construir um novo espetáculo, que acredita ser original: “Nunca em minha vida eu não tinha sentido a solidão duma friagem assim. E se aquele inteiriço não me largasse mais”.[xv] E a seguir se indaga: “Posso me esconder de mim?...”[xvi]

A partir dessa nova pergunta, Riobaldo se vê enredado num novo jogo que irá levá-lo a um outro momento, a um outro palco, onde, em cada ato, tentará encontrar a única máscara possível, a que se adéqüe ao intuito de dar sentido às suas ações:  

Só o que eu quis, todo o tempo, o que eu pelejei para achar, era uma só coisa – a inteira – cujo significado e vislumbrado dela eu vejo que sempre tive. A que era: que existe uma receita, a norma dum caminho certo, estreito, de cada uma pessoa viver – e essa pauta cada um tem – mas a gente mesmo, no comum, não sabe encontrar; como é que, sozinho, alguém ia poder encontrar e saber?[xvii]

Riobaldo parte agora do pacto com o Diabo para achar esse caminho certo, o ponto de apoio que o tire da indeterminação (Bodenlos).

Após voltar da encruzilhada das Veredas-Mortas ele passa por uma série de estados sensórios, de tristeza e alegria, medo e coragem, frio e calor. Sai da encruzilhada com o propósito de assumir a chefia do bando de Zé Bebelo: “E eu – ah – eu era quem menos sabia – porque o Chefe já era eu. O Chefe era eu mesmo! Olharam para mim”.[xviii]

A essa possível afirmação de uma subjetividade, encarnada na figura do chefe, segue-se uma série de perguntas. Exigindo dos companheiros uma resposta, Riobaldo quer tomar a chefia dos jagunços. Ele agora não afirma: “Eu sou chefe!”. Mas vacila, pois ainda é “o homem”, mero sujeito de uma frase, ser em busca de um objeto para realizar-se: “– ‘Ah, agora quem aqui é que é Chefe?[xix]

Em A dúvida, Flusser encara a realidade (wirklichkeit) como a estrutura articulada do mundo efetivo. Partindo do pressuposto de que a língua cria a realidade, seria a frase o próprio wirklichkeit para o homem. O caótico, o inarticulado do vir-a-ser não participa desse mundo real, que escapa pelas malhas da língua. Seria intuível apenas poética ou misticamente. Para ser real, “ser Chefe”, Riobaldo precisa aceitar a forma desse sujeito, atingir o objeto, realizar seu projeto (Entwurf) através do predicado. Segundo Flusser, para ser real, tudo tem de assumir a forma do sujeito, do objeto e do predicado de uma frase.[xx]

O comportamento das coisas entre si é o que Wittgenstein chama de Sachverhalt, e o acordo existente entre elas é que Heidegger nomeia por Bevantdnis. Procurar significar seria encontrar um lugar dentro da estrutura da realidade. A palavra “o homem” tornar-se-ia sujeito de uma frase, procuraria uma Sachverhalt que tivesse uma Bevandtnis. Procuraria ser um predicado em direção a um objeto. O “homem” considerado isolado, fora da frase, é somente procura, interrogação, dúvida, deveria ser escrito: “o homem?”[xxi] A pergunta: “- ‘Ah, agora quem aqui é que é Chefe?’ ”, da mesma forma isola o sujeito, que busca um chão onde se firmar. Mas não é através da própria frase que Riobaldo quer a Sachverhalt, mas da frase do outro, dos seus companheiros. E é da boca de Zé Bebelo que espera usurpar o mando dos jagunços: “_ ‘Quem é que é o Chefe?!’ ”[xxii] , pergunta para ele. A interrogação, porta para o labirinto do vir-a-ser, e a exclamação (“eu sou”) neutralizam a tentativa dos símbolos de adquirirem significado. Mas é pelo “outro” que Riobaldo precisa “ser”, como ele diz: “– mas a gente mesmo, no comum, não sabe encontrar; como é que, sozinho, alguém ia poder encontrar e saber?”[xxiii]

A questão do indivíduo solitário que se põe em confronto com sua individualidade, foi abordada numa passagem bíblica fundamental, que se pode encontrar no Gênesis, quando da prova de Abraão. Kierkegaard, em Temor e Tremor, obra de 1843, analisa o ato de Abraão como gesto só cabível a um cavaleiro da fé.  Esse reivindica sua individualidade pondo-se acima do geral, ou seja, para além da moral. Ao levar o filho, Isaac, para o cume do monte Morija e se preparar para sacrificá-lo em obediência à ordem divina, é a própria moral que tenta Abraão. Não matar Isaac estaria de acordo com a lei dos homens. Porém, atentaria contra a Lei divina. A saída de Abraão, portanto, não pode se reduzir a nenhum raciocínio: faz de um crime um ato sagrado e o eleva a Deus. É o paradoxo da fé.

O filósofo dinamarquês diferencia o cavaleiro da fé do herói trágico. Esse exprime-se sempre integrado ao telos, ao geral. É o cavaleiro da ética. Kierkegaard toma como exemplo do heroísmo trágico a peça Ifigênia em Áulide, de Eurípides.[xxiv] Ao contrário de Abraão, que não revela nem à Sara nem a Isaac o seu desígnio, Agamenon mostra coragem moral ao anunciar ele próprio à Ifigênia o seu destino. É necessário que o herói trágico fale, que exponha o que exige a ética, que através do seu argumento se convoque a hybris, o caminho do sacrifício para restabelecer a ordem da pólis.

Abraão, por sua vez, nada explica a Isaac. Mas o filho, ao ver o fogo e a lenha preparados pelo pai, pergunta-lhe onde está o cordeiro para o holocausto. E Abraão responde: “Deus providenciará o cordeiro para o holocausto, meu filho”.[xxv]

O profeta de Israel não pode falar nada que explicite o caráter de prova do desígnio divino, pois não há linguagem humana que possa exprimir o milagre da fé. Além disso, Abraão não poderia saber que se tratava de uma prova, ou sua fé não seria confirmada. Diz Kierkegaard: “Não pode falar. Não é sua nenhuma linguagem humana. Mesmo se soubesse todas as que existem na terra, mesmo se os seres queridos o compreendessem, não poderia falar. A sua linguagem é divina, fala as línguas”.[xxvi]

O paradoxo da fé é um gesto que pressupõe a dúvida. O cavaleiro da fé está destinado a enfrentar a terrível responsabilidade da sua solidão.

Agora tornado o Urutú-Branco, chefe dos jagunços, após desapossar Zé Bebelo, Riobaldo encontra-se também diante da dialética da fé. É tentado três vezes a praticar o mal, a tirar a vida de três homens.

Na primeira tentação, ao chegar ao Chapéu-do-Boi, depara-se com um homem, nhô Constâncio Alves, montado numa égua e trazendo um cachorro. A princípio, ele é bem recebido pelo bando do Urutú-Branco, conversa com os jagunços, diz a Riobaldo que vem da serra dos Alegres, e que pode tê-lo conhecido, quando menino. É então que Guirigó se dirige a Riobaldo, conseguindo apenas dizer: “Iô chefe...”.[xxvii] Ao olhar para Guirigó pensa ter ouvido Satã. Riobaldo sente o desejo incompreensível de matar nhô Constâncio Alves. Pois diz: “Daí, de repente, quem mandava em mim já eram os meus avessos”.[xxviii]   

Vemos aí mais um palco onde Riobaldo realiza a luta da vontade contra o intelecto, luta que, a princípio, deveria ser entre as forças da sanidade contra a loucura, luta das forças civilizadoras contra a irrupção irracional da barbárie.

Kathrin Holzermayr Rosenfield, no ensaio “O pacto entendido como ‘lance’ ”, aponta para a leitura que faz Thomas Hobbes do Estado, o Leviatã, que representa no plano da civilização o papel de Deus no Paraíso para Adão e Eva.[xxix] O interdito colocado pela palavra divina (a árvore do bem e do mal) estaria no caráter paradoxal que constitui a razão em relação ao próprio interdito. O livre-arbítrio humano dota o homem da necessidade do conhecimento, de forma que a razão é a causa necessária para a transgressão. Assim, a razão constitui-se na causa e na conseqüência da queda. O intelecto (razão) é o agente que desencadeia o impulso da vontade (desrazão).

Riobaldo seria o cavaleiro da fé de Kierkegaard, na sua tentativa solitária de optar pelo absurdo? O Urutú-Branco se move entre a constelação de possíveis razões para os seus gestos. Não sabe ao certo se seus “avessos” possuem uma existência real, se podem ser a encarnação demoníaca ou apenas ele mesmo: “Mas, aquilo de ruim-querer carecia de dividimento – e não tinha; o demo então era eu mesmo?”[xxx]

O ceticismo de Riobaldo faz-se espelho da crise do próprio pacto. Se a razão contém em si mesma o impulso para a desrazão, se todo pacto move-se no sentido de ultrapassar um obstáculo e superar uma prova, seja pelo absurdo do cavaleiro da fé, seja pela hybris que exige do herói trágico sacrificar sua individualidade em nome do geral, implica-se que o pacto pressupõe do pactário a eleição de um objetivo.O impulso fáustico, desde Adão até o herói goethiano, esteve firmemente apoiado na busca positiva da transcendência. A ideologia fáustica exigia a tentação que coloca o indivíduo frente a frente com sua responsabilidade, até então na tentativa de conquistar um modelo de afirmação do homem. Se na primeira parte de sua obra, Goethe condena Fausto pela tragédia de Margarida, na segunda parte o redime com a realização de sua utopia burguesa. A insatisfação existencial que marca o mal du siècle, a partir do Romantismo, revelará o Fausto satânico, que se fará prometéico não pela ação, mas pela indiferença. Manfred, o Fausto byroniano, se recusa ao inferno, quer morrer na absoluta solidão, o que o leva a dizer ao Espírito do Mal:  

Tu não me tentaste, nem me podias tentar; nunca fui teu ludíbrio, nem sou tua presa... fui e serei meu próprio algoz... Retirai-vos, demônios impotentes! a mão da morte está sobre mim... mas não a vossa! [...][xxxi] 

 Fausto, para quem Goethe imaginara paraísos de utopia, encontra-se enredado em profundo pessimismo. A unidade dialética entre espírito e matéria, a fusão com o eterno feminino e a obra civilizadora e progressista, dá lugar a cisão do próprio mito. Na passagem do fim do século XIX para o século XX veremos a utopia fáustica desmoronar no terreno do ceticismo e da ironia: será o Fausto devorado pela despersonalização, de Fernado Pessoa; o Fausto agnóstico de Paul Valéry; o sifilítico por escolha própria e louco, criador da danação dodecafônica, que é Adrian Leverkühn, o Fausto de Thomas Mann. Todos são emblemas do mundo cínico, hiper-racional e imediatista da modernidade, onde a luta pela “alma” perde terreno e a problemática da superação de limites decai na impossibilidade de se distinguir uma linha de ação. Assim como Fausto, o Diabo também perdeu seu lugar no mundo: em Pessoa, nem mesmo aparece; em Valéry, é Fausto que lhe propõe o pacto; em Mann, Adrian duvida que realmente Mefistófeles tenha-lhe surgido, se não fora mais um fantasma de sua demência.

As tentações de Riobaldo não o fazem subir ao monte Morija para sacrificar um filho, nem o levam ao ideal de erradicação da jagunçagem pela política, o sonho hobbesiano ansiado primeiramente por Zé Bebelo. Ao ser instigado a matar nhô Constâncio Alves, ele vacila: “Súbito sendo – pois, pois – que um recurso eu tive e por uma greta me saí, levando a salvo comigo o desgraçado nhô Constâncio Alves”.[xxxii] É através de uma pergunta, um recurso à memória de sua vítima, que Riobaldo tenta ludibriar o demônio. Se nhô Constâncio Alves responder pela afirmativa, irá morrer. Senão, receberá o perdão: “__ ‘Se sendo que o senhor é de minha terra, a pois: conheceu um homem que se chamava Gramacêdo? Será, o senhor é parente dele?’ ”[xxxiii] Nhô Constâncio Alves diz que não, que nunca conheceu tal homem, nem dele nunca ouviu falar. Mas quando enfim vai embora, depois de Riobaldo ter se apossado de seu dinheiro, esse diz: “__’Perdoei este; mas, o primeiro que me surgir, destas estradas, paga!’ ”[xxxiv]

A série de subterfúgios para ludibriar o diabo choca-se com a necessidade de cumprir seus desígnios. Só que Riobaldo realizou o contrato com o que não existe: “Digo ao senhor; Diabo não existe, não há, e a ele eu vendi a alma...”[xxxv]

Esse paradoxo absoluto pode nos reportar ao conto “O espelho”, do livro Primeiras estórias, onde o narrador, em primeira pessoa, conta de sua luta para provar a falta de lógica e de sentido do mundo. Diante de um espelho, foi descobrindo com o passar dos dias a mentira que é a aparência humana. Num processo de “desimaginar-se”, vai verificando que o homem, como todas as coisas, não passa de uma metáfora. No limite do absurdo, ele chega a ver sua “forma” invisível.[xxxvi]

Herman Broch afirma que nossa realidade tridimensional não passa de abstração. O que há de fato é a pluridimensionalidade. O homem tenta dar dimensão às coisas para escapar do contato com a relativização. No conto “A mãe adotiva”, que faz parte da obra Os inocentes, o escritor dá a sua interpretação para este problema: 

O homem antigo não precisou de relógios, e o oriental não os usaria se não sofresse a ameaça do Ocidente, pois se conformou com a pluridimensionalidade do ser e da morte. Talvez pela sua consagração ao acaso, só o Ocidente não pode dispensá-los. Dissimula a morte através do barulho do palavreado, no qual se manifesta o burburinho das almas e que exorta as criaturas a aniquilarem a vida em prol da tridimensionalidade da pátria, por exemplo, ou de outras invenções humanas; ou pela barulheira imperiosa da técnica, que nele cria sem cessar a ilusão de que nenhuma ausência de dimensões possa abolir a pontualidade do tempo, nem que a pluridimensionalidade chegará a eliminar a fixidez do espaço. É verdade que na sua exaltação da morte, bem como no seu desprezo pela técnica – ambas estreitamente ligadas entre si! – nunca conseguirão cumprir suas promessas, já que ambas estão aborrecidas pela covardia, pela cegueira com relação ao infinito e pela submissão à morte. Justamente por isso, o homem ocidental precisa tirar o relógio do bolso a cada instante, para se certificar de que não perdeu o tempo, e com ele a tridimensionalidade. Mede o tempo que conduz ao túmulo.[xxxvii]

 O sertão poderia ser também esse não-lugar pluridimensional entrevisto por Broch. O sertão que é e não é. Riobaldo, querendo se tornar o cavaleiro de uma nova ética, tenta dar governo ao caos das veredas que se bifurcam. Mas estas o repelem: “E a regra é assim: ou o senhor bendito governa o sertão, ou o sertão maldito vos governa... Aquilo eu repeli?”[xxxviii]

Na segunda tentação, Riobaldo serve-se de mais um sentido para enganar o diabo. Se com nhô Constâncio Alves ele livrou o homem da morte pelo único recurso da fala, na forma de uma pergunta, nesse outro momento, é pela visão que salva sua segunda vítima. Novamente aparece um homem montado em uma égua, acompanhado de uma cachorra. E é pelo cego Borromeu que procura a princípio uma justificativa para o crime. Esse lhe responde: “– ‘Se é se é, Chefe? A-hem? Se é o que mecê sumeteu, enhém? Senhor quer que seja que se mate um tal?’ – sem-termo do cego me respondeu, sem razão”[xxxix]. Em seguida o menino Guirigó pergunta: “__ ‘Senhor mesmo é que vai matar?’ ”[xl] .

Mas Riobaldo diz então para o seu bando que quem primeiro viu surgir foi a cachorra, e que é esta que deve ser morta, enforcada. O jagunço Alaripe  intercede, dizendo que o choro de um cachorro pendurado na forca é igual ao de um ser humano. Por fim, o homem e a cachorra são salvos, e até mesmo a égua. Na verdade, a primeira coisa que diz ter visto o Urutú-Branco foi a cachorra, e esta sim, deve morrer.

Como se vê, Riobaldo move-se por uma série de gestos mínimos, por fragmentos sensórios que procuram se unir para dar realidade ao vivido. Ele não sai das Veredas-Mortas com uma força definitiva, com um firme propósito, mais parece um recém-nascido de posse do brinquedo do mundo. 

Ao contrário de Abraão, que funda uma nova “língua” pelo silêncio, Riobaldo, como Jó, fala para escapar às tentações. Mas se o ceticismo do patriarca bíblico o leva ao confronto direto com Deus através de seus discursos, sairá dessa prova com o sentido de luta e de conquista. Se antes ele era cumulado de bênçãos e vivia na mais absoluta felicidade, por outro lado, não possuía a consciência dos homens comuns da dolorosa experiência do mundo adverso, dos perigos e frustrações. Jó era ainda como Adão no Paraíso, intocado pela dor. Mas pela aceitação do mistério e sua integração ao próprio destino de Deus, ele passa por uma profunda transformação, que o levará a um relacionamento mais íntimo com o Criador, um amor mais esclarecido e sem a experiência do aniquilamento. O pacto de Jó faz dele um cavaleiro da paixão.

Quem é o cavaleiro Riobaldo? Na terceira tentação, no seu encontro com o Lázaro, ele espera que Diadorim o ajude a tomar uma decisão. Precisa matar o Lázaro leprento tocaiado numa árvore, quer mais uma vez impor a ordem: “Chefe não era para arrecadar vantagens, mas para emendar o defeituoso”[xli]. Ao empunhar o revólver para matar o Lázaro,  Diadorim insinua interceder pelo Tatarana, mas é ele mesmo que responde:  “ ‘Riobaldo, tu mata o pobre, mas, ao menos, por não desprezar, mata com tua mão cravando faca – tu vê que, por trás do podre, o sangue do coração dele é são e quente...’ ”[xlii]

É a epifania absoluta dos contrários: por baixo da carne necrosada do leproso há um coração quente como o de todos os outros. Tal como o Liso do Sussuarão, áspero, tradução do inferno dantesco, mas guardando dentro de si orvalho e flor. O leproso seria uma das inúmeras chaves secretas do sertão de Guimarães Rosa. Porque em cada palavra garimpada pelo autor mineiro desvela-se um signo que parece centrar toda a obra. Mas esse centro pode se externo ou interno, pode conter tudo ou nada. A interrogação, signo da dúvida, inconclusivo e nebuloso. Como diz Vilém Flusser em “?”, o clima do nosso tempo é o da interrogação. Riobaldo não empunha a faca de Abraão e seu silêncio, não empunha o logos para desafiar Deus. Cabe-lhe a arma da interrogação. Riobaldo: um cavaleiro da dúvida? A “?” com que abre as veredas da memória e da Poesia, que como advertia Flusser: [...] “ameaça acabar em ponto final”.[xliii]

 

NOTAS

[i] FLUSSER, Vilém,  A história do diabo, p. 203.

[ii] ROSA, João Guimarães, Grande Sertão:Veredas, p. 316.

[iii] Ibid, p. 316.

[iv] Ibid, p. 317.

[v] Ibid, p. 318.

[vi] Ibid, p. 318.

[vii] Ibid, p. 319.

[viii] JUNG, Carl, Estudos Alquímicos, p. 81.

[ix] HANSEN, João Adolfo, O o: a ficção da literatura em Grande Sertão: Veredas, pp. 88-94.

[x] FLUSSER, Vilém, “O ‘Iapa’ de Guimarães Rosa”. In: Da religiosidade: a literatura e o senso de realidade, p. 159.

[xi]  FLUSSER, Vilém, Língua e Realidade, p. 47.

[xii] FLUSSER, Vilém, A história do diabo, p. 149.

[xiii] ROSA, João Guimarães, Grande Sertão: Veredas, p. 319.

[xiv] BENJAMIN, Walter, Origem do drama barroco alemão, p. 32.

[xv] ROSA, João Guimarães, Grande Sertão: Veredas, p. 320.

[xvi] Ibid, p. 320.

[xvii] Ibid, p. 366.

[xviii] Ibid, p. 330.

[xix] Ibid, p. 329.

[xx] FLUSSER, Vilém, A dúvida, p. 49.

[xxi] Ibid, pp. 49-51.

[xxii] ROSA, João Guimarães, Grande Sertão: Veredas, p. 329.

[xxiii] Ibid, p. 366.

[xxiv] KIERKEGAARD, Sören, Temor e Tremor, pp. 162-163.

[xxv] GÊNESIS, 22,8.

[xxvi] KIERKEGAARD, Sören, Temor e Tremor, p. 179.

[xxvii] ROSA, João Guimarães, Grande Sertão: Veredas, p. 355.

[xxviii] Ibid, p. 355.

[xxix] ROSENFIELD, Kathrin Holzermayr, “O pacto entendido como ‘lance’ ”. In: O pacto fáustico e outros pactos, pp. 98-99.

[xxx] ROSA, João Guimarães, Grande Sertão: Veredas, p. 356.

[xxxi] BYRON, Lord, Manfredo. In: Byron: obras, p. 308.  

[xxxii] ROSA, João Guimarães, Grande Sertão: Veredas, p. 356.

[xxxiii] Ibid, p. 356.

[xxxiv] Ibid, p. 357.

[xxxv] Ibid, p. 366.

[xxxvi] ROSA, João Guimarães, “O espelho”. In: Primeiras estórias, pp. 61-68.

[xxxvii] BROCH, Herman, “A mãe adotiva”. In: Os inocentes: romance em onze contos, pp. 206-207.

[xxxviii] ROSA, João Guimarães, Grande Sertão: Veredas, p. 374.

[xxxix] Ibid, p. 359.

[xl] Ibid, p. 379.

[xli] ROSA, João Guimarães, Grande Sertão: Veredas, p. 373.

[xlii] Ibid, p. 373.

[xliii] KRAUSE, Gustavo Bernardo, A dúvida de Flusser, p. 275.

 

 

 

REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS:

 

 

BARRENTO, João (org.) et al. Fausto na literatura européia. Lisboa: apáginastantas, 1989.  

BENJAMIN, Walter. Origem do drama barroco alemão. Trad. de Sergio Paulo Rouanet. São Paulo: Brasiliense, 1984.  

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* Leonardo Vieira de Almeida é arquiteto e escritor. Autor do livro de contos Os que estão aí, Ibis Libris, 2002, e de contos publicados no suplemento literário Rascunho, do jornal do estado do Paraná, no jornal Panorama e no site literário Paralelos. Mestrando em Literatura Brasileira na UERJ, prepara dissertação sobre o pacto fáustico em Grande Sertão: Veredas, sob orientação do Prof. Dr. João Cézar de Castro Rocha.