DUBITO ERGO SUM

 Machado de Assis

O LUGAR DA MEMÓRIA NA DICOTOMIA TEXTUAL
DE ESAÚ E JACÓ

Maria Carlota de Alencar Pires Barbosa

 

1. Memórias cruzadas entre o texto e o contexto

 

Todos os oráculos têm o falar dobrado, mas entendem-se. Natividade acabou entendendo a cabocla, apesar de lhe não ouvir mais nada; bastou saber que as cousas futuras seriam bonitas, e os filhos grandes e gloriosos para ficar alegre e tirar da bolsa uma nota de cinqüenta mil-réis. Era cinco vezes o preço do costume, e valia tanto ou mais que as ricas dádivas de Creso à Pítia. Arrecadou os retratos e os cabelos, e as duas saíram, enquanto a cabocla ia para os fundos à espera de outros. Já havia alguns fregueses à porta, com os números de ordem, e elas desceram rapidamente, escondendo a cara.

Perpétua compartia as alegrias da irmã, as pedras também, o muro do lado do mar, as camisas penduradas às janelas, as cascas de banana no chão. Os mesmos sapatos de um irmão das almas, que ia a dobrar a esquina da Rua da Misericórdia para a de S. José, pareciam rir de alegria, quando realmente gemiam de cansaço. Natividade estava tão fora de si que, ao ouvir-lhe pedir: "Para a missa das almas!" tirou da bolsa uma nota de dous mil-réis, nova em folha, e deitou-a à bacia. A irmã chamou-lhe a atenção para o engano, mas não era engano, era para as almas do purgatório.

(Machado de Assis, Esaú e Jacó)

 

Na análise textual do fragmento destacado na epígrafe acima, vemos claramente a possibilidade de fundamentação de nossas argumentações para o desenvolvimento de hipóteses, neste ensaio, salientadas a partir do tema proposto: “O lugar da memória na dicotomia textual de Esaú e Jacó (1904)”.

Em nossa concepção, a  temática em torno da memória, especificamente nesta obra de Machado de Assis, desdobra-se entre o olhar de dois narradores muito agudos, cujo primeiro deles focaliza, sem equívocos, múltiplos aspectos, os quais tornam Esaú e Jacó um texto peculiar no conjunto da obra do autor, naquilo que se refere especialmente ao foco narrativo.

Aspectos que se traduzem na “forma e fundo” (Adorno, 1982) da estética machadiana e que confirmam a presença de um discurso reafirmador da sociedade capitalista por um lado e, por outro, no bojo desse mesmo discurso, vemos crepitar a retirada das máscaras sociais nas intimidades e antinomias da  nova família burguesa em ascensão.

Trata-se, sem dúvida, de um olhar alegórico e prescrutador das “cousas presentes”, o qual visualiza ironicamente as “novas” contingências socioeconômicas, políticas, culturais, históricas, familiares e também identitárias – naquilo que se refere à metáfora de um “falar dobrado”, simbolizado a partir da própria figura da Cabocla do Castelo, cuja linguagem desliza entre a do branco burguês e a do negro, como “cousas futuras” em fins de século, como a “miscigenação pós-colonial” (BHABHA, 1998).  

O segundo narrador, porém, observa os comportamentos individuais, psicoemocionais,  desvelando os fatos transcorridos, ao longo de duas décadas, na frieza de um olhar cético,  ou, quem sabe, a partir de uma memória obinubilada por melancólicas lembranças, as quais buscam traduzir os sentimentos familiares em metáforas dos sentidos sociais, localizados em um tempo e espaço já rarefeitos.

Para Regina Zilberman (in: SARAIVA, 1993, “Introdução”), a respeito de O circuito das memórias em Machado de Assis (SARAIVA, 1993), o conjunto da obra machadiana tem como uma de suas principais características a configuração de um olhar dobrado, dividindo-se entre o contexto, a partir de  uma “macrovisão” especular e autoral, e entre o texto – espectro desta mesma visão autoral em torno da realidade do mundo e das coisas do mundo:

 

O resumo pelas linhas de força da crítica literária brasileira relativamente a Machado de Assis, homem e artista, indica uma tendência: autor e obra parecem compor um todo análogo, em que o primeiro se expressa pela segunda, e esta reflete seu criador. Ambos, simultaneamente, traduzem o ambiente e a época em que viveram, completando uma totalidade dada pelo indivíduo, o texto e o contexto. (ZILBERMAN, in SARAIVA, p. 12, 1993.)

 

O nosso propósito neste ensaio é o de destacar comparativamente esse olhar também “dobrado”, a fim de apontar os “cortes” da narrativa entre dois narradores que constróem, monoliticamente, o lugar de memórias cruzadas entre o texto e o contexto no limiar das “cousas futuras”, ou melhor, do século que ainda está para vir; e entre um século que já se esvaiu nas dobras do tempo, mas que apenas a memória é capaz de  reconstituir, mesmo de maneira esquelética.

Então poderemos pensar e indagar de pronto que “nas dobras da ambigüidade de Esaú e Jacó” (BARBIERI, 1985) escondem-se dois narradores para um texto dobrado, para duas histórias, para dois lugares, para duas memórias, e para dois séculos, quais sejam: o século XIX, que morre, e o XX, que se inicia.

Em nossas concepções, entenderemos, pois, em primeiro lugar, este momento “entre-séculos” como o lugar de disseminação de histórias que atravessaram algumas décadas, as quais foram retidas na memória e re-visitadas pela pena de alguém que fazia de seu tempo o próprio tempo de narrativas ambíguas, enigmáticas, sempre dirigidas mais do que para a curiosidade popular, já que eram lidas por meio de folhetins semanais como brindes de jornais, mas, sem dúvida, para algum leitor muito atento, “ruminante”.

Histórias revisitadas pela força da memória e pela habilidade da pena, ambas   desveladoras de dramas familiares/sociais, como em Esaú e Jacó; de tragédias individuais, como a de Dom Casmurro (1900); o ceticismo em torno das relações matrimoniais e a herança da loucura – levados às últimas conseqüências, como em Quincas Borba (1891); triangulações amorosas, adultérios, crimes passionais e mazelas de toda ordem, como em Memórias póstumas de Brás Cubas (1881) e em inúmeros contos machadianos.

Narrativas que realizam, sem equívocos, as memórias não apenas de um narrador ancorado em sua angústia mas também atento ao seu tempo e ao seu lugar, contaminado pelas influências de outros lugares, cujo olhar é a duplicata vencida do microcosmo individual, o qual orbita  em torno  do macrocosmos social.

É exatamente nessa dicotomia intrínseca em Esaú e Jacó que notamos a participação de mais de um narrador, porquanto as memórias do Eu e do Outro misturam-se, ao mesmo tempo que se fragmentam, tornando o texto como um mosaico de memórias, sejam elas individuais, familiares, históricas, políticas, culturais, socioeconômicas ou, simplesmente, “memórias do futuro”. 

Em nossas concepções, defendidas na Dissertação de Mestrado, Fragmentos do pós-modernismo: memórias do futuro, historicidade e lugar em Bandoleiros (BARBOSA, 2002), a memória do futuro relaciona-se com a historicidade e não com a história propriamente dita. Desta última a memória retira as referências de um passado que está imbricado ao presente e toma como referente os acontecimentos do porvir. A memória do futuro é de caráter ficcional e se articula a partir de um significante ausente no tempo presente da narrativa, desvelando imagens com novas cargas significantes que podem ou não serem refutadas na esfera do simbólico. O locus enunciativo da memória do futuro é o texto de ficção, que reúne em um mesmo espaço um discurso tridimensional, envolvendo passado, presente e futuro. Nas conceituações mais clássicas de memória, temos o signo da história como vetor paradigmático dos resíduos do passado armazenados em verdadeiros arsenais memorialísticos, como os museus, edificações antigas, monumentos, arquivos nacionais e também o texto ficcional, denominados de metaficção historiográfica.

Importante assinalarmos que não entendemos Esaú e Jacó como uma metaficção historiográfica, pois as questões referentes ao contexto histórico e político da época são colocadas de maneira alegórica na narrativa, e servem de eixo para outras historicidades, outras memórias contidas no bojo da obra. Além disso, podemos dizer que Machado de Assis revoluciona a forma da escrita de Esaú e Jacó, na qual também percebemos uma “compressão temporal” e um imbricamento entre o passado, o presente e o futuro, apreendidos por uma memória que retém também os eventos de natureza familiar, social, cultural, individual, traduzindo, dessa maneira, a força de uma escrita não propriamente histórica, mas de historicidade. Vejamos: 

 

A memória histórica nasce, dessa forma, dentro da narrativa histórica, encontrando seu lugar na estratégia adotada de representação e fixação de uma dada lembrança do vivido. Mais do que pura representação, a memória afirma-se diferentemente da história pela capacidade de assegurar permanências, manifestações sobreviventes de um passado muitas vezes sepultado, sempre isolado do presente pelas muitas transformações, pelos cortes que fragmentam o tempo. Memória como lugar de persistência, de continuidade, de capacidade de viver o hoje inexistente. Ao realizar essa projeção do passado no presente, identificando as marcas de uma continuidade pouco notável, a memória nega a alteridade de que a história sempre trata: onde a história encontra diferenças, a memória produz semelhanças, lógicas, regularidades. Inventa-se, assim, o mesmo, o igual, para sublinhar a identidade que, na passagem de uma temporalidade à outra, se perde. ( PINTO, 1998, p. 292-93).

 

2. A “Advertência” como lembrete

“Dico, che quando l’anima mal nata.”

(Dante)

 

Impossível tratarmos a nossa temática, aqui proposta, sem reafirmar, de outra maneira, o que vai no bojo do lugar comum das análises realizadas em torno do pequeno intróito de Esaú e Jacó denominado “Advertência”.

Inegavelmente esta funciona como uma espécie de lembrete ao leitor, ao “leitor ruminante” que a narrativa encontrada na gaveta da secretária do Conselheiro Aires, após a sua morte, destacada pelo seu volume e grafia em vermelho, tendo na capa o número de série sete, e um título que não constava na capa dos seis escritos anteriores: “Último”, seria propriedade de um único autor, isto é, adverte-se que tal narrativa teria sido escrita pelo próprio Conselheiro Aires.

Além disso, o lembrete destaca ainda que tais escritos não tinham a mesma forma do “Diário de lembranças” do mesmo autor, visto nos seis primeiros volumes, posto não ter a data, hora e minutos dos episódios narrados pelo Conselheiro Aires em seu conhecido “Memorial”. Vejamos o seguinte trecho:

 

 “(...) Último por quê?

A hipótese de que o desejo do finado fosse imprimir este caderno em seguida aos outros, não é natural, salvo se queria obrigar à leitura dos seis, em que tratava de si, antes que lhe conhecessem esta outra história, escrita com um pensamento interior e único, através das páginas diversas. Nesse caso, era a vaidade do homem que falava, mas a vaidade não fazia parte dos seus defeitos. Quando fizesse, valia a pena satisfazê-la? Ele não representou papel eminente neste mundo; percorreu a carreira diplomática, e aposentou-se. Nos lazeres do ofício, escreveu o Memorial, que, aparado das páginas mortas ou escuras, apenas daria (e talvez dê) para matar o tempo da barca de Petrópolis.

 

Eis aqui o início de uma problemática que nasce primeiro com uma indagação e depois uma dúvida: “Último porque?”; e logo a seguir vimos o autor “desconhecido” dessa advertência dizer que “A hipótese de que o desejo do finado fosse imprimir este caderno em seguida aos outros, não é natural, salvo se queria obrigar à leitura dos seis, em que tratava de si (...)”.

Bem, se a matéria do “Último” caderno se aparta da matéria dos seis primeiros, posto que não se trata de um Diário, é fato, porém, que esta “última” narrativa, se não trata de um Eu autobiográfico, trata, sem dúvida, da narrativa de um Outro Eu, ou de Outros. Nesse sentido, podemos dizer que os escritos achados na secretária do Conselheiro Aires, embora não tenham o formato de um Diário de recordações, é também uma narrativa de memórias. Memórias de outros tempos, de outros lugares, de outras pessoas, as quais foram observadas com profundidade e retidas na memória, apenas por algum tempo, apenas antes de virar também lembranças escritas de uma “intriga familiar” dilatada ulteriormente do ventre materno para a intimidade da infância e da adolescência dos gêmeos Pedro e Paulo e, mais tarde, consolidada na disputa política, unidos apenas pela mesma carreira de deputado.

Por outro lado, cabe-nos indagar, ainda a propósito da “Advertência”, como lembrete ao leitor, a respeito, por exemplo, de quem teria achado os tais escritos na secretária do Conselheiro Aires, e o motivo pelo qual o “Último” caderno teria lhe despertado o interesse?

Alguém que, poderíamos imaginar, pertenceu ao círculo das amizades fraternas, ou amorosas, do Conselheiro Aires, ou ainda, quem sabe, apenas um vizinho muito próximo e muito grato pelas dúvidas dirimidas e conselhos recebidos.

Contudo, na impossibilidade absoluta de alguma certeza a respeito dos “direitos autorais” deste último caderno, assim como também da autoria desta “Advertência”, fica como enigma dantesco que atravessa o contexto das circunstâncias envolvidas no resgate dos sete cadernos encontrados na secretária de um suposto autor por um lado e, por outro, erige-se como  peça vital no quebra-cabeças do texto partido de Esaú e Jacó.

Em nossas “advertências”, poderíamos pensar também que nesta “hipótese antinatural” o intitulado “Último” caderno poderia ser inserido entre qualquer um dos cadernos numerados em romanos, haja vista que a idéia de ele não pertencer a uma sequência final enuncia-se na “Advertência” como dúvida lançada ao leitor. “Esaú e Jacó”, a narrativa “encadernada”, e que fôra denominada assim pelo próprio Conselheiro Aires, poderia ser mesmo um apêndice de seu “Memorial”, embora os episódios narrados não tivessem sido marcados cronologicamente pelas datas e dias semanais ou festivos, como acontece no Memorial de Aires.

Entretanto, podemos observar que algumas personagens são comuns às duas narrativas: o próprio Conselheiro Aires, evidentemente, e a sua irmã, D. Rita. No ditado bíblico, referente ao versículo dos “trabalhadores da última hora”, temos: “Os últimos serão os primeiros”, e, neste caso, para parafrasear este ditado que ganhou domínio público, o “Último” caderno aqui poderia ser, na verdade, o primeiro a originar os acontecimentos do porvir, porquanto é no Memorial de Aires que D. Rita, já muito idosa, vem a falecer anos depois das “cousas passadas”, anos depois das histórias contadas, ocupando o lugar da “memória do futuro”.

Com efeito, o autor anônimo da “Advertência”, certamente a fim de tornar o leitor mais confuso ainda, a despeito da autoria do “Último” caderno, optou pela nossa hipótese mais natural aqui formulada: a publicação da narrativa Esaú e Jacó (1904) ocorreu antes da “última”, qual seja: Memorial de Aires (1908), isto é, antes da publicação dos seis primeiros cadernos, quatro anos antes. Os últimos serão mesmo os primeiros?  Neste caso podemos dizer que sim!

3. Os cortes no “circuito das memórias” de dois narradores com-fundidos

 

Para Katia Muricy (1988), o Conselheiro Aires, de Esaú e Jacó, irá se desdobrar também em suas memórias narradas nos seis volumes manuscritos e de páginas amarelecidas pelo tempo, ou ainda “mortas ou escuras”, as quais originaram o Memorial de Aires.

Importante frisarmos que ambas as narrativas foram publicadas post mortem, como consta na “Advertência”. Fato que engendra, ao mesmo tempo que constrói, a ficcionalidade das memórias do Conselheiro Aires, tornando extremamente frágeis as linhas fixas do foco narrativo, porque as “máscaras” autorais se multiplicam, ao mesmo tempo que se revesam ao longo da narrativa de Esaú e Jacó. Para Katia Muricy,

 

Nos textos aqui classificados de autobiografias romanescas, a figura que emprega a primeira pessoa aparece depois de termos atravessado muitas camadas: a do autor, que assina a obra, a do narrador, que cria o universo ficcional, a do sujeito que abre o texto, externo a ele, como no enigmático Memorial de Aires, assinado por um M. de A. de difícil identificação, a da personagem que expõe sua vida de modo retrospectivo (Brás Cubas, nas Memórias póstumas, Bentinho, em Dom Casmurro) ou prospectivo (Aires, em seu Memorial).

São muitas máscaras, e Machado manipula-as como um prestidigitador, envolvendo quem o lê e quem o analisa. Para tanto, mune-se de seu arsenal, composto pelo seu vasto conhecimento literário, e também mundano, puxando clássicos e contemporâneos, aludindo a miudezas de sua época e pessoas notórias, exigindo do público uma prática de leitura hábil e madura e uma atitude de deciframento constante e atenta. As armadilhas são colocadas a todo momento, sendo necessária a precaução e a prudência no momento de entender o texto. (in: SARAIVA, p. 11)

 

Assim, pois, necessário assinalar que, a partir do intróito do caderno “Esaú e Jacó”, como advertência simbólica da não existência autoral do pequeno texto que inicia a narrativa, percebemos claramente os sintomas das rasuras do “estatuto de um narrador” que de pronto se omite e desliza por entre dois olhares oblíquos, por entre duas formas de narrar.

Então, podemos observar uma certa noção de continuidade e imbricamento da primeira narrativa – a do “Último” caderno, como já ressaltamos no tópico anterior – nas entranhas da segunda narrativa, de 1908. Isto significa dizer que as duas narrativas foram geradas a partir de um espaço e tempo comuns e de uma mesma matriz memorial, a qual segue uma ordenação cronológica em relação aos acontecimentos vivenciados ou apenas presenciados através de um olhar que penetra as formas do grotesco do real.

Contudo, observamos que este “olhar oblíquo” resvala para uma outra forma narrativa um tanto quanto “distanciada” de algum juízo de valor, acerca da realidade como ela se lhe apresenta. Isto é, este olhar que se esconde nas dobras da narrativa parece apenas descrever friamente os fatos como eles aconteceram, em algum lugar do passado, sem, necessariamente, explicitá-lo criticamente, posto que a “ironia do destino” carrega em seu bojo o fundo natural da realidade como este narrador ambíguo de Esaú e Jacó traz aos olhos do futuro leitor:

 

“Na igreja de S. Domingos diz-se hoje uma missa por alma de João de Melo, falecido em Maricá”. Tal foi o anúncio que ainda agora podes ler em algumas folhas de 1869. Não me ficou o dia. O mês foi agosto. O anúncio está certo, foi aquilo mesmo, sem mais nada, nem o nome da pessoa ou pessoas que mandaram dizer a missa, nem hora, nem convite. Não se disse sequer que o defunto era escrivão, ofício que só perdeu com a morte. Enfim, parece que até lhe tiraram um nome; ele era, se estou bem informado, João de Melo e Barros. (Esaú e Jacó, cap. IV – A MISSA DO CUPÊ.)

 

No fragmento acima destacado, observamos que este narrador, o qual descreve fatos já decorridos no tempo e no espaço, traz à tona a presença de um Outro narrador, isto é, de uma terceira pessoa, que se encontra “velado” pela com-fusão autoral, como notamos no trecho: “ele era, se estou bem informado, João de Melo e Barros”. Isto significa dizer que este narrador não é  apenas observador sagaz dos fatos mas também era informado por um outro narratário dos acontecimentos e cuja memória está implícita no bojo do texto. Cabe, pois, ao nosso “leitor ruminante”, a árdua tarefa de detectar esses cortes no “circuito das memórias” de narrativas entrelaçadas. É verdadeiro dizer que por mais “ruminante” seja o leitor, inexoravelmente ele cairá numa espécie de labirinto com única entrada e sem “fio de Ariadne” que o conduza outra vez para a luz. Vejamos:

 

Nesse sentido, não se pode deixar de lembrar que Aires é o constante mediador nas brigas dos gêmeos e entre estes e a menina Flora, em Esaú e Jacó. Aires, que não tem “quase nenhum vício” é, antes, o guardião bastante incrédulo das virtudes familiares, com a necessária distância afetiva que a sua aprãzível ponderação proporciona. No Memorial de Aires também esse será o seu papel, articulado com outro, mais fundamental, de narrador, nos conflitos familiares e conjugais dos personagens. Aires, que alimentou um certo “gosto” em relação a Natividade, a mãe dos gêmeos de Esaú e Jacó, não se deixa, em nenhum momento, perturbar por esse sentimento, de resto sepultado no passado. Mesmo porque “não foi propriamente paixão; não era homem disso”.

Esta é a chave para a compreensão do personagem: Aires não é homem de paixões. Sua característica principal – a de ser cordato – é uma virtude urbana, civilizada, moderna. (MURICY, 1988,  p. 79.) 

 

Com efeito, não podemos concordar na íntegra com esta análise de Katia Muricy, vez que defendemos a idéia de que o Conselheiro Aires não é o único observador das pessoas, dos temperamentos e dos próprios sentimentos. É também ele observado por um Outro seu narrador. Vejamos:

 

Nem casal, nem general. No dia sete de abril de 1870 veio à luz um par de varões tão iguais, que antes pareciam a sombra um do outro, se não era simplesmente a impressão do olho, que via dobrado. (Esaú e Jacó, cap. VIII – NEM CASAL, NEM GENERAL.)

Não cuides que não era sincero, era-o. Quando não acertava de ter a mesma opinião, e valia a pena escrever a sua, escrevia-a. Usava também guardar por escrito as descobertas, observações, reflexões críticas e anedotas, tendo para isso uma série de cadernos, a que dava o nome de Memorial. Naquela noite escreveu estas linhas:

“Noite em casa da família Santos, sem voltarete. Falou-se na cabocla do Castelo. Desconfio que Natividade ou a irmã quer consultá-la; não será decerto a meu respeito. (...)” (Esaú e Jacó, cap. XII – ESSE AIRES.)

 

 

Em nossas concepções, a metáfora machadiana de um “olho que via dobrado”, como assinalamos neste fragmento, certamente não é por acaso, e aqui visualizamos nitidamente um duplo foco narrativo, o qual traduz o lugar de duas memórias que, na verdade, convergem para uma mesma intencionalidade textual: a de também com-fundir o “leitor ruminante”: 

 

Francamente, eu não gosto de gente que venha adivinhando e compondo um livro que está sendo escrito com método. A insistência da leitora em falar de uma só mulher chega a ser impertinente. Suponha que eles deveras gostem de uma só pessoa; não parecerá que eu conto o que a leitora me lembrou, quando a verdade é que eu apenas escrevo o que sucedeu e pode ser confirmado por dezenas de testemunhas? Não, senhora minha, não pus a pena na mão, à espreita do que me vissem sugerindo. Se quer compor o livro, aqui tem a pena, aqui tem papel, aqui tem um admirador; mas, se quer ler somente, deixe-se estar quieta, vá de linha em linha; dou-lhe que boceje entre dous capítulos, mas espere o resto, tenha confiança no relator destas aventuras. (Esaú e Jacó, cap. XXVII – DE UMA REFLEXÃO INTEMPESTIVA.)

 

Sim, o(s) nosso(s) narrador(es) quer(em) um leitor(a) ruminante, um leitor que não faça apenas uma leitura superficial, levado à curiosidade do ponto final! É necessário, pois, identificarmos os cortes autorais do texto para pinçar em suas “dobras ambíguas” um terceiro narrador que parece funcionar como uma espécie de “oráculo” desta narrativa truncada, posto que esta “terceira pessoa” costura os fragmentos dessas duas memórias, além de se revezar em meio a um falar também dobrado.

 

Também a cidade não lhe pareceu que houvesse mudado muito. Achou algum movimento mais, alguma ópera menos, cabeças brancas, pessoas defuntas; mas a velha cidade era a mesma. A própria casa dele no Catete estava bem conservada. Aires despediu o inquilino, tão polidamente como se recebesse o ministro dos negócios estrangeiros, e meteu-se nela a si e a um criado, por mais que a irmã teimasse em levá-lo para Andaraí. (Esaú e Jacó, cap. XXXII – O APOSENTADO.)

 

Assim, pois, podemos dizer que este narrador-oracular comporta-se como ecos de duas memórias cruzadas, as quais se desdobram metalingüisticamente em um caderno de memórias familiares, amalgamadas às outras histórias do todo social, histórico e político, configurando-se, então, o contexto como lugar de ocorrência de outras memórias em fragmentos mas que, apesar da inexorabilidade temporal, ainda se fazem vivas na lembrança de nosso narrador, como “cousas do presente”:

 

 Mandou fazer um armário envidraçado, onde meteu as relíquias da vida, retratos velhos, mimos de governos e de particulares, um leque, uma luva, uma fita e outras memórias femininas, medalhas e medalhões, camafeus, pedaços de ruínas gregas e romanas, uma infinidade de cousas que não nomeio, para não encher papel. As cartas não estavam lá, viviam dentro de uma mala, catalogadas por letras, por cidades, por línguas, por sexos. Quinze ou vinte davam para outros tantos capítulos e seriam lidas com interesse e curiosidade. Um bilhete, por exemplo, um bilhete encardido e sem data, moço como os bilhetes velhos, assinado por iniciais, um M e um P que ele traduzia com saudades. Não vale a pena dizer o nome. (Esaú e Jacó, cap. XXXII – O APOSENTADO.)

 

Em última análise, podemos assinalar que o texto de Esaú e Jacó é marcado pela presença deste “meta-narrador” que por vezes assume nitidamente o foco da narrativa como parte integrante de duas outras narrativas de cunho memorial. Por essa razão, tentamos desvelar o caráter memorial da narrativa de Esaú e Jacó, embora esta não se erija a partir das lembranças de um único autor, isto é, de um único foco narrativo, como acontece no Memorial de Aires, em Memórias póstumas de Brás Cubas e em Dom Casmurro.

Entretanto, é cabível imaginarmos que o conteúdo deste “Último” caderno tenha sido escrito por pelo menos dois narradores, ou, quem sabe, a partir das reminiscências de “quatro estômagos no cérebro” de um único escritor? “Quatro estômagos no cérebro” para quatro diferentes leitores, para quatro diferentes narradores, quais sejam: o autor enigmático da “Advertência”, os nossos dois narradores já mencionados e, é claro, quem os interliga inventivamente na ficcionalidade de Esaú e Jacó, o próprio Machado de Assis:    

– Sim, eu... suspirou Batista.

  D. Cláudia não suspirou, cantou vitória; a reticência do marido era a primeira figura de aquiescência. Não lhe disse isto assim, nu e cru; também não revelou alegria descomposta; falou sempre a linguagem da razão fria e da vontade certa. Batista, sentindo-se apoiado, caminhou para o abismo e deu o salto nas trevas. Não o fez sem graça, nem com ela. Posto que a vontade que trazia fosse de empréstimo, não lhe faltava desejo a que a vontade da esposa deu vida e alma. Daí a autoria de que se investiu e acabou confessando.

  Tal foi a conclusão de Aires, segundo se lê no Memorial. Tal será a do leitor, se gosta de concluir. Note que aqui lhe poupei o trabalho de Aires; não o obriguei a achar por si o que, de outras vezes, é obrigado a fazer. O leitor atento, verdadeiramente ruminante, tem quatro estômagos no cérebro, e por eles faz passar e repassar os atos e os fatos, até que deduz a verdade, que estava, ou parecia estar escondida. (Esaú e Jacó, cap. LV – A MULHER É A DESOLAÇÃO DO HOMEM)

 

4 – A memória da cultura em fins de século 

 

Para Katia Muricy, o Conselheiro Aires, como personagem fundamental nas inter-relações pessoais, mesmo não se envolvendo profundamente com elas, é também o tutor das conciliações familiares e, portanto, é ele o articulador diplomático dessas mesmas relações parentais, oscilando entre um passado de valores já esgarçados e entre um novo paradigma  cultural, emergente em fins de século, ratificando a sua existência política e social, posto que “(...) o solteirão Aires, que privilegiadamente – e sua exclusão da trama social pela vida celibatária é condição para isso – pode ter uma percepção, desencantada de qualquer romantismo, das relações familiares. A percepção exata de serem astúcias de uma razão que se sobrepõe a todos: a do capital e da lógica capitalista.” (MURICY, 1988, p. 80)      

Isto significa dizer, que o Conselheiro Aires é também o autor das memórias dispersas dos sentimentos românticos, dos sentimentos das “cousas passadas”, as quais já não cabem mais na emergência das novas formas dos relacionamentos sociais, em que a busca pelas “grandezas” e pelas “glórias” já não é preocupação apenas de uma elite que já não possui um lugar fixo na vida política e cultural em que as “cousas passadas” configuram-se como “cousa pública”, como Re-pública.

 

No fim do almoço, Aires deu-lhes uma citação de Homero, aliás duas, uma para  cada um, dizendo-lhes que o velho poeta os cantara separadamente, Paulo no começo da  Ilíada:

– “Musa, canta a cólera de Aquiles, filho de Peleu, cólera funesta aos gregos, que precipitou à estância de Plutão tantas almas válidas de heróis, entregues os corpos às aves e aos cães...”

Pedro estava no começo da Odisséia:

– “Musa, canta aquele herói astuto, que errou por tantos tempos, depois de   destruída a santa Ílion...”

Era um modo de definir o caráter de ambos, e nenhum deles levou a mal a aplicação. Ao contrário, a citação poética valia por um diploma particular. (Esaú e Jacó, cap. XLV –  MUSA, CANTA...)

 

Mais uma vez, o nosso “terceiro narrador” destaca toda essa intencionalidade de “diplomacia”, em torno do Conselheiro Aires, o qual cultiva um ar ponderado, sem grandes paixões e isento de qualquer laivo romântico, introduzindo no outro o desejo da experiência do passado, ou das “cousas passadas” como aprendizagem das “cousas futuras” em fins de século.  

Ao analisar os romances da chamada “fase da maturidade”, Katia Muricy focaliza a figura da “mulher mundana”, como Marcela, de Memórias póstumas de Brás Cubas; e Carmem, amante-amiga do Conselheiro Aires, em Esaú e Jacó, não como fator de instabilidade ou desagregação familiar mas, ao contrário, reforça justamente os novos códigos socioculturais, prevalecendo, sem equívocos, as máscaras da nova família burguesa em ascensão:

 

Um desses “passeios militares”, na juventude de Aires, traz-nos à presença de uma mundana, “atriz da moda, pessoa chistosa e garrida”. A atriz retém Aires junto a si, em um encontro amoroso, dissuadindo-o de ir à rua esclarecer as razões de um tumulto na população. O argumento da atriz – de que, se cai ou se sobe um governo, sempre há tempo de cumprimentá-lo no dia seguinte – introduz também uma radical mudança no tratamento dessa outra figura da crítica médica e do Machado dos primeiros romances. Carmem, a mundana, faz um comentário que será o tema fundamental da reflexão, presente em quase todos os grandes romances da segunda fase, sobre a prevalência das razões individuais sobre as razões da história. A dançarina sevilhana aparece, pois, sob o prisma que a faz uma fina observadora da sociedade e não peça da sua desagregação. Ela detém uma inteligência sobre a importância dos eventos políticos na sociedade capitalista. (MURICY, 1988, p. 79)

 

Eis aqui as memórias de uma sociedade, cujos valores do conservadorismo diluem-se subliminarmente nas reentrâncias das relações individuais e que também permeiam as relações políticas, mudando-se apenas os cenários, apenas as máscaras, apenas os salões, apenas os bailes.

  

Bem sei que há gente para quem a dança é antes um prazer dos olhos. Nem as   bailadeiras são outra cousa mais que mulheres de ofício. Também eu, se é lícito citar alguém a si mesmo, também eu acho que a dança é antes prazer dos olhos que dos pés, e a razão não é só dos anos longos e grisalhos, mas também outra que não digo, por não valer a pena. Ao cabo, não estou contando a minha vida, nem as minhas opiniões, nem nada que não seja das pessoas que entram no livro. Estas é que preciso pôr aqui integralmente com as suas virtudes e imperfeições, se as têm. Entende-se isto, sem ser preciso notá-lo, mas não se perde nada em repeti-lo. (Esaú e Jacó, cap. XLVIII –  TERPSÍCORE)

 

 

Neste enunciado evidencia-se, de maneira mais contudente, a fala do nosso Conselheiro Aires, cujo discurso é o sintoma visível de um estatuto de memórias em torno não exatamente de si mesmo mas, principalmente, em torno dos Outros, em torno dos comportamentos sociais. Importante frisarmos que essa “colcha de retalhos” que é a narrativa de Esaú e Jacó não compreende apenas uma única temática, como observa Katia Muricy a despeito da intriga do gêmeos Pedro e Paulo.

Contudo, em nosso entendimento o “estatuto de memórias” deste narrador isento de si mesmo elenca o conjunto dos caráteres individuais, porquanto as “virtudes e imperfeições” erigem-se como elementos indispensáveis para a construção das personalidades das personagens, e, conseqüentemente, das máscaras sociais, da maneira como o Conselheiro Aires as nota e as anota em seu “livro”, isto é, de maneira panorâmica:

 

O modo panorâmico de apresentação, predominantemente narrativo, liga-se à presença do narrador onisciente, que relata os acontecimentos, concentrando em si o olhar e a audição do leitor. Na apresentação cênica, o leitor “volta-se para a história e a observa”; capta-a, portanto, através de impressões, entre as quais não se interpõe mediador. Quando a apresentação dos acontecimentos ocorre como reflexo da experiência do narrador onisciente ou de uma personagem, seu tratamento é pictórico-dramático, isto é, ajustam-se os pontos de vista do narrador e do leitor, pela confluência do “narrar” e do “mostrar”. (SARAIVA, 1993, p. 29)

 

Por outro lado, e em nossas considerações finais, o Conselheiro Aires apresenta-se de duas maneiras distintas nesta narrativa ambígua de Esaú e Jacó, ora como narratário, ora como narrador em primeira pessoa, evidenciando um discurso irônico da realidade, como esta se apresenta. Isto signfica dizer que é ele agente e paciente de um texto dicotômico inviabilizando a possibilidade de qualquer desassociação entre esses dois narradores de discursos díspares. Porém, um não sobrevive sem outro porque estão eles intrinsecamente com-fundidos em meio às memórias do Eu e dos Outros; do texto e do contexto; da família e da sociedade; da política e da história – que poderia ter sido outra e não foi, apenas mais uma “divina comédia”: “Dico, che quando l’anima mal nata”.

 

5. Bibliografia

5.1. principal

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