DUBITO ERGO SUM

 Páginas de Ceticismo

UM POLÍGONO CÉTICO:
a literatura regionalista sob suspeita

Isabel Virgínia de Alencar Pires

 

Na literatura brasileira, à lista de obras que pertencem a uma tradição cética, e da qual fazem parte textos de autores como Machado de Assis e Guimarães Rosa, entre outros, pode ser acrescentado, mais recentemente, também o livro Polígono das Secas, de Diogo Mainardi. O surgimento desse livro, publicado em 1995, suscitou muita polêmica, como observa Terezinha Barbieri, precisamente como “nota discrepante no cenário da ficção brasileira dos últimos anos” (BARBIERI, 1997, p. 298).

Enquanto a literatura no Brasil se voltara, nas duas últimas décadas, para o mercado, com uma produção ficcional essencialmente marcada por um intercâmbio com a linguagem dos produtos da indústria cultural – notadamente o cinema –, gerando o que Terezinha Barbieri denomina “hibridismo literário”, o Polígono de Diogo Mainardi, “texto ficcional metaliterário, (...) não é obra que se submeta à ganância do mercado nem visa agradar o leitor” (op. cit., p. 289).

O “hibridismo” da literatura contemporânea no Brasil seria decorrente, de acordo com o ponto de vista de Barbieri, de uma “exposição” dos escritores à ação da mídia, sob a forma de rádio, cinema, televisão, jornal, revista, cartazes e anúncios publicitários, e cujo resultado concreto seria uma “palavra impura”. A autora vê, nos “cruzamentos semióticos” ocorridos no interior da literatura brasileira contemporânea, mais do que uma necessidade de adequação e atualização desta à nova tecnologia, sobretudo uma forma de “comércio” com sistemas semióticos concorrentes, o que provocaria o “hibridismo”, a “pluralidade de caminhos” e a “anarquia formal” da literatura no Brasil (idem., p. 293). Para Terezinha Barbieri, no entanto:

 

Polígono das Secas parece retomar alguns princípios das vanguardas, e dar um pontapé na banalização promovida pelos meios de comunicação de massa, chutando a pasteurização global e a previsibilidade do discurso jornalístico. (ibidem, p. 301)

 

Em seus curtos capítulos, Polígono das Secas descreve episódios grotescos e cruéis, protagonizados por personagens inspirados na literatura regionalista brasileira, tais como coronéis, jagunços, retirantes, vaqueiros e cangaceiros, os quais se acham circunscritos a uma área geográfica bem delimitada: precisamente, o “Polígono das Secas”, ou seja, “a área dos Estados sujeitos aos efeitos da seca”, que vai “de João Pessoa até as nascentes do Uruçuí-Preto, no Piauí; de Pirapora, em Minas Gerais, até a embocadura do Longá, à margem direita do Parnaíba” (MAINARDI, 1995, p. 17). Este é, também, o território da ação do untor, personagem que, com seu unto amarelado e mortífero, espalha o horror no interior do polígono, a fim de se vingar de uma certa Catarina Rosa, ou de todas as Catarinas Rosas possíveis: “o objetivo do untor é infectar com o unto amarelado todas as sertanejas chamadas Catarina Rosa” (op. cit., p. 18).

Diferentemente dos outros personagens, o untor não tem origem na literatura regionalista, mas, como esclarece o narrador do romance, num “infausto personagem histórico italiano”, que, em 1630, durante uma epidemia, teria sido acusado por uma certa Caterina Rosa de ajudar a disseminar a peste em Milão, utilizando um unto amarelado supostamente “feito com saliva de cadáveres infectados, barrela e esterco humano”. A ação do untor sertanejo, espalhando unto infectado no território do Polígono das Secas, é justamente o elo de ligação entre os diversos episódios narrados. Mas, “de que se trata?”, pergunta Terezinha Barbieri (BARBIERI, 1997, p. 299). “Trata-se de uma metáfora sobre a literatura” (MAINARDI, 1995, p. 34), e, especificamente, sobre a literatura regionalista, conforme esclarece o narrador do romance:

 

A intenção do autor ao associar esse infausto personagem histórico italiano à tradição sertaneja é criar um paralelo entre os efeitos desastrosos de suas crendices sobre a magistratura da época e a assimilação de crendices semelhantes por parte da nossa literatura regionalista. (op. cit., p. 61)

 

Assim, com a pretensão de colocar sob suspeita a literatura regionalista produzida no Brasil desde O sertanejo, de José de Alencar, passando por autores como Euclides da Cunha, José Lins do Rego, José Américo de Almeida, Graciliano Ramos, entre outros, o narrador – espécie de porta-voz do autor do romance – reduz essa literatura a um “punhado de temas repetidos incessantemente por seus autores. Em seis ou sete títulos encontram-se todos os temas da literatura regionalista. Os autores menores lidam com os mesmos temas dos autores maiores, criando uma certa desconfiança em relação a estes últimos” (idem., p. 88).

O narrador, com sua preocupação em colocar sob suspeita a literatura regionalista, assume, paradoxalmente, um posicionamento de “fanático que deblatera do alto de uma pedra, tomado pelo tom colérico do discurso” (ibidem., p. 90), numa irônica alusão à figura de Antônio Conselheiro, apropriada por Euclides da Cunha em Os Sertões, misto de literatura regionalista-naturalista e jornalismo. No entanto, para o narrador de Polígono das Secas, o que interessa não é o sertão real, concreto e “empírico”, mas o sertão da literatura regionalista, tão imaginário quanto “aquela abstração legislativa denominada Polígono das Secas” (MAINARDI, 1995, p. 116). Deste modo, exercendo ainda uma denegação da relação entre literatura e história, “o autor deste romance é tão categórico em suas convicções que nem mesmo se deu ao trabalho de visitar o sertão. O sertão literário é mais importante que o sertão real. Assim sendo, suas únicas fontes de referência são livros e mapas” (op. cit., p. 116).

Ironizando o próprio leitor, “subalterno em relação ao autor”, sem “qualquer direito a intervir com interpretações próprias” (idem, p. 116), o “narrador-autor” de Polígono das Secas, extrapolando o território que circunscreve a ação do untor, com seu demolidor unto amarelado – no final do romance, o untor, pendurado pelo estribo, é arrastado pelo jerico, que atravessa o Polígono das Secas e chega à orla marítima de João Pessoa – pretende atingir não apenas a literatura regionalista brasileira, mas toda a literatura:

 

Antes de tudo, a literatura regionalista não pode ser vista como um fator isolado, mas como uma perfeita representação da cultura deste século. Cada literatura tem seus próprios sertanejos. Os sertanejos estão por todas as partes. No grandioso projeto do autor, destruir a literatura regionalista corresponde a destruir a literatura universal. (ibidem., p. 117)

 

Contra os dogmas literários, a ambição do narrador “é conceber uma verdade irrefutável, eterna, de sabor bíblico”, sintetizada numa única sentença, ironicamente dogmática: “Quando a literatura não mata a humanidade, é a humanidade a matar a literatura” (MAINARDI, 1995, p. 118).

Se Polígono das Secas não se identifica com o “cinema industrial”, produto típico da indústria cultural, feito para o consumo das massas – e ao qual Terezinha Barbieri parece se referir, em suas reflexões acerca do “hibridismo semiótico” da literatura –, por outro lado, o romance “anti-regionalista” de Diogo Mainardi se identificaria com um outro tipo de cinema. Em seus filmes “peliculamente incorretos”, ensaísticos e experimentais, Glauber Rocha procura a afirmação de um cinema contraposto ao “cinema industrial”, um cinema que não represente um simples “udigrudi”1 do cinema do “colonizador”, como as pornochanchadas, duramente criticadas por ele:

 

Até quando o México vai insistir em conservar os mitos do cinema industrial? Quando os jovens diretores mexicanos vão inventar algo mais revolucionário e deixar de fazer películas corretas para incluí-las na indústria da mediocridade? (Glauber Rocha, carta a Alfredo Guevara, junho de 1967, citado por VENTURA, 2000, p. 252).

 

Como parte do projeto de “descolonização cultural”, a Estética da Fome,2 de Glauber Rocha, que problematiza a relação entre estética e política no contexto de uma economia de “capitalismo dependente”, estabelece um novo conceito: o de “cinema ideogramático”. Segundo tal conceito, os elementos da cultura popular nordestina – vista como frente de resistência, ainda que pacífica e inconsciente, aos valores do imperialismo cultural e econômico – devem ser apropriados criticamente, para a recriação de uma nova linguagem. Tal forma estética propõe ainda a transposição de um problema moral e político – que inclui a precariedade do cinema do Terceiro Mundo como reflexo das condições do subdesenvolvimento, tematizado por ele – para o campo estético. Como observa Ismail Xavier, “a fome como metáfora permite nomear um estilo de fazer cinema. Um estilo que permite redefinir a relação do cineasta brasileiro com a carência de recursos, invertendo posições diante das exigências materiais e as convenções de linguagem próprias ao modelo industrial dominante” (XAVIER, 1983, p. 10).

Embora “Glauber pareça duvidar que o homem rude do sertão possa alcançar, em algum nível, a consciência crítica de sua miséria” (VENTURA, 2000, p. 181), a cultura popular é vista por ele como espécie de “guardiã” dos valores tradicionais, que resistem à colonização “modernizante”, mas não são capazes de agenciar uma ação política. Nesse paradoxo residiria, para Glauber Rocha, todo o “impasse” e a “impossibilidade” do Terceiro Mundo: o cineasta percebe o “destino” do povo (sem identidade) brasileiro irremediavelmente atrelado ao destino do colonizador, que conduz a cultura e a economia terceiro-mundista. Essa perspectiva trágica do pensamento de Glauber Rocha estaria presente em filmes como Deus e o Diabo na Terra do Sol e Terra em Transe, nos quais “o povo é visto como uma entidade abstrata, signo de um Brasil inculto, bárbaro, ressentido e faminto” (VENTURA, 2000, p. 210). Assim, a cultura popular buscada por Glauber Rocha como “guardiã da nação” não desafia – porque não tem forças suficientes nem consciência da sua posição de dominado – a dominação exercida pelo “complexo colonizador” do Ocidente. 

Com uma praxis essencialmente voltada para a luta do cinema latino-americano frente ao imperialismo cultural do “cinema industrial do colonizador”, seja ele “o americano” ou  “o europeu”, Glauber Rocha, porém, “estava isolado na cena cultural brasileira” (op. cit., p. 241), visto com desconfiança pela ditadura militar, e sem o apoio de grande parte dos intelectuais da esquerda, numa posição sobretudo “ambígua”:

 

O filme [Terra em Transe] foi acusado de fascista por alguns e de anárquico e amoral por outros, fato que tinha ocorrido com o filme Deus e o Diabo na Terra do Sol, a partir do qual Glauber seria chamado de “gênio”, consagrado pelo público europeu e brasileiro. (...) No contexto da consolidação da ditadura, da emergência da luta armada, da tortura e da perseguição daqueles que discordavam do autoritarismo, Terra em Transe denuncia a fragmentação dos valores ético-políticos, seja nas elites, seja nas massas, e a ausência de um processo revolucionário. (idem, p. 242)

 

Embora não seja correntemente identificado com o ceticismo, Glauber Rocha, nesse filme, adotaria um posicionamento muito próximo da “visão de mundo” cética, na medida em que aponta o “impasse” do Terceiro Mundo, denunciando a idealização romântica do conceito de povo e a “pseudopedagogia” teórica e abstrata das esquerdas brasileiras de um ponto de vista que, porém, “suspende” o julgamento sobre elas. Conforme comenta Tereza Ventura:

 

O transe aponta a idéia de que não existe uma realidade acabada, que esta não opera no registro de uma racionalidade histórica, temporal e intelectual como resultado de uma razão conservadora alheia à “especificidade complexa e ambígua” do Terceiro Mundo. (ibidem, p. 242)

 

A estética tanto “experimental” quanto polêmica de Glauber Rocha se voltaria, fundamentalmente, para a questão do modo de se produzir a cultura no Brasil, colocando sob suspeita, desta forma, a produção cultural brasileira e, especificamente, a cinematográfica. De idêntico modo, o romance de Diogo Mainardi, apropriando-se criticamente dos elementos da literatura regionalista, tal como proposto pelo conceito glauberiano de “cinema ideogramático”, abordaria não somente a questão da “identidade literária” da literatura regionalista no Brasil, mas sobretudo o modo de produção da literatura brasileira, e da literatura de um modo geral, aproximando-se, assim, das questões suscitadas pelo cinema de Glauber Rocha: “De fato, a contrariedade do autor em relação à literatura regionalista é um mero subterfúgio para abordar argumentos mais relevantes” (MAINARDI, 1995, p. 116).

À maneira da “intervenção em off” de Glauber Rocha em seus filmes, em que a voz do diretor interfere diretamente nas cenas,3 o narrador de Polígono das Secas deixa sua posição passiva para assumir a fala do próprio autor:

 

O autor deste romance intervém novamente; no caso, com a bibliografia. A intervenção pode desagradar o leitor, mas o autor não se incomoda. O romance é dele – tem o direito de intervir como bem entende. É sua única prerrogativa. (op. cit., p. 88).

 

A interferência direta do autor na narrativa, em Polígono das Secas, lembra ainda a “destruição da montagem”, outro recurso empregado por Glauber Rocha em Idade da Terra. Por meio deste recurso, é apresentado, em cena aberta, o diálogo entre os atores e o diretor, no qual este último, em sua função de “dirigir o filme”, acaba por impor sua “vontade” na construção das cenas:

 

Para que o leitor não possa adulterar o presente romance com interpretações próprias, o autor irá esclarecer o seu verdadeiro significado, ainda que acabe restringindo demasiadamente o alcance de sua obra. (idem, p. 116)

 

Por fim, poder-se-ia dizer ainda que, em Polígono das Secas, da mesma forma que “o leitor não conta” (ibidem, p. 116), também o autor não contaria, e que esse romance poderia ter sido escrito por qualquer autor regionalista, dos “maiores” ou “menores”. Embora ironizando a literatura regionalista e satirizando os seus tipos, o que Diogo Mainardi acaba fazendo, em seu Polígono cético, à semelhança de Cervantes com relação às novelas de cavalaria,4 no Quixote, é prestar uma homenagem à literatura regionalista e aos seus mitos, na medida em que deles se apropria para exercer a sua crítica da literatura e da cultura. Assim, em Polígono das Secas, a literatura regionalista brasileira, colocada “sob suspeita”, acaba porém por ser resgatada do esquecimento, numa época em que prevalece a “palavra impura” (Terezinha Barbieri) e a lógica do “mercado editorial”, que transforma a literatura em objeto para o consumo imediato.

 

NOTAS

 

1 “O termo udigrudi foi inventado, parece, por Glauber Rocha, numa invectiva aos filmes do ‘underground’ caboclo. E seu tom pejorativo foi devidamente invertido pelos divergentes do cinema novo, que dele se apropriaram, já que definia sua proposta” (MONTEIRO, 1979/80, p. 126).

2 Surgida de uma comunicação de Glauber Rocha no Seminário “Terzo Mondo e Comunità Mondiale”, realizado em Gênova, Itália, em 1965, a Estética da Fome tornou-se, ao lado do lema “uma câmera na mão e uma idéia na cabeça”, uma espécie de “manifesto” do Cinema Novo.

3 Numa das cenas do filme Idade da Terra, o Cristo Negro, vivido por Antônio Pitanga, desafia o americano John Brahms, interpretado por Maurício do Valle, a “ouvir a voz do Terceiro Mundo”. E essa “voz” é a própria voz de Glauber Rocha, em off, sobre a imagem de Brasília, discursando sobre o “mundo rico” e o “mundo pobre”.

4 Como observa Eunice Piazza Gai, “tradicionalmente, a crítica dividiu-se em duas posições antagônicas: há quem considere o texto [do Quixote] uma paródia, uma burla, uma sátira às novelas de cavalaria e há quem julgue o contrário, que ele representa uma idealização desses livros” (GAI, 1997, p. 90-91).  

 

 

BIBLIOGRAFIA

 

BARBIERI, Terezinha. “De olho no leitor”. In: SOUZA, Eneida Maria; MIRANDA, Wander Melo (Org.). Navegar é preciso, viver... Escritos para Silviano Santiago. Belo Horizonte: Editora da UFMG / Niterói: Editora da UFF, 1997.

GAI, Eunice Piazza. “Dom Quixote e a metafísica do engano”. In: Sob o signo da incerteza: o ceticismo em Montaigne, Cervantes e Machado de Assis. Santa Maria: Editora da UFSM, 1997, p. 79 a 129.

MAINARDI, Diogo. Polígono das Secas. São Paulo: Companhia das Letras, 1995.

MONTEIRO, Ronald F. “Do udigrudi às formas mais recentes de recusa radical do naturalismo”. In: NOVAES, Adauto (Org.). Anos 70: Cinema. Rio de Janeiro: Europa, 1979/80.

VENTURA, Tereza. A poética polytica de Glauber Rocha. Rio de Janeiro: Funarte, 2000.

XAVIER, Ismail. Sertão mar: Glauber Rocha e a estética da fome. São Paulo: Brasiliense, 1983.