DUBITO ERGO SUM

 Páginas de Ceticismo

 

A ARTE COMO PERSEGUIÇÃO DO TEMPO:
ressonâncias entre Cortázar e Deleuze

Mariano David

 

Fazer. Fazer algo, fazer o bem, fazer pipi, fazer hora: a ação em todas as suas complicações. Contudo, por trás de toda e qualquer ação, havia sempre um protesto, pois todo fazer significava sair de para chegar a, ou mover algo para que fixasse aqui e não ali, ou entrar numa determinada casa em vez de entrar ou não entrar na casa ao lado, significando isso que em qualquer ato havia sempre a confissão de uma falha, de algo ainda não feito e que era possível fazer, o protesto tácito diante da contínua evidência da falha, da mesmice, da imbecilidade do presente. Acreditar que a ação pudesse culminar ou que a soma das ações pudesse realmente equivaler a uma vida digna desse nome era uma ilusão de moralista. Mais valia a pena renunciar, pois a renúncia à ação era o próprio protesto, e não a sua máscara.

Julio Cortázar, O jogo da amarelinha

 

Quatro sentidos cardeais: tempo, música, Cortázar e Deleuze

O Tempo não suporta ser marcado

como se fosse gado.

Carroll, Alice no país das maravilhas

 

Quando colocamos o CD no aparelho de som e ouvimos as notas que Charlie “Bird” Parker soprou em seu sax numa noite inspirada de 1946, somos imediatamente remetidos do século XXI para a aurora do bebop. Apesar do fascínio que essa viagem nos causa, experimentamos apenas uma ilusória volta no tempo proporcionada pela tecnologia de registro e reprodução sonora. Porém, outro fenômeno temporal, mais banal e paradoxalmente mais fantástico, acontece quando ouvimos as notas de “Lover man” gravadas naquela noite. Ao ouvir uma nota musical somos remetidos para o passado pela memória das notas que a antecederam e do mesmo modo somos remetidos para o futuro pela expectativa da nota que virá a seguir. Só assim, remetidos pela nota que está a soar, simultaneamente para o passado e para o futuro, a música pode criar uma sensação artística pela sucessão de sons. Nossa fruição musical se dá pela cisão temporal. Por outro lado, a produção das notas no sax de Charlie Parker também envolve uma complexidade temporal. Entre sua concepção no cérebro de Bird, seu impulso nos músculos de Bird e sua ressonância sonora há uma coordenação de funções que faz a música voar e abolir qualquer sentido de presente. Uma nota não é soprada sem que a seguinte esteja sendo concebida no cérebro de Bird. Mas qual a distância entre uma nota e outra, em que ponto uma nota se distingue da outra se o que ouvimos é um contínuo musical, uma frase melódica aparentemente sem silêncios? Bird quer encontrar a distância infinitesimal, e paradoxalmente infinita, entre duas notas: faz com que uma nota avance sobre a anterior, quer colar uma nota na outra, quer fundi-las, sintetizá-las. Mas o músico também alonga as notas até certo limiar ou então produz apenas fragmentos de notas que formam um emaranhado de sons instigantes, angustiantes. É a angústia do perseguidor incansável. Bird quer se instalar “entre” as notas para encontrar seu segredo, levar ao limite a potência de extrair sensações do sax. O que ele persegue, tal como um filósofo, é a essência do tempo envolvida na música. Quer encontrar o tempo em estado puro, quer nos mostrar o tempo e esta sua tarefa é exaustiva, insana, enlouquecedora. Por isso mesmo estamos a ouvi-lo na vertigem de uma revelação que apenas se vislumbra mas não pode se estabelecer em definitivo. Pensamos então: é para isso que serve a arte, esse monumento à perseguição do inefável, esse fragmento de realidade que perseguimos com forças impensáveis. É para isso que colocamos o CD de Charlie Parker no aparelho de som, que nos sentamos em frente ao aparelho e esquecemos a água do café fervendo no fogão, esquecemos as queixas de saúde dos parentes e dos amigos, esquecemos as contas a pagar e, principalmente, esquecemos de nós mesmos. De nosso frágil eu e nosso robusto ego. Fazemos com que Bird nos dê esse pedaço de mundo em que podemos pressentir o infinito do tempo. Mas não o fazemos para fugir do mundo com suas águas fervendo, suas mazelas por curar, suas contas por pagar. Ao contrário, ouvimos Bird para sentir o real mais de perto: tal como o próprio Bird ao tocar, nós o ouvimos não porque fugimos de algo, mas porque buscamos algo. Algo como a vida, como o mundo, como o tempo.

Da mesma forma, lemos Cortázar para ter acesso ao miolo do mundo ou a oitenta mundos em um só dia. Para sermos jogados no tempo. Não podemos ler Cortázar apenas como um entretenimento, porque nada em sua literatura nos traz consolo ou apenas prazer, nada permanece tranqüilo ao nosso redor ao terminarmos de ler uma obra sua. Tudo adquire uma tênue atmosfera de suspeição. Os objetos podem exibir uma fúria volitiva, os espaços podem cindir e nos engolir, o passado vivido ou não pode se fundir ao presente, um duplo miserável pode surgir para nos reivindicar a consciência, um personagem pode estar às nossas costas com um punhal na mão. Se o mundo nos parecia uma rocha, após ler Cortázar o mundo nos parece um queijo suíço ou uma gelatina, talvez uma baba. Sua tarefa é nos mostrar a estranha porosidade do mundo, é nos jogar no mundo. E ele o faz de tal forma que passamos a querer mais mundo, mais arte.

Os interessados em literatura a ponto de lerem crítica literária, seja por genuíno interesse ou por dever profissional, muitas vezes constatam, com pesar, o contraste entre a qualidade literária das obras de ficção e de crítica. É particularmente penoso sair de um texto em que abundam qualidades poéticas e penetrar em uma crítica estéril ou entediante. Por isso torna-se gratificante para estes leitores quando se deparam com textos críticos inteligentes e estimulantes, e mais gratificante ainda quando encontram na própria obra de ficção discussões teóricas que façam as vezes de crítica. Este último é o caso de “O perseguidor” de Cortázar em que o personagem narrador é um crítico musical. Ao relatar o convívio com um genial saxofonista de jazz, cuja biografia acabara de publicar, o narrador-crítico reflete sobre problemas estéticos e comenta a maneira caótica de viver, as idéias confusas e os delírios recorrentes de seu biografado. Através da tensão entre as perspectivas do crítico e do artista, Cortázar constrói uma primorosa obra de ficção em que o centro de força da arte musical – e por extensão de toda grande arte – surge em sua rica complexidade, com destaque para a fascinante característica de fazer proliferar os paradoxos. Conforme diz de maneira hesitante Johnny (o personagem saxofonista) sobre a música, a arte nos tira do tempo, ou melhor, nos põe no tempo. “Mas então é preciso crer que esse tempo não tem nada a ver com... bem, com a gente, vamos dizer.[i]” Arriscamos acrescentar que este é o tempo inumano, diferente do tempo crono-lógico cotidiano, demasiado humano, com sua flecha passado/futuro regular e inexorável. É o tempo puro que a obra de arte nos faz entrever ou no qual a obra tem o poder nos inserir.

Mas qual o estatuto da relação entre o tempo e a arte? É pertinente reclamar a necessidade e a importância desta relação? Além de fruir gratificado a obra cortazariana o leitor/pesquisador é tentado a comparar as concepções teóricas que seus personagens elaboram com as concepções de arte que circulam na contemporaneidade, bem como com as próprias reflexões teóricas presentes nos diversos ensaios de Cortázar. Desta forma, contaminados pelo espírito perscrutador da realidade do saxofonista Johnny Carter, nos propomos a estabelecer um diálogo entre a problematização do tempo, em função da busca artística, que Cortázar coloca principalmente em “O perseguidor” e a mesma problematização que encontramos na filosofia de Gilles Deleuze. Acreditamos ser frutífero o esforço de pensar tal articulação em virtude das inúmeras possibilidades de ler Cortázar através de Deleuze, e vice-versa, das inúmeras comunicações que as obras apresentam. Deste objetivo resultam quatro sentidos principais que determinam sendas de pesquisa próprias: a obra de Cortázar (e seus críticos), a filosofia de Gilles Deleuze (e seus comentadores), o tema do tempo e a questão da música (com destaque para o jazz). Estes quatro sentidos cardeais acoplam-se de modo a enfocar temas mais específicos tais como o tempo em Cortázar e em Deleuze e a música também em ambos, mas possuem um centro de convergência onde se encontra a idéia de arte. Porém, muitos outros temas correlatos e afinidades entre os dois pensadores surgirão ao longo desta jornada ao centro da arte e do tempo. Ressaltamos que a convocação do pensamento de Deleuze implica a colaboração de Félix Guattari, cuja parceria produziu obras às quais recorreremos ao longo do trajeto.

 

O fantástico como “entre-realidade”

O que mais me revolta é a mania das explicações, o Logos compreendido exclusivamente como verbo.

Cortázar, O jogo da amarelinha

 

 

Parece-nos interessante que a viagem não se inicie pelo texto que pretendemos privilegiar, mas que passemos antes por territórios vizinhos, por outros contos e por textos teóricos de Cortázar. Do volume intitulado Valise de cronópio destacamos vários ensaios nos quais são enfocadas as características do sentimento de insuficiência do real e suas relações com a arte de criação poética. Em “Do sentimento de não estar de todo” e em “Do sentimento do fantástico” o escritor critica a crença do homem contemporâneo na realidade tal qual é apreendida pelos sentidos: certo realismo amplamente disseminado, que só não é de todo ingênuo devido à circulação de informações históricas e filosóficas. As fissuras da realidade, que esporadicamente fustigam a crença na estabilidade e na coerência do real, são devidamente cimentadas pela dispersiva convivência cotidiana, restringindo a relevância daquelas fissuras a algo meramente extraordinário. Segundo Cortázar “esse homem é um ingênuo realista mais do que um realista ingênuo[ii]” pois, ante o fenômeno excepcional renuncia a indagá-lo. É justamente do desafio, do estímulo recebido pelo estranhamento que o mundo nos reserva, que o artista retira a força que o faz criar:

 

Se por poeta entendermos funcionalmente o que escreve poemas, a razão para que os escreva (não se discute a qualidade) nasce de que seu estranhamento como pessoa suscita sempre um mecanismo de challenge and response; assim, cada vez que o poeta é sensível à sua lateralidade, à sua situação extrínseca numa realidade aparentemente intrínseca, reage poeticamente [...], escreve poemas que são como petrificações desse estranhamento, o que o poeta vê ou sente em lugar de, ou ao lado de, ou por baixo de, ou ao contrário de, remetendo este de ao que os demais vêem tal como crêem que é, sem deslocamento nem crítica interna.[iii]

 

O mesmo mecanismo aconteceria com o filósofo, embora este tenha fins diversos dos do poeta. Na esteira desta poética, Cortázar afirma que todo grande poema ativa e potencializa a estranheza perante o mundo através da aceitação da “zona intersticial”. Tal abertura nos fornece uma primeira aproximação com a filosofia de Deleuze em que as fissuras do real, a cisão entre o plano dos significados e dos significantes situa-se na gênese dos paradoxos do pensamento e da arte. A perspectiva intersticial encontra-se na base da concepção deleuzeana da arte uma vez que o “entre” possibilita a expressão do princípio de incessante transformação das coisas, ou seja, do devir incessante do mundo. A zona intersticial para Cortázar corresponde ao intervalo entre a realidade propriamente dita e uma outra realidade mais sutil, enquanto que para Deleuze o interstício surge entre os estados de transformação de toda e qualquer coisa. Parece-nos, entretanto, que o privilégio em ambas estéticas de uma zona fronteiriça, de um limite impalpável, aponta para afinidades importantes entre elas. De fato, veremos ao longo deste ensaio como muitos pontos em comum entre os dois pensadores têm origem nesta perspectiva intersticial ou a ela podem ser remetidos. Além disso, é importante ressaltar desde já que o objetivo deste trabalho não é identificar um pensamento ao outro mas mostrar como um pode potencializar o outro, em ambos os sentidos. Reproduzimos a seguir outro trecho do ensaio já citado em que Cortázar nos revela aspectos do seu processo criativo que respaldam a teoria acerca da zona intersticial da qual o poeta constrói suas criações:

 

Muito do que tenho escrito ordena-se sob o signo da excentricidade, posto que entre viver e escrever nunca admiti uma clara diferença; se vivendo chego a dissimular uma participação parcial em minha circunstância, por outro lado não posso negá-la no que escrevo uma vez que precisamente escrevo por não estar ou por estar a meias. Escrevo por falência, por deslocamento; e como escrevo de um interstício, estou sempre convidando que outros procurem os seus e olhem por eles o jardim onde as árvores têm frutos que são, por certo, pedras preciosas.[iv]

 

A idéia de que a literatura parte de um sentimento de falência da realidade e opera um efeito de estranhamento que restitui esta falência para o leitor é plenamente recorrente na estética de Cortázar. Dentro desta perspectiva um dos temas que mais efetivamente  propicia o estranhamento é a desordem do tempo cotidiano. Cortázar explorou as possibilidades de vivência de novas ordens do tempo em muitos de seus contos breves. Escolhemos para exemplificar tal enfoque sobre o tempo uma narrativa que se encontra no mesmo volume de “O perseguidor”.

O conto “As babas do diabo”, adaptado para o cinema por Antonioni com o título de “Blow up”, parece-nos colocar a questão dos paradoxos temporais de forma particularmente interessante, uma vez que ali a bifurcação do tempo encontra-se estreitamente relacionada ao problema da própria narrativa, à impossibilidade de se narrar de uma perspectiva pessoal um evento que subverte a dita normalidade. Já nos primeiros parágrafos o narrador evidencia a impossibilidade de enunciação dos eventos: “Nunca se saberá como isto deve ser contado,...[v]” Quem poderá contar uma história em que o narrador morre e não morre, em que a mesma cena pode ser vista como desenrolando-se de duas formas distintas? Talvez as máquinas, diretamente envolvidas na narração-acontecimento, a máquina de escrever e a máquina fotográfica (Cóntax), pudessem contar com mais fidelidade a estranha história. Mas também o morto (não-morto) pode narrar sua perspectiva da história que implica o desdobrar-se do tempo ou o retorno dos eventos sob a marca trágica da diferença. Vejamos as linhas básicas do enredo.

Roberto Michel, o narrador-protagonista do conto, é um tradutor franco-chileno que, ao sair de seu apartamento em Paris para fotografar amadoristicamente o movimento das ruas, presencia uma cena envolvendo três personagens. O tradutor-fotógrafo encontra à ponta da ilha de Saint-Louis uma bela mulher loura seduzindo um assustado adolescente, a cena lhe parece instigante e ele tira uma foto do casal. Ao perceber que foi fotografada, a mulher avança indignada para o fotógrafo exigindo que ele lhe dê o filme enquanto o adolescente sai de cena quase correndo. Neste instante um homem, que estava lendo jornal dentro de um carro estacionado ali perto, sai do carro e se junta à mulher para pressioná-lo a entregar o filme.  Roberto responde à solicitação com um sorriso e deixa local mantendo o filme consigo.

Nos dias que se seguem ao episódio, Roberto amplia várias vezes a foto do casal e cola-a na parede do quarto onde trabalha em suas traduções. Enquanto faz seu trabalho, “a cada tantos minutos”, ergue a cabeça e olha para a foto sentindo-se na exata perspectiva de quando tirou a foto. Mas eis que Roberto vê a mão da mulher se fechar e a partir daí tudo na foto se movimenta: a cena se repete mas desta vez ele percebe que na verdade a mulher seduz o adolescente para entregá-lo ao homem. Neste retorno da cena de rua que se passa na parede do quarto de Roberto, como se fosse um filme policial, o adolescente consegue escapar novamente mas desta vez o fotógrafo-narrador não escapa ileso: termina assassinado, imobilizado, contemplando as nuvens e os pássaros através do retângulo na parede. Reproduzir os eventos deste conto da maneira como fizemos é exatamente o que não se deveria e não se poderia fazer. Na narração do conto há uma hesitação e uma ambigüidade que se perdem neste tipo de reprodução. Ora o fotógrafo narra na primeira pessoa, ora o conto é narrado na terceira pessoa e Roberto Michel é um personagem que tem seus movimentos vistos de fora. A narrativa é a própria problematização da maneira de narrar um evento quando falham simultaneamente as certezas da coerência do sujeito e da sucessividade dos acontecimentos na ordem do tempo. Se insistimos aqui em reproduzir o enredo deste conto, foi para mostrar como o tempo cronológico entra em colapso no universo fantástico de Cortázar. O presente da narrativa é tão falso como o passado narrado. O próprio narrador revela a inconsistência da temporalidade: “Agora mesmo (que palavra, agora, que mentira estúpida).[vi]” O suposto retorno da cena que se passa na fotografia, com sua conseqüência fatal para o fotógrafo, cria uma condição de impossibilidade de seu acontecimento: se a fotografia revela a verdade de que o fotógrafo foi morto após tirar a foto, como esta poderia ter sido revelada, ampliada e colocada na parede do quarto para revelar a verdade? Só nos resta crer que ambas as versões são verdadeiras ou ambas falsas, que os dois desdobramentos da cena aconteceram em tempos e lugares diferentes (na manhã de domingo na ilha de Saint-Louis e dias depois no apartamento de Roberto) ou que ambas aconteceram num mesmo tempo e lugar indeterminados, talvez entre um tempo e outro, entre uma versão e outra. O que importa é a subversão da ordem da consciência e o estranhamento que esta perspectiva intersticial promove. O acontecimento não se passa de acordo com as leis do bom senso e da física clássica, ou seja, observado por uma consciência intencional precisamente regulada, mas conforme uma metafísica em que o tempo se encontra fora dos eixos e a consciência presa das incertezas. A razão (como logos,  palavra) se vê insuficiente para cobrir as sutilezas da realidade e recorre aos paradoxos, às ambigüidades da linguagem.

Davi Arrigucci Jr., em excepcional estudo da obra de Cortázar, comentando a hesitação que o narrador apresenta no início do conto e a solução de incorporar esta hesitação no âmbito do discurso, formula de maneira precisa tal problemática:

 

Trata-se, evidentemente, de uma solução irônica: a enunciação sobre um paradoxo torna-se ela própria paradoxal, mantendo também até o fim o estranhamento do leitor, colocado em contato direto com o problema da estruturação do texto. O caráter paradoxal e, por isso mesmo, desconcertante, da enunciação resulta da adoção de um foco narrativo dúplice, o que permite a oscilação ambígua e irônica entre perspectivas contraditórias.[vii]

 

“As babas do diabo” é um conto exemplar do estilo cortazariano porque a problemática da narrativa encontra-se implicada na atmosfera fantástica do enredo. Para Cortázar, o conto curto assemelha-se a um poema ou a uma fotografia uma vez que todos os elementos encontram-se comprometidos na economia que busca distender ao máximo a tensão ou incrementar a intensidade das sensações expressas. Para o escritor, “a gênese do conto e do poema é, contudo, a mesma, nasce de um repentino estranhamento, de um deslocar-se que altera o regime ‘normal’ da consciência[viii]”. Além disso, a eficácia e o sentido do conto dependem de valores característicos do poema (e do jazz): “a tensão, o ritmo, a pulsação interna, o imprevisto dentro de parâmetros pré-vistos, essa liberdade fatal que não admite alteração sem uma perda irreparável[ix]”. Este tipo de conto, a narrativa curta, é bastante afeito ao sentimento do fantástico ou, pelo menos, requer um tema excepcional, algo que funcione como um ímã, que atraia toda uma rede de relações e permita uma abertura para fora da própria narrativa. Desta forma, o tempo e o espaço “têm de estar como que condensados, submetidos a uma alta pressão espiritual e formal para provocar essa ‘abertura’[x]

Tal propriedade, de remeter a algo maior que a parte enfocada, caracteriza a narrativa como fantástica e é sempre por uma força capaz de provocar certo deslocamento que o fantástico exerce sua eficácia. Cortázar recorre à concepção de ponto vélico, em uma passagem de Victor Hugo, para descrever o sentimento do fantástico: trata-se do ponto de convergência de todas as forças dispersas no velame de um navio. Assim também “o fantástico força uma crosta aparente, e por isso lembra o ponto vélico; há algo que encosta o ombro para nos tirar dos eixos.[xi]” Foi em virtude desta ligação favorável, entre a forma do conto curto e o tema fantástico, que autor utilizou amplamente esta fórmula. Vejamos como o próprio escritor expõe as razões para o exercício deste gênero:

 

Quase todos os contos que escrevi pertencem ao gênero chamado fantástico por falta de um nome melhor, e se opõem a esse falso realismo que consiste em crer que todas as coisas podem ser descritas e explicadas como dava por assentado o otimismo filosófico e científico do século XVIII, isto é, dentro de um mundo regido mais ou menos harmoniosamente por um sistema de leis, de princípios, de relações de causa e efeito, de psicologias definidas, de geografias bem cartografadas. No meu caso, a suspeita de outra ordem mais secreta e menos comunicável, e a fecunda descoberta de Alfred Jarry, para quem o verdadeiro estudo da realidade não residia nas leis, mas nas exceções a essas leis, foram alguns dos princípios orientadores da minha busca pessoal de uma literatura à margem de todo realismo demasiado ingênuo.[xii]

 

Envolvendo direta ou indiretamente a subversão da ordem temporal podemos citar ainda os contos curtos: “As armas secretas[xiii]”, “Distante[xiv]” e “Todos os fogos o fogo[xv]”. A tentativa de superar certo realismo cientificista, tão em voga neste final do século XX e início do século XXI – como uma das características da dita pós-modernidade – já se encontrava presente na famosa ironia machadiana bem como na filosofia demolidora de Nietzsche. Herdeiro desse gosto filosófico subversivo, empenhado na guerrilha filosófica contra a tradição ocidental, metafísica e cientificista, Deleuze desenvolve uma obra que nos parece fértil para pensar a arte contemporânea. Privilegiaremos neste trabalho sua inusitada abordagem do tempo que nos possibilitará o diálogo com Cortázar. Assim, em nossa viagem, cujo território de destino é “O perseguidor”, faremos mais uma passagem pelo território vizinho da filosofia francesa contemporânea antes de tomarmos o rumo final.

 

Rizoma temporal

Nesse instante gigantesco, vi milhões de atos agradáveis ou atrozes; nenhum me assombrou mais que o fato de todos ocuparem o mesmo ponto, sem superposição e sem transparência.

Borges, O Aleph

 

O problema do tempo se encontra no cerne do pensamento deleuzeano e uma abordagem que visa discutir suas implicações em obra literária requer recortes específicos. Destacaremos então três aspectos do tempo em Deleuze que nos parecem, tendo em vista nosso objetivo, mais profícuos: Aion – o tempo não cronológico, gênese dos paradoxos, como discutido em Lógica do sentido; o conceito de imagem-cristal, como aparece em Cinema II: A imagem-tempo; e o conceito de ritornelo, elaborado em Mil platôs e O que é a filosofia?, as duas últimas obras escritas em parceria com Félix Guattari.

Em Lógica do sentido, Deleuze realiza um resgate da lógica dos incorporais da filosofia estóica – lógica dos acontecimentos como fenômenos de superfície –, fazendo a articulação desta com a obra de Lewis Carroll. A dinâmica do acontecimento, que não se detém nunca no presente, mas remete sempre ao passado e ao futuro, é um dos focos geradores dos paradoxos no encontro do plano significante da linguagem com o plano significado das coisas. O acontecimento é um efeito que é expresso por um verbo no infinitivo. Enquanto a lógica aristotélica preocupa-se com as proposições que atribuem uma qualidade a uma coisa, do tipo “a árvore é verde”, a lógica estóica preocupa-se com as proposições que enunciam acontecimentos, tais como “a árvore verdeja”. O acontecimento incorporal, o verdejar, é um atributo que dá o sentido da cor na árvore e não existe fora da proposição que o enuncia. Não é uma qualidade sensível como a cor verde. Verdejar é um acontecimento que não se detém, tal como o crescer: é, concomitantemente, estar maior que no passado e menor que no futuro[xvi].

Esta instabilidade na enunciação dos acontecimentos aponta uma primeira fissura na junção do plano da idealidade com o plano das coisas. “O acontecimento é coextensivo ao devir e o devir, por sua vez, é coextensivo à linguagem; [...] O paradoxo aparece como destituição da profundidade, exibição dos acontecimentos na superfície, desdobramento da linguagem ao longo deste limite.[xvii]” Isto significa que o devir, princípio de incessante diferenciação, encontra nos paradoxos da linguagem a expressão de seus efeitos e é através deles que a linguagem pode ser levada ao seu limite: ponto em que a literatura encarna sua potência mas, ao mesmo tempo, depara-se com a sombra de sua destruição.

A inadequação também aparece na relação entre os nomes e as coisas designadas por eles. Quando se define que tal nome designa tal coisa, esta definição necessita de uma outra que a sustente, gerando uma série infinita de definições. Só arbitrariamente pode-se colocar um termo original nesta série que a faça estancar. Este paradoxo da regressão ou da proliferação indefinida aparece na lógica sob diferentes formas e é reproduzido por Carroll no texto “O que a tartaruga disse a Aquiles[xviii]”. Os céticos também se apóiam neste problema lógico para impugnar qualquer juízo absoluto, como se vê no segundo tropo de Agripa. O referido tropo mostra que, ao referendar uma afirmação por meio de um argumento, pode-se exigir uma nova demonstração que prove este argumento, e assim por diante, ao infinito[xix]. Este tipo de paradoxo implica o conceito de infinito que já traz consigo propriedades paradoxais.

Desta forma o paradoxo encontra-se no centro do pensamento. De fato, como diz Deleuze, seria preciso ser muito simplório para crer que o pensamento se faz por atos simples, claros para si mesmo e que não envolve as potências paradoxais do inconsciente. Só podemos acusar os paradoxos de recreações do espírito quando são iniciativas levianas do pensamento e “não quando os consideramos como ‘a Paixão do pensamento’, descobrindo o que não pode ser senão pensado, o que não pode ser senão falado, que é também o inefável e o impensável, Vazio mental, Aion[xx]”. Aion é o tempo superficial dos acontecimentos incorporais tomado em sua relação com o devir: remete ao passado e ao futuro simultaneamente. Contrapõe-se a ele Cronos, que representa o tempo tomado em sua relação com o presente vasto e profundo, e que transcorre através da flecha homogênea e inexorável do tempo: do passado para o futuro – um tempo localizável, espacializado. Peter Pál Pelbart, em sua análise da questão do tempo na filosofia de Deleuze, sintetiza do seguinte modo a distinção entre os dois conceitos de tempo: “Cronos é o tempo da medida ou da profundidade desmedida, ao passo que Aion é o da superfície. Cronos exprime a ação dos corpos, das qualidades corporais, das causas, Aion é o lugar dos acontecimentos incorporais, dos atributos, dos efeitos.[xxi]

A principal conseqüência desta associação entre o tempo e os paradoxos do devir reside na sua capacidade de fazer frente ao plano da opinião, da doxa e da imagem do pensamento como recognição. No plano da doxa circulam o bom senso, como sentido correto, direção única das coisas, e o senso comum, como reconhecimento do mesmo na esfera dos sujeitos e dos objetos. O paradoxo subverte a ambos ao afirmar simultaneamente várias direções. Recorremos ao mencionado texto de Peter Pál Pelbart para esclarecer essa operação que os paradoxos do tempo implicam.

 

O paradoxo subverte a direção da flecha do tempo ao abolir o princípio da direção única, mas sobretudo coloca em xeque o presente que lhe serve de parâmetro, presente em que aquela se ancora ou do qual ela parte. O paradoxo furta-se ao presente e esquiva-o, instalando na divisão infinita do instante e afirmando concomitantemente os vários sentidos, numa temporalidade centrífuga, multilinear. [...] // Ao afirmar ao mesmo tempo múltiplos sentidos, várias direções, sua coexistência insuperável, o paradoxo sabota a recognição e seus postulados implícitos, a identidade do sujeito que reconhece, a permanência do objeto reconhecido, a mensuração e limitação das qualidades a ele atribuídas, e reintroduz o devir-louco que a recognição se encarregava de proscrever.[xxii]

 

O estranho estatuto do tempo em Lógica do sentido, como gênese dos paradoxos e como fissura entre os planos da idealidade e das coisas, parece-nos muito próximo da concepção fantástica da realidade em Cortázar. O tempo concebido desta forma afina-se perfeitamente com a subversão da ordem temporal de “As babas do diabo”, bem como com as diversas instabilidades da subjetividade que se propagam pela obra cortazariana. Como vimos, o ingresso na instabilidade temporal implica também o convite à instabilidade dos sujeitos e dos objetos: é o mundo como um todo, em sua percepção cotidiana, que se torna instável e estranho, puro devir.

Em seus livros sobre o cinema, Deleuze parte da concepção de tempo em Bergson como duração, tomando-a como princípio de diferenciação. Nesta perspectiva, o tempo não pode ser dividido em instantes, ou seja, não se pode extrair da duração os instantes que a compõe como se fossem pontos pelos quais se passa, como se a duração fosse uma trajetória espacializada em que os pontos pudessem ser assinaláveis. Exatamente por isso o tempo é tomado como duração: um bloco compacto que supõe o surgimento de diferença. Segundo Deleuze, “da própria duração, ou do tempo, podemos afirmar que é o todo das relações[xxiii]”. Mas esse todo é aberto, altera-se constantemente. “O todo se cria e não pára de se criar numa outra dimensão sem partes, como aquilo que leva o conjunto de um estado qualitativo a outro, como o puro devir incessante que passa por esses estados.[xxiv]

Também nesta concepção o tempo só pode ser pensado através de paradoxos, uma vez que o presente de uma imagem atual coexiste com seu passado virtual. Não há imagem ou objeto puramente atual sem que uma “nuvem” de virtualidade o envolva. É através dessa virtualidade (memória) que envolve o objeto percebido que ele pode ser reconhecido. “Todo atual rodeia-se de uma névoa de objetos virtuais.[xxv]” Cria-se então um circuito em que a percepção alimenta a sua memória (imagem-lembrança, para Bergson) e esta se projeta sobre o objeto percebido, uma perseguindo a outra. Neste circuito, que é capaz de detectar a diferença de qualidade dos estados, forma-se o tempo como duração. Esse processo, além de nos mostrar o paradoxo que preside a concepção do tempo como duração, também possibilita a abordagem do mecanismo de coalescência entre o atual e o virtual, do mecanismo de gênese da imagem-cristal. Deleuze o descreve da seguinte maneira:

 

Mas, em todos os casos, a distinção entre o virtual e o atual corresponde à cisão mais fundamental do Tempo, quando ele avança diferenciando-se segundo duas grandes vias: fazer passar o presente e conservar o passado. [...] Os dois aspectos do tempo, a imagem atual do presente que passa e a imagem virtual do passado que se conserva, distinguem-se na atualização, tendo simultaneamente um limite inassinalável, mas intercambiam-se na cristalização até se tornarem indiscerníveis, cada um apropriando-se do papel do outro.[xxvi]

 

É a partir deste mecanismo que Deleuze desenvolve o conceito de imagem-cristal. Trata-se, justamente, da situação em que as imagens atual e virtual aproximam-se de tal forma que se tornam indiscerníveis, embora ainda conservem as características que a distinguem, pois a imagem-cristal é exatamente aquela em que o circuito atual-virtual se fecha ao máximo sem entrar em colapso, mantendo sua alternância fundamental. Uma vez que o passado virtual e o presente atual intercambiam-se intermitentemente até se tornarem indiscerníveis, o efeito que surge da imagem-cristal é a emergência do próprio tempo como cisão entre passado e presente. Os dois surgem simultaneamente, confundem-se mas mantém suas características e, por isso mesmo, deixam vislumbrar o tempo. Transcrevemos o texto de Deleuze para abordar esse conceito paradoxal:

 

O que constitui a imagem-cristal é a operação mais fundamental do tempo: já que o passado não se constitui depois do presente que ele foi, mas ao mesmo tempo, é preciso que o tempo se desdobre a cada instante em presente e passado, que por natureza diferem um do outro, [...] É preciso que o tempo se cinda ao mesmo tempo em que se afirma ou desenrola: ele se cinde em dois jatos dissimétricos, um fazendo passar todo o presente, e o outro conservando todo o passado. O tempo consiste nessa cisão, e é ela, é ele que se vê no cristal. A imagem-cristal não é o tempo, mas vemos o tempo no cristal.[xxvii]

 

O cristal se encontra no limite de coalescência, de indiscernibilidade. Ou como escreve Deleuze: “A imagem-cristal é certamente o ponto de indiscernibilidade de duas imagens distintas, a atual e a virtual, enquanto o que vemos no cristal é o tempo em pessoa, um pouco de tempo em estado puro, a distinção mesma entre as duas imagens que nunca acaba de se reconstituir.[xxviii]” Em seu estudo sobre cinema, Deleuze afirma que o cristal revela uma imagem-tempo direta, e não mais uma imagem indireta do tempo que decorresse do movimento, extraindo daí conseqüências importantes para a estética do cinema. Certamente uma “cena” similar em literatura, com todas as adaptações que o conceito exige, poderia ser útil a um estudo da estética literária. Entretanto, não pretendemos desenvolver neste trabalho tal classe de adaptação. O que nos chama a atenção no conceito é a implicação de tempo e estética sob a égide do paradoxo. Esta conjunção, por si só, nos remete à literatura de Cortázar e à sua obra crítica. Se a coalescência de percepção e memória (narração concomitante no passado e no presente) pode resultar em um efeito estético expressivo, em que se vislumbre o tempo puro, certamente este é um dos efeitos da escrita cortazariana.

O conceito de cristal do tempo, como veremos, liga-se ao conceito de ritornelo, que passamos a investigar. O ritornelo, por sua vez, envolve uma série de conceitos que compõem a geofilosofia de Deleuze e Guattari, e esta, com seus estratos (platôs) e seus movimentos relativos à terra, coloca-se como uma alternativa ao pensamento para a dicotomia sujeito e objeto. Todo desdobramento conceitual envolvendo as relações entre a terra e os territórios surge como o esforço no sentido de superar a mencionada dicotomia. O conceito de território está intimamente relacionado ao conceito de agenciamento e, em um enfoque voltado para a estética, também podemos relacioná-lo ao conceito de ritornelo – um estribilho, uma frase melódica que se repete envolvendo as forças do espaço ao redor. Constituir um território ou promover uma territorialização significa entrar em agenciamento com forças espaço-temporais que nos rodeiam, daí que o ritornelo, como o canto dos pássaros, visa estabelecer uma relação de forças com o território.

Estabelecemos uma marca territorial (uma assinatura) quando promovemos uma intervenção nas forças do mundo para impor uma distância crítica, fazendo nascer assim meios e ritmos. Este agenciamento das forças da terra para constituir meios e ritmos expressivos tem as características de um ritornelo. Deleuze e Guattari chamam de ritornelo “todo conjunto de matérias de expressão que traça um território, e que se desenvolve em motivos e paisagens territoriais[xxix]”. É como o canto e a encenação (qualidades expressivas) de um pássaro que constitui seu território. “A territorialização é o ato do ritmo tornado expressivo, ou dos componentes de meios tornados qualitativos.[xxx]” O fator territorializante se manifesta pelo “devir-expressivo”, pelo ritornelo: as qualidades expressivas que se repetem como num estribilho. Portanto, o território já é um efeito da arte! O primeiro ato do artista é o de constituir um território através de uma marca, de uma placa, de uma assinatura. Então, a qualidade expressiva implica posse e é anterior a esta.[xxxi] Mas será que basta fundar um território através de qualidades expressivas para criar uma obra de arte? Será que a arte começa e termina no movimento de territorialização?

“O território é, ele próprio, lugar de passagem. O território é o primeiro agenciamento, a primeira coisa que faz agenciamento, o agenciamento é antes territorial. Mas como ele já não estaria atravessando outra coisa, outros agenciamentos?[xxxii]” Com esta formulação os autores sugerem que um agenciamento territorial não se sedimenta nunca de forma constante. A função de desterritorialização implica o abando do território, a linha de fuga nômade. Assim o ritornelo territorializante implica meios e ritmos, enquanto que a desterritorialização envolve motivos e contrapontos. O agenciamento territorial, na verdade, não é separável das linhas ou coeficientes de desterritorialização, das fugas, das passagens e das alternâncias para outros agenciamentos.

Conforme os autores, o ritornelo é um conceito eminentemente sonoro, devido à maior potência de desterritorialização que o som possui sobre os demais materiais[xxxiii]. Esta concepção possui afinidade com o pensamento nietzscheano, que atribuía à música uma potência de dissolução dionisíaca superior. Entretanto, Deleuze e Guattari ressaltam que esta qualidade do som não torna a música superior às outras artes, mas confere-lhe a característica notável de tanto mais se afinar quanto mais se desterritorializa. Apesar do privilégio da música no conceito de ritornelo, este pode ser aplicado a qualquer manifestação artística. O ritornelo, esta ação eminentemente estética, é como um “cristal de espaço-tempo”: age sobre o que o rodeia, extraindo das forças “vibrações variadas, decomposições, projeções e transformações[xxxiv]”. Ele tem uma função catalítica de aumentar a velocidade das trocas, de assegurar interações entre os elementos e de formar massas organizadas. Ele fabrica tempo; ou melhor, ele é tempo implicado, uma vez que catalisa os acontecimentos e os presentifica. Justamente por catalizar os acontecimentos o ritornelo produz diferença, ou seja, implica o tempo.

O ritornelo conjuga todos estes fatores numa verdadeira ópera maquínica. Talvez seja necessário ao artista passar pelo ritornelo territorial ou de agenciamento para desterritorializá-lo, colocá-lo em fuga, e, então, chegar ao “grande ritornelo maquinado cósmico[xxxv]”, pois na desterritorialização envolvem-se não apenas as forças do caos e da terra, mas as forças do cosmo. O ritornelo, esta ação que envolve as forças do mundo (forças do caos, da terra e do cosmo) apresenta, novamente, a característica de conjugar expressão estética e fabricação, presentificação ou exibição do tempo, com a vantagem para nosso estudo, de possuir estreita ligação com a música. Aqui, no seio da geofilosofia, torna-se mais clara a convocação de todo tipo de força e a importância de afecções e afetos ou da “conaturalidade afetiva[xxxvi]” como queria Cortázar.

Através dos conceitos de Aion, imagem-cristal e ritornelo vimos concepções do tempo na obra de Deleuze que o apresentam sempre de forma paradoxal e contrária à noção do senso comum, de que o tempo possui uma ordem homogênea e constante. Das problematizações extraímos uma noção mais flexível do tempo, como uma multiplicidade. As conexões temporais podem se dar das mais variadas maneiras, tal como num rizoma em que as relações não são simplesmente arborescentes, hierárquicas, mas podem se dar em todas as direções e sentidos. Transcrevemos a seguir o que escreve Peter Pál Pelbart, na introdução do seu trabalho, a respeito da multiplicidade rizomática que o tempo apresenta na obra de Deleuze.

 

Em Deleuze, ao invés de uma linha do tempo, temos um emaranhado do tempo; em vez de um fluxo do tempo, veremos surgir uma massa de tempo; em lugar de um rio do tempo, um labirinto do tempo. Ou ainda, não mais um círculo do tempo, porém um turbilhão, já não uma ordem do tempo, mas variação infinita, nem mesmo uma forma do tempo, mas um tempo informal, plástico. Com isto estaríamos mais próximos, sem dúvida, de um tempo da alucinação do que uma consciência do tempo.[xxxvii]

 

Deleuze promove uma liberação do tempo, retomando a exclamação de Hamlet, O tempo está fora dos eixos! Muitos dos termos que qualificam o tempo em Deleuze nos remetem de imediato à obra de Cortázar: o emaranhado, a massa, o labirinto, o turbilhão, a variação, o plástico e a alucinação fantástica, bem como a multiplicidade. É justamente sob a forma de um labirinto ou de uma espécie de rizoma que Davi Arrigucci Jr. vê a referida obra: “Vista no conjunto a obra de Julio Cortázar parece traçar o itinerário labiríntico de uma busca incessante.” E, mais adiante, sugere o que significa criticar tal obra: “Penetrar no labirinto: desmontar e remontar o traçado, em busca do sentido de um projeto que é um buscar permanente. Uma linguagem à caça de outra linguagem que já se busca e enrodilha num complexo traçado.[xxxviii]” Apenas para realçar a proximidade dos dois pensamentos, leiamos o que Cortázar escreve em sua poética: “Todo verso é encantamento, por mais livre e inocente que se ofereça, é criação de um tempo, de um estar fora do habitual, uma imposição de elementos.” A fuga do habitual, da doxa, através da criação de um tempo e da convocação e doação de múltiplos elementos, vem ao encontro da estética deleuzeana. Há, sem dúvida, uma série de ressonâncias entre os dois pensamentos, de tal forma que a discussão dessas ressonâncias já se coloca por si só como um desafio. Além disso, essa noção rizomática do tempo não se encontra apenas em Deleuze, mas surge em alguns pensadores contemporâneos como uma alternativa do pensamento. Reproduzimos a seguir a constatação desta tendência por Pelbart.

 

Dos vários autores contemporâneos que colocam em xeque a representação linear do tempo, um dos que o enunciou de maneira mais sugestiva foi Michel Serres. Diz ele: o tempo é paradoxal, ele se dobra, se torce, é uma variedade que seria preciso comparar a uma chama num braseiro, aqui cortada, ali vertical, móvel, inesperada. [...] O tempo tem pontos de parada, rupturas, poços, chaminés de aceleração fulminante, rasgamentos, lacunas, tudo numa composição aleatória, numa espécie de desordem, ao menos visível.[xxxix]

 

Visitados os territórios vizinhos do conto-curto-fantástico de Cortázar e do tempo rizomático de Deleuze, tomamos finalmente o rumo do terreno sonoro do jazz, esse ritornelo maquínico e alucinante, território de fugas e desterritorializações constantes.

 

Crítica, fissura, destruição

Conhecer o segredo do tempo das paixões, dessa espécie de tempo musical que rege seu batimento harmônico,...

Artaud, “Um atletismo afetivo”

 

Os contos curtos de Cortázar fazem com que sejamos sugados por atmosferas estranhas, que sejamos imersos em um clima alucinatório em que podemos experimentar diretamente a instabilidade da ordem normal cotidiana. O autor quer nos fazer experimentar o próprio “sentimento do fantástico”, que ele por sua vez experimentou ao “incorporar” o conto antes de escrevê-lo. Entretanto, no primoroso conto “O perseguidor”, Cortázar não adota a narrativa curta nem lança mão dos recursos do conto fantástico. Na edição brasileira o conto ocupa cinqüenta e cinco páginas; trata-se mais propriamente de uma novela. Bruno, o narrador, não se deixa envolver por nenhum clima de excepcionalidade, descreve suas impressões da música, do pensamento e da vida do saxofonista Johnny Carter de forma realista, deixando que o estranhamento decorra apenas do que procede do músico. Ainda assim, exceto pelas performances musicais do saxofonista, que o crítico-narrador admira e curte, as idéias que Johnny tenta comunicar e seu comportamento excêntrico são criticados e às vezes ridicularizados pela narrativa. Mas é exatamente destas idéias e comportamentos do músico e das impressões que Bruno colhe das performances musicais de Johnny que Cortázar extrai os efeitos literários do conto – e será deles também que procuraremos extrair as ressonâncias com a filosofia de Deleuze.

Em “O perseguidor” Cortázar não quer vencer por knock-out como nos contos curtos, mas ir acumulando pontos com o envolvimento do leitor na dialética arte/crítica. O tom despretensioso das confissões de Bruno faz com que o leitor vá, pouco a pouco, tomando parte na discussão estética que se desenrola através da narrativa. Questões como as relações entre a arte de um lado e do outro lado o mercado, a crítica, a vida, a busca metafísica e o tempo atravessam as reflexões e os testemunhos de Bruno, sem que conclusões absolutas sejam impostas ao leitor.

Embora seja reconhecido como um gênio do sax, Johnny Carter não consegue viver em boa situação financeira. Explorado pelas gravadoras e pelos empresários, o músico vive em hotéis baratos, nem sempre pode se alimentar bem e, quando perde o sax no metrô de Paris, não tem recursos para comprar outro instrumento. É o seu biógrafo quem providencia o empréstimo de um saxofone para que Johnny possa cumprir o contrato e se apresentar em uma casa noturna. Os problemas rotineiros e financeiros não têm grande importância para o músico: o que ele quer é seguir em sua busca metafísica de uma música capaz de sacudir o espírito, de nos arrancar do marasmo cotidiano e nos jogar na vivência de sensações intensas. Se Johnny tem problemas financeiros, se seu talento não é recompensado financeiramente, isto não faz dele um fracassado, porque sua razão de viver encontra-se nesta busca espiritual e não numa consagração futilmente vaidosa ou num bem-estar confortável mas vazio. O próprio narrador, a partir da audição de uma performance genial do músico (a gravação de “Amorous”), se dá conta que havia se enganado quanto à situação estereotipada de gênio perseguido e injustiçado que havia traçado na biografia:

 

É curioso, foi preciso escutar isso, embora tudo convergisse para isso, para Amorous, para que eu entendesse que Johnny não é uma vítima, não é um perseguido como todo mundo acha, como eu mesmo dei a entender em minha biografia (aliás, a edição em inglês acaba de sair e vende como coca-cola). Agora sei que não é assim, que Johnny persegue em vez de ser perseguido, que tudo que está lhe acontecendo na vida são azares do caçador e não do animal acossado. Ninguém pode saber o que Johnny persegue, mas é assim, está aí, em Amorous, na maconha, em seus absurdos discursos sobre tantas coisas, nas recaídas, no livrinho de Dylan Thomas, em todo pobre-diabo que é Johnny e que o engrandece e o converte num absurdo vivente, num caçador sem braços e sem pernas, numa lebre que corre atrás de um tigre que dorme. (p. 109)

 

O problema de Johnny, assim como o problema da vanguarda do jazz, da grande arte de uma forma geral e da literatura de uma forma particular, como Cortázar a entende, não é a busca de conforto material nem a busca de satisfação orgânica, sensual, hedonista ou a busca de entretenimento para aliviar as tensões da vida. O que o músico quer também não é fugir da realidade através da música, não se trata de realizar uma arte escapista que purgue os terrores da existência. O problema de Johnny, ao contrário, é atingir as camadas mais profundas da realidade mesma, é a busca metafísica de sensações que nos dêem acesso às aberturas, às fissuras do mundo, que os hábitos cotidianos tendem a ocultar. Davi Arrigucci caracteriza com propriedade, em muitas passagens de seu livro sobre Cortázar, esta perseguição incansável do artista:

 

Linguagem com ímpetos de morder a realidade, a música é aqui uma linguagem do desejo, do desejo que não se satisfaz nunca, que persegue sempre, que se arrisca na busca incessante até a beira da desintegração. A narrativa é o itinerário dessa busca encarnada no homem-artista Johnny Carter, que não separa a arte do plano da existência e assim se arrisca a si mesmo no jogo da invenção fazendo do sax alto um verdadeiro instrumento na perseguição de um tema que, para ele, é vital.[xl]

 

Ao se entregar à busca espiritual o artista passa a vivenciar uma situação limite que ameaça destruí-lo. Para Deleuze há um compromisso entre a busca artística de um limite incorporal na superfície da linguagem (superfície em que ocorrem os acontecimentos ideais, incorporais, conforme referimos na página 10) e a vivência corporal deste limite, desta fissura, como um processo de demolição. O protótipo literário deste processo é a frase de Fitzgerald no romance A fissura (The crack up): “Toda vida é, obviamente, um processo de demolição.[xli]” Neste sentido, o filósofo questiona se seria possível querer o acontecimento incorporal sem aceitar a efetuação do acontecimento no próprio corpo. “Se existe a fissura na superfície, como evitar que a vida profunda se transforme em empresa de demolição e se torne tal, ‘obviamente’?[xlii]” Do mesmo modo que a linguagem da arte de vanguarda arrisca-se até muito próximo da autodestruição (do silêncio), a incorporação desta atitude radical tende a levar a saúde do artista à fronteira da destruição de sua vida. Os artistas teriam algo de mártires: oferecem suas vidas para arrancar as sensações estéticas do plano das opiniões habituais, para nos doar seus monumentos. Mas autodestruição, tanto da obra como da vida, significa o silêncio e, portanto, o fracasso. O problema então, de fato, encontra-se na questão do limite, é preciso criar e viver a partir deste limite em que um passo a mais implica o silêncio e um passo a menos implica o fracasso artístico, a fraqueza da obra. Deleuze equaciona o problema com precisão.

 

Se perguntamos por que não bastaria a saúde, por que a fissura é desejável é porque, talvez, nunca pensamos a não ser por ela e sobre suas bordas e que tudo o que foi bom e grande na humanidade entra e sai por ela, em pessoas prontas a se destruir a si mesmas e que é antes a morte do que a saúde que se nos propõem. [...] É verdade que a fissura não é nada se não compromete o corpo, mas ela não cessa menos de ser e de valer quando confunde sua linha com a outra linha no interior do corpo. Não se pode dize-lo de antemão, é preciso arriscar permanecendo o mais tempo possível, não perder de vista a grande saúde. Não se apreende a verdade eterna do acontecimento a não ser que o acontecimento se inscreva também na carne; mas cada vez devemos duplicar esta efetuação dolorosa por uma contra-efetuação que a limita, a representa, a transfigura.[xliii]

 

A grande saúde é a concepção nietzscheana de uma vida ativa e criativa com intensa atividade espiritual. Deleuze e Guattari destacam, como paradigma desta postura frente a vida, o mesmo personagem em quem Cortázar identifica as verdadeiras qualidades do poeta: Antonin Artaud. É também dele que Deleuze e Guattari extraem o conceito de um exercício espiritual que caracteriza o artista criador: uma espécie de “atletismo afetivo”. Devido à postura radical que assumem, artistas e filósofos “têm freqüentemente uma saudezinha frágil”, porque “viram na vida algo de grande demais para qualquer um, de grande demais para eles, e que pôs neles a marca discreta da morte[xliv]”.

A presença da crítica no interior da ficção é característica marcante da obra de Cortázar. Um dos recursos utilizados pelo escritor em “O perseguidor” é o contraste entre as posturas do músico e do crítico-narrador. Embora Bruno seja sensível o suficiente para compreender a grandeza das interpretações de Johnny e para identificar seus momentos mais inspirados, o crítico-narrador procura não se deixar envolver pelo universo decadente que a vida, as obsessões e as alucinações do músico representam frente ao seu próprio universo de sucesso profissional e financeiro. Raramente ele leva a sério os discursos de Johnny. A biografia que escreveu é fiel à imagem de Johnny como um espelho, mas reflete apenas parcialmente a personalidade do músico. Embora trace um “sistema estético” do jazz e exponha as raízes negras do bebop, falta na biografia o essencial de Johnny: sua busca metafísica incessante, sua tentativa de abrir uma brecha na realidade através da música. Logo nas primeiras páginas do conto o narrador reconhece a posição de inferioridade que a atividade crítica representa frente à criação artística:

 

Sou um crítico de jazz sensível o suficiente para compreender minhas limitações, e percebo que o que estou pensando está por baixo do plano onde o coitado do Johnny tenta avançar com suas frases truncadas, seus suspiros, suas raivas súbitas e seus prantos. Ele não se importa nem um pouco que eu o ache genial, e nunca se envaideceu por sua música estar muito além do que seus companheiros tocam. Penso com tristeza que ele está no princípio de seu sax, enquanto eu vivo obrigado a me conformar com o final. Ele é a boca e eu a orelha, para não dizer que ele é a boca e eu o... Todo crítico, ai, é o triste final de algo que começou como sabor, como delícia de morder e mascar. (p. 82)

 

Davi Arrigucci Jr. considera a presença da crítica no interior da ficção cortazariana como uma espécie de devir-camaleão[xlv], como um instinto assassino em que o camaleão curva-se sobre si mesmo e morde o próprio rabo. Partidário de uma estética da invenção radical e permanente, Cortázar incorpora a crítica no seio da ficção como estratégia de colocar a criação e a crítica no plano do pensamento, de fazer da arte um lugar do pensamento sobre a arte, sempre sob a égide da invenção. Vejamos como Arrigucci Jr. formula esta característica cortazariana.

 

Muitas das idéias críticas que podem ocorrer diante de grande parte da obra de Cortázar aparecem declaradas de antemão na sua própria estrutura e dela fazem parte. A narrativa envolve a crítica e até mesmo contém uma poética explícita. O texto, escorpiônico, se autocritica, revelando-se. [...] Na verdade, a problemática da obra, que cabe à crítica discutir, se transforma em grande parte aqui na presença problemática da crítica no espaço antes reservado apenas à criação. Um dos problemas fundamentais que coloca a obra de Cortázar passa a ser exatamente o da presença, muitas vezes asfixiante, da crítica no interior da narrativa.[xlvi]

 

O que a crítica, por ser apenas uma atividade racional, pode deixar escapar, assim como Bruno deixa escapar em sua biografia, é a relação da arte com a busca metafísica de aspectos sutis da realidade, ou seja, é a aptidão artística para acessar a complexidade do mundo, que a ciência, através da percepção intencional (porém parcial), não permite. Mesmo não impregnando o conto com atmosfera fantástica, Cortázar lança mão dos elementos e das idéias que perpassam seus contos fantásticos para associar em “O perseguidor” a busca metafísica do real com a performance artística, sendo que tal associação implica a questão do tempo como fator comum. No centro da problemática das fissuras da realidade, de sua “porosidade”, encontra-se o tempo como gênese dos paradoxos; paralelamente, na criação artística (principalmente na música), é o tempo que se destaca como princípio formal da obra de arte.  Esta centralidade do tempo que o conto de Cortázar sugere (talvez possamos dizer, explicita), corroborada e complexificada pelo pensamento de Deleuze, constitui também o motivo central do presente ensaio. A discussão desenvolvida tem por objetivo, principalmente, enfocar a questão do tempo como uma espécie de elo entre o sentimento de falência da realidade cotidiana e a criação artística.

 

Ritornelo jazzístico: Johnny no cristal do tempo

Most people don’t realize that most of what they hear come out of a man’s horn – they are just experiences. It may be the beauty of the weather. A nice look of a mountain. A nice breath of fresh air.

Charlie Parker, em entrevista a John McLellan, junho/1953

 

Cortázar coloca um músico de jazz como protagonista de seu conto porque este gênero musical, com seus contrapontos e improvisos, representa para ele a essência da criação artística como invenção permanente. Mais uma vez recorremos à ampla pesquisa de Davi Arrigucci Jr. para precisar a função que o jazz exerce na obra de Cortázar. Além do conto pelo qual estamos viajando, Arrigucci encontra fartas referências ao jazz em O jogo da amarelinha e La vuelta al dia en ochenta mundos, sem contar os depoimentos sobre os músicos Louis Armstrong e Clifford Brown incluídos na Valise de cronópio. Baseado nestas passagens, o ensaísta brasileiro conclui que o jazz funciona como “uma espécie de ‘via de acesso’, de intercessão, de abertura, enfim, à qual se entregam os perseguidores[xlvii]”, movidos pela ânsia de atingirem a verdadeira realidade ou de se ‘con-fundirem’ com a totalidade do real. É flagrante a abundância de pontes, portas, galerias, passagens que conferem tal “porosidade” ao espaço ficcional de Cortázar.

Segundo Arrigucci, o “jazz se escoa pelos interstícios do mundo cortazariano, levando a outra coisa[xlviii]”, e esta propriedade se deve à experiência radical que o jazz realiza com a linguagem musical. Daí o elogio dos takes que Cortázar faz em La vuelta al dia en ochenta mundos. Os takes são as diversas gravações de um mesmo tema que as bandas de jazz fazem para chegar ao produto final, à seleção dos takes que compõem o disco a ser lançado no mercado. Para Cortázar, os takes possuem um valor em si mesmos, independentemente de terem sido selecionados para o disco ou não. Possuem uma singularidade que lhes dá autonomia, sendo diferentes dos ensaios que são realizados visando uma futura perfeição. O que há de melhor na literatura seriam também os takes, os riscos implícitos na execução, a margem de perigo que excita. Por isso Cortázar afirma que gostaria de escrever apenas takes[xlix].

A partir desta confissão de Cortázar, Arrigucci pode identificar que “o jazz e a literatura aparecem como duas modalidades de uma mesma linguagem[l]”: a linguagem da busca, em que cada experiência é uma nova invenção do mesmo tema. “Uma invenção consciente de si mesma, que integra a própria crítica, desnuda os próprios fracassos e sabe que sua grandeza resultará da insistência na perseguição.[li]” A primazia dos takes implica a valorização da intuição criadora e da performance singular do artista. Sob a perspectiva metafísica,  jazz e literatura seriam canais privilegiados de acesso à realidade. Reproduzimos a seguir um longo e preciso trecho do trabalho de Davi Arrigucci Jr., sobre as funções da música e da literatura, que nos parece apontar para o caminho que estamos traçando e contribuir em muito para o objetivo deste ensaio.

 

Visto como linguagem de busca e rebelião, o jazz adquire uma função desautomatizadora da percepção do mundo e, nesta medida, transforma-se num instrumento de indagação metafísica. Quebrando os hábitos perceptivos, desmascara o mundo, revela o real. // Procedendo por analogia com o jazz, a linguagem literária torna-se também, para Cortázar, uma linguagem capaz de sondar a realidade, oferecer abertura para outros mundos, participação de outra coisa para além do mundo sensível, numa idêntica forma de invenção reveladora. Esta atitude diante da linguagem literária aponta para uma afinidade genética que irmanaria o jazz à poesia, no sentido amplo e original de criação, [...] Ao atingir o ápice da invenção, a linguagem musical atinge também o ponto extremo do risco, à margem do abismo, uma fulguração instantânea, ameaçada pela dissolução no caos, num equilíbrio precário, o ponto mais próximo do absoluto a que aspira.[lii]

 

Se o take (a performance) aparece como o modo de criação mais autêntico e o jazz como linguagem artística privilegiada, o personagem-saxofonista Johnny Carter, com sua obsessão pelo tempo, surge como protótipo do gênio criador, do incansável perseguidor. Davi Arrigucci nos mostra os elementos que vinculam o protagonista de “O perseguidor” ao músico Charlie Parker. A glória e os percalços por que passa o personagem são muito próximos das referências biográficas de Bird, a quem, inclusive, o conto é dedicado. O nome do personagem seria composto por partes dos nomes de dois famosos saxofonistas que precederam Charlie Parker: Johnny Hodges e Benny Carter. O nome do personagem possui semelhanças com o de Bird, o diminutivo do prenome Charlie/Johnny e a sonoridade do sobrenome Parker/Carter. Além disso o nome do personagem possui as mesmas iniciais do autor, J. C.[liii].

O episódio da gravação de “Amorous” por Johnny, semelhante ao que se sucedeu na gravação de “Lover man” em 1942 por Charlie Parker, revela a angústia de perseguidor do personagem. Johnny chega para a gravação com duas horas de atraso e sem “a menor vontade de tocar”. Mas, depois de falar por longo tempo sobre alucinações com “campos de urnas” e de espalhar folhas pelo chão do estúdio, assente em gravar alguma coisa. Segundo o músico Art Boucaya que participou da gravação e narra o episódio a Bruno, Johnny “desanda a tocar de um jeito que, juro, nunca havia ouvido, jamais”.(p. 100) Entretanto, após três minutos o saxofonista solta uma nota atravessada e pára de tocar. Terminada a gravação diz que “tudo tinha ido para os diabos, e que aquela gravação não servia para nada”(p. 101), não poderia ser divulgada. Grava um outro tema, “Streptomicyne”, que sai, segundo Art, “muito melhor e ao mesmo tempo muito pior”(p. 101), porque é uma gravação impecável mas sem o furor com que Johnny havia impregnado “Amorous”. Quando chega ao hotel Johnny tem uma crise nervosa: tenta incendiar o quarto, corre nu pelos corredores e acaba hospitalizado e preso.

Ao ouvir a gravação de “Amorous”, Bruno compreende porque Johnny não quer que a música seja lançada: percebe-se claramente as falhas do sopro nos finais de frases, principalmente “a selvagem queda final”, que pareceu a Bruno “um coração que se arrebenta, uma faca entrando em um pão”.(p. 109) Mas o crítico vê nesta imprecisão técnica uma beleza arrebatadora, pois expressa a sofreguidão da perseguição do músico:

 

Johnny não perceberia o que para nós era terrivelmente belo, a ansiedade que busca saída nessa improvisação cheia de fugas em todas as direções, de interrogação, de desesperado agitar de mãos. Johnny não pode compreender (porque o que para ele é fracasso para nós parece um caminho, ou pelo menos o indício de um caminho) que Amorous vai ficar como um dos maiores momentos do jazz. O artista que existe nele vai ficar frenético de raiva toda vez que ouvir esse arremedo de seu desejo, de tudo que quis dizer enquanto lutava, cambaleando, deixando escapar a saliva da boca junto com a música, mais que nunca sozinho diante do que persegue, do que mais foge dele quanto mais ele persegue. (p. 109)

 

A força de Johnny vem de sua entrega à busca metafísica. Em várias passagens do conto, como o trecho acima citado, fica muito claro que, embora Bruno rejeite o universo decadente de seu biografado, compreende e valoriza a busca artística de Johnny. Durante um concerto “na sala Pleyel” o crítico rabisca anotações acerca do saxofonista, “sobre um joelho nos intervalos”, sem o compromisso de que estas venham a contribuir para a crítica que escreverá no dia seguinte para o “Jazz Hot”. Livre da obrigação de emitir um parecer com a objetividade técnica da crítica musical, Bruno analisa o que está por trás da fachada de “gênio musical” de Johnny, ou seja, o outro Johnny que realmente interessa. O que há de mais autêntico em Johnny, seu estilo, é a recusa da satisfação imediata, é a linguagem que os músicos estão levando às últimas conseqüências (como sabemos, o bebop). “Esse jazz dispensa todo erotismo fácil, todo wagnerianismo, digamos assim, para situar-se num plano aparentemente solto onde a música fica em absoluta liberdade, assim como a pintura subtraída ao representativo fica em liberdade para não ser nada além de pintura.”(p. 98) Esta música, que Bruno “gostaria de chamar de metafísica”, parece servir a Johnny em sua tentativa de “morder a realidade que lhe escapa todos os dias”.(p. 99) E Bruno percebe que o caminho de Johnny só poderia ser o da perseguição infinita:

 

Vejo ali o alto paradoxo de seu estilo, sua agressiva eficácia. Incapaz de se satisfazer, vale como um estímulo contínuo, uma construção infinita cujo prazer não está no arremate e sim na reiteração exploradora, no emprego das faculdades que deixam atrás o imediatamente humano sem perder a humanidade. [...] Johnny não se move num mundo de abstrações como nós; por isso sua música [...] não tem nada de abstrata. [...] Suas conquistas são como um sonho, esquece delas ao despertar, quando os aplausos o trazem de volta, ele que anda tão longe vivendo seu quarto de hora de um minuto e meio. (p. 99)

 

 Em sua busca insaciável, Johnny encontra-se imerso no tempo. Penetrar na porosidade do mundo é extrair o tempo puro, o tempo plástico de Johnny em que quinze minutos cabem em um minuto e meio. Não é à toa que a maior obsessão de Johnny é o mistério do tempo, que sua ânsia em morder a realidade associa-se inevitavelmente à imersão no tempo. Como o próprio Johnny diz, desde que tocou seu primeiro sax a música o punha no tempo; diz ainda que a música o ajuda um pouco a compreender o assunto do tempo. (p. 80-81) Bruno revela que desde que conheceu Johnny o tema do tempo o preocupa e que viu poucos homens preocupados “daquele jeito por tudo que se refere ao tempo”. Relata que presenciou um ensaio de Johnny com Miles Davis e outros músicos em 49 ou 50 em que ocoreu um episódio interessante. Nas palavras do narrador:

 

“E justamente naquele momento, quando Johnny estava perdido em sua alegria, de repente deixou de tocar e soltando um murro no nada disse: ‘Estou tocando isso amanhã’, e os rapazes ficaram perplexos, só uns dois ou três seguiram os compassos, como um trem que demora a parar, e Johnny batia na testa e repetia: ‘Eu já toquei isso amanhã, é horrível, Miles, eu já toquei isso amanhã’, e não conseguiram tirá-lo dessa, [...] (p. 79)

 

Passado, presente e futuro misturam-se na viagem temporal de Johnny promovida, principalmente, pela música. Ela tem o poder de transporte no tempo, conforme o músico a percebe: “Eu percebi quando comecei a tocar que entrava num elevador, mas era um elevador do tempo, se é que você me entende.”(p. 82-23) Para Johnny, o tempo possui uma estranha elasticidade; propriedade que nos lembra a idéia deleuzeana do tempo como uma massa plástica. O músico experimenta esta elasticidade quando viaja de metrô, pois o que ele “vê” mentalmente entre duas estações levaria uns quinze minutos para acontecer e no entanto a viagem entre as duas estações dura exatamente um minuto e meio. “Viajar de metrô é como estar metido em um relógio”(p. 87) e por isso permite constatar a instabilidade do tempo, permite descobrir que existe outro tempo diferente daquele que é marcado pelos relógios.

O desejo de Johnny é viver apenas nesses momentos, como quando está tocando e o tempo muda. A música de Johnny, o bebop, tem a função de uma imagem-cristal: torna indiscerníveis a “imagem virtual” do tema melódico e a “imagem atual” dos solos de sax que evoluem ao redor do tema, e nesta operação é o tempo que se “visualiza” através do cristal, o mistério de tempo que se cinde em presente e passado. Tema e solo permanecem distintos mas participam de uma coalescência, de uma fusão, que os torna indiscerníveis. A flexibilidade, a rapidez vertiginosa, a ousadia formal e o poder de síntese são qualidades sempre referidas quando se trata de descrever o bebop. “O que caracterizava o bebop, para o ouvinte da época, era a sua incrível flexibilidade e a sua condução melódica extremamente nervosa. As frases eram tão ágeis que pareciam apenas fragmentos. Toda nota desnecessária era deixada de lado. Tudo foi reduzido e comprimido ao extremo.[liv]” Quando se trata de falar do estilo de Bird, as questões do tempo e dos limites são sempre abordadas: “Dominando todas as tonalidades, todos os dedilhados, mesmo os mais acrobáticos, pode traduzir em ‘tempo real’ um discurso complexo e coerente, num tempo vertiginoso.[lv]” Seu apelido, apesar de não ter se originado da música, reflete fielmente seu estilo: “vôo caprichoso em torno de uma linha melódica, por vezes mal sugerida mas sempre estendida para um objetivo longínquo, que se afasta para o horizonte todos os limites previsíveis do improviso[lvi]”.

Do mesmo modo que é possível estabelecer uma ligação entre a obsessão de Johnny pelo tempo e a sua música perseguidora através do conceito de imagem-cristal, também é possível fazê-lo através do conceito de ritornelo, que, como dissemos, relaciona-se intimamente com a idéia de cristal do tempo. Ao concentrar-se em seus solos vertiginosos Johnny/Charlie faz convergir no cristal sonoro as forças espaço-temporais (forças do caos, da terra e do cosmo), promove uma síntese dos acontecimentos através das qualidades expressivas, fabricando assim o tempo puro. O que se ouve nos solos de Carter/Parker é o tempo implicado na música, o tempo plástico, paradoxal, que atravessa a porosidade do mundo. Trata-se de um ritornelo altamente desterritorializado em que as forças do cosmo promovem a linha de fuga do tema central: a cada volta o tema se enrola em nova espiral, cada volta do tema (ou estribilho) se dá pela diferença, é o retorno da diferença que implica a duração, o tempo. O território do tema, da melodia, é reiteradamente desterritorializado pelos solos de sax que compõem um ritornelo cósmico e mantém a platéia magnetizada, fora do tempo, ou melhor, imersa no tempo puro. A relação tema/solo pode ser assimilada à relação motivo/contraponto produzidas pelo ritornelo desterritorializante, conforme Deleuze e Guattari a entendem. Davi Arrigucci também relaciona a questão do tempo com a performance de Johnny:

 

De fato, perseguindo uma realidade digna do nome, o instrumento de Johnny é muito mais que um instrumento musical; é um sax contra o tempo, esse tema obsessivo para o jazzman. [...] Na verdade, soprando o sax, Johnny consegue vislumbrar um universo poroso, uma realidade-esponja, o mundo figuaral: constelações simultâneas que ele, “as vezes, [...] procura descrever numa linguagem estilhaçada, caótica e, na aparência, incoerente. A música lhe concede a vivência passageira de um tempo que é uma negação do tempo e que, depois, caído em si mesmo, ele tenta recuperar em vão pela droga.[lvii]

 

Mais adiante o ensaísta recoloca a questão destacando a impossibilidade da linguagem racional de dar conta das experiências de subversão do tempo e a aura mística, porém não religiosa, que envolve estas experiências:

 

Essa experiência insólita de um tempo diverso ou mesmo da anulação do tempo, que Johnny consegue viver sobretudo através da música, confere, evidentemente, uma importância vital aos momentos em que o artista, abandonando-se inteiramente à improvisação, busca acesso ao que, depois, não consegue explicar em termos racionais. São verdadeiros momentos epifânicos, de intensa e profunda revelação espiritual, como os dos místicos, embora o próprio jazzman deixe claro que sua busca nada tem a ver com o Deus de Bruno.[lviii]

 

A centralidade da música, mais especificamente do jazz, no conto “O perseguidor”, que pretende alcançar a problemática de toda grande arte, é plenamente justificada tanto pela tradição filosófica quanto pela recente filosofia da música. Encontramos o privilégio da música, só para citar alguns autores importantes, em Hegel (para quem a música dirige-se à mais profunda interioridade subjetiva), em Schopenhauer (para quem a música é expressão direta da Vontade), em Nietzsche (para quem a música está estreitamente ligada ao impulso dionisíaco, que tem primazia na origem da tragédia grega), em Deleuze e Guattari (para quem a música possui a característica de tanto mais se afinar quanto mais se desterritorializa). A relação da música com a questão do tempo, por sua vez, tem sido objeto de estudo em trabalhos recentes. Giovanni Piana, através de um exame fenomenológico, chega à formulação de que o som é um objeto temporal, concebido como um processo, uma duração fenomenológica. Para explicitar o caráter essencialmente temporal do som, Piana escreve:

 

Na duração do som o que se acaba é justamente a duração, pois o início e o fim têm um sentido basicamente temporal. O som passa mas não envelhece. Termina, mas não se destrói. O tempo é a condição, no sentido mais forte, do seu existir, como se o som contivesse em si próprio a necessidade do tempo, de maneira que se poderia afirmar que o próprio existir do som é como se fosse feito de tempo.[lix]

 

Mais próximo ainda da questão paradoxal do tempo, presente no pensamento de Bergson e de Deleuze, encontra-se o problema da continuidade do som na música. Na “sucessão de frases que passam uma após a outra” o som é um evento, um “avançar ultrapassando”, na concepção de Piana. Este movimento envolve o som virtual com o som atual de modo que “a escuta do som é tensa, e ela é tensa na medida em que é atraída pela tensão temporal que pertence ao próprio som[lx]”. A atração e a tensão que presidem a escuta de um continuum sonoro decorrem do paradoxo temporal: o presente atual da audição coexiste com o passado virtual do que já foi ouvido. O sentido da música, seu poder de afeto, é extraído do efeito projetado pela coexistência presente/passado. A duração, o tempo, aparece pela produção da diferença em um todo aberto.  Há estreita ligação também entre a física e a metafísica do som. Para referendar o poder de afeto e conhecimento da música, podemos citar a interessante obra do músico e literato brasileiro José Miguel Wisnik, O som e o sentido. Wisnik reconhece que “entre os objetos físicos, o som é o que mais se presta a criações metafísicas[lxi]” e dentre as diversas perspectivas que o autor emprega em seu texto destacamos aqui a do valor mágico da música, que se afina perfeitamente à concepção cortazariana de sondagem da realidade através da arte.

 

A música, sendo uma ordem que se constrói de sons, em perpétua aparição e desaparição, escapa à esfera tangível e se presta à identificação com uma outra ordem do real: isso faz com que se tenha atribuído a ela, nas mais diferentes culturas, as próprias propriedades do espírito. O som tem um poder mediador, hermético: é o elo comunicante do mundo material com o mundo espiritual e invisível. O seu valor de uso mágico reside exatamente nisto: os sons organizados nos informam sobre a estrutura oculta da matéria no que ela tem de animado. (Não há como negar que há nisso um modo de conhecimento e de sondagem de camadas sutis da realidade.)[lxii]

 

Podemos também encontrar em Wisnik uma correlação entre tempo e música que corrobora a especulação de Deleuze e de Cortazar a respeito da subversão da consciência  e da ordem do tempo:

 

Desiguais e pulsantes, os sons nos remetem no seu vai-e-vem ao tempo sucessivo e linear mas também a um outro tempo ausente, virtual, espiral, circular ou informe, e em todo caso não cronológico, que sugere um contraponto entre o tempo da consciência e o não-tempo do inconsciente. Mexendo nessas dimensões, a música não refere nem nomeia coisas visíveis, [...] atravessa certas redes defensivas que a consciência e a linguagem cristalizada opõem à sua ação e toca em pontos de ligação efetivos do mental e do corporal, do intelectual e do afetivo.[lxiii]

 

O poder mágico de ir direto à essência das coisas, ao ser mesmo, que Cortázar atribui ao poeta quando o compara ao mago primitivo (pré-lógico) em “Por uma poética” encontra então, pela via filosófica, uma sistematização que lhe dá mais consistência. No referido texto o escritor defende que a “música verbal”, ou seja, a palavra poética, é um “ato catártico” pelo qual a metáfora, a imagem se liberta da significação para assumir a essência dos objetos através de um “trânsito inefável