DUBITO ERGO SUM

 Páginas de Ceticismo

A RAZÃO AZIAGA

Guilherme Preger [i]

 

A loucura da ciência

 A formação poética de Augusto dos Anjos vem marcada pela sua formação humanística na Faculdade de Direito de Recife. Esta Faculdade, no final do século XIX, havia sido a sede progressista do pensamento republicano no Brasil. Tornou-se um centro de convergência das principais correntes filosóficas européias que chegavam aqui com certo atraso e apressadamente assimiladas. Evolucionismo, Positivismo e Monismo eram conceitos corriqueiros, e Spencer, Darwin, Haeckel e Comte, nomes conhecidos de todos[ii]. O tema, mais caro e comum a todas as correntes, que formatava o ideal filosófico da época num certo cientificismo positivista, era a crença de que a ciência poderia servir de paradigma de toda apreensão da realidade, e seria a base de um pensamento social, biológico e até mesmo religioso. Na filosofia de Comte, aquela de maior penetração no pensamento brasileiro republicano, a ponto de deixar alguns de seus lemas inscritos na própria Bandeira Nacional, há uma teorização sistemática desse ideário. O positivismo é a crença de que o objetivo da filosofia não seria compreender os significados primeiro e último da existência humana, como tentado nas fases teológica e metafísica da humanidade, marcadas pelo fetichismo religioso ou mistificação idealista. Na fase posterior, considerada a fase positiva da humanidade, que superaria as outras duas, a filosofia se pautaria pela objetividade científica que não procura as causas primárias e finais, mas as relações entre os fenômenos, que podem ser deduzidas através de leis[iii]. Comte prescreve os métodos científicos – observação, experiência e comparação[iv] – à filosofia, mostrando que é possível evitar o erro atendo-se aos fatos empíricos adquiridos. A experiência seria basicamente um método objetivo de aquisição de dados. Para isso, supõe que o sujeito observador é neutro com relação à experiência e que, desse modo, é capaz de formular precisamente uma lei que descreva o fenômeno em sua totalidade preservando, no entanto, sua particularidade. Pela universalidade objetiva da lei, a experimentação científica une o particular ao geral.

         É certo que esses ideais positivistas penetraram na poesia de Augusto dos Anjos e se expressam através dos inúmeros termos científicos, dos nomes dos pensadores e das idéias filosóficas presentes em seus versos. O tema do cientificismo, por ser tão evidente, já suscitou inúmeros comentários, quase sempre negativos. Aqui, no entanto, mais importante do que discutir o valor do uso da terminologia científica, é mostrar como sua poesia assimila esses ideais, sobretudo a concepção de experiência que está no centro do ideário positivista, como se tentasse transpor seus princípios para o campo poético. O que obtém daí não é a certeza sem erro do positivismo mas a perplexidade diante do caráter sempre mutante da experiência.

Inicialmente é preciso afirmar que a adoção de uma retórica marcada pelo jargão científico nada tem de ingênua nem é exemplo de um suposto pernosticismo intelectual de quem cita conhecimentos adquiridos sem a devida compreensão apenas para fazer “impressão”. Não são termos isolados, tomados por empréstimo para demonstrar erudição. São, antes, os próprios métodos de pesquisa científica, descritos por Comte como universais, que Augusto adota em sua poesia, numa experiência poética realmente inovadora. Assim, os preceitos de observação, experiência e comparação são assimilados por sua poética e “testados” em sua validade.

Em Versos de Amor, por exemplo, há uma ilustração notável dessa assimilação. O título do poema sugere uma tema lírico, mas sua formalidade prosaica, em seu encadeamento “hipotático”, repleto de locuções como “por conseguinte”, “oposto a” , “consoante o qual”, traça a imagem de um diálogo expositivo em que o poeta apresenta didaticamente um assunto a um espectador (“um poeta erótico”) tentando provar uma tese:

Parece muito doce aquela cana./ Descasco-a, provo-a, chupo-a...Ilusão treda!/O amor, poeta, é como a cana azeda, /A toda a boca que o não prova.// Quis saber que era o amor, por experiência, /E hoje que, enfim, conheço seu conteúdo, /Pudera eu ter, eu que idolatro o estudo, / Todas as ciências menos esta ciência!// Certo, este o amor não é que, em ânsias, amo/ Mas certo, o egoísta amor este é que acinte/ Amas, oposto a mim. Por conseguinte/ Chamas amor aquilo que eu não chamo.// Oposto ideal ao meu ideal conservas./ Diverso é, pois, o ponto outro de vista/ Consoante o qual, observo o amor, do egoísta/ Modo de ver, consoante o qual, o observas.// Porque o amor, tal como eu o estou amando, / É espírito, é éter, é substância fluida, / É assim como o ar que a gente pega e cuida, / Cuida, entretanto, não o estar pegando!// É a transubstanciação de instintos rudes, / Imponderabilíssima e impalpável, / que anda acima da carne miserável/ Como anda a garça acima dos açudes!/ Para reproduzir tal sentimento/ Daqui por diante, atenta a orelha cauta, / Como Marsias- o inventor da flauta-/ Vou inventar também outro instrumento!// Mas de tal arte e espécie tal fazê-lo/ Ambiciono, que o idioma em que eu te falo/ Possam todas as línguas decliná-lo/ Possam todos os homens compreendê-lo!// Para que, enfim chegando à última calma/ Meu podre coração roto não role, / Integralmente desfibrado e mole, / Como um saco vazio dentro d’alma”.[v]

Há nesse poema uma irônica tentativa de objetivar através da observação empírica a experiência amorosa, e depois teorizá-la através do estudo, como uma “ciência”, mas essa experiência afetiva se revela particular, imponderável e impalpável, “substância fluida” que escapa a qualquer conceito. Só a imagem é capaz de fixar algo de seu caráter, pois a comparação que ela faz admite o paradoxo. Pela razão do amor ser um “sentimento”, ou seja, provir da ordem do afeto, o poeta vê necessidade de inventar um outro instrumento de investigação para apreendê-lo. Esse instrumento deverá ter a universalidade de uma linguagem totalmente acessível, universal.

 Nesse poema estão aplicados todos os itens do método científico, observação, experiência e comparação, porém num contexto poético. Isso se repete em vários outros poemas grandes, como As Cismas do Destino, Os Doentes, Gemidos de Arte, Tristezas de um quarto-minguante, Mistérios de um Fósforo, entre outros. Em todos esses o procedimento é semelhante: o poeta se coloca num ponto localizado (por exemplo, sobre uma ponte, indo a uma casa funerária, etc.), num momento específico (ex. à noite de um quarto-minguante) e abre-se a um estado de observação de um fenômeno imediato e banal que a ele se apresenta, como a silhueta de sua sombra, o mistério de um fósforo riscado ou o gosto de uma cana. Mas esse estado empírico de observação é apenas um ponto de partida, pois em seguida inicia-se a “experiência” propriamente dita, que começa a relativizar o dado inicial observado. Surgem então as imagens - a forma poética de aplicação de um método comparativo[vi]- que num ritmo alucinatório vem tornar impossível qualquer tentativa de sintetizar o fenômeno:

“Pego de um fósforo. Olho-o. Olho-o ainda. Risco-o/ Depois. E o que depois fica e depois/ Resta é um ou, por outra, é mais de um, são dois/ Túmulos dentro de um carvão promíscuo.?? Dois são, porque um, certo, é o do sonho assíduo/Que a individual psiquê humana tece e/ O outro é o do sonho altruístico da espécie/ Que é o substractum dos sonhos do indivíduo!/ E exclamo, ébrio, a esvaziar báquicos odres: /-“Cinza, síntese má da podridão, / “Miniatura alegórica do chão, / “Onde os ventres maternos ficam podres;// “Na tua clandestina e erma alma vasta, /”’ Onde nenhuma lâmpada se acende/ “Meu raciocínio sôfrego surpreende/ Todas as formas da matéria gasta!// Raciocinar! Aziaga contingência!? Ser quadrúpede! Andar de quatro pés/ É mais do que ser Cristo e ser Moisés/ Porque é ser animal sem ter consciência” (Mistérios de um Fósforo, v. 1-20).

A observação do fósforo inicialmente não lhe diz nada. Ele procede à “experiência” de riscá-lo para observar o fenômeno que sucede. Em vez de um palito riscado, o que surge é a imagem de um túmulo que logo se duplica, porque cada imagem reúne o indivíduo e a espécie. As imagens então prosseguem, cinza, chão, ventre, lâmpada e quadrúpedes. A sucessão imagética torna-se a própria experiência, ou melhor, “abre” o seu momento numa complexa interação entre dados e imagens, numa experiência dialética[vii]. Esta não conduz a uma solução final, mas expressa a perplexidade do poeta frente à impossibilidade de “fechar”, concluir a experiência.

 Os últimos versos citados parecem ser uma condenação da razão, vista como “aziaga contingência”; aqui há uma clara inversão dos termos: a razão em vez de ser universal é uma contingência submetida à lei fatalista do azar, enquanto a possibilidade de ser um animal sem consciência (que, a princípio deveria estar submetido ao risco aleatório do azar) torna-se uma prerrogativa universal (maior que Cristo ou Moisés). Não é possível extrair do fenômeno nenhuma lei além da fatalidade da morte, do “futuro de cinza” (cf. v. 87) que a todos aguarda, o que significa também afirmar que “Basta um fósforo só, / Para mostrar a incógnita do pó/ Em que todos os seres se resolvem”, como a demonstrar a derrota do projeto positivista em ordenar os fatos para esboçar um projeto de progresso (“Ordem e progresso”).

A objetividade da observação é confrontada com a incógnita do pó. O “acidente químico vulgar” torna-se o mistério do fósforo. A racionalidade da consciência falha ao tentar apreendê-lo, daí que a experiência não pode ser reduzida a um caminho retilíneo que conduzirá ao domínio do fenômeno. A experiência em si não tem nenhuma finalidade, a não ser a fatalidade da cinza. Ela volta sobre si mesma, num processo cismático e iterativo sem conclusão (“Em cismas filosóficas me perco”, v. 65). O propósito da ciência se torna pura insanidade:

“Em vão, com a bronca enxada árdega, sondas/ A estéril terra, e a hialina lâmpada oca, / Trazes, por perscrutar (oh! ciência louca!)/ O conteúdo das lágrimas hediondas” (As Cismas do Destino, v. 253-256)

O discurso sério de jargão científico é relativizado subitamente pela declaração afetada e emotiva – patética- da loucura da ciência. Os versos parecem fazer referência ao tema positivista que é impossível chegar ao sentido último das coisas. Porém um elemento novo entrou. Ao lado do trabalho físico de sondar a natureza concreta da terra, surge a necessidade de entender o conteúdo hediondo das lágrimas. Eis que o caráter afetivo da experiência penetra novamente o trabalho investigativo da realidade. No poema As Cismas do Destino, a voz particular do Destino do poeta lhe demonstra que a sua percepção sobre a “falta de unidade da matéria” (v. 116) não poderá nunca ser objeto de uma síntese filosófica:

“Homem! por mais que a Idéia desintegres, / Nessas perquisições que não têm pausa, / Jamais, magro homem, saberás a causa / De todos os fenômenos alegres // ...Porque, para que a Dor perscrutes, fora / Mister que, não como és, em síntese, antes / Fosses, a refletir seus semelhantes, / A própria humanidade sofredora! // A universal complexidade é que Ela / Compreende. E se, por vezes, se divide, Mesmo ainda assim, seu todo não reside / No quociente isolado da parcela.” (v. 249-268).

Os fenômenos são alegres e fugazes e a Dor é de uma universal complexidade. Os fenômenos estão submetidos à influência da ação dos afetos. A dor e a alegria são os afetos básicos, a partir dos quais todos os outros são extraídos. Eles são gerados do jogo entre vida e morte, dialética fundamental de sua obra. Para Augusto dos Anjos, a presença das forças afetivas torna a experiência incapaz de ser sistematizada a partir de seus “quocientes isolados”. Como exemplo, surgem várias imagens seguindo os trechos citados que ilustram diversos “fenômenos”, todos eles cheios de dor e sofrimento, para então concluir:

“Por descobrir tudo isto, embalde cansas!/Ignoto é o gérmem dessa força ativa/ Que engendra, em cada célula passiva, / A heterogeneidade das mudanças!” (v. 337-340).

A força ativa engendrada que provoca as mudanças é o próprio afeto. Apesar de ignoto o gérmen que o causa (a morte? a vida?), ele submete cada célula do corpo à sua atividade transformadora. O fluxo da experiência produz sua “heterogeneidade” devido à presença dos afetos e isto impede qualquer unidade de conhecimento de abarcar esse incessante e múltiplo devir. A imagem poética, na medida em que faz do parodoxo seu componente, é capaz de reter algo de sua complexidade:

“Foi no horror dessa noite tão funérea/ Que eu descobri, maior talvez que Vinci, /Com a força visualística do lince./ A falta de unidade na matéria!” (v. 113-116).

O curioso desse poema é tratar-se de uma condenação à sua poética. Isto porque ela “mata a uberdade dos caminhos/ E esteriliza os ventres geradores” (v. 347-348), ou seja, aniquila a multiplicidade e a multiplicação dos fenômenos. Não seria uma auto-crítica à sua escolha “científica”, à sua submissão aos paradigmas loucos da ciência? Pois, a conclusão final do poema é a de um mundo como um “mecanismo moribundo/ E uma teleologia sem princípios” (v. 411-412). Para explicar isso a ciência é impotente:

“O mundo resignava-se invertido/ Nas forças principais do seu trabalho.../A gravidade era um princípio falho, A análise espectral tinha mentido! (v. 405-408).

Porque seus paradigmas estavam errados, o poeta quer, na “psiquê do oculto jogo”, sufocar à morte pelo “fogo” “Todas as impressões do mundo externo!” (v. 413-416). Seria esse oculto jogo o próprio ato da imaginação? Pois, como se sabe a imaginação não possibilita apenas uma cópia mental do mundo, mas tem poder destrutivo e deformante. A imaginação não é apenas criadora, mas também destruidora, decompõe a realidade para criar novas associações. Estaria, nesse ato mortal do poeta, a aceitação da resignação do mundo invertido como princípio poético de negação extremo, assumindo dialeticamente, em oposição à positividade da ciência, a “negatividade universal” como novo paradigma[viii]? Introduzi-la seria afirmar um pólo oposto ao aprisionamento da experiência pelo método científico, a afirmação da transitoriedade da vida como uma condição básica de sua experiência sempre mutante. Assim, o poder imagético de sua poesia, uma das mais “fanopaicas”[ix] de toda a literatura brasileira, consistiria em conjugar, no paradoxo hiperbólico e patético de suas comparações metafóricas, a objetividade positivista de uma observação concreta e rigorosa, que acredita reter a experiência para dominá-la, com a negatividade destruidora e patológica da consciência, que sabe que a experiência é fugaz e mortal.

O filósofo e o sátiro

Em Mistérios de um fósforo, último dos poemas de Eu, a imagem do sonho é vista como aquilo que une o indivíduo à espécie, mas de maneira partida. Do substrato altruístico do sonho coletivo o indivíduo retira os elementos de seu sonho assíduo, porém a imagem se parte em duas porque guarda os pólos antagônicos da experiência. No soneto Último Credo, numa declaração de amor ao coveiro e a morte, o poeta conclui:

“Creio, como o filósofo mais crente, Na generalidade decrescente/ Com que a substância cósmica evolui...// Creio, perante a evolução imensa, Que o homem universal de amanhã vença/ O homem particular que eu ontem fui!”

O filósofo crente poderia ser o positivista, com seu desejo utópico e iluminista de superar a particularidade de uma experiência pela possibilidade de uma universalidade livre das amarras contingentes. Em Augusto dos Anjos surge o caráter opressivo de uma experiência imediata, cuja degradação impede a passagem da particularidade para a universalidade. Assim, a teoria monista[x] do qual foi adepto se torna relativizada. Ele supõe uma identidade entre o corpo orgânico e o cosmos. Porém, em Augusto dos Anjos, o corpo, o elemento mais particular, está submetido à degradação do meio e torna-se doente como um cardíaco nauseado:

Profundissimamente hipocondríaco,/ Este ambiente me causa repugnância.../Sobe-me à boca uma ânsia análoga à ânsia/ Que se escapa da boca de um cardíaco” (Psicologia de um Vencido).

Esse é um dos seus temas freqüentes de sua poesia, de como a realidade imediata em suas limitações miseráveis impede o corpo de ascender a uma integração plena com a experiência cósmica. Como o corrupião triste e idiota, ele só enxerga uma gaiola de opressão e além dela uma quimera de atmosfera livre. O espaço ao redor parece desmoronar. A linguagem quando quer se exteriorizar sai rouca e cansada. É preciso relativizar, assim, a tese de que sua poesia fala da angústia universal, da ruína do homem em geral. Fala antes do engenho Pau D’Arco, da Paraíba Indígena, do sol brasileiro. A ressurreição universal de Cristo se dá “na serra/ da Borborema, no ar de minha terra” (Poema Negro, v. 91).

No Monólogo de uma Sombra, poema de abertura do Eu, surge uma encenação desse drama dialético entre universalidade e particularidade. Ela vem incorporada por dois personagens emblemáticos que surgem nos versos. Um deles é o Filósofo Moderno, “mineiro doido das origens”. Ele possui uma tarefa:

“Quis compreender, quebrando estéreis normas, / A vida fenomênica das Formas, / Que, iguais a fogos passageiros, luzem.../ E apenas encontrou na idéia gasta/ O horror dessa mecânica gasta/ O horror dessa mecânica gasta/ A que todas as cousas se reduzem” (v. 43-48).

Ele representa o pensamento positivista que quer sintetizar os fenômenos passageiros no deserto das idéias universais, mas só o que consegue descobrir é a mecânica nefasta da destruição. Sua tentativa de auscultar a realidade enche seu rosto de fuligem e seus dedos de peçonha, numa prova que é impossível não se sujar nem se contaminar pela realidade, que nenhuma posição de observação é neutra, que a experiência não pode ser vista de “fora”, que entendê-la é estar dentro dela e se submeter às suas exigências físicas e à sua “energia intra-atômica liberta” (v. 60):

Será calor, causa ubíqua de gozo, / Raio X, magnetismo misterioso, / Quimiotaxia, ondulação aérea, / Fonte de repulsões e de prazeres/ Sonoridade potencial de seres, / Estrangulada dentro da matéria (v. 61-66).

Esses versos são antecipadores de uma série de descobertas científicas que só se tornariam mais claras ao longo do século XX. A fórmula famosa de Einstein mais tarde mostrará que há um intercâmbio entre matéria e energia e que basta ter um corpo para que o espaço em redor se deforme. Quem está no mundo não pode fugir dele, e o Filósofo Moderno sente na carne essa descoberta. Ele não pode evitar que sua própria materialidade corporal, “engrenagem de vísceras vulgares” (v. 69) seja submetida à lógica dos apodrecimentos musculares. Seu fim é um “suicídio graduado”, após consumir-se em tantas vigílias e entregar-se “à herança miserável de micróbios” (v. 90). Seu antagonista é o sátiro pernalta que se entrega sem consciência a uma “animalidade sem castigo”, ao puro gozo da corporalidade, submetendo-se, numa “sensualidade da simbiose”, às paixões carnais inapeláveis. Totalmente imerso na experiência mais imediata, o sátiro é assaltado por remorsos e “alucinações táteis”. Também ele é condenado à “necessidade do horroroso/ Que é talvez propriedade do carbono!” (v. 144).

O filósofo e o sátiro, localizados em extremos opostos da experiência, são irmanados pela desagregação orgânica e pela morte. Quem narra a fatalidade desses personagens é a Sombra, que diz vir do “cosmopolitismo das moneras”, “Larva do caos telúrico” (v. 2-4). Se não há universalidade possível no plano humano, submetido sempre às limitações fatídicas de seu meio, talvez só no reino do infra-humano ela seja possível. Só esse universo larvar está livre do “acidente da Senectus” que produz a “miséria anatômica da ruga”. Assim, somente a Sombra, que habita “a escuridão do cósmico segredo” é capaz de provar realmente, “Pelas grandes razões do sentimento” e “Sem os métodos da abstrusa ciência fria”, o caráter paradoxal da experiência poética de Augusto dos Anjos que inclui em seus poemas os pólos afetivos como motores da vida e da arte:

“Ah! Dentro de toda a alma existe a prova/ De que a dor como um dartro se renova,/ Quando o prazer barbaramente a ataca.../ Assim, também, observa a ciência crua,/ Dentro da elipse ignívoma da lua/ A realidade de uma esfera opaca (v. 145-150).

Este caráter paradoxal é o próprio jogo entre a positividade da ciência “objetiva” e a negatividade de uma poética “afetiva”. Assim como o prazer ataca a dor, obrigando-a a se renovar, é preciso confrontar a crueza da observação científica com a verdade ígnea da luz lunar da poesia. É sob a forma definitiva da sentença com ares de diagnóstico científico que se insere a poética augustiniana, como uma Sombra que persegue todo postulado que se quer neutro. Daí que o cientificismo, tanta vezes denunciado na obra do autor paraibano, precise ser revisto. Talvez, nesses poemas, resida uma utópica aproximação entre ciência e arte, difícil, mas não impossível, como o encontro entre vida e morte, dor e alegria, que é preciso provar ao “mundo odiento”, pois

“... a mais alta expressão da dor estética/ Consiste essencialmente na alegria” (v. 161-162).

 

 

 

REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS

ANJOS, Augusto dos. Obra Completa. Org. Alexei Bueno. Rio de Janeiro: Nova Aguilar, 1994.

CANDIDO, Gemy. Fortuna Crítica de Augusto dos Anjos. Paraíba: Secretaria da Educação e Cultura, 1981.

GULLAR, Ferreira. Augusto dos Anjos ou Vida e Morte Nordestina. In: Anjos, Augusto dos. Toda Poesia. 2a ed. Rio de Janeiro: Paz e Terra, 1978.

MAGALHÃES Júnior, Raimundo. Poesia e Vida de Augusto dos Anjos. 2a ed. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira; Brasília: INL, 1977.  

 

 

 

NOTAS

[i] Guilherme Preger é Mestre em Literatura Brasileira pela UERJ - mas trabalha como engenheiro, em Furnas (lembrando Álvaro de Campos, o heterônimo engenheiro). Este ensaio é uma versão do capítulo 2 da sua Dissertação,  A Poética da Ingratidão: uma leitura heteronômica da obra de Augusto dos Anjos. Ler também o poema "Da invisibilidade".

[ii] Sobre a difusão das idéias cientificistas na geração de Augusto é interessante o testemunho de um contemporâneo freqüentador da mesma Faculdade de Direito: “[naquela época o importante] era saber a posição do homem no universo, a origem deste, as leis que presidem à formação da sociedade, a situação do indivíduo nesta. Monismo, Dualismo, Teoria e Crítica do conhecimento, Livre Arbítrio e Determinismo, Causa primária, Causa Eficiente, Causas finais, Idéias, Substância, Vontade, Incognoscível, Absoluto, Lei dos Três Estados, Classificação das Ciências, Mecanicismo, Teologia, tudo são epígrafes ou títulos de capítulos e expressão de vocabulário filosófico e eram, naqueles tempos, abismos a transpor, viagens a empreender, labirintos a desemaranhar, domínios a conquistar”... “O espírito de certas épocas penetra a gente, de maneira que se aprende no ar, recebe-se a doutrina dos tempos pelos poros, mesmo sem ter estudado, passado os olhos por livro algum. Quase todo rapaz de meu tempo em Pernambuco era agnóstico, darwinista, spencerista, monista... Havia, porém, uma minoria que, não chegando aos extremos... refugava o fenomenismo, o mecanicismo e afirmava-se espiritualista, teologista. Como se ouve hoje no Rio perguntar: ‘Você é Flamengo ou Fluminense’, ouvia-se na Faculdade do recife, no velho convento: ‘Você é monista ou dualista?’ ” (Gilberto Amado apud Cândido, Gemy, 1981:30).

[iii] cf. Enciclopédia Mirador, verbete “Positivismo”.

[iv] À Sociologia, ciência social cujas bases o filósofo francês lançou, ele acrescenta aos métodos científicos, o método da filiação histórica (op.cit., idem).

[v] Todos os trechos de poemas transcritos neste estudo foram retirados de Anjos, 1994.

[vi] É notável na arte poética do poeta paraibano o uso da imagem como “comparação”. Em seus versos abundam expressões como “parece”, “me lembra”, “análoga a” , “à guisa de”, locuções comparativas que impõem um “distanciamento” na imagem, ao contrário da metáfora, que é uma associação direta.

[vii] Ferreira Gullar observou bem esse processo dialético e transformador que se dá na interação entre o dado adquirido e a imagem poética dele criada: “A partir daí [da situação ou ação concreta], seu pensamento se desdobra, mas num desenvolvimento dialético marcado por sucessivos retornos ao ponto de partida, isto é, à realidade objetiva. E assim se realiza a ‘superação’ do dado imediato, pois essas idas e vindas constituem o processo de transformação do objeto real: a cada retorno ele é outro.” (Gullar, 1978: 46)

[viii]Conferir a este respeito o poema de Augusto Caput Immortale: “ Ainda assim, a animar o cosmos ermo,/ Morto o comércio físico nefando,/ Oh! Nauta aflito do Subliminal,/ Como a última expressão da Dor sem termo,/ Tua cabeça há de ficar vibrando/ Na negatividade universal!”.

[ix] O termo fanopaica se refere ao célebre conceito de fanopéia, formulado por Ezra Pound para caracterizar a poesia que se concentra em imagens, em contraste com a melopéia, poesia de predominância melódica e musical ea logopéia, “dança do intelecto entre palavras”, poesia baseada nos jogos verbais.

[x] O monismo é uma teoria filosófica proposta pelo cientista naturalista germânico Haeckel, de enorme sucesso no século retrasado, que propunha um sistema teórico unificador para as ciências, a filosofia e as artes. O monismo se opõe ao dualismo. Haveria uma unidade no cosmos representada pela “substância universal” e a história não seria nada mais que a evolução dessa substância em suas múltiplas manifestações, daí a teoria derivada do evolucionismo. Trata-se, simplesmente, de uma teoria que procura dar status científico às noções esotéricas alquímicas. Na poesia de Augusto ela entra como uma teoria de correspondência e unicidade: “O que é importante ressaltar é a maneira como o Monismo evolucionista se transformou nas mãos de Augusto dos Anjos em uma espécie de sistema totalizador” (Bueno, Alexei. Origens de uma poética. In: Anjos, 1994: 23). Ora, será justamente a idéia de “sistema totalizador” que será colocada em dúvida pelo poeta.