DUBITO ERGO SUM

 Vilém Flusser

Para Flusser,
é melhor filosofar em português

Eva Batlicková

 

Publicado na Revista Trópico em 19/04/2005 

 

Para leitores de fino gosto e vontade de algo fora do comum, a editora Annablume relançou o livro do tcheco-brasileiro Vilém Flusser Língua e realidade, um dos mais interessantes ensaios filosóficos escritos em língua portuguesa. Isto tem muito a ver com a excepcional personalidade de Flusser. Ele viveu sua infância e juventude entre duas guerras mundiais em Praga, então capital da Tchecoslováquia, cidade com atmosfera romântica criada pelas inúmeras igrejas e outros monumentos góticos. Aos 19 anos, foi forçado a fugir diante da perseguição fascista por sua origem judaica. Depois de curta estadia em Londres, em 1940 Flusser e a mulher da sua vida, Edith, migraram para o Brasil, para finalmente residirem em São Paulo por mais de trinta anos.

Vilém Flusser entrou na história da cidade como um intelectual engajado – escrevia ensaios para O Estado de S. Paulo, ensinava nas universidades e no terraço da sua casa rodeado de jovens, e escrevia livros. Seu campo de interesse foi imenso, porém toda a sua atividade foi marcada pela experiência pessoal com um dos terrores mais bestiais da história humana. Por isso, o seu maior empenho foi consagrado a revelar e chamar atenção para os mecanismos ameaçadores à liberdade humana, em todas as suas formas, muitas vezes sofisticadas e escondidas.

Durante a sua atuação no Brasil, colocou no centro de seu questionamento filosófico a linguagem e seu poder de criar e dominar a vida de seus praticantes, e também o perigo do seu abuso como propaganda política para manipular pensamento e comportamento. Exatamente esta questão é desenvolvida em Língua e realidade, livro mais importante da época brasileira de Vilém Flusser.  Este grande ensaio foi lançado em 1963 como a primeira obra de autor. Todavia, de acordo com seus manuscritos, trata-se já do seu terceiro livro, o mais extenso, o mais elaborado e o mais maduro de todos os seus trabalhos dessa temporada – e  sem exagero um dos primeiros livros filosóficos com acesso moderno à linguagem.  Flusser tinha como mestres Ludwig Wittgenstein e Edmund Husserl, juntando à teoria lingüística do primeiro a fenomenologia do segundo. Deste modo, o pensador criou o seu próprio método de análise fenomenológica da linguagem, temperada pelo antiessencialismo da filosofia oriental, a que também se dedicou nos primeiros anos da sua estadia no Brasil.

 Língua e realidade é interessante por várias razões, camufladas em seus vários planos. Num nível mais nítido, o livro apresenta a teoria de Vilém Flusser baseada na identificação de linguagem com realidade. Deste ponto de vista, o filósofo participa na discussão pós-analítica regular rejeitando o conceito referencial de linguagem. No entanto, este plano não é o único eixo da obra. Há também um plano poético, cheio de metáforas, imagens coloridas emocionantes e outro, que poderíamos denominar "ficção científica flusseriana", todo emaranhado por uma ligeireza lúdica. Este conjunto fantástico torna o livro muito atraente para o vasto público de leitores e ao mesmo tempo confuso para críticos profissionais e filósofos “sérios”.

O propósito básico de Língua e realidade é revelar a essência, a estrutura e a dinâmica da linguagem. Flusser se distancia das concepções tradicionais vinculadas ao empirismo e ao atomismo positivista, captando a língua como um elemento vivo que transforma o caos dos dados imediatos no cosmos das palavras preenchidas de sentido no âmbito da língua concreta. Esta afirmação traz consigo muitas conclusões importantes, como a relatividade e a pluralidade das realidades humanas, porque, quantas línguas se fala no mundo, tantas realidades existem com as suas próprias verdades. Cada língua possui o seu característico clima de realidade, assim, o papel maior de tradução é reconstruir este diferente tipo de ser – obviamente, papel que nunca pode ser cumprido no limite da perfeição. Flusser sugere que a possibilidade de tradução só é viabilizada graças ao parentesco ontológico entre as línguas; logo, quanto mais as línguas são afastadas menos compreensível se torna a tradução, até a intraduzibilidade quase total e, assim, até a incompreensibilidade entre culturas muito diferentes.

O filósofo analisa três grandes grupos lingüísticos – o das línguas flexionais, o  das aglutinantes e o das isolantes – acentuando as diferenças principais entre eles. Sob o seu olhar meticuloso, a lógica se revela como regra válida exclusivamente para as línguas flexionais e, deste modo, ele a desvaloriza como princípio universal do pensamento humano. Conseqüentemente modifica o estatuto da ciência ocidental, que nunca consegue confirmar a realidade em si, tampouco a verdade absoluta, porque sua legitimidade é sempre limitada.

Depois da desmitificação de lógica, empresta a sua atenção à filosofia, estando convencido de que toda a discussão filosófica ocidental se baseia em traduções insuficientes. Para demonstrar esta tese, Flusser submete à análise lingüística os conceitos metafísicos tradicionais de maneira bem parecida à desconstrução derridariana, naquele tempo ainda não inventada. O filósofo desenvolve  um jogo intigante com as línguas, chegando a resultados impressionantes. Um exemplo maravilhoso encontramos na análise da formação do tempo futuro na língua portuguesa formado pelo verbo auxiliar “ir”, isto é, por um verbo literalmente ligado ao movimento espacial. Flusser acha o português a única língua que junta o tempo com o espaço abrangendo, assim,  implicitamente, as teorias da física moderna como as de Einstein e de Heisenberg.

Trata-se de exemplo significativo para mostrar a capacidade de Flusser entreligar a ciência com a ficção e criar um quadro plástico que aproxima a primeira do grande público. Aliás, ele próprio muitas vezes afirmava que a sua intenção não era dar respostas, mas colocar perguntas para apresentar as maiores questões da sua época e ampliar a discussão sobre elas – no fim das contas o próprio princípio da filosofia, infelizmente muitas vezes omitido.  Ele conseguiu apresentar a ciência sob nova luz, como um dos produtos culturais de mesmo valor que a arte e a religião. Flusser não pretende destruir ou desprezar a ciência ocidental, somente quer mostrar seus limites para enfraquecer seu dogmatismo e tornar transparente o poder que atua sobre nossas vidas. Ele tenta mostrar que a existência humana não cabe no espaço entre as fronteiras da lógica e que o intelecto humano tem muito mais possibilidades para se realizar.

Tudo o que foi mencionado sobre o livro Língua e realidade até agora testemunha, sem dúvida, a sua excepcionalidade. Mas o que me parece realmente revolucionário é o fato de Flusser conseguir aproveitar a sua teoria libertando a língua das algemas da lógica e do discurso tradicional, e isso no próprio procedimento de escrever: elabora um livro científico ultrapassando as regras científicas. É a prova de que na personalidade dele se junta o grande pensador com o grande artista e, vale a pena dizer, também um grande admirador da língua portuguesa. Vilém Flusser muitas vezes a destaca como uma língua ideal para a filosofia de novo tipo, por não ser contaminada pela terminologia tradicional metafísica, assim aberta às novas idéias, projetos e ao novo tipo de pensamento. Para ele era a língua portuguesa a verdadeira língua do futuro.