DUBITO ERGO SUM

 Vilém Flusser

 

Relações entre a língua e a imagem técnica
 no contexto da pós-história de Vilém Flusser

Rachel Cecília de Oliveira Costa

 

 

O filósofo Vilém Flusser foi um judeu nascido em Praga no ano de 1920. Iniciou seus estudos de filosofia aos 19 anos na Universidade dessa mesma cidade (FLUSSER, 1976: 495). Durante a Segunda Guerra Mundial foi obrigado a migrar devido a invasão alemã em Praga no ano de 1939. Primeiramente dirigiu-se para a Inglaterra, continuando seus estudos na London School of Economics, mas o receio do avanço nazista com a invasão da França levou-o a partir para o Brasil sem concluir o curso (MENDES, 2000). Durante os 20 primeiros anos em que permaneceu aqui esteve associado a atividades empresariais (MENDES, 2000: 20), mas continuou estudando sozinho devido à sua facilidade e seu amplo conhecimento de línguas. Entre 1958/59 deixou os negócios e começou a se dedicar apenas à filosofia. Procurou primeiramente Vicente Ferreira da Silva, um dos membros fundadores do IBF – Instituto Brasileiro de Filosofia - para auxiliá-lo a se inserir na comunidade filosófica brasileira (MENDES, 2000:30). Discordava da forma como era feita a filosofia no país, escrevendo, inclusive, artigos sobre o assunto, mas esse era o meio de ele participar das discussões aqui realizadas. A partir de então se tornou professor convidado da Escola Politécnica da USP, para lecionar a disciplina de Filosofia da Ciência, e um dos membros fundadores do curso de Comunicação Social da FAAP (FLUSSER, 1976:495). Foi membro do IBF e colaborador regular da Revista Brasileira de Filosofia, do Suplemento Literário do jornal O Estado de São Paulo, de uma coluna diária chamada Posto Zero no jornal Folha de São Paulo, e da Frankfurter Allgemeine Zeitung (escreveu para diversas publicações, mas não com a regularidade das citadas acima) (FLUSSER, 1976:495). No ano de 1972 voltou para a Europa. Morou em muitos lugares até se estabelecer em Robion, na França, onde permaneceu até a sua morte em 1992.

No período europeu Flusser tornou-se conhecido pelas teorias midáticas, tornando-se o filósofo das novas mídias. Publicou incessantemente (inclusive enquanto esteve no Brasil), principalmente em: alemão, inglês, francês e português[1]. Adepto da filosofia da linguagem traduzia e retraduzia enquanto elaborava seus textos até escrever na língua na qual seria publicado, com o intuito de chegar a um núcleo comum, no qual ele poderia se expressar em qualquer idioma (MENDES, 2000:37). Portanto, grande parte de suas obras foi escrita por ele mesmo nas várias línguas. Alguns artigos foram compilados e transformados em livros, tanto por ele próprio quanto por terceiros, posteriormente[2]. Após a sua morte foi inaugurado o Arquivo Flusser, na Kunsthochschule für Medien Köln, em Cologne na Alemanha. O Arquivo possui originais inéditos, a correspondência de Flusser em várias línguas, documentos em áudio e vídeo e grande parte das publicações de livros e periódicos do autor. Ele foi feito com o intuito de dar continuidade ao “diálogo” com o filósofo (www.khm.de, 20/05/2004).

Adotou o estilo ensaístico, pois alegava ser o texto nos padrões acadêmicos uma forma de restrição à criatividade do autor (FLUSSER, 1998). Como ele próprio fala em uma carta a Paulo Leminsky, foi influenciado principalmente por filósofos contemporâneos, dentre os mais relevantes estão: Husserl, Heidegger, Schopenhauer, Dilthey, Camus, Kant e Wittgenstein. (Mendes, 2000:37). Além dos que ele coloca em seu auto-retrato (1976) que são: Marx, Nietzsche, Carnap e Ortega (pp 497-9).

Através da análise fenomenológica produziu grande parte de sua obra, sendo ela divida em dois períodos distintos: o brasileiro, no qual ele se dedicou principalmente à filosofia da linguagem; e o europeu, quando sua atenção se volta para as teorias midiáticas. Para analisar a imagem separou-a em duas categorias: as pré-históricas (tradicionais) e as imagens técnicas. As pré-históricas são imagens com o propósito de representar o mundo, imagens que possuem uma circularidade intrínseca em seu deciframento, ou seja, para captá-las é necessário olhar sua superfície para conseguir estabelecer relações temporais entre os aspectos presentes no plano. Ela caracteriza o tempo mágico, circular, um eterno retorno, um tempo mítico. São imagens provenientes de um tempo anterior à escrita, que inaugura a concepção de tempo linear. Como exemplo, podemos falar das pinturas em cavernas, dos desenhos e das pinturas tradicionais. Mas seu estudo se direcionou para as imagens técnicas. Essas são tidas como entidades simbólicas, discursivas, conceituais. São valorizadas pela informação que disseminam, não pelo suporte no qual estão, não são auto-explicativas, ou possuem uma conexão dinâmica com o objeto representado, não são índices da realidade (MACHADO, 1997). Entre as imagens técnicas e o mundo há conceitos científicos que determinam as características sob as quais elas se formam (por exemplo a tinta do papel fotográfico ou opções do programa da máquina).

As imagens técnicas possuem como resultado de seu deciframento um texto (FLUSSER, 2002:15). Ela é texto científico. Ao considerá-la uma entidade discursiva, inclui uma dimensão conceitual como a existente na língua. Por isso as imagens técnicas são metacódigos de textos, já que a leitura de textos promove a configuração de imagens no pensamento (2002:11). E os textos também são metacódigos de imagens, pois o deciframento das imagens técnicas leva à configuração de textos. Devido a isso, os dois códigos produzem uma relação circular, na qual o deciframento de um pressupõe o outro (FLUSSER, 2002:10).

As imagens técnicas se multiplicaram a partir da fotografia, um mecanismo que surgiu durante a Revolução Industrial e que já pressupunha o contexto da pós-história. Esse é um conceito cunhado por Flusser para designar a contemporaneidade. A pós-história possui essa denominação, pois caracteriza uma época posterior ao pensamento linear e historicizante originado com a invenção da escrita. A linearidade da escrita impele uma progressividade, pois permite um pensamento futuro, ao contrário do pensamento mítico anterior, caracterizado pela circularidade e pelo eterno retorno. A disseminação dos aparelhos - que “são caixas pretas que simulam o pensamento humano graças a teorias científicas, as quais, como o pensamento humano, permutam símbolos contidos em sua ‘memória’, em seus programas” (FLUSSER, 2002:28) - e a constante busca pela superação desses, para a invenção de algo melhor, coloca o homem em um eterno retorno de esforços para superar o que já foi realizado anteriormente, transformando-o em funcionário dos aparelhos (FLUSSER, 1983:29). O funcionário é uma espécie de trabalhador da contemporaneidade, é um manipulador de bens simbólicos característicos de um mundo codificado (FLUSSER, 1983:33), é uma “pessoa que brinca com o aparelho e age em função dele” (FLUSSER, 2002:77). A pós-história caracteriza um tempo no qual as pessoas vivem em um presente constante.

Flusser analisa o clima (Stimmung) existencial da sociedade a partir do esvaziamento do conceito de realidade. Esse esvaziamento é conseqüência do progresso da dúvida, do ato de duvidar da própria dúvida. A dúvida da dúvida cartesiana é duvidar da própria dúvida, duvidar da autenticidade da dúvida (1999:18). A questão da dúvida, característica do pensamento ocidental, é oriunda do cogito cartesiano de Descartes[3]. Ele atribui ao ato de pensar, duvidar, a essência da existência do homem. Flusser (1999:18) o critica, pois essa dúvida inocente já não existe mais, essa dúvida se caracteriza por uma crença na autenticidade da dúvida, isto é, no fato de que não se pode duvidar dela. O duvidar da própria dúvida caracteriza a crise do pensamento ocidental, já que é um absurdo, o que promove a descrença no intelecto humano (FLUSSER, 1999:23). O intelecto é o campo onde ocorrem pensamentos, ele é um espaço dinâmico de conceitos, e como o pensamento é realizado através de conceitos, ele é articulado pela língua.

A explicação de novos fenômenos através do método de reformulação progressiva, no qual os fenômenos se adequam ao método através da modificação da teoria é a forma como funciona a fé na atualidade para Flusser.

“É a fé na coincidência de pensamento de um determinado tipo com o mundo que nos cerca. O primeiro artigo dessa fé reza: ‘O pensamento lógico coincide com a realidade’. (...) A coincidência entre pensamento lógico e ‘realidade’ é incrível. Não pode ser acreditada. Nossa vivência no mundo a desmente a todo passo. No entanto, a nossa fé aceita essa coincidência como um fato indubitável. É uma fé autentica, porque crê quia absurdum. Mas ao dizer que a coincidência é incrível, coloquei o presente argumento em terreno estranho à fé da atualidade. A ‘nossa’ fé não é a fé do presente argumento. Como consegui essa ironia? Evidentemente porque nossa fé permite, em seu estágio atual, que seja abandonada. Abriu fendas. Por uma dessas fendas escapou-lhe o presente argumento. Uma fé que abre fendas é uma moradia incômoda e perigosa (Flusser, 2002:33).

Perdeu-se, assim, a fé na dúvida, duvidamos do próprio ato de duvidar, o que significa duvidar do próprio pensamento, do próprio intelecto, que resulta no niilismo, ou seja, no nada (FLUSSER, 1999:22). Portanto, se o niilismo é proveniente da descrença no intelecto, ele provoca a produção de textos vazios, gerando a textolatria que se iniciou no século XIX.

A emergência das imagens técnicas acontece devido à necessidade de instigar a imaginação da sociedade. Elas são fruto da crise dos textos que insurgiu no século XIX, como uma forma de suplantar a textolatria (FLUSSER, 2002:17). A textolatria é a impossibilidade de se formar imagens a partir dos textos (FLUSSER, 2002:17). Como as imagens são o resultado dos textos, eles se tornaram vazios, não explicando mais nada. Com o surgimento da imagem técnica a imaginação voltou a ser utilizada, já que através delas estão conceitos científicos (FLUSSER, 2002:11), ela “transforma conceitos em cenas” (FLUSSER, 2002:39).

Portanto, podemos visualizar a importância das teorias midiáticas na filosofia de Flusser. Ele mesmo fala em seu auto-retrato que a descoberta dessas teorias lhe proporcionou um novo olhar sobre o problema da língua (1976:503). Isso se torna perceptível quando visualizamos que se as imagens são conceituais e pretendem explicar algo da nossa realidade, se pretendem servir como parâmetro para que possamos entendê-la, elas se assemelham à língua, pois essa também é uma dimensão conceitual que pode explicar fenômenos da realidade, são dois códigos que estão intimamente ligados. A rápida disseminação das imagens técnicas nos impele a aprendermos a decifrá-las, devido ao fato de que elas estão começando a ocupar o lugar dos textos (2002:14). Na pós-história tanto as imagens técnicas como a língua se tornaram, de certa forma, códigos alienizantes, pois as imagens não estão sendo decifradas e os textos se tornaram unidirecionais, apenas discursivos. Essa situação gera uma espécie de incomunicabilidade social que leva ao individualismo exacerbado que estamos presenciando.  

 

Referências:

FLUSSER, V. Filosofia da caixa preta. São Paulo: Relume Dumará, 2002.

________. Pós-história: vinte instantâneos e um modo de usar. São Paulo: Duas cidades, 1983.

________. A dúvida. Rio de Janeiro: Relume-Dumará, 1999.

________. Da religiosidade: a literatura e o seno de realidade. SP: Escrituras, 2002.

________. Língua e realidade. São Paulo: Herder, 1963.

________. Writings. Org. A. Ströhl. London 2002. University of Minnesota Press.

________. Ficções filosóficas. São Paulo: EDUSP, 1998.

________. “A crise das ciências, a proximidade e o desejável”. RBF, XXX (114): 159-183, abr/jun.1979.
________. “Two approaches to the Phenomenon, Television”. In: DAVIS, D., SIMMONS, A. (ed.). The New Television: a Public/Private Art. Cambridge: The MIT Press, 1977, p.234-247.

________. “A Ciência na nossa situação". RBF, XV (59): 344-360, jul/set.1965.

________. “Em busca do significado”. In: LADUSÃNS, Stanislaus (org.). Rumos da filosofia atual no Brasil em auto-retratos. São Paulo: Loyola, 1976.v.1, p, 493-506.

KRAUSE, G. B. A dúvida de Flusser: filosofia e literatura. São Paulo: Globo, 2002.

KRAUSE, G. B; MENDES, R. (orgs.). Vilém Flusser no Brasil. Rio de Janeiro: Relume-Dumará, 2000.

MACHADO, A. “Repensando Flusser e as imagens técnicas”. In: O quarto iconoclasmo e outros ensaios hereges. Rio de Janeiro: Rios Ambiciosos, 2001.

MENDES, R. Vilém Flusser: uma história do diabo. São Paulo: EDUSP, 2001.

 

NOTAS

[1] Ele não escrevia em tcheco, sua língua mãe, porque dizia que a expressividade adocicada da língua não lhe agradava. Mas também afirmava: “Falo tcheco em várias línguas”. (BERNARDO, 2002).

[2] As publicações sobre Flusser em português são poucas, sendo que não há nenhuma especificamente do campo filosófico. São elas: Jorge Jaime fala sobre Flusser em História da filosofia no Brasil ; Gustavo Bernardo publicou A dúvida de Flusser: filosofia e literatura e juntamente com Ricardo Mendes organizou o livro Vilém Flusser no Brasil. Ricardo Mendes o abordou em sua dissertação de mestrado Vilém Flusser: uma história do diabo:um projeto de ação cultural sobre a obra do filósofo Vilém Flusser e Arlindo Machado em um artigo chamado Repensando Flusser e as imagens técnicas que foi publicado em um livro chamado O quarto Iconoclasmo.

[3] Ver discussão sobre o cogito cartesiano em DESCARTES, 1946.