DUBITO ERGO SUM

 Vilém Flusser

FILOSOFIA DA CIÊNCIA EM FLUSSER

Milton Vargas *

 

           

Meus senhores e minhas senhoras, em primeiro lugar quero agradecer aos organizadores deste evento pela oportunidade que me dão de tentar falar sobre um dos meus melhores e mais íntimos amigos. Vilém Flusser foi, entre os meus amigos, um dos  mais próximos e cabe-me aqui falar sobre os seus pensamentos em relação à Filosofia da Ciência.

Sei que esse não era o campo predileto de Flusser. Era, vamos dizer, um campo a que ele se dedicava e no qual tinha bastante interesse, mas não era aquele em que centrava o seu pensamento; porquanto toda a sua predileção estava sobre as questões relacionadas com a comunicação. Daí ter ele se dirigido para a Filosofia da Fotografia e para questões relacionadas com vídeo, televisão, e com a comunicação inter-humana. A atitude dele em relação à Ciência era também a da investigação de um meio de comunicação entre os homens. É preciso pôr de antemão que um verdadeiro preconceito, no meu entender, que tinha Flusser, era o de ele não ver a Ciência como algo favorável ao humano, principalmente na época atual, onde visualizava uma crise nas Ciências, relacionada exatamente com a sua desumanização, através da técnica e da ciência aplicada.

Conheci Flusser no momento exato em que ele havia decidido abandonar as suas atividades comerciais e dedicar-se ao conhecimento puro. Daquele momento em diante, deixou de dedicar-se a negócios, relacionados com as empresas do seu sogro, e passou a dedicar-se diretamente ao conhecimento, ao estudo, e, posteriormente, ao ensino e à escrita. Foi esse o momento em que se aproximou de um grupo de membros do Instituto Brasileiro de Filosofia, principalmente Vicente Ferreira da Silva, Miguel Reale, que era o presidente do Instituto Brasileiro de Filosofia, o professor Leônidas  Hegenberg, do ITA, um célebre lógico nacional, e eu também.

O nosso primeiro contato foi, vamos dizer assim, de aprendizagem. Nós então freqüentávamos reuniões do Instituto Brasileiro de Filosofia, aonde se discutiam e se apresentavam cursos. Lembro-me de um dos cursos que Flusser  e eu seguimos juntos; foi o curso de Lógica Simbólica, ministrado pelo professor Leônidas Hegenberg, que até hoje é professor dessa matéria no ITA, em São José dos Campos. Nas ocasiões em que Flusser freqüentava as reuniões do I.B.F., assistindo aulas de Leônidas Hegenberg ou de Vicente Ferreira da Silva, ele chegou a nos suplantar, tomando a incumbência de também dar aulas sobre questões relacionadas principalmente com linguagem, teoria da linguagem e comunicações. Creio que um curso que ele deu no ITA, e que constitui uma espécie de início das suas conferências no nosso país, foi sobre a questão da linguagem e da comunicação. É nessa época, então, que ele publica, na Editora Herder, o seu primeiro livro sobre Linguagem e Comunicação[i], que constitui atualmente um dos textos principais, em língua portuguesa, sobre a questão de comunicações. O que resultou da aproximação do Flusser comigo foi uma maior aproximação dele às questões de Ciências, Filosofia das Ciências e Tecnologia. Eu me lembro mesmo que ele dizia ser eu o responsável por ter chamado sua atenção para esse campo, que ele não considerava, anteriormente, digno de ser analisado em profundidade.

A questão se deu então da seguinte maneira. Aí por 1960, mais ou menos, a Congregação da Escola Politécnica resolveu criar cursos de Humanidades para os engenheiros. Isto não era nenhuma novidade, porquanto as grandes escolas de Engenharia no mundo, como por exemplo, o MIT nos Estados Unidos, o ETH em Zurich, na Suíça, têm cursos de Humanidades para os engenheiros. Então criaram-se tais cursos, com cinco disciplinas humanísticas, cada uma em cada um dos anos da Escola. No terceiro ano existiria a disciplina Evolução e Filosofia da Ciência, obrigatória para todos os alunos da Politécnica.

Como vocês sabem, a Politécnica tem vários cursos e o número de alunos é muito grande. Seriam naquela época cerca de 700 alunos a receberem cursos obrigatórios de Evolução e Filosofia da Ciência. Isso era uma carga extremamente pesada. Durante três anos coube a mim dar essas aulas, mas confesso que achei demasiado dedicar-me a essas palestras que tinham despertado um interesse extraordinário nos alunos da Politécnica; as aulas eram repletas e a freqüência muito maior do que nas aulas técnicas. Isso mostrava que de fato os alunos estavam ansiosos por informação humanística. E nesses três primeiros anos - o curso começou em 1963 - até perto de 1967, dei essas aulas e convidava esporadicamente ao Flusser para assisti-las e comentá-las, para atiçar o interesse dos alunos. Pois bem, os comentários que ele fazia durante, ou no fim das aulas, eram de tal monta que suplantavam mesmo os assuntos, os motivos tratados durante a aula. A sua capacidade carismática, vamos dizer assim, de despertar  a atenção de pessoas, era notável. De forma tal que, três anos depois, ficara evidente que o Flusser estava capacitado para dar aquelas aulas de Filosofia da Ciência para alunos de uma escola de Engenharia. Então, a Congregação concordou comigo em contratá-lo. Assim Flusser foi contratado pela Escola Politécnica da Universidade de São Paulo, para ministrar aulas de Evolução e Filosofia da Ciência.

O que ele fez com sucesso extraordinário. Até hoje, Vilém Flusser é lembrado, quando se encontram ex-alunos da Politécnica, alguns agora professores da Escola; as referências a ele e a admiração expressa por aqueles rapazes mostram como as aulas do Flusser foram apreciadas. O fundamental naquela atitude de Flusser, como vimos no vídeo que nos foi apresentado2, era a sua capacidade quase teatral de, não só com as palavras, mas também com gestos e expressões, transmitir aos alunos o valor ou a importância daquilo que estava dizendo. Essa capacidade, vamos dizer assim, teatral mesmo, do Flusser, era a que o tornava apto a dar aulas de Filosofia e História da Ciência para alunos cujo interesse era principalmente técnico. Essas aulas tinham que ser dadas em várias turmas, porquanto 700 alunos tinham que ser divididos em três turmas. Dividir as aulas em três e repeti-las era de fato uma tarefa exaustiva. Sou testemunho disso; pois eu mesmo não consegui agüentar mais que três anos essa tarefa tão pesada. Pois Flusser o conseguiu e com um estupendo sucesso.

Infelizmente, as aulas de disciplinas humanísticas foram eliminadas na Escola Politécnica, em 1971, quando houve uma reforma universitária regulamentando que cada disciplina, pertencente a uma determinada unidade da universidade, devia ser dada por aquela unidade e não por outra. Assim, por exemplo, as aulas de Matemática ou de Física na Escola Politécnica são dadas por físicos ou matemáticos que vão à Escola Politécnica dar aulas; assim como também as questões de fundações e estruturas na Faculdade de Arquitetura são dadas pelos professores de engenharia que vão à escola de Arquitetura dar essas aulas técnicas. Portanto, em 1971, a Escola Politécnica teve de abandonar a sua idéia de um Departamento de Humanidades. Flusser foi transferido da Politécnica para a Faculdade de Filosofia. Eu me lembro que, nos preparativos para a transferência do Flusser para a Faculdade de Filosofia, o próprio diretor da Faculdade de Filosofia, o professor Porchat, me procurou, para saber da minha opinião sobre a possibilidade de Flusser ir dar aulas na Faculdade de Filosofia. A principal questão, na minha opinião, era que tais aulas não seriam para os alunos de Filosofia. Seriam para  os alunos de engenharia e portanto não seriam aulas, vamos dizer, exclusivamente de Filosofia ou de História, mas seriam aulas em que se procurava despertar, em pessoas que não tinham interesse direto no assunto, o interesse por questões humanísticas. Assim Flusser era o homem indicado para isso, era o homem que tinha uma capacidade enorme de despertar interesses em qualquer pessoa sobre qualquer assunto.

Não se tratava, então, de expor uma História ou uma Filosofia da Ciência de uma maneira, vamos dizer, sistemática, nem mesmo enumerativa; mas se tratava de fazer ver às pessoas não enfronhadas em Filosofia e nem em História a importância da História e da Filosofia da Ciência, no preparo de um indivíduo para, principalmente, poder abordar, em sua profissão, questões que envolviam aspectos humanos. Eu não assisti às aulas do Flusser, entretanto tenho comigo aqui algumas apostilas que mostram como ele abordou a questão da evolução e da Filosofia da Ciência e como desenvolveu esse seu curso. Tenho também aqui comigo dois artigos que foram publicados na Revista Brasileira de Filosofia, onde ele expõe as suas idéias sobre a Ciência. Então, é nesse sentido que desejo tentar fazer ver a vocês qual era a atitude do Flusser em relação à Ciência. Ele mesmo, num determinado momento de suas aulas, disse que não pretendia, de nenhuma maneira, discorrer  sistematicamente sobre História e nem sobre Filosofia. Mas queria, de uma maneira impressionista, traçar alguns traços, alguns borrões, pelos quais despertaria nos alunos o interesse sobre o conhecimento da Ciência. Porque é extremamente importante para os engenheiros a aplicação da ciência, para resolver problemas que impliquem o trato com homens.

Estas apostilas que aqui tenho são de dois tipos: ora foram redigidas pelo próprio Flusser e depois, datilografadas, ora são anotações dos próprios alunos. Eu deixo de lado as anotações dos próprios alunos, por ser possível que eles não tenham captado exatamente as opiniões do Flusser sobre as Ciências, as quais são extremamente sutis e delicadas, e podem ser mal interpretadas. Nestas anotações manuscritas de alunos, a gente percebe, em certos momentos,  que o pensamento de Flusser não foi captado com exatidão. Na maioria das vezes foi muito simplificado. Mas nas anotações datilografadas, que imagino tenham sido escritas pelo próprio Flusser e datilografadas por alguma secretária da Poli, ele exemplifica melhor os seus conhecimentos, as suas opiniões sobre as Ciências.

Uma das primeiras coisas que disse quando iniciou o seu curso, exatamente no começo de um segundo semestre, foi para me rebater. No primeiro semestre eu tinha descrito, de uma forma mais ou menos corrente, a Ciência na Grécia Antiga até Alexandria, e então o Flusser deveria, no segundo semestre, tomar a si o restante e discorrer sobre a evolução da Ciência e as implicações filosóficas dela, desde o final do mundo antigo até o mundo atual. Entretanto começou o curso me rebatendo, exatamente da mesma maneira que nós fazíamos em nossas conversas; as quais nunca foram conversas de pleno acordo; nunca se chegou a se dizer: você tem toda razão, é isto mesmo, você está correto. Sempre as nossas conversas foram conversas polêmicas, sempre foram conversas, posso dizer, estimulantemente contraditórias. Esta é a maior riqueza que encontro no meu contato com o Flusser. É que sempre debatemos. Nós sempre nos antepusemos com opiniões diferentes e que no fundo, no fundo, iam dar num acordo, num acordo complexo, mas muito mais real do que as nossas próprias opiniões.

Então, ele, logo de começo, contradisse o que eu tinha discorrido sobre a Ciência no mundo grego. Ele achava que não havia ciência no mundo grego; enquanto que eu falava da Ciência na Grécia. Isso já mostra alguma coisa sobre o que o Flusser entendia por Ciência. Pois bem, ele entendia por Ciência essencialmente a Ciência Moderna, quer dizer, ele entendia que a palavra Ciência só se aplica àquilo que aconteceu no mundo moderno a partir do Renascimento, quando o interesse pela Natureza foi reavivado através, por exemplo, das paisagens que aparecem nos quadros renascentistas. Em geral, nessas pinturas, o homem, os personagens, estão na frente e no fundo há uma visão, vamos dizer assim, quase que idílica da Natureza. Isso documenta os interesses que os homens vieram a ter sobre a Natureza. Acredito que o Renascimento é uma contra-revelação; enquanto que a revelação divina foi a revelação dos céus aos homens por Deus, o Renascimento seria a resposta a isso: a revelação da Natureza a Deus. Flusser entendia isto como o início da Ciência. Toda atividade científica partia do Renascimento  e o que havia na Grécia não seria de forma alguma Ciência. Eu já tinha várias vezes concordado com ele em não chamar de Ciência àquilo que se fazia na Grécia, pois que estava muito próximo da Filosofia; mas há a Matemática e também há a História Natural de Aristóteles que devem ser chamadas de ciências. Mas não são Ciências, dizia ele, porque elas não tratam dos entes. Ele entendia por ente aquilo que é, que tem o ser, mas não é o ser. Elas, ele dizia: essas Ciências, essas coisas que você chama de Ciências na Grécia, procuravam a essência, o ser das coisas, enquanto que a Ciência Moderna se despreocupa pela essência das coisas. Na linguagem mais moderna, ela se preocupa com os fenômenos, com as aparências, e não com o íntimo das coisas; enquanto que a Ciência Grega tinha como preocupação o próprio ser dos entes.

Mas eu rebatia, dizendo: que, de fato, uma das coisas que é fundamental na Ciência Moderna, aquilo que os gregos criaram, era o pensamento teórico; se você acha que eu não devo chamar de Ciência àquilo que se fazia na Grécia, eu digo que o que se fazia na Grécia era a teoria, o conhecimento teórico ou epistéme teorétike. Isso é o que se fazia na Grécia, e está tanto na filosofia grega como na ciência moderna; e também na geometria ou na física e na biologia de Aristóteles. Essa é a herança que veio do mundo antigo como essencial para a Ciência Moderna. Ela é, como a grega, uma teoria. É fundamentalmente um conhecimento teórico. Portanto, naquele momento inicial dos cursos de Flusser, revelava-se a atmosfera polêmica que sempre me ligou a ele. Não se tratava de nenhuma controvérsia insuperável, mas sim da complementariedade de pensamentos que havia entre eu e o Flusser.

Isso não teria muita importância se fosse somente relacionado comigo, mas serve para mostrar a mentalidade essencialmente polêmica que era a do Flusser. Ele não era, de nenhuma maneira, um homem do qual se pudesse dizer que se adaptasse a uma determinada opinião, que repetisse uma determinada opinião. O essencial do Flusser era a sua atitude polêmica, de contraste, de confronto, e que muitas vezes parecia simplesmente um capricho. Parecia um capricho mas na realidade se percebia que sua atitude de contrapor-se não era um puro capricho. Ele descobria aspectos novos em tudo aquilo que para nós já era sobejamente conhecido, já era alguma coisa que não trazia problema. Ele se contrapunha e encontrava algum aspecto de novidade naquilo. Simplesmente para vocês terem uma idéia do estilo de Flusser nas suas aulas, eu desejo ler uma frase sua que já citei, pela qual ele se propunha não a ensinar sistematicamente a História e a Filosofia da Ciência, mas simplesmente despertar o interesse dos alunos por tal assunto. Ele diz: "Resolvi, para enfrentar esse problema, recorrer a uma técnica impressionista. Darei algumas pinceladas e espero que a impressão geral do quadro pintado evoque algo em suas mentes". Este, enfim, era o propósito dele nesse curso de Filosofia da Ciência.

Durante as cinco aulas do seu curso inaugural, ele se restringiu aos aspectos filosóficos da Ciência. Não se importou com cientistas, importou-se com aquilo que os filósofos diziam sobre os cientistas. É impressionante que não se referisse ao momento no qual se estabelece a grande descoberta do século XVII, de que seria possível o conhecimento objetivo da natureza. Esse momento foi um momento histórico importantíssimo, mas ele não se refere a Newton, pois foi Newton quem mostrou ser possível conhecimento objetivo da natureza, por meio da matemática. Ele não se refere a Newton, refere-se a Kant. De fato, foi Kant quem colocou em termos filosóficos aquilo que Newton havia demonstrado cientificamente. Flusser mostrava que o empirismo inglês era impreciso, imprestável para o desenvolvimento da Ciência, porquanto ficava só nas sensações, só na experiência, enquanto que o racionalismo continental, do qual ele toma como exemplo o de Leibnitz, ficava só na teoria, só no conhecimento que decorre da intuição a priori. Da manipulação desses conhecimentos a priori é que sairia o conhecimento científico, mas ele mostrou que isso também era impossível para o desenvolvimento científico. Sabemos que o desenvolvimento científico deu-se no momento em que Newton conjugou as duas coisas, a experiência com a teoria. Foi quando se percebeu que a Ciência de fato partia de fatos experimentais, observados pelo homem, mas desenvolvia uma teoria que depois deveria ser confrontada com a experiência para ser verdadeira. Portanto foi uma conjugação total de experiência com teoria, o que Newton mostrou possível; e fazendo isso mostrou como era possível um conhecimento objetivo da natureza. Flusser, no entanto, citando Kant, silencia sobre Newton. Para ele não são importantes as conclusões dos cientistas; o importante é a interpretação que os filósofos dão da investigação científica feita pelos cientistas. Então ele mostra, em uma aula belíssima sobre Kant, a possibilidade do conhecimento objetivo da natureza.

Para mim, essas cinco aulas inaugurais de Flusser na Escola Politécnica correspondem a uma visão, como diz ele, em pinceladas, no modelo da arte impressionista, que puderam despertar o interesse de alunos de matérias técnicas, no sentido de virem a conhecer o que é Ciência.

O restante do curso do Flusser, depois dessas cinco aulas, foi uma exposição da História da Ciência onde, como disse, ele não fazia uma exposição, vamos dizer assim, banal, incolor de fatos científicos, de descobertas científicas, mas ia mostrando como a teoria grega passou pela Idade Média, quando, através da própria Teologia, despertou o interesse pela própria Natureza, de forma tal que foi através da teoria de Deus que apareceu o interesse pela Natureza, porquanto a Natureza era uma criatura divina. É neste trânsito que o interesse pela Natureza tomou corpo no Renascimento. É o início da Ciência Moderna. Porém, para Flusser esta Ciência Moderna é um desastre. É algo que, se foi muito bem sucedido nos primeiros tempos, passou a ser agora uma ameaça à sobrevivência da Humanidade. Passou a ser algo que precisa ser reformulado, repensado. Chegamos assim às últimas aulas de Flusser, onde defende, onde mostra, que o interesse tecnológico, proveniente da Ciência, pela solução de problemas práticos, principalmente problemas humanos, veio mostrar que a Ciência não é neutra como se pensava. Que a Ciência não é um saber descompromissado, como queriam os primeiros cientistas – Francis Bacon, por exemplo, dizia que, em primeiro lugar, o cientista teria de abandonar “os ídolos”; quer dizer, os seus preconceitos, as suas opiniões pessoais, as suas paixões, para fazer Ciência.

Flusser mostra que, na aplicação da Ciência, através da tecnologia, os problemas resolvidos vieram a afetar o próprio homem, no sentido de que agora ele próprio subordinava-se às suas soluções. Assim a Ciência não é mais neutra. A Ciência, agora, exige a participação do Homem, exige a participação das paixões humanas, na solução de problemas através da tecnologia. Flusser entende tecnologia como algo muito amplo; não entende tecnologia simplesmente como operações mecânicas, como invenções, como fábricas, etc. Ele entende tecnologia como toda aplicação das Ciências, inclusive as Ciências do Homem, na solução de problemas práticos. Quer dizer, também a Medicina é uma tecnologia; também a Psicanálise é uma tecnologia, porquanto ela é uma aplicação de conhecimentos e métodos científicos para resolver problemas práticos. Isto dá à Ciência um caráter perigoso, do ponto de vista de Flusser, para a Humanidade. Algo que, nas suas aulas, não exprime de maneira muito precisa, mas, nos dois artigos que foram publicados na Revista Brasileira de Filosofia, está patente. O primeiro deles tem como título A Ciência Na Nossa Situação 3. De fato, esse artigo, como mostra uma nota de rodapé, baseia-se nas aulas que deu na Politécnica; mas é mais claro do que aquelas aulas. Nesse artigo, Flusser pretende despertar o interesse do público leitor, em geral, para esse aspecto ameaçador, no seu ver, do conhecimento científico. Ele diz assim: "O argumento do qual estou falando tem raízes profundas que apontam à origem do pensamento humano. Sempre se argumentava a respeito dos entes e nesse sentido a Ciência é tão antiga quanto a Humanidade. Mas como cadeia de sentenças verdadeiras, isto é, verificadas, sentenças prováveis, isto é, sentenças hipotéticas e de sentenças válidas, isto é, teorias, surgiu esse argumento há aproximadamente 400 anos no ocidente europeu. E essa modificação do caráter do argumento é conseqüência de uma modificação das sentenças interrogativas das quais o argumento brota. Interrogar, perguntar é um movimento pelo qual a existência se lança contra a sua situação para apreendê-la, compreendê-la e modificá-la. Depende portanto da maneira como a existência se encontra".

Imaginemos estas frases ditas com aqueles gestos e aquelas expressões que vocês viram no vídeo anterior. Quer dizer, o que eu digo aqui de uma maneira, vamos dizer, contida, em Flusser passava a ser algo de dramático. Passava a ser algo de dramático no sentido em que ele emoldurava os seus pensamentos com gestos, expressões e movimentos. Naquele vídeo ele está sentado; mas quando, de pé, assume uma atitude teatral! Vi Flusser, por exemplo, resumir  o livro O Ser e o Tempo, de Heidegger, andando. Então, aqueles gestos e aqueles recuos, aqueles passeios, aquela expressão, transformaram O Ser e o Tempo numa peça teatral.

Mais adiante, no mesmo artigo, Flusser continua dizendo: "A cosmovisão que surge desse tipo de argumento é aquela do mecanismo inerte, automático, dentro do qual a coisa pensante se encontra. No centro dessa máquina, está a coisa pensante, cheia de complicações, de confusões, de sentimentos e temores. Esse é o aspecto barroco do mundo". Quer dizer, a Ciência que surge, diz ele, no Renascimento (na minha opinião, no século XVII, depois do Renascimento) essa Ciência leva à concepção mecânica do mundo: o mundo é uma grande máquina, dentro da qual está o pensamento humano; no centro dessa máquina está a coisa pensante, o pensamento cheio de complicações, de confusões, de sentimentos e temores. Esse é o aspecto barroco do mundo.

A concepção de mundo, pela Ciência do Barroco, é a de uma máquina. Os próprios animais são máquinas complicadas; mas no fundo, máquinas. Quando, dentro dessas máquinas aparece o pensamento, o espírito pensante, passa-se algo diferente, Flusser descreve essa situação com as seguintes palavras: "A Ciência está virada. A Ciência passa a ser uma disciplina da vontade humana, que é a realização da vontade tout court, que domina a Natureza. A Ciência é a humanização da Natureza. Não se trata mais de adequar o intelecto a Natureza, trata-se de adequar a Natureza ao intelecto. Trata-se, em outras palavras, de transformar a Natureza em instrumento do Homem. A Ciência passa a ser o método dessa transformação e isso problematiza tanto a Ciência quanto a Natureza. O que é essa Natureza, esse conjunto amorfo do vir a ser que serve de matéria prima para a vontade humana? É o aparecimento da técnica”.  Note-se que aqui Flusser quer referir-se não à técnica em si; mas à tecnologia. Quando a Ciência começa a ser utilizada para transformar a Natureza, começa a ser utilizada para adaptar a Natureza ao Homem. Quer dizer, a tecnologia não é a adaptação do Homem à Natureza, falando biologicamente, como Darwin fez. A tecnologia é a adaptação da Natureza ao homem. Flusser continua argumentando: "A Ciência assumiu uma autonomia no conjunto das disciplinas mentais e seu argumento se desenvolve sem nenhum respeito por considerações filosóficas, ideológicas, artísticas ou religiosas. Está como disse, soberanamente desinteressada do ser. Este não é o seu assunto. É o projeto pelo qual foi lançada no Renascimento."

Peço agora, permissão para intervir, falando como se Flusser estivesse presente: a Ciência Moderna não nasce no Renascimento; mas sim no século XVII, com Descartes, com Francis Bacon, com Galileu. É então que a Ciência toma esse aspecto ameaçador. No Renascimento, a Ciência tinha um outro aspecto completamente diferente. É a tese que defendia diante do Flusser e que ele sempre rebatia. Pela minha tese, a maneira do pensar do Renascimento é a nossa maneira latina, não é a maneira norte-européia. A maneira norte-européia de pensar é que é responsável pela Ciência Moderna. A Ciência do Renascimento é latina; por ela, o conhecimento se dá pela visão direta. O conhecimento não se dá pela autoridade, como queriam os medievais; mas pela visão direta. Essa é a filosofia que levou às navegações. A descoberta ibérica do Novo Mundo deu-se com um tipo de Ciência em que se constata a realidade pela visão direta e não por aquilo que fora escrito ou imposto pela autoridade de autores antigos.

Há um botânico português que escreveu um dos principais livros de Botânica do Renascimento, Garcia da Horta, em que diz: "Não mais a autoridade, mas a visão direta é critério de verdade.” Para mim, esta é a Ciência do Renascimento, a qual foi derrotada pela concepção de Galileu, de Descartes, de Francis Bacon. Para esses últimos é que a Ciência, como a concebe Flusser, é uma combinação de experiência e teoria; sendo essa, por sua vez, verificada pela experiência. Mas o que ninguém diz, nem mesmo Flusser, que essa experiência que verifica a teoria é organizada de acordo com a própria teoria. De formas que a verdade científica atual é um rebater de espelhos sobre espelhos: uma teoria baseada na experiência e uma experiência baseada na teoria. Estou relatando isto para vocês verem o tom do meu relacionamento com o Flusser. Era sempre assim, era sempre polêmico; mas uma polêmica amistosa. Nunca briguei com o Flusser. Vários dos seus amigos brigaram de morte com ele; mas eu nunca briguei com o Flusser; mas sempre contrapus-me a ele e ele a mim, nesta complementariedade que acho ser o essencial, a virtude que se encontra no pensamento do Flusser. É a capacidade de antepor argumentos mantendo a forma amistosa.

Ele continua: "A Ciência está se tornando argumento que tem por assunto exclusivo processos: um vir a ser, imaterial; e virtualmente o campo dos entes, no sentido ingênuo desse termo, se evapora". Para ele, o fato de a Ciência Moderna ter levado à Tecnologia fez desviar a atenção dos cientistas sobre os objetos, sobre a Natureza objetivada; desvia a atenção dos cientistas dos entes da natureza e passa às relações entre o conhecimento e a ação humana, no sentido de transformar a Natureza.

Eu poderia me prolongar aqui com as opiniões do nosso amigo Vilém Flusser sobre a Ciência e a História da Ciência, mas quero terminar simplesmente resumindo a atitude de Flusser, em relação à Ciência, como a seguinte: a Ciência é um tipo de indagação moderna que começa no Renascimento, diz ele, quando os homens readquiriram interesse pela Natureza. Durante mil anos a Humanidade se desinteressou totalmente pela Natureza. Perdão. Não se trata de toda a Humanidade, mas, só da Europa. Estamos fazendo europeísmo, estendendo o pensamento europeu à toda a Humanidade. Mas, na Idade Média, a Humanidade européia se desinteressou pela Natureza e jogou todo o seu interesse para o divino. Mas, este interesse, paradoxalmente, levou de novo ao interesse pela Natureza, como uma criatura de Deus. No momento em que essa criatura de Deus começou a ser estudada, ela perdeu a sua divindade, passou a ser alguma coisa que podia ser manipulada pelos homens. Essa manipulação pelos homens, através da Ciência, inicia-se no século XVI, quando era uma crença corrente de que tudo que era feito pelos técnicos, por aqueles que entendiam e tinham habilidades manuais, podia ser feito por qualquer pessoa, na medida em que essa pessoa estudasse teorias e métodos científicos. Tudo que era feito na prática poderia ser feito por métodos e conhecimentos científicos. A nossa época exagerou isto de tal maneira que, agora,  qualquer conhecimento, qualquer atividade humana pode ser feita a partir de teorias. Pois é isso que leva à Tecnologia. A Tecnologia então, não é mais neutra, desinteressada como foi a Ciência. Quer dizer, a Tecnologia passa a ser algo que comove, que chama, que exige a intervenção do homem, com as suas paixões, com seus defeitos, suas opiniões, para a solução dos problemas práticos. E é isto, esta predominância do tecnológico, do feito pelo homem, segundo teorias científicas, que leva Flussser a falar numa crise da Ciência Moderna.

No primeiro momento, esta expressão crise da Ciência Moderna não era muito bem entendida por nós que o cercávamos. Nós entendíamos crise da Ciência Moderna como qualquer coisa de interno à Ciência, qualquer coisa que tinha acontecido no começo do século, quando apareceu a Física Quântica. No momento em que apareceram os “quanta”, a Física entrou em crise. Mas, paradoxalmente, da crise resultou num desenvolvimento espetacular da Ciência. Não se tratava exatamente de uma crise; mas, de um renascimento. Um nascimento de algo novo que se expandiu; e, com isso, a Ciência no século XX teve um desenvolvimento espetacular, a partir da Física; depois, com a Biologia e depois, com as Ciências do Homem, na Psicologia e na Sociologia. Tudo isso se desenvolveu esplendidamente, mas ligado à Tecnologia, e ao seu aspecto agressivo.

Então, o que Flusser chama de crise da Ciência Moderna não é o momento em que apareceu a Física moderna. O que ele chama da crise da Ciência Moderna é a consciência, que agora está se espalhando para todos nós, de que, com a intervenção da Ciência, através da Tecnologia, na solução de problemas práticos, resultou uma Ciência não mais neutra. Não é mais alguma coisa que não depende das opiniões, das paixões humanas, e portanto é perigosa. É essa a concepção que Flusser tem da crise da ciência moderna e que está esplendidamente escrita no seu artigo na Revista Brasileira de Filosofia - A Crise das Ciências e a Proximidade e o Desejável.

Flusser diagnostica a crise da Ciência moderna como a falta de neutralidade, a imperiosa falta de neutralidade das ciências, comprometendo o que desejamos para o futuro. Assim, se poderia concluir que talvez tenha sido esta a razão porque ele aceitou dar aulas de Filosofia da Ciência numa escola técnica. Ele acreditava que o remédio para esse perigo estaria em que técnicos e cientistas, em geral, fossem saturados de conhecimentos humanísticos, para que tomassem cuidado quando tentassem aplicar resultados científicos a problemas humanos.

Era isto o que eu tinha a dizer a vocês. Muito obrigado pela atenção.

 

 

NOTAS

 

* Milton Vargas. Graduado em Engenharia Elétrica e Civil pela Escola Politécnica-USP, pós-graduado em Harvard (EUA). Professor catedrático da Politécnica desde 1952, tendo recebido o título de Professor Emérito em 1988 por seus trabalhos em mecânica dos solos. Membro fundador do Instituto Brasileiro de Filosofia em 1951, dedicou parte de sua obra aos estudos da filosofia da ciência e da tecnologia. Nos anos 60 respondeu pela disciplina Filosofia e evolução da ciência, na Escola Politécnica, na qual atuaria a seu convite o filósofo Vilém Flusser. É membro do Centro Interdisciplinar de História da Ciência e da Tecnologia da USP (CIHCT). Em 1983 tomou parte da fundação da Sociedade Brasileira de História da Ciência. É autor dos livros Poesia e Verdade (1991) e Para uma filosofia da tecnologia (1994), entre outros. Em 1994, organizou o livro História da Técnica e da Tecnologia no Brasil (UNESP), para o CIHCT-USP. É membro, desde 1989, da Academia Paulista de Letras. Texto publicado no volume Vilém Flusser no Brasil, organizado por Ricardo Mendes & Gustavo Bernardo em 1999.

 

[i]            Língua e realidade. São Paulo: Herder, 1963.

2           The Philosopher of Photography (1992).

3           Temas em debate: A Ciência na nossa situação. Revista Brasileira de Filosofia, XV (59): 344-360, jul/set 1965.