DUBITO ERGO SUM

 Vilém Flusser

A URBANIZAÇÃO E OS NOVOS MEDIA

Martin Pawley *

 

1.                       Os Caminhos da Ilusão:

Em uma sociedade repleta de avanços tecnológicos, onde câmeras de segurança em locais públicos registram os rostos dos pedestres e os comparam automaticamente com os arquivos de fotos da polícia, a realidade não é mais uma questão de opinião.

Ela não consiste mais daquilo que pensamos ter presenciado, do que pensamos já ter acontecido antes, do que somos levados a crer que está acontecendo e nem mesmo daquilo que achamos que acontecerá em seguida.

Atualmente nós confiamos na tecnologia para organizar os acontecimentos diários e para prever seu curso. Preferimos por vezes confiar no registro de uma câmera de segurança do que na nossa própria memória.

Nos últimos cem anos, a realidade tem sido transformada em uma mercadoria por uma avalanche de novas tecnologias que nos possibilitam gravar, armazenar um registro e transmitir seus componentes visuais e sonoros infinitamente. O anúncio de uma máquina fotográfica digital de menos de cem dólares ilustrou bem nossa situação em seu slogan: "Hoje em dia, toda a imagem que vemos pode ser digitalizada em um segundo, armazenada em um PC em dois segundos, editada em três segundos e publicada mundialmente num site na Internet ou enviadas para outros usuários por um sistema de Intranet. Tudo o que você precisa é uma câmera digital e um disquete."

Após 500 anos de tipografia, 150 anos de fotografia, um século de cinema e 50 anos de televisão, nós temos atualmente um mercado ilimitado para a programação da realidade. Nos nossos dias, este mercado é sustentado por grupos de mídia, que são proprietários de vastos domínios virtuais. Encontramos um fenômeno similar durante a Segunda Guerra Mundial onde "navios de guerra da radiodifusão" bombardeavam as rádios de propaganda inimigas com sua própria programação. Naquela época, ambos os lados do conflito competiam usando a cada dia transmissores de rádio mais potentes.

Hoje em dia, as corporações de mídia, nascidas naqueles anos de turbulência, não funcionam mais como armas de guerra; elas são fenômenos da pós-modernidade. Elas são verticalmente integradas. Isso equivale a dizer que em uma partida de futebol, que é um fragmento componente da realidade, umas destas corporações será não apenas a dona do estádio e do time que está jogando, como também terá voz ativa na decisão do calendário das partidas, será a dona da produtora que irá filmar os jogos e do canal de TV a cabo que irá transmiti-los. Ela também comandará o jornal e os jornalistas que irão fazer a cobertura da partida. Até mesmo a companhia que fabrica os televisores nos quais você assiste os jogos será dela.

Multiplique este modelo de integração pelo número de áreas comercializáveis da realidade – a ciência, as artes, as produções culturais, os documentários, o governo, as atividades comerciais, entre outros – e você começará a ver a extensão que tais grupos de mídia podem alcançar, programando o que já nos pareceu ser a realidade. Eles já são tão poderosos como as antigas companhias de comércio colonial, como a Companhia das Índias Orientais ou a companhia de Taipé na China foram há 200 anos atrás. A única diferença entre elas é que este comércio recente de ópio eletrônico não encontra barreiras geográficas que dificultam sua circulação. Ele é globalizado e automatizado e seus consumidores são os habitantes das maiores cidades do mundo, nas quais todos já estão de tal maneira imersos nesta realidade programada que vivem vidas roteirizadas eletronicamente, em que "máquinas criadoras de realidade" antecipam cada um de seus movimentos.

Como resultado disso, a sociedade urbana contemporânea vive permeada pela informação e penetrada pelos sistemas de comunicação. Este fenômeno é tão forte que cada indivíduo é constituído na realidade por dois corpos: um corpo "real", que consiste de sua presença física, e um corpo "fictício", moldado por toda a informação recebida pelo indivíduo. Em todo mundo os habitantes dos espaços urbanos vivem suas vidas particulares mergulhados em um mar de informações irrelevantes.

Cada conjunto de fones de ouvido que você vê nas ruas de uma cidade, cada laptop que você encontra dentro de um trem, é uma testemunha desta divisão entre "real" e "fictício". Todos os moradores das cidades são em parte produtores, em parte consumidores, em parte presentes, em parte ausentes, em parte reais, em parte fictícios. O corpo fictício do consumidor vai se tornando cada vez mais real, à medida em que os planos de marketing voltados para ele tornam-se mais sofisticados e melhor capacitados.

Esta segunda personalidade consumidora, hoje em dia, só pode ser reconhecida através do rastro de indícios que ela deixa: coleções de CD, vídeos e fitas, contas de telefone e de supermercado, extratos bancários, recibos de cartão de crédito, um e-mail, uma secretária eletrônica, um videocassete, um PC com modem e até mesmo um sistema de posicionamento global (GPS). Quanto mais rico for o "corpo produtor", mais abrangentes e integrados serão os elementos de sua metade consumidora "programável".

Não há limite para o desenvolvimento deste processo. Enquanto os fabricantes desta realidade programada melhoram seus produtos, estes itens para o "consumidor programável" serão lentamente assimilados por uma máquina com identidade própria. Esta logo irá lidar com todas as interações do indivíduo com os outros corpos consumidores.

Esta máquina já assiste televisão por você, telefona por você, paga suas contas e cria suas recordações. Sua verdadeira dependência do apoio desta máquina inanimada já supera sua necessidade imaginária de família e amigos. Com a passagem do tempo, todas as relações obsoletas de produtor-cooperativa desaparecerão, para serem substituídas por imagens de grupos de mídia e seus acessórios - como as cenas apelativas que desencadearam em Londres uma grande agitação popular com a morte da Princesa Diana de Gales, ou em Paris com a vitória francesa na Copa do Mundo.

2.                      Populações Fantasma:

Enquanto a população produtora vem deixando as cidades, sua falta é camuflada por uma crescente população fictícia de turistas. Londres tem uma imensa população fictícia deste tipo, assim como as outras grandes cidades do mundo. Dos 26 milhões de visitantes estrangeiros que chegaram à Inglaterra em 1997, a metade não chegou a sair de Londres. Isto significa que a cidade recebeu duas vezes o seu número de residentes naquele ano. Com isso, podemos dizer que metade das pessoas que passavam pelo centro da cidade num determinado momento poderia facilmente ser composta de visitantes estrangeiros. Este número de visitantes é equiparado aos turistas ingleses que vão ao estrangeiro. Na realidade, não só mais ingleses viajam para o exterior do que estrangeiros vêm para a Inglaterra, como também estes ingleses gastam muito mais fora de seus país do que os turistas que vêm para a Inglaterra. No ano passado, o déficit para os ingleses chegou a ₤1.4 bilhões. Estes dados comprovam que o turismo não traz muitos benefícios para esta economia, porém não é exatamente essa nossa preocupação neste artigo.

Quando refletimos sobre o turismo nesta escala, a "população fictícia" nos parece um fenômeno assustador. Algo como uma ocupação militar que nós dificilmente conseguimos perceber no dia a dia. Os turistas que chegam se parecem com cidadãos, muitos até se parecem com residentes da cidade, prontos para defenderem os valores urbanos tradicionais, mas eles não o são. Eles são fantasmas que perpetuam uma ilusão. A presença deles camufla a saída do comércio, das indústrias e da circulação de mercadorias, que deixaram a cidade para sempre. Como uma realidade virtual, o turismo é uma forma de camuflagem para o vazio dos centros urbanos. Por causa destes fatores, ele dá uma importante contribuição para a arquitetura urbana: a transformação das ruas e praças com tráfego intenso de veículos em áreas para pedestres. Isto prova a irrelevância da economia produtora, que já fora vital para as cidades. Obstáculos para o transporte de mercadorias que antes teriam sido considerados sinônimo de prejuízo, como zonas restritas a pedestres, ciclovias, quebra molas, nunca teriam sido permitidos por nenhuma autoridade municipal até apenas 30 anos atrás. Não influenciadas pelas preocupações atuais, estes administradores do passado teriam reconhecido estas medidas pelos que elas representam, como uma anexação do direito público de circular por uma "indústria" que desloca o comércio, não paga aluguel e destrói os pilares da "verdadeira" economia urbana.

3. "World Squares For All":

Considere agora um projeto de ₤ 65 milhões para transformar uma parte da área de Westminster numa área exclusiva para pedestres. Chamado "World Squares For All", seu objetivo é remover todo o trânsito de veículos por duas milhas quadradas ao redor da área dos prédios do governo, desde a Praça Trafalgar via Whitehall até a Praça do Parlamento e, com isso, restringir o acesso às duas praças apenas aos pedestres.

Enquanto esta é aparentemente uma iniciativa louvável quando descrita deste modo, as implicações a longo prazo de tais medidas, se forem implementadas, são insistentemente negligenciadas. Primeiro teremos o "Efeito Cidadela" - a separação daquela região do resto do esquema de tráfego da cidade e o aumento considerável do trânsito de veículo nos arredores das praças.

Neste caso, o termo "Cidadela" é duplamente apropriado, porque este novo esquema já vinha sendo estudado antes como uma medida de proteção dos prédios do governo, localizados na região, contra um possível atentado terrorista. Eu irei abordar a questão da segurança nesta nova configuração da realidade mais tarde, neste artigo.

Além deste aspecto, este projeto também irá isolar todas as construções localizadas dentro das áreas exclusivas para pedestres. Este isolamento restringe o potencial de aproveitamento destas construções para empreendimentos ligados apenas ao patrimônio histórico nacional, ou para museus.

Neste momento, o público em geral e o governo central estão bastante interessados no projeto do "World Squares For All", mas ele encontra forte oposição junto ao conselho da cidade de Westminster, que é a autoridade responsável pelo planejamento da região. As pesquisas de tráfego demonstram que os maiores beneficiários seriam os turistas e não os residentes, os trabalhadores ou as empresas instaladas no local. Estas duas praças hoje em dia são importantes para o tráfego, chegando a ter 6 mil veículos em trânsito por hora na Praça Trafalgar, por exemplo. Estudos sobre o trânsito na região também nos fornecem dados que comprovam que tal mudança implicaria um drástico aumento do tráfego de veículos nas áreas próximas, ainda dentro dos limites de Westminster. Este aumento é considerado politicamente incorreto pelos residentes do local.

As imagens criadas pelos planejadores que mostram a região antes e depois da possível implementação do projeto nos remetem à idéia de uma população fantasma numa cidade sem vida. Pudemos ter uma idéia do resultado de um projeto desta natureza por todo o percurso do cortejo fúnebre da Princesa Diana de Gales. Ao longo da rota divulgada pelos jornais, todos os indícios das lojas e das empresas que funcionam no local desapareceram. Apenas palácios, monumentos e atrações turísticas se destacavam dentre a multidão.

"World Squares For All" é um olhar dentro de um futuro urbano que nos diz muito sobre a falsa natureza pós-funcional dos espaços urbanos, onde o tráfego com propósito cede lugar a indivíduos sem rumo que caminham por espaços metropolitanos desertos com todos os prédios ao seu redor mumificados em uma inútil vida parcial, como se fossem marionetes mecânicas em uma exibição num museu.

4.                      Construções Disfarçadas:

O turismo não é o único aspecto da esclerose urbana que nossos sentidos não conseguem diferenciar do resto do nosso espaço urbano. Durante os anos, nossas antigas cidades produtoras vêm sendo secretamente reconstruídas na forma de cidades consumidoras, com cada vez menos máquinas produtoras. Construções e áreas ao ar livre não são mais voltadas para servir à população produtora, porque esta, a cada dia que passa, está deixando de existir. Porém, a arquitetura urbana que nos é visível não reflete esta mudança. Ao invés disso, ela está se tornando cada vez mais "fictícia".

Nos últimos quinze ou vinte anos, Londres tem testemunhado o fim do estabelecimento de novas indústrias. Um fim para o acesso irrestrito de veículos e um fim para as áreas irrestritas de estacionamento. Um novo tipo de planejamento tem surgido. Uma técnica para refazer as antigas construções "produtoras" na forma de "consumidoras", por detrás da mesma fachada; são as construções "secretas" ou invisíveis.

O filósofo tcheco Vilém Flusser escreveu, em um ensaio datado de 1973, chamado "Linha e Superfície", que existiam apenas dois tipos de meio no mundo dos fatos: o "meio linear", como a escrita, que apresenta os fatos numa sucessão histórica de eventos para ilustrar um processo; e o "meio da superfície", como a arquitetura, que apresenta os fatos estáticos, em cenas. Entretanto, nos nossos dias, um terceiro tipo de meio surgiu. Graças a este terceiro meio, o design interno dos prédios comerciais tem sido revolucionado pela tecnologia, mas não deixa vestígios disso transparecerem no seu exterior.

5.                      A Anatomia de uma Construção Disfarçada:

Considere-se como exemplo um prédio aparentemente simples construído em Londres, no século XIX. Hoje em dia, ele abriga o escritório central do banco japonês Nomura International, o maior negociante de ações do mundo. O prédio ocupa um quarteirão inteiro e há alguns anos foi alvo de uma reforma completa, no valor de ₤100 milhões. Este foi o maior projeto de retenção de fachadas na Europa na época. Cento e vinte anos atrás, as mesmas paredes externas do prédio do Nomura abrigavam em seus cinco andares o escritório de distribuição do Correio Real, cujos pátios ficavam repletos de carroças transportando correspondência. Na sua função atual, este mesmo prédio tem uma área de 46 mil metros quadrados de modernos escritórios com ar condicionado em seus dez andares, dos quais quatro ficam sob o solo. Terminadas as reformas em 1991, o Nomura é um triunfo da camuflagem. Ele aparenta ser uma Agência de Correio Vitoriano, que não deixa vestígios externos de seu coração eletrônico.

A discrepância entre a aparência externa e interna do Nomura é típica da arquitetura urbana contemporânea. Não é simplesmente uma variação de estilo, mas um indício da estratégia pós-moderna, ou "fictícia", a serviço do planejamento. Neste sentido, encontramos exemplos similares em outros campos. Assim como a medicina geriátrica e a cirurgia podem prolongar a vida das pessoas usando drogas miraculosas, transplante de órgãos e próteses - com um custo elevado e um efeito grotesco - este tipo de arquitetura também pode preservar prédios antigos enquanto destrói sua identidade original. Como resultado disso, nossas chamadas cidades históricas são cada vez mais compostas de prédios com partes excedentes, do mesmo modo que sua população é cada vez mais composta de pessoas com partes excedentes. Ambos os fenômenos convergem para uma homogeneização das áreas urbanas que chegam a perder seu caráter histórico. Por estes meios e com a poderosa colaboração da aniquilação eletrônica da distância, todas as categorias reconhecíveis de construção estão desaparecendo: todas as diferenças autênticas entre os períodos históricos na arquitetura estão se perdendo, e suas camadas estão sendo comprimidas como que por ação sísmica. Como o arquiteto japonês Toyo Ito disse:

As pessoas e os carros já não são mais os únicos objetos a se moverem nas nossas cidades. O fluxo das diversas formas de informação está crescendo com muita velocidade, e este fluxo invisível está começando a dominar o espaço urbano. Apesar disso, nós não conseguimos imaginar a imagem desses espaços porque o fluxo de informação não tem uma forma palpável.

6. Em Direção a Uma Capital Virtual:

Para analisar esta situação sem precedentes, é essencial visualizar a nova realidade eletrônica como uma alternativa para a realidade da infra-estrutura urbana convencional. Para isto, eu chamarei os sistemas de comunicação eletrônica de sistemas de "ondas curtas"; os portos, as estradas de ferro, as rodovias e as construções convencionais, eu chamarei de sistemas de "ondas longas". Em geral, todos os sistemas de "ondas longas" são mais antigos, mais pesados, mais lentos e mais caros, enquanto todos os sistemas de "ondas curtas" são mais leves, mais baratos e mais eficientes no uso de recursos. Porque a realidade eletrônica e a tecnologia da informação dividem os mesmos sistemas de operação e ambos produzem uma grande economia ao eliminar o problema da distância; a tendência atual é desenvolver sistemas de "ondas curtas" mais abrangentes em todos os campos.

Uma pergunta: se as tecnologias chamadas de "ondas curtas" fornecem uma infra-estrutura mais eficiente do que as tecnologias de "ondas longas", e já que as tecnologias de "ondas curtas" vêm sendo desenvolvidas em grande escala nos últimos 50 anos, por que elas não suplantaram completamente a infra-estrutura e a superestrutura tradicionais?

Resposta: esta é uma questão de percepção, como diz Toyo Ito; o que eu defini como sistemas de "ondas curtas" é invisível. O antigo equilíbrio do século XIX entre a infra-estrutura e a superestrutura urbanas é bastante visível, e esta visibilidade se traduz numa grande inércia. A conseqüência desta inércia é a falta de sincronização entre as rápidas operações na economia e a vagarosa mudança no ambiente construído nas cidades. Enquanto altos (e crescentes) gastos são necessários para atualizar e aumentar a pesada infra-estrutura e inserir uma nova superestrutura, o custo para implantação de sistemas eletrônicos mais abrangentes e mais ágeis fica cada vez mais barato.

Deixe-me dar um exemplo: dada sua relativa falta de superestruturas supérfluas e um perímetro que foi rigidamente mantido por 50 anos, não parece coerente que a cidade de Berlim tivesse que lutar com o alto custo da pesada infra-estrutura de "ondas longas" e com a alta densidade de construções como ela tem feito desde a reunificação. Se redes de "ondas curtas" poderiam ter viabilizado sua permanência como capital do país com um custo extremamente menor, então essas medidas deveriam ter sido tomadas.

Como isto poderia ter sido feito? Existe um meio. Veja o caso do Stockley Park. Este é um moderno empreendimento de escritórios na Inglaterra localizado próximo ao aeroporto de Heathrow. Uma das irregularidades do Stockley Park é que, embora esteja há 20 quilômetros do centro de Londres, todas as suas linhas de telefone têm o prefixo 0171, que é o prefixo para o centro da cidade de Londres. Stockley é na verdade em Staines, onde o prefixo normal do telefone é 01784. O uso do mesmo prefixo do centro de Londres foi uma concessão ganha pelos empreendedores. Eles queriam o prefixo 0171 porque ele dá aos clientes a impressão de que seus escritórios são no centro de Londres.

Outro exemplo similar: quando uma pessoa em Londres telefona para a telefonista para pedir um número de telefone, sua ligação é transferida para um operador em Newcastle especializado em atender tais pedidos. Do mesmo modo que, quando um agente de viagens em Londres liga para a Lufthansa ou para a United Airlines para reservar um vôo, sua ligação é transferida para um escritório próximo de Dublin na Irlanda. De fato, mais de 50 centros de atendimento de corporações norte-americanas na Europa são na Irlanda, incluídos os centros do Best Western, Corel, Digital, Ericsson, Radisson, Oracle e UPS. A mesma fusão de locais ocorre nos serviços financeiros. No Oriente, Manila nas Filipinas e Hong Kong agora têm uma única bolsa de valores. A mesma coisa ocorre na Europa onde Londres, Paris e Frankfurt estão planejando fundir suas bolsas de valores para que as três cidades se tornem terminais de um mesmo sistema. Isto significa que agora Newcastle e Dublin fazem parte de Londres? Ou que Manila é parte de Hong Kong, ou Frankfurt é parte de Paris? Claro que não, mas fragmentos de cada uma destas cidades são agora parte das outras.

Esta não é meramente uma figura de linguagem. O engenheiro de comunicações William Southwood descreveu com precisão o sistema de telefonia internacional como: "A maior máquina única jamais construída e provavelmente a mais importante". No mundo todo ela é formada por aproximadamente um bilhão de linhas telefônicas, todas interligadas por cabos, microondas e conexões por satélite. Até bem recentemente esta vasta máquina alotava números de acordo com a área geográfica. Agora ela percebeu que pode alotar a área geográfica de acordo com o número. Usando tecnologias de "ondas curtas" como esta, a capital da Alemanha poderia ter permanecido tanto em Bonn quando em Berlim. Para quase todas as funções administrativas Bonn poderia ter se tornado Berlim sem ter que se mover nem um milímetro de sua localização.

A razão pela qual a cidade não se concentra na integração, atualização e expansão da sua rede de sistemas de "ondas curtas" - ao invés de projetos muito caros para aumentar a densidade de ocupação em um espaço cada vez mais reduzido - deve se ao fato de que estes contrariam interesses políticos e imobiliários, além dos planejadores da cidade, urbanistas, e historiadores da arte estarem com idéias de urbanismo diametralmente opostas à baixa densidade dispersa que seria resultante da mudança.

Nós atualmente vemos em Berlim o resultado de uma ação legislativa de retaguarda para proteger os interesses da cidade nos sistemas de "ondas longas", mesmo que todos os indicadores econômicos do próximo século apontem na direção dos sistemas de "ondas curtas", com agilidade e baixo consumo de recursos, sobretudo. Elas exigem uma distribuição flexível de redes, cabos, antenas de satélite e terminais - não projetos com uma enorme infra-estrutura de concreto, aço e vidro - e os alemães podem pagar por isso sem ter que desmantelar os serviços sociais ou criar desemprego em massa.

A perspectiva de uma transitoriedade de identidade e a desarticulação das noções de lugar e identidade não é uma idéia original. As possibilidades têm interessado agências de publicidade por todo o mundo nos últimos 50 anos.

Por debaixo de todas as vantagens um pouco assustadoras trazidas por uma mudança de sistemas, está o seu significado para o comportamento humano, para a "urbanidade" no seu sentido mais completo. Porque o crescimento do trabalho à distância significa que os encontros de pessoas frente a frente se tornarão cada vez mais raros. Na realidade, todos os negócios feitos no mundo atualmente são feitos via conexões telefônicas que não conhecem nem a distância nem as regiões geográficas. Além do sistema de telefones temos a Internet e a World Wide Web, que fornecem acesso a um universo sem posições geográficas fixas. Como conseqüência disto, os encontros entre os seres humanos passam a ocorrer virtualmente, o que há algum tempo seria considerado transitório e deficiente.

Toda vez que uma nova política é adotada, uma política antiga é abandonada. Enquanto isso, é difícil para todos nós acreditarmos - até mesmo para mim- que toda nossa herança urbana construída tenha se transformado num atraso pelos novos meios e pelas perspectivas de sistemas de "ondas curtas" que eles nos apresentam, e é o que todavia vem ocorrendo. O passado pode continuar a nos fascinar - como ele deve fazê-lo, por sua importância como fonte de analogias e indicadores - mas como modelo para as cidades da Europa ele se tornou inútil. A verdade que nos guia nos últimos anos tem sido a incessante mudança exigida pela evolução tecnológica. A economia de mercado anula a importância dos antecedentes e destrói a autoridade do passado.

Veja essa tabela de diferenças entre a antiga cidade européia e o modelo que chamaremos de cidade do futuro, na qual os sistemas de "ondas curtas" são privilegiados:

A "Cidade Européia"

A "Cidade do Futuro"

Compacta

Dispersa

Estrutura permanente

Estrutura variável

Barreiras físicas

Sem barreiras físicas

Bens imóveis

Bens virtuais

População estável

População variável

Sistemas mecânicos

Sistemas eletrônicos

Dominada pelos meios de produção

Dominada pelos consumidores

Sistemas de transporte público

Sistemas de transporte privado

Estrutura palpável

Estrutura imaginária

Identidade fixa

Identidade variável

Realidade primária

Realidade secundária

Alto valor imobiliário

Baixo valor imobiliário

De acordo com o chefe de desenvolvimento de multimídia da companhia britânica Telecom, até o ano 2004 o número de usuários da Internet no mundo será igual ao número de linhas telefônicas em uso. Na Grã-Bretanha o número atual de usuários já é de sete milhões de pessoas. Na taxa atual de crescimento, até o ano 2001 serão 23 milhões de pessoas conectadas - 40% dos britânicos. Nos Estados Unidos, um usuário médio gasta 12 horas por semana online fazendo negócios ou para diversão. Onde estão essas pessoas? Em Los Angeles, em Londres, em Berlin, em Albuquerque? Será que isso faz diferença?

7. Escritórios Desnecessários:

Todos os empreendimentos na área da realidade eletrônica e da tecnologia da informação têm efeito direto sobre os empregos da população, e todos os efeitos desta natureza irão mais cedo ou mais tarde envolver uma redução no espaço físico necessário para se desenvolver uma determinada tarefa. Os números atuais que mostram o espaço físico dos escritórios do governo claramente indicam isso. De acordo com o Tribunal de Contas Britânico, a quantidade de espaço arrendado que deixou de ser utilizado nos escritórios do governo em Londres dobrou entre 1992 e 1996. Para toda a Grã-Bretanha, o espaço total não utilizado alcançou 830.000 metros quadrados no final de 1997. Durante o mesmo período os gastos anuais com tecnologia da informação no distrito financeiro da cidade de Londres sozinho cresceu de ₤1.3 bilhões para ₤2.5 bilhões e espera-se que chegue aos ₤4 bilhões até o ano 2000.

Nem os escritórios vazios, nem as novas instalações de comunicação anunciam sua presença para quem vê a situação de fora, mas juntar todas as provas não é difícil. Além das instalações de escritórios nos subúrbios como o Stockley Park, os aeroportos também se beneficiam desta nova tendência "desurbanizadora". Cada vez mais eles poderão oferecer o que conhecemos como "serviços urbanos" de seus escritórios longe dos grandes centros. Revistas distribuídas nos aviões e nos aeroportos não hesitam em anunciar as vantagens que um aeroporto tem sobre a cidade: "Quanto maior a cidade, maior será o benefício se pudermos manter todas as pessoas reunidas no aeroporto", é o comentário de um gerente senior da IBM para a revista Business Life, distribuída para os passageiros da British Airways.

8. Depois do Pós-modernismo, terrorismo.

O determinante mais desprezível para as novas formas arquitetônicas não é a comunicação mas a segurança. Quando os empregados de um banco na cidade de Londres vão para a casa no final do expediente, seus computadores não descansam. Ao invés disso, eles iniciam um programa especialmente desenvolvido que armazena todas as informações comerciais registradas naquele dia em outro computador mantido num local seguro há quilômetros de distância. Isto é parte de um plano preparado para contornar emergências sem a interrupção dos negócios. A segunda parte deste plano entrará em operação caso os escritórios da companhia sejam alvo de uma bomba, um incêndio, uma inundação ou qualquer outro incidente que venha a inviabilizar sua operação antes do início do expediente. Neste caso, os empregados serão automaticamente avisados por telefone e deverão encontrar-se num outro endereço, provavelmente num outro edifício bastante discreto nos limites da cidade. Onde quer que seja, este "esconderijo de segurança" já estará totalmente equipado para entrar em ação. Todos os empregados essenciais irão trabalhar neste local até que os problemas na sede da empresa tenham sido resolvidos.

Em resposta aos ataques terroristas do IRA na cidade de Londres em 1993 e 1994, todas as maiores instituições financeiras da cidade viabilizaram seus esquemas de emergência. Apesar da aparente trégua na Irlanda do Norte, eles ainda continuam a manter suas empresas prontas para funcionarem normalmente no caso de uma fatalidade em seu escritório principal. Não há necessidade de que o prédio usado no caso de uma emergência seja especialmente protegido contra ataques terroristas. Ele é um armazém de dados que pode ser trocado ou descartado a qualquer momento. Na verdade, tudo relacionado à sua utilidade reflete a necessidade de processamento de dados, porque defeitos em prédios ou até mesmo sua destruição por fogo ou por explosivos são triviais perto dos prejuízos que a interrupção do funcionamento dos computadores acarretaria. Exatamente por isso estes prédios usados em emergências não tem nenhuma importância artística ou histórica na sua arquitetura. O ideal é que sejam estruturas em estado precário sem nenhum traço que possa chamar a atenção para elas. Devem servir simplesmente como terminais.

Esta é uma amostra da transformação que vem ocorrendo em noções que estamos atualmente aprendendo a encarar de outro modo: a relatividade dos espaços físicos e a essencialidade da comunicação, a tal ponto que o armazenamento de dados em computadores seguros e os escritórios de emergência são considerados tão vitais para os negócios agora como essas mesmas instalações e redes de comando foram vitais para as forças armadas durante a Guerra Fria. Os civis tentam manter a continuidade de seus negócios a qualquer custo e, para isso, idéias migram do ambiente das forças armadas direto para o ambiente civil. Como exemplo do que já copiamos dos militares anteriormente: o uso de cédulas de identidade, códigos secretos e o uso de guardas de segurança. Esta é uma migração que confirma a imensa importância dos serviços de inteligência comercial num mundo competitivo, o que ressalta seu novo caráter quase militar.

Tal transformação já exibe seus efeitos colaterais marcantes. Não resta dúvidas que atualmente a segurança é muito mais importante do que a arquitetura. A arquitetura particularmente notável, superabundante e criativa, está no processo de se tornar secundária às corporações. As grandes sedes das corporações são alvos convidativos para ataques terroristas e grupos de protesto, ou para qualquer indivíduo com ressentimentos.

Juntamente como a redução de tamanho e a dispersão das corporações, este raciocínio tem sido bastante importante para motivar a retirada não somente dos escritórios do governo do centro de Londres, mas também dos escritórios de outras importantes multinacionais como a Shell, a IBM, a Texaco, a Coca-Cola, entre outras. Isto não é somente um problema nacional na Inglaterra. O mesmo raciocínio serve para os Estados Unidos onde, por exemplo, a nova sede da Exxon, em Dallas, além de ser localizada fora do centro da cidade também conseguiu embargar todas as tentativas da imprensa de publicar qualquer foto ou gravar qualquer imagem dela. Seguindo esta mesma lógica, outras corporações importantes estão não somente se equipando com escritórios para emergências, mas também se instalando em áreas isoladas, progressivamente tornando estas áreas os centros de suas transações comerciais mais importantes.

Frente às várias ameaças terroristas que começaram a deflagrar o risco de uma ação militar na maioria dos países desenvolvidos, os governos, assim como os serviços públicos, os bancos, os empresários e os donos de estabelecimentos comerciais estão gradualmente buscando proteger suas propriedades, aconselhando-se com especialistas militares. Porque a ameaça terrorista, ao invés de desaparecer, está se tornando uma rotina, quase que uma guerra de pequena intensidade, oscilando desde do vandalismo até o conflito armado, a influência destes consultores especializados em segurança vem aumentando. De início, eles aconselhavam pouco mais do que medidas de prevenção ao crime, como o uso de revestimento feito de folhas de aço e câmeras de circuito fechado, mas sua influência logo se tornou mais constante. Ao invés de permanecer apenas como conselheiros, eles começaram a se sofisticar melhor, a ponto de prepararem novos materiais e componentes, esboçar novos regulamentos e linhas de ação e controlarem todos os aspectos do seu desenvolvimento. Uma vez que tais procedimentos são adotados por um prédio, é muito difícil de se conseguir retirá-los. Na Irlanda do Norte o planejamento militar desta natureza começou há vinte cinco anos atrás e continua até os dias de hoje. O impacto sobre a arquitetura e o planejamento urbano é severo.

A primeira regra de segurança é disfarçar o alvo. Por isso qualquer característica marcante que possa servir como distinção de um prédio deverá ser imediatamente excluída. O sistema de endereços nas ruas, com o nome da rua e os números nas casas, é desaconselhado. Todos os prédios que podem ser acessados pelo terraço de outro prédio também não são aconselhados. Ao invés de suavizar as linhas e decorar os prédios como é feito, árvores, arbustos e heras devem ser removidas. Vidraças usadas como paredes externas são totalmente banidas e qualquer transparência deve ser coberta com um adesivo opaco ou cortinas. Janelas em paredes externas não são recomendadas e pátios ou outras fontes de luz são preferíveis. Qualquer item de decoração que possa obstruir o campo de visão das câmeras de segurança deve ser removido. Todos as reentrâncias externas, como vãos de portas, subterrâneos e escadas, são removidas do projeto, porque elas podem funcionar de esconderijo para bombas. O acesso público a átrios é proibido e entradas e saídas secundárias devem permanecer trancadas, assim como garagens subterrâneas. Áreas para estacionamento na superfície devem ficar o mais longe possível do prédio. O resultado destas medidas é uma arquitetura sem estilo, mais fácil de ser imaginada do que descrita.

Quando a intensidade dos ataques terroristas faz com que as companhias recorram às suas companhias seguradoras atrás de altas quantias, medidas de área são tomadas. Isto é o que aconteceu depois de 1993 e 1994, quando atentados do IRA no centro de Londres causaram danos no valor de ₤1.5 bilhões, e o atentado em 1996, em Canary Wharf, obrigou a indenizações de mais de ₤300 milhões pagos pelas companhias de seguro. Isto também ocorreu nos Estados Unidos, depois dos atentados de 1993 no World Trade Center, em 1995 em Oklahoma e em 1996 em Atlanta, e mais recentemente em 1998, na embaixada americana na África. Neste último caso as chamadas medidas de área devem ser mais intimidadoras. Thomas Vonier, um arquiteto de Washington se especializando em assuntos de segurança, diz que no futuro todos os automóveis serão proibidos de se aproximar das embaixadas mais importantes nos Estados Unidos por medidas de segurança, e a localização de todos os prédios das embaixadas será revista para garantir uma distância segura de uma possível explosão.

As medidas de área tomadas em Londres foram o fechamento da rua Downing, onde fica a casa do primeiro-ministro, em 1987, e prosseguiu com a construção de barricadas fechando as ruas que dão acesso ao histórico distrito financeiro em 1995. A próxima medida será a construção de um "Anel Fortificado" que deverá incluir a praça Trafalgar, os escritórios do governo em Whitehall e Horse Guards Parade e as construções do Parlamento e a praça do Parlamento. Este projeto, que foi posto de lado logo depois do cessar-fogo do IRA em 1996, teria prevenido o tráfego de qualquer veículo não autorizado num raio de 200 metros dos escritórios do governo, e o fechamento da Horse of Guards Road em Saint Jame's Park. Este projeto agora está sendo incluído dentro de um projeto mais amplo de áreas exclusivas para pedestres, como mencionei no início deste artigo.

9. Urbanismo Cumulativo:

Em outra de suas obras, esta chamada "Três Tempos" e escrita em 1991, Vilém Flusser descreveu a seqüência da evolução de três tipos diferentes de tempo. O primeiro destes era o "tempo da roda", um tempo cíclico que se originou nos modelos sazonais e genealógicos do mundo agrário, pré-industrial. A seguir na linha vem o "tempo do fluxo", que vai do passado ao futuro por meio do progresso e aumentando seu domínio do mundo natural. Esta foi uma idéia que dominou a Idade Moderna, a época da exploração e das descobertas que trouxeram grandes avanços na ciência e na indústria. Mas Vilém Flusser era um pensador pós-moderno. Sua terceira concepção de tempo foi além da crença no progresso da Idade Moderna, para um estado de inércia chamado por ele "tempo cumulativo". Este conceito, eu acredito, é um forte indicador do formato do futuro pós-urbano.

Flusser visualizou o "tempo cumulativo" como um tempo de partículas uniformemente distribuídas cujos eventos não eram nem cíclicos, como no "tempo da roda", nem lineares como no "tempo do fluxo". Porque o "tempo cumulativo" nem gira nem progride, sua atividade é totalmente regida pela entropia. Ele gradualmente desgasta todos os gradientes cinéticos até o ponto em que tudo o que resta é inerte, uma camada uniforme, como a areia acumulada sobre a praia.

O "tempo cumulativo" é o corolário do nosso novo mundo de presença global instantânea, a medida apropriada de tempo para um universo em que a comunicação por satélite transformou o conceito de velocidade física de viagem em algo totalmente sem sentido, assim como há milhares de anos atrás, quando os homens podiam apenas andar. Hoje esta velocidade instantânea se traduz num espaço infinito e é nesta relação à beira da obtenção, pela primeira vez na história do ser humano, que um tipo de "urbanismo cumulativo" começa a ser visto como a resolução correta de um conflito entre o conceito medieval de megaestrutura e a extensão infinita do subúrbio. O "urbanismo cumulativo" é o nome do modelo pós-urbano, pós-histórico artístico para os terminais de apoio à vida que serão o nosso ambiente construído no século por vir. Porque naquele momento não haverá mais o que falar de cidades do mundo, mas apenas de uma única cidade mundial que engloba todo o globo, suas "ruas" têm milhões de milhas. Seus indivíduos são meramente átomos, como paralelepípedos.

 

 

* Martin Pawley. Crítico e ensaísta em arquitetura. Mantém coluna semanal em The Architects' Journal, uma coluna quinzenal na revista on-line Telepolis, editada em Munique (Alemanha), e coluna mensal em World Architecture. É o correspondente britânico em arquitetura de Berliner Zeitung (Alemanha). Graduado em arquitetura pela École Nationale Superieure des Beaux-Arts em Paris (França) e pela Architectural Association, em Londres (Inglaterra). Após alguns anos lecionando nos EUA, retornou à Inglaterra, tendo sido crítico de arquitetura, entre 1984 e 1991, do jornal The Guardian e, entre 1992 e 1995, exerceu a mesma função em The Observer. Publicou recentemente, entre outros, os livros Theory and Design in the Second Machine Age, Buckminster Fuller, Design in Exile: the architecture of Eva Jiricna, Future Systems: the story of tomorrow e Architecture in Detail: the Hauer/King House. Seu último livro é Terminal Architecture, publicado pela Reaktion Books (Londres). Texto publicado no volume Vilém Flusser no Brasil, organizado por Ricardo Mendes & Gustavo Bernardo em 1999.