DUBITO ERGO SUM

 Vilém Flusser

FLUSSER NA VIRADA DO MILÊNIO

Lúcia Santaella *

 

Ao ser convidada a participar deste seminário, meu conhecimento da obra de Flusser era bastante parcial, para não dizer limitado. Lembro-me que, desde o final dos anos 70, quando comecei a me interessar, estudar e inserir a linguagem visual, a imagem em geral, nos meus cursos de pós-graduação em Comunicação e Semiótica, muitos de meus alunos, alguns egressos da FAAP, mencionavam Flusser, apontando para a importância de suas idéias.

No início dos anos 80, o contato com Maria Lília Leão acabou me levando a uma aproximação da obra e da pessoa de Flusser. Em abril de 1983, Maria Lília me presenteou com o livro de Flusser, Natural:mente - Vários acessos ao significado de natureza. A leitura desse livro me impressionou muitíssimo. Além da poesia do pensamento, havia ali algo de muito novo, diferencial, que, naquele momento, não fui capaz de discernir. Alguns meses mais tarde, no dia 22 de agosto de 1983, fui convidada a participar de uma mesa redonda no Masp, destinada a discutir o livro Pós-História: Vinte instantâneos e um modo de usar (Flusser 1983) . O tema especifico do debate era "Pós-História e Educação”.

Fazia muito pouco tempo que havia voltado de um estágio de pesquisa nos Estados Unidos. A permanência de um mês no campus de Bloomington, um dos mais belos e civilizados na América do Norte, trouxe-me como saldo, no retorno, algumas semanas de intensa depressão. O Brasil, como sempre, estava passando por mais um de seus transes políticos; não me recordo e nem me dou ao trabalho de tentar recordar qual deles. Lembro-me muito bem apenas que se tratava de uma depressão reativa, cuja razão preponderante vinha da consciência, que se tornara então muito aguda, das adversidades que nós, professores e pesquisadores, temos de enfrentar em cada canto e minuto de nosso cotidiano em nosso país, e da persistência, beirando a teimosia irracional, que temos de alimentar para não desistirmos, para continuarmos a ser pesquisadores. Era esse o estado de espírito em que estava imersa quando fui colhida pela leitura de Pós-História.

Para a participação no debate, escrevi um breve texto que, felizmente, encontrei guardado em meus arquivos. Passarei à sua leitura porque se trata de um texto ilustrativo do modo com que pude lidar com a obra de Flusser, e, mais particularmente, da moldura na qual meu pensamento foi capaz de enquadrá-la naquele momento.

 “Minha opção não foi aquela de fazer perguntas, mas a de breves comentários à margem do seu texto; e à margem aqui não no sentido de exílio, mas no sentido de tentar chegar perto, ficar rente ao fluxo de um rio, isto é, do fluir do seu texto.

“Enfatizo esta opção de tentativa de percorrer as nervuras do seu pensamento porque me parece que não há nada mais raro hoje em dia do que a disponibilidade para a escuta do outro (tudo isso que eu falo aqui foi se acentuando de uma tal forma, de lá prá cá, nesses 16 anos, que é muito triste), do outro como diferença. Tão viciados estamos dentro dos nossos próprios referenciais, dada a nossa formação, ou melhor, deformação de especialistas em pequenas áreas do saber sobre o homem, que não nos tornamos senão prisioneiros, cada um de nós, num pequeno gueto das chamadas ciências humanas.

“Daí que, na maior parte das vezes, só tenhamos chegado a desenvolver a capacidade para ouvir aquilo que queremos ouvir, isto é, aquilo que encontra eco nos referenciais sobre os quais estamos plantados. Mais que uma tentativa, pois, fiz um esforço deliberado de escuta, pois que só a escuta do outro, quando honesta, pode nos levar ao exercício da auto-crítica, fundamento talvez do diálogo.

“Detenho-me brevemente no livro como um todo - Pós-História - para depois fazer chegar nosso foco ao tópico da escola e educação, ou seja, daquilo que nos traz a este encontro.

“A característica mais marcante de Pós-História é a de uma constelação que vaza as clausuras do conhecimento dito acadêmico: do chão que pisamos ao céu, do nosso saber ao nosso receio, do nosso trabalho à nossa embriaguez, de nossa morada, roupa e encolhimento, até nossas imagens, nossa escola e nossa espera, tudo isto visto por uma lente que descarna as ilusões de um otimismo ingênuo e nos faz circular dentro do coração das nossas contradições.

“Numa primeira instância, Pós-História nos leva inevitavelmente a assinar um ato de rendição e a enfrentar cara a cara o absurdo como textura do mundo, do nosso mundo. 0 defrontamento é lúcido, e num primeiro momento nos deixa tão cegos quanto se tivéssemos olhado fixamente para o sol.

“Contudo, pouco a pouco, nessa luz que cega, começamos a "divisar algumas luzinhas divididas", como diria Riobaldo, e que Flusser, ele mesmo, chama de caminho que corre a partir do desespero rumo à esperança, embora tênue.

“Gostaria de falar dessa esperança no livro todo. Por questões de adequação ao momento, detenho-me na escola. Deste tópico me aproprio, tentando pensar o texto de Flusser no confronto com a nossa escola, a brasileira.

“Desse confronto, a primeira impressão que fica é a do choque. Você fala em escola do futuro e de nós essa escola parece longínqua, pois que é gritante o descompasso de nossas escolas em relação aos meios de comunicação do nosso tempo. Nossa escola, do maternal ao pós-graduação, está alijada dos meios de produção de linguagem do presente. Nossa escola é o espaço da indigência.

“Entretanto, de dentro dessa indigência, podemos enxergar que o rumo para o progresso não representa senão a corrida acelerada para chegar mais depressa ao inferno da robotização, paraíso infestado de felicidade ready-made.

“Nessa medida, o texto de Flusser encontra aplicação e exige reflexão não só daqueles que, no primeiro mundo, navegam na iminência da escola do futuro, mas também de nós que, de dentro do nosso anacronismo, não podemos nos furtar à busca de caminhos que possam sabotar qualquer forma, mesmo que camuflada, de escola monológica e totalitária.

“Tenho de ser breve, e minha colocação talvez soe despida de fundamento, mas como educadora, esteja eu pisando aqui ou na Lua, no primeiro ou no terceiro mundo, quero pôr ênfase nessa veia subcutânea do seu livro Pós-História, essa veia que você chamou de esperança tênue e que volta sempre a aflorar no seu texto sob os termos diálogo, intersubjetividade, criação, beleza, morte, fidelidade, solidão, amor e liberdade.

“Por que só pronunciamos esses termos aos sussurros? Por que temos vergonha até mesmo de sonhá-los? Nossa história parece ter raptado o homem de si mesmo. Fomos levados de roldão. (Vocês vêem como a coisa se acentuou de lá para cá, não é?). Se esses valores parecem arcaicos, e até mesmo ridículos porque esvaziados pela mentira, não parece haver como encontrar essa tendência alternativa que você vislumbra na escola do futuro, senão através da re-facção sob uma nova luz, de valores de que somos seqüestrados. Não se trata aqui de ingenuidade paradisíaca, mas da afirmação das contradições mesmas que nos fundam como humanos: vida-morte, eu-outro, acaso-programa, macho-fêmea, velho-novo, razão-loucura, amor..., para as quais, como educadores, temos de re-encontrar o espaço de inquietação e mesmo de angústia que lhes cabe, na composição a integridade de um novo homem”.

Alguns meses mais tarde, em 24 de outubro de 1983, Flusser enviou-me uma carta que também passarei a ler, dada a oportunidade de trazê-la a público em um evento cujo título é justamente “Vilém Flusser no Brasil: uma apresentação”.

A carta também é breve e bastante significativa, do elenco de questões que ele estava tratando naquele momento. Ele diz assim:

"Prezada amiga. Seus comentários sobre o meu ensaio Pós-História, no MASP e a sua atitude toda perante a problemática atual muito me impressionaram. Lamento que não tenhamos tido ocasião, durante a minha estadia paulista, para trocarmos pontos de vista. E para eu poder realmente fazer seu conhecimento. Não poderíamos tentar estabelecer contato por este midium? (horribili dicto) Estou atualmente empenhado em várias tarefas heterogêneas, algumas das quais poderiam despertar o seu interesse:

1 - Estou participando da elaboração de um evento que ligará (outubro de 1983) Avignon com Los Angeles, em julho, sob o tema Le Vivent et l'Artificielle;

2 - Participarei de mesa-redonda em Hamburgo, sobre o meu recente ensaio Para Uma Filosofia da Fotografia (que não estava ainda traduzido no Brasil) aonde defenderei minha visão de programa e automaticidade;

3 - Darei curso na Escola Superior de Fotografia de Arles sobre manipulação fotográfica do comportamento humano;

4 - Darei curso na Sorbonne sobre decadência e modernidade;

5 - Estou escrevendo ensaio para a Universidade de Göttingen sobre Superficialidade: introdução ao universo das imagens técnicas;

6 - Estou preparando evento em Toronto, em outubro de 84, sobre Informação e cultura;

7 - E evento no Instituto Interdisciplinar de Hannover, em abril, sobre McLuhan.

“Proponho que escolhamos um dos temas para discutir, a menos que você tenha idéia mais adequada. Gostaria de exprimir-lhe meus agradecimentos pela sua atitude simpática quanto ao meu pensamento e espero com grande interesse sua resposta. "

Tentei dar resposta a essa carta, mas não consegui. Sempre fui péssima missivista. Rascunhei um embrião de resposta que não levei adiante. Ficou esse embrião, dois breves parágrafos sem data, que eu também guardei:

"Prezado Flusser. Desculpe esta imperdoável demora para responder sua carta. Certas agitações, tais como congressos, pequenas viagens, desviaram-me do plano de lhe escrever imediatamente. Depois quis reler Pós-História e Natural:mente, antes de trocarmos palavras. Lisonjia a mim muito a sua iniciativa de escrever e trocar idéias. Sinto-me, porém, tímida. Seu pensamento é tão propriamente seu e o meu ainda tão filiado. Tenho muito para receber e pouco para dar nesse espaço de troca que você me propõe."

Só hoje posso compreender que deixei de me corresponder com Flusser muito mais por timidez diante de temas sobre os quais tinha tão pouco domínio do que por minha inapetência para escrever cartas (Continuo até hoje, inclusive por e-mails, não me corrijo!). Só hoje posso compreender que ainda levaria alguns anos para que eu começasse a me dar conta da importância e do caráter antecipatório das questões a que Flusser se mantinha fiel (eu tinha posto aqui “estava engajado”, mas corrigi porque ele faz a crítica dessa palavra “engajado”), já em 1983. Fidelidade no sentido que ele lhe dava, de “livre escolha do destino, amor fati. Fidelidade como fundamento da liberdade”.(Flusser 1983: 156).

No ano seguinte, 1984, li e reli, com interesse renovado, o xerox que algum aluno, não posso me recordar quem, fez chegar às minhas mãos, das apostilas de Flusser sobre “Cultura alfabética”, “Crise da cultura alfabética”, “Revoluções anti-alfabéticas”, “Cultura imaterial”.

Em 1985, já bastante envolvida em leituras e pesquisas sobre linguagem visual, imagem, fotografia, vídeo etc, devorei com muita avidez tanto o livro Filosofia da Caixa Preta (Flusser: 1985), quanto as cópias xerox das conferências proferidas por Flusser na 18a. Bienal Internacional de São Paulo: “O homem enquanto artifício”, “A vida enquanto artefato” e “A artimanha da vida humana”.

Ainda em 1985, escrevi meu primeiro artigo sobre pós-modernidade, sob o título de “Pós-modernidade: alguns pingos nos is”, depois publicado em meu livro Cultura das Mídias (Santaella 1992-1996). Esse artigo inclui um levantamento dos trabalhos pioneiros que apareceram no Brasil sobre o tema. Entre eles, está incluído o livro Pós-História, de Flusser.

Em 1997, muitos anos depois, fiz amplo uso da Filosofia da Caixa Preta no meu artigo sobre “Fotografia entre a morte e a eternidade”, incluído no livro Imagem, que escrevi em co-autoria com Winfried Nöth (1998).

Embora esses fossem os limites do meu conhecimento da obra de Flusser até o momento em que fui convidada para participar deste evento, aceitei imediatamente o convite, visto que tenho plena convicção de que, em um nível muito profundo, nos fisgamentos do inconsciente, lá onde operam as afinidades eletivas mais inadvertidas e persistentes, porque pouco conscientes, meu pensamento foi e está profundamente marcado pelas idéias de Vilém Flusser.

A psicanálise nos ensina que toda significação vem sempre après coup. Toda significação é ressignificação. O olhar retrospectivo que este evento me fez lançar sobre a obra de Flusser parece ter me levado a uma ressignificação. De fato, só agora fui capaz de perceber o caráter altamente antecipatório dessa obra. Há pelo menos duas décadas, Flusser estava antecipando aqueles que seriam os grandes temas e debates deste final de milênio. Esses temas podem ser agrupados em três núcleos: (1) Flusser como pensador da pós-modernidade, (2) a proeminência da tecnologia comunicacional para a reflexão antropo-filosófica, (3) a fotografia como paradigma, mãe de todas as coisas, modelo pós-industrial de todos os aparelhos.

1.       Flusser como pensador da pós-modernidade.

Embora tenha começado a aparecer já nos anos 70, o debate sobre pós-moderno e pós-modernidade só levantou fervura em nível internacional, e também no Brasil, por volta de 1985. Antes disso, nos primeiros anos da década de 80, Flusser já tratava questões candentes da pós-modernidade com a intimidade de um conhecedor (embora ele não tivesse usado nomes, as questões que ele estava tratando são as questões que foram depois debatidas pelos teóricos e ensaístas da pós-modernidade). Pós-história, sociedade pós-industrial, nomadismo, antropologia do cotidiano são tópicos recorrentes em seus escritos. O fator mais importante, contudo, não está apenas no caráter antecipatório com que tratou desses temas, mas no tratamento específico que deu a eles.

Além da dificuldade até hoje persistente de se definir a pós-modernidade com precisão (Fedeston diz que é até irritante essa dificuldade), além das acusações de modismo fútil e passageiro com que foi fartamente atacada, um dos aspectos mais fundamentais do debate sobre o pós-moderno, principalmente na segunda metade da década de 80, estava no caráter dicotômico, quase maniqueísta, das posições ocupadas pelos debatedores: de um lado, aqueles que defendiam convictamente o advento da pós-modernidade, de outro, aqueles que a negavam peremptoriamente, reputando sua existência à mera imaginação de intelectuais ávidos por novidades. Em contraste com essa dicotomia, o pensamento de Flusser, lúcido, certeiro e muito enxuto, em nenhum momento descarrilhou para quaisquer desses dois lados. Aliás, sequer se preocupou com o debate em si, mantendo sempre a posição mais complexa e serena, a posição intermediária entre os extremos. Além de intermediária, trata-se de uma posição personalíssima, sui-generis.

Pós-história para Flusser, num sentido político, por exemplo, não significa simplesmente o fim da história como muitos preconizaram, mas fora da história do Ocidente. Recusa de sua história depois de Auschwitz. Em um sentido semiótico-tradutório, se história significa a tradução linearmente progressiva de idéias em conceitos, ou de imagens em textos, pós-história significa o processo circular que retraduz textos em imagens.

Pós-industrial quer significar as sociedades nas quais a maioria trabalha no setor terciário, isto é, setor de funcionários administrativos, serviços e white collars. O funcionário recebe símbolos, armazena símbolos, produz símbolos, e emite símbolos. Sua praxis se dá em contexto chamado “mundo codificado”. Isto parece indicar, nos dizia Flusser, que a sociedade pós-industrial será burocrática, sociedade na qual o funcionário domina. Mas tudo indica que isto é erro. A resposta que Flusser deu a esse erro é, como a maioria de suas respostas, perturbadoramente lúcida: “Onde há burocracia, a sociedade pós-industrial ainda não está bem programada”. Os programadores são homens novos que ainda não conscientizaram plenamente a ontologia que os sustenta, ontologia na qual eles próprios são programados para programarem. O que urge atualmente é repensarmos o significado do termo teoria no novo contexto. Na sociedade pós-industrial, teoria será muito provavelmente estratégia de jogos (Flusser 1983: 37-39).

Os exemplos acima do entendimento que Flusser deu a esses conceitos são bastante significativos para se medir o teor de originalidade e antecipação de seu pensamento. Entretanto, mais importante do que o entendimento que Flusser nos legou desses conceitos é o fato de que ele não foi apenas um pensador da pós-modernidade, mas encarnou o espírito do pós-moderno na. própria existência, o que se evidencia nos temas de que tratou nas letras, incorporando-os na própria vida: o nomadismo, a alteridade, a filosofia do cotidiano, das coisas que nos cercam. Jornalista filósofo, praticou a filosofia sob enfoque comunicacional, consciente da impossibilidade de se filosofar à margem da cultura de massa, à revelia dos motores da técnica.

2. A tecnologia comunicacional e a reflexão antropo-filosófica

A maioria dos teóricos das tecnologias comunicacionais está hoje aninhada em dois grupos distintos e extremos: de um lado, os apocalípticos, apregoando a dissolução tecnológica de todos os valores; de outro lado, os eufóricos deslumbrados com as promessas salvacionistas da tecnologia.

Abdicando das grandes narrativas legitimadoras, sem cair no relativismo e na atomização do pensamento, a posição antropo-filosófica assumida por Flusser diante das tecnologias comunicacionais é mais uma vez perturbadoramente original, perturbação que advém quando não se é capaz de extrair o sentido expresso em seu louvor da superficialidade (muito semelhante ao de Valéry, quando Valéry dizia “Na arte e no amor, o mais profundo é a pele”). Não a superficialidade tal como é entendida no senso comum, mas a superficialidade própria do olhar que varre a superfície da imagem, de que a escrita é uma transformação, para ser novamente engolida pela proeminência das imagens técnicas até encontrar o equilíbrio das trocas e intercâmbios no hibridismo das novas figurações hipermidiáticas, hibridismo que Flusser já estava antevendo, quando o destino cortou a linha de sua vida.

Enquanto alguns perderam o fio da continuidade das tecnologias na passagem da escrita para a imagem, como é o caso de Paul Virilio, e outros elaboram sínteses facilitadoras, como é o caso de Pierre Lévy, Flusser nos legou um intrincado diagrama conceitual apto a funcionar como uma máquina para pensar. A síntese que Stefania Bril (1984: 12) nos oferece do diagrama histórico conceitual formulado por Flusser é muito elucidativa.

Desde dois milênios A.C. o homem construiu em sua volta um mundo imagético, “mágico”, um mundo idolatrado. Para desalienar-se dessa idolatria, “o ser humano começou a arrancar os elementos da imagem e a alinhá-los em seqüências (ao invés de ele ver a imagem separada da escrita, ele vê exatamente essa linha de continuidade entre elas). É a invenção da escrita, para “explicar” as imagens. A dialética entre texto e imagem servirá de mola propulsora para a história do mundo ocidental. A sociedade ocidental será dividida em duas camadas: a dos letrados (sacerdotes), a se comunicarem com o mundo através dos textos, e a dos iletrados-pagãos, a continuarem o seu relacionamento com o mundo através das imagens. Mas, ao mesmo tempo, através da dialética interna, as ideologias textuais se paganizam, tornando-se imaginárias, e a camada popular se historiciza, as imagens adquirindo significados.

“Essa dialética entre texto e imagem sofreu duas modificações. A primeira seria a invenção da imprensa. Os textos se tornam mais baratos e de privilégio sacerdotal passam a ser propriedade da burguesia. Ao mesmo tempo, as imagens são expulsas do cotidiano burguês para encontrarem moradia dentro dos ghettos glorificados, os museus. Surge um fosso, entre arte e técnica. De um lado, a técnica, a produzir objetos bons para algo; de outro, a arte a produzir objetos belos, que não servem para nada. E o artista, considerado “inspirado”, portanto inútil, é glorificado.

“O segundo momento decisivo seria a introdução da escola obrigatória. O texto se torna um código universal e ao mesmo tempo vulgar. De modo paralelo aparecem os textos inimagináveis, sobretudo os científicos.

“Depois do período da idolatria nasce a textolatria. O mundo começa a viver em função dos textos. Para combatê-la (de maneira inconsciente) surgem as tecno-imagens. A fotografia é para o texto o que era o texto para a imagem tradicional. Teria por intenção tornar o texto imaginável e permitir a volta da imagem na vida cotidiana. Mas essa ilustração dos textos pela imagem seria a verdadeira intenção do fotógrafo? Não conscientemente. Subjacentemente apenas. Aliás, a intenção falhou porque a imagem, rica em informações, rica em mensagens não ilustra; ela se sobrepõe ao texto por causa da magia. A nossa capacidade crítica é de tal forma enfraquecida pela imagem que, na dúvida, entre a imagem e o texto, o público já acreditou na imagem. Não no nível dos artistas, nem dos críticos capazes de mobilizar as faculdades críticas, mas no nível social a imagem se sobrepõe ao texto, que passa a ser mero suporte de imagem”.

Entretanto, para além dessa dialética entre texto e imagem, desde os anos 70 Flusser já antecipava a cultura imaterial, a imaterialidade simbólica, dos algoritmos, o mundo codificado da realidade virtual. Infelizmente, deixou de testemunhar o advento do hipertexto e hipermídia, assim como deixou de assistir à explosão da internet de que seria certamente um usuário e um dos melhores teóricos.

3. Fotografia como modelo pós-industrial de todos os aparelhos

A visão ontológica da fotografia como paradigma de todos os tipos e formas de aparelhos é sem dúvida o aspecto de maior originalidade do pensamento de Flusser. É essa visão paradigmática justamente que lhe permitiu integrar numa mesma unidade teórica, filosófica e crítica desde os gigantescos aparelhos administrativos e os aparelhos cibernéticos até os minúsculos chips.

Enfim, muito longe da ingenuidade laudatória ou do niilismo apocalíptico, o pensamento de Flusser soube ocupar a zona intersticial da lucidez alerta e até ferina, sem abdicar da fé, mesmo que irônica, no surgimento de um novo homem. Recorro às palavras de Flusser ele mesmo, na última página de seu Pós-História, para dar testemunho dessa fé.

"O que estamos presenciando é a alienação derradeira da sociedade toda. Loucura coletiva, inclusive no significado psiquiátrico do termo. É loucura acompanhada de estupidez galopante. Por certo: não podemos ’superar’ tal estupidez louca: somos, todos, vítimas. Mas podemos diagnosticá-la, sobretudo em nós mesmos. E tal diagnóstico exige ironia crítica quanto a nós mesmos, distanciamento de si próprio, que cada qual é obrigado a efetuar por si próprio, na solidão de um ensimesmamento que perfura o ‘si mesmo’. Não vejo outro método que possa reconstituir base para atitudes humanas futuras, quaisquer que sejam. Que possa re-inverter os vetores de significado de mundo codificado que está se estabelecendo. Que possa dar significado ao absurdo que somos. Primeiro ao absurdo próprio e depois, publicando, contribuir para dar significado ao nosso estar para o outro. Não vejo outra atitude política na situação que nós é ‘dada’.

“A pós-história está raiando. Está raiando em duas formas: na da estupidez dos aparelhos programadores, e na forma da estupidez dos bárbaros destruidores de aparelhos. Mas, em meio de tal maré de alienação desenfreada, continuamos abertos para a realidade concreta, a qual vivenciamos, atualmente, sob a forma de solidão para a morte. Não apenas sob forma de nossa própria solidão para a morte, mas, através dessa, sob forma de solidão para a morte do outro. A despeito da maré que nos cerca, e que vai engolindo-nos, estamos abertos para tal reconhecimento de nós próprios no outro. Não mais, por certo, na sociedade, mas na solidão do ensimesmamento. Somos, em tal sentido, duplamente negativo, abertos para o amor, que omnia vincit. Por certo: somos programados para sermos homines ludentes. Mas isso não significa necessariamente sermos programados apenas para sermos funcionários robotizados, objetos. Podemos, igualmente, ser jogadores que jogam em função do outro. Destarte, podemos de rôbos passar a ser novamente ‘imagens de Deus’, pela porta de serviço. Romper a simbolização alienada e retornar à experiência concreta da própria morte no outro. Retornar, em suma, para sermos homens.”

 

 

 

* Lúcia Santaella: Professora Titular da PUC/SP e professora Adjunta da USP. Doutora em Teoria Literária na PUC-SP, e Livre-Docente em Ciências da Comunicação pela ECA-USP. De 1987 a 1995, coordenou o Programa de Pós-Graduação em Comunicação e Semiótica, mestrado e doutorado, da PUC-SP. Desde 1995, coordena o doutorado e pós-doutorado em Comunicação e Semiótica da PUC-SP. No primeiro semestre de 1987 foi professora convidada pelo DAAD na Universidade Livre de Berlim, desenvolvendo pesquisa sobre Cultura e Meios de Comunicação. Publicou, entre outros, os livros: Produção de Linguagem e Ideologia (Cortez, 1980, 1996), Arte e Cultura: equívocos do elitismo (Cortez, 1982), O que é Semiótica (Brasiliense, 1983-1994), Convergências: Poesia Concreta e Tropicalismo (Nobel, 1986), A Assinatura das Coisas, Peirce e a Literatura (Imago, 1992), A Percepção: Uma Teoria Semiótica (Experimento, 1993), Semiose e Autogeração: A Teoria Geral dos Signos (Ática, 1995) e Imagem, em co-autoria com Winfried Nöth (Iluminuras, 1998). Texto publicado no volume Vilém Flusser no Brasil, organizado por Ricardo Mendes & Gustavo Bernardo em 1999.