DUBITO ERGO SUM

 Vilém Flusser

PRÓXIMO AO DESEJO DO CORAÇÃO

Klaus Sander *

 

Tradução simultânea:

George Sperber e Peter Naumann

Compilação das palestras no RJ e SP:

Ricardo Mendes

 

Em primeiro lugar quero agradecer o convite, sobretudo agradecer a Ricardo Mendes, pela sua coragem e seu engajamento para levar avante esse evento, para que as diferentes gerações de pessoas interessadas em Flusser no Brasil se encontrem, pelo que eu saiba, pela primeira vez, e ao mesmo tempo permitindo um intercâmbio que durante muito tempo não ocorreu e que talvez, agora, possa ter sido iniciado através desses encontros de intercâmbio entre Brasil e Europa, no que se refere a Vilém Flusser.

Também quero agradecer a Gustavo Bernardo, ao convite do Instituto Goethe, e aos intérpretes pelo excelente trabalho realizado até agora e no futuro, pois sem eles eu não teria entendido uma palavra e imagino que a maioria de vocês também não entenderia nada do que eu estou dizendo. Também quero agradecer as contribuições feitas até agora, hoje cedo, e as que virão.

Bem, eu estou aqui sentado embora a minha contribuição propriamente dita para este encontro se encontre na recepção, no hall desse auditório, numa instalação de seis monitores que funcionam simultaneamente com seis videocassetes e fones de ouvido. Eu tenho o seguinte problema: naturalmente, essa instalação, a produção, a seleção e a produção do material é feito de um ponto de vista especificamente europeu e eu, na verdade, esperava que o Andreas Müller-Pohle já tivesse falado alguma coisa sobre o trabalho e a recepção de Vilém Flusser na Europa. Infelizmente isso não aconteceu porque o senhor Müller-Pohle não pôde vir e falta justamente um background para minha contribuição audiovisual para esse encontro. Por isso eu tenho que falar sobre alguns pontos que eu não tinha previsto.

Trata-se de algumas anotações escritas às pressas e que eu vou passar a esboçar brevemente antes de entrar mais pormenorizadamente na estrutura da instalação e do trabalho de vídeo com ele relacionado. Sobretudo parece-me importante mencionar que toda vez que aqui se falar da Europa, ou de um ponto de vista especificamente europeu, na maior parte dos casos estaremos nos referindo ao território de fala alemã. A presença de Flusser na região de fala alemã na Europa é muito maior do que no resto da Europa. Isso surgiu na verdade devido ao desejo de Flusser, que sempre tentou publicar na Alemanha. Isto vale tanto para artigos em jornais quanto para livros. Já na década de 50, mas sobretudo durante todo o tempo até o seu retorno à Europa, ele tinha o desejo de estar presente nos círculos culturais da língua alemã, o que era uma coisa bastante difícil a partir do Brasil, e raramente ele conseguiu fazê-lo. Apenas muito tarde esse desejo se cumpriu; em 1983, Flusser publicou o seu primeiro livro na Alemanha. Até ali, muitos manuscritos estavam disponíveis em diferentes editoras, mas não encontravam ressonância. Mais tarde, o panorama mudou radicalmente: sobretudo de forma póstuma foram feitas publicações de vários dos seus volumes e de coleções dos seus ensaios. Essa onda de publicações ainda não se encerrou.

No início da década de 70 Flusser voltou para a Europa, morou na França e deu aulas em várias universidades e escolas superiores de arte, participando muito da vida cultural daquele país. Ele até mesmo começou a escrever os seus manuscritos não apenas em português, alemão e inglês, mas também em francês; mesmo assim ele não conseguiu publicar regularmente na França, encontrar reconhecimento, e um reconhecimento pelo menos comparável com aquele que o seu trabalho encontrou na Alemanha. No final da década de 80 e começo da década de 90, houve um interesse crescente pela obra de Flusser nos países da Europa Oriental. Interesse que está vivo até hoje e que está ainda em crescimento. Esse interesse se devia sobretudo também a motivos financeiros, e levou só postumamente a maiores publicações.

Talvez uma breve biografia: eu conheci Flusser relativamente tarde, durante o seu último ano de vida, 1991, quando ele foi professor convidado na Universidade de Bochum. Flusser apresentou três seminários e o considerou como um experimento. O tema era teoria da comunicação, um campo importante do ensino de Flusser no Brasil, vinte anos antes, e também no sul da França, uma década antes. Flusser queria testar em que medida seus modelos então desenvolvidos ainda eram aplicáveis. Queria verificá-los com fenômenos da década de 90. De maneira rara para ele, ministrou o seu seminário sem ter um manuscrito preparado. Provavelmente foi falta de tempo o que o levou a isto, porque Flusser, como eu soube depois através do meu trabalho intenso com sua obra, via de regra se preparava muito cuidadosamente para qualquer aparição em público, tendo sempre um manuscrito preparado – ao qual, aliás, não recorria na maior parte dos casos, improvisando as suas conferências. Mas ele sempre tinha preparado por escrito as suas aparições em público.

Mas esse cargo de docente organizou-se em pouco tempo, graças ao professor Frederich Kitler, um teórico literário, um teórico da mídia muito conhecido na Alemanha. Justamente, essa situação de conferências desenvolvidas ad hoc era fascinante. A sua presença era impressionante. Improvisando livremente, ele desenvolvia modelos, modificava-os, baseados na pura memória. Pensava ao mesmo tempo que falava, o que tinha como conseqüência que o sistema começava a rodar. De repente, a linha de argumentação virava e o seminário enveredava para uma direção distinta. Esse modo era surpreendente, fascinante e animador. Mais tarde eu constatei que essa fabricação, essa elaboração paulatina do pensamento durante a fala, não era uma coisa típica, mas um ponto central de partida para a construção de sua obra, não apenas para as suas obras publicadas e obras póstumas não publicadas, os ensaios e artigos, mas também para os registros, as palestras, os diálogos, a sua presença física e mental, espiritual. Flusser pensava no ritmo de sua fala, ele produzia os pensamentos durante a sua fala, fosse numa conferência ou num diálogo.

Devido ao meu trabalho com o espólio de Vilém Flusser, eu acredito que a sua atividade de escritor era algo semelhante. Por isso, também, o ensaio era a forma mais adequada para os seus textos. O ritmo de sua fala, um ritmo muito rápido de fôlego curto, representa-se, de novo, nos seus ensaios. Flusser produzia seus pensamentos enquanto escrevia, pensava enquanto escrevia. Usava a máquina de escrever mecânica, assim como se apoiava em uma auto-disciplina incrível. Cada artigo era escrito coerentemente até o fim; praticamente não há correções, nem complementações. Essa forma de escrever, sobretudo com uma máquina de escrever mecânica, me parece muito importante neste caso, porque certamente não teria sido possível escrever tais textos num computador. E eu acho que isso se faz sentir no discurso dos seus ensaios e textos, que foram escritos numa máquina de escrever mecânica e não num computador. Flusser estava plenamente consciente disso e utilizava-o como método. Ele redigia um artigo, em geral com vistas a uma publicação ou a uma conferência, ou a uma correspondência, o seu novo projeto que ele queria transmitir a muitos amigos no Brasil, escrevia um artigo sobre um determinado tema, depois de encerrado ele reescrevia numa outra língua, e isto acontecia em geral muito rapidamente. Os textos de sua autoria, a gente percebe, foram escritos com muita rapidez; freqüentemente, surgindo em um mesmo dia. E freqüentemente logo após ele começava a reescrever o mesmo tema numa outra língua. Tinha a intenção de comunicá-los a terceiros ou de publicá-los, mas também fazia isso como método para se manter vivo e experimentar os seus próprios pensamentos numa nova língua. Assim, os testava, os colocava à prova. Pela reescritura e pela escritura numa outra língua, freqüentemente o ponto de vista mudava. Havia um deslocamento do ponto de vista e o artigo ia para um outro caminho; entrava então uma terceira língua, para ele que escrevia seus textos em português e alemão, em geral o inglês, depois o francês e/ou uma retradução, ou seja, uma segunda versão na língua utilizada originalmente. Essa forma de escrever a respeito de um tema, utilizando como método consciente o brincar consigo mesmo, com os pensamentos, mudá-los, pela mudança de língua, o processo de escrever e traduzir, retraduzir, esse jogo, Flusser o fazia em quatro línguas: português, alemão, inglês e francês. E ele utilizava cada uma das línguas conscientemente porque ele tinha clareza de que cada língua muda os pensamentos, que os pensamentos são formulados de forma diferente em cada uma das línguas.

Reuni entrevistas com Vilém Flusser – Zwiegespräche: Interviews 1967-1991. Göttingen: European Photography, 1996. – que permitem um panorama de alguns diálogos escolhidos que ocorreram no Brasil e depois na Europa. Nesse trabalho fiquei insatisfeito com a insuficiência de muitas transcrições e procurei receber dos entrevistadores as fitas originais das entrevistas. Aí eu notei que uma transcrição nunca poderia transmitir a presença vocal, a forma de falar do Flusser. E propus ao editor que, junto com a edição do livro, fosse produzido um CD para que os interessados, os leitores interessados, sobretudo das gerações mais novas, que só tinham textos de Flusser à sua disposição, que não puderam ouvi-lo ao vivo, tivessem uma idéia aproximada da sua forma de falar. Como por motivos financeiros essa proposta não foi aceita, eu me decidi rapidamente a produzir o CD por minha conta - Die Informationsgesellschaft: Phantom oder Realität. Köln: Supposé, 1991, sobre palestra apresentada em 23.11.91 no CULTEC-Kongress em Essen (AL) - "Kultur und Technik im 21 Jahrhundert". O CD tem 45 minutos.

Esse tema, das variações e das versões, acho que é o aspecto central e digno de reflexão quando nos deparamos com os escritos de Flusser. A sua obra escrita também pode ser entendida como uma continuidade do jogo de variações e versões.

Ouvimos a palestra em vídeo do professor Arlindo Machado, que no início faz uma comparação entre a versão alemã da Filosofia da Fotografia e a tradução brasileira, que se chama Filosofia da Caixa Preta. Acho que é um exemplo muito típico para Flusser que a versão alemã do texto tenha sido publicada primeiro, e a versão brasileira tenha derivado dela. E Machado pleiteou que as traduções posteriores usassem como base a versão em português. Mas, além de ser uma versão portuguesa, ela é também um outro processo desse jogo de variações e versões, porque aqui já se dá um passo adiante: ele não está mais no estágio em que ele estava quando escreveu a versão alemã da Filosofia da Fotografia, mas já está numa fase em que ensaia ampliar esse tema para o campo específico das imagens técnicas; naquela época ele decidiu o título definitivo do Universo das Imagens Técnicas - Ins Universum der technischen Bilder. Göttingen: European Photography, 1985 -, texto que ainda não foi traduzido para o português, infelizmente. Ele foi escrito em 1984, muito antes da popularização da Internet, mas, retrospectivamente, pode ser entendido como uma filosofia da Internet. Por esse motivo também não se pode falar numa versão definitiva do texto, como Machado fez na sua palestra, mas muito mais no processo de escrita contínua, no processo de pensamento e de devir constante dos textos, ao longo do tempo.

Vejamos agora a instalação que está no hall deste auditório; aqui se trata de material filmado sem edição, sem montagem, documentos, material de arquivo. Ou seja, um trabalho em vídeo que eu fiz junto com Anja Theisman, a partir de 1995, e que naturalmente é um work in progress, uma obra aberta, e esta instalação se mostra pela primeira vez em público. E, na verdade, tenta ser uma espécie de relatório provisório.

O trabalho em vídeo entende-se, por um lado, como uma procura de pegadas, de traços, mas por outro lado também é uma tentativa de acompanhar essas pegadas, esses traços. O título é nearer to the heart’s desire - pre-remix 2 (Próximo ao Desejo do Coração) e refere-se a uma citação que Flusser usava freqüentemente nas suas conferências, e que vem do Rubayat, de Omar Khayyám. Trata-se de uma estrofe que eu poderia citar agora, vamos ver se eu lembro: “Alá, poderíamos tu e eu conspirar com fé para sentir as coisas como um todo. Será que não vamos nos desfazer em pedaços e depois remoldar-nos próximos ao desejo do coração?”.

Lá fora temos 6 monitores; cada um deles mostra uma palavra-chave, tenta representar uma palavra-chave da obra de Vilém Flusser. O trabalho todo é uma espécie de olhar caleidoscópico e trata de apenas seis temas ou palavras-chaves escolhidas adrede.

O primeiro monitor tem o título Flussers Prager Pfad (Caminhos de Flusser em Praga, 149 minutos), tem Praga como tema e está composto de matéria prima em imagens que gravamos em 1997, em Praga. Na edição alemã da autobiografia de Vilém Flusser - Bodenlos: eine philosophische Autobiographie. Düsseldorf/Bensheim: Ed. Bollmann, 1992 - que ele escreveu no início da década de 70, logo depois que voltou para a Europa, para França, mas que só foi publicada postumamente, complementada com alguns outros ensaios biográficos, como por exemplo o ensaio Mein Prager Pfad (Minha Vereda Praguense), que fala das impressões de Flusser quando voltou pela primeira vez à sua cidade natal, Praga. Ele vai à procura de suas próprias pegadas, de seus próprios traços, e escreve esse ensaio baseado na lembrança e na tentativa de percorrer novamente o caminho entre sua casa e a escola, na sua infância. Fizemos uma coisa semelhante. Percorremos, juntos com Edith Flusser, o caminho de sua casa até a escola, da fábrica que tinha sido de seu avô, passando pelo lugar do primeiro encontro entre eles, passando pela Faculdade de Filosofia até a sua escola, o seu ginásio, e depois o cemitério judeu.

Depois de minha conferência, vou fazer uma apresentação para mostrar quais locais em que isto ocorreu. E quem estiver interessado poderá fazer um rewind ou forward nos aparelhos de vídeo. E, se se interessar por algum material, poderá pegar os fones de ouvido e trabalhar sozinho com o material. Ao todo, temos quinze horas gravadas, portanto há bastante para todos, ninguém vai ter a possibilidade de ver tudo e isso também não é a nossa intenção.

O segundo monitor tem como tema a França (281 minutos). Suas partes são: “Territoire du M2 - zu Gast bei Fred Forest in Anserville” (Território do M2 - na casa de Fred Forest em Anserville); “Vampyroteuthis infernalis et le poisson electrique – zu Gast bei Louis Bec in Sourges” (Vampyroteuthis infernalis e o peixe elétrico - na casa de Louis Bec em Sourges); “A vendre - zu Gast bei Flussers in Robion” (À venda - na casa de Flusser em Robion). Trata-se também de material não editado, de setembro de 1996, que foi a época em que gravamos a maior parte, está falado em francês, com tradução parcial em alemão, e divide-se em três partes. A primeira parte mostra “o território do metro quadrado”, quando nos tornamos hóspedes de Fred Forest - é uma visita ao artista de vídeo Fred Forest, com quem Flusser trabalhou... não se pode dizer cooperou, mas enfim, com quem teve uma amizade bastante estreita no início de sua estada na França, o que foi muito frutífero para ambas as partes. Forest recebeu muitas inspirações de Flusser e as integrou no seu trabalho, e vice-versa: Flusser, através do trabalho de Fred Forest com o vídeo, confrontou-se pela primeira vez com o vídeo e começou a pensar a respeito disso, sobretudo no seu livro Gesten (Os gestos) - Gesten: Versuch einer Phänomenologie. Düsseldorf: Bollmann, 1991 - ele falou sobre isso, porque Gesten era também um tema de conferências que Flusser fez em Aix-en-Provence e noutras cidades da França.

A segunda parte tem o título provisório de Vampyroteuthis Infernalis e o Peixe Elétrico, quando nos tornamos hóspedes de Louis Bec. Louis Bec é um segundo e muito importante interlocutor de Vilém Flusser na França. O livro que Maria Lília mencionou - Vampyroteuthis Infernalis: eine Abhandlung samt Befund des Institut Scientifique de Recherche Paranaturaliste. Göttingen: Immatriz Publications, 1987 - surgiu como co-autoria, o que na verdade não é muito correto, porque Vilém Flusser já havia escrito esse manuscrito anos antes e, neste contra-projeto de uma antropologia do ser humano, neste projeto ficcional e animalesco, neste anti-projeto, ele pegou o seu trabalho de filosofia ficcional, de ficção filosófica, e o reconheceu nos trabalhos de Louis Bec.

Louis Bec trabalhou na França com seres vivos artificiais, inicialmente com esculturas gigantescas em enxofre, antes de se dedicar à vida artificial no computador. E hoje ele se ocupa com peixes elétricos, poraquês, hoje ele faz experimentos com a comunicação dos peixes elétricos entre si. Louis Bec nos relatou o trabalho em conjunto com Flusser, sobre a influência recíproca de um no outro. E, com relação à publicação em livro, Bec deixou-se inspirar por narrativas de Flusser, para desenvolver e esboçar seres vivos para-naturais. Louis Bec, no decurso de mais de trinta anos, desenvolvera uma espécie de para-biologia, de biologia paralela que, com inacreditável minúcia, minudência e pseudo-cientificidade e espírito lúdico, concebeu, por assim dizer, um sub-ramo da biologia, correspondendo de perto às atividades teóricas e filosóficas de Flusser. Vampyroteuthis Infernalis talvez possa ser compreendido como uma realização dos pequenos esboços que agora foram publicados no Brasil, ou daquelas colunas publicadas no Posto Zero, da Folha de São Paulo.

Na Alemanha foi publicado um segundo livro, depois de Vampyroteuthis Infernalis, - Angenommen (“Supondo que”) - Angenommen: eine Szenenfolge. Edition Immatrix/European Photography, 1989. São vinte cenários do futuro que Flusser projeta e onde ele opera conscientemente com o conceito da ficção filosófica. É um livro que praticamente foi ignorado pela opinião pública, ele praticamente não encontrou recepção. Esse livro e Vampyroteuthis Infernalis são os livros menos vendidos na Alemanha, e isso é um fato a ser muito lastimado.

A terceira parte se chama A vendre, na casa de Vilém Flusser, em Robion. Aqui nós vemos a casa vazia de Flusser, que na época já tinha sido colocada à venda: uma semana mais tarde ela foi comprada. Nós ficamos lá e nesse vídeo mostramos apenas alguns takes dessa casa.

O terceiro monitor, o terceiro complexo que deveria ser esboçado, ocupa-se com o Brasil. Evidentemente, é uma coisa muito problemática. É interessante se saber de onde vem Flusser e a primeira idéia que nós tivemos foi a seguinte: deixar esse monitor sem atividade, porque nós só conseguimos informações muito vagas e o conhecimento dos primeiros textos em português de Flusser também é muito reduzido a poucas pessoas. As pessoas que estudam Flusser quase sempre não sabem falar português. Edith Flusser está muito empenhada em mandar traduzir textos de Flusser escritos em português para o alemão, mas até agora muito pouco foi escrito. Eu antes tinha dito que Flusser escrevia paralelamente em português e alemão. Muitos dos artigos da primeira fase, feitos no fim dos anos 50 e em todos os anos 60, não são mais acessíveis no Arquivo Flusser e provavelmente se perderam. Isso se deve ao fato de que Flusser em todos esses anos e em todas essas décadas sempre escreveu usando a máquina de escrever. Há sempre só dois exemplares de um texto original e uma cópia carbono. O original quase sempre foi enviado ao editor, no caso as redações de jornais, e a cópia carbono amigavelmente presenteada por Flusser a alguém. Muitos textos foram enviados a redações de jornais alemães, a editoras alemãs, textos escritos no Brasil; por esta razão muitos desses primeiros textos somente existem em português, embora na correspondência se possa verificar que esses textos também existem, ou existiram, em versões alemãs.

Bem, como já foi dito, a idéia sobre a atuação de Flusser no Brasil, abstraindo-se da sua própria autobiografia, Bodenlos, é uma idéia muito vaga, de sorte que nós só conseguimos fazer uma colagem de imagens, baseada num manuscrito de Flusser. O título é São Paulo Visto de Cima. O material de imagens do monitor três é constituído por essa colagem, trata-se de uma colagem em vídeo, que opera com determinadas palavras-chave. Na trilha sonora colocamos uma palestra que Flusser proferiu em São Paulo, num seminário dedicado ao título Pós-Historicismo - provavelmente, referência ao ciclo de debates durante o lançamento do livro Pós-história (Duas Cidades), realizado no MASP em 1983.

O quarto monitor está intitulado Discurso e contém exclusivamente materiais do Arquivo. Ele exibe Vilém Flusser na sua condição de professor, palestrante, orador. Também aqui estão representadas três situações. A primeira palestra em francês intitula-se L’Oeuvre e foi escrita em 1970 na École d’Art em Aix-en-Provence. Trata-se de uma palestra de um curso sobre psicofenomenologia dos gestos humanos. Eu acho que na Alemanha isso foi publicado em 1990, 1991, e entrementes esse texto também existe numa tradução para o espanhol - Los gestos, fenomenologia y comunicación. Barcelona: Editoral Herder, 1994. A segunda palestra mais extensa foi feita em meio a uma entrevista do fotógrafo Angel Schwarz, na varanda, em Robion, e é uma palestra ad hoc sobre a filosofia na fotografia. A terceira palestra, o terceiro segmento de palestra é um segmento de 30 minutos do último seminário de Flusser, realizado em Ruhr, na Universidade de Bochum, no verão europeu de 1991 sobre a teoria da comunicação. E até agora esse texto, infelizmente, não pôde ser publicado porque as gravações do material foram insuficientes, incompletas, e, como já disse antes, não havia registros escritos anteriores a essa conferência. Isso é uma lástima porque esse curso deve ser interpretado como uma espécie de legado do último grande trabalho de Flusser, e mereceria publicação.

O quinto monitor tem como keyword, a palavra-chave, a palavra arquivo, e aqui se trata de problemas da tradução, de Edith Flusser e o espólio do seu marido. Ele mostra Edith Flusser trabalhando no Arquivo Flusser. As tomadas são de março a maio de 1996, quando o Arquivo ainda estava sediado em Munique; hoje ele está em Colônia, na Escola Superior de Mídia. Inicialmente ele foi colocado em Haia e até setembro do ano passado esse arquivo estava sediado em Munique e sua construção se deveu praticamente a uma iniciativa particular de Edith Flusser. Podemos ver então, no quinto monitor, Edith Flusser no seu trabalho diuturno, em cima dos manuscritos do seu falecido esposo, sobretudo na tradução de manuscritos escritos em português para o alemão. Podemos ver também aqui alguns trechos de diálogo sobre os problemas da tradução, não só da praxis cotidiana de tradução de Edith Flusser, mas também do tema da tradução na obra de Vilém Flusser, do qual eu já tinha falado rapidamente, a tradução como um método consciente do processo de pensamento, do raciocínio de escrita.

O último monitor intitula-se Projetos e reúne três tratamentos artísticos paradigmáticos com um dos materiais de Vilém Flusser. Também é muito interessante ver a ressonância, a reação que a obra de Flusser encontrou entre os artistas, a inspiração que artistas receberam de seus escritos e não em último lugar também a ressonância, a presença que Flusser causava em muitas academias e escolas de arte, aonde ele fazia palestras. Pode-se ver quão inspiradoras essas palestras e escritos foram para muitos artistas, quantos trabalhos saíram. Nós estamos indicando apenas três casos paradigmáticos. Um com um tratamento bem atual, sobre o título O Texto, no qual montamos fragmentos da escrita de Flusser. Trata-se de um seminário que foi feito na academia de cinema de Baden-Württemberg, na área de produção de filmes, resultado de uma oficina, de um workshop de uma semana, realizado com base em Die Schrift, de Vilém Flusser. O segundo trabalho é um material de uma instalação em vídeo que eu fiz com Anja Theismann – nearer to the heart’s desire, esse foi o título, eu já falei disso antes, para a Academia Evangélica de Tutzing, apresentado em 18 de setembro de 1996, na Academia Evangélica. E nesse vídeo lá fora vocês podem ver apenas as imagens. Quer dizer, fizemos uma projeção com cabines de oradores, cabines de locutores, cabines de intérpretes. O tema foi Realidade e Virtualidade na Esteira de Vilém Flusser. Esse evento dura 22 minutos. O terceiro e último exemplo surgiu como uma apresentação ao vivo na Orangerie, em Kassel, durante uma série de eventos intitulada Fluchlinien der Arbeit (Linhas de Fuga do Trabalho). Trata-se da série Áudio, como a última palestra que Flusser proferiu na Alemanha, sobre o título A Sociedade de Informação: Fantasmagoria ou Realidade; aparece um músico colonense, Thomas Brinkmann, que se sentiu inspirado não para criar fantasmagoria e imitações, mas para desenvolver estruturas musicais, com música eletrônica contemporânea e apresentar isso ao vivo, quer dizer, a voz de Flusser saía da fita, a música foi feita ao vivo em Kassel, o que poucas das muitas pessoas ali presentes compreenderam. Foi fascinante verificar como essas duas trilhas sonoras se condicionaram reciprocamente, a que existiu antes, o que impele, quem e o quê, o gesto da fala, a gestualidade da fala de Flusser. Flusser também exerceu uma marcante influência aqui na música.

Até aqui, fiz a apresentação do material que está exposto na sala lá fora. Como eu já disse, trata-se de um material não editado. Eu vou agora colocar breves listas nos vídeos e quem tiver interesse está desde já convidado para pesquisar nesses vídeos e examinar esse material mais de perto. Muito obrigado pela atenção.

 

 

* Klaus Sander: graduado em Literatura e Ciências da Comunicação. Atua como produtor de vídeo e áudio, e editor free-lancer em Köln (Alemanha). Organizador do Arquivo Flusser, em colaboração com Edith e Miguel Flusser. Coordenador do 2º Simpósio Internacional Vilém Flusser em Antuérpia (Bélgica), em 1993. Editor dos livros Briefe an Bloch, em colaboração com Edith Flusser, e Flusser-Quellen, bibliografia da obra de Flusser, ambos programados na série Edition Flusser, publicada por European Photography. Em 1996, editou o áudio-cd Die Informationsgeselschaft: Phantom oder Realität, última palestra de Flusser na Alemanha. Em 1996 produziu a vídeo instalação nearer to the heart's desire, apresentada no simpósio Total Digital? Realität und Virtualität im Anschluss an Vilém Flusser, realizado em Evangelische Akademi Tutzing (Alemanha). Desenvolve projeto de videobiografia sobre Vilém Flusser. Texto publicado no volume Vilém Flusser no Brasil, organizado por Ricardo Mendes & Gustavo Bernardo em 1999.