DUBITO ERGO SUM

 Vilém Flusser

PRESENÇA DE FLUSSER

Gabriel Borba *

 

Este depoimento foi dado duas vezes, uma em São Paulo, no Instituto Goethe, e outra no Rio de Janeiro, na Universidade Estadual do Rio de Janeiro. Transcrevo, agora, as idéias gerais que me orientaram e o modo como me ocorreram.

Em São Paulo falei depois de um depoimento de Maria Lília, inesperadamente longo, emotivo e detalhado sobre muitas das aventuras intelectuais do Flusser, com quem convivi e trabalhei em um momento que, vejo agora, foi pesadamente marcante. Diante deste quadro de exaustão redobrada – a meu ver a palestra anterior não só exauriu o tema como trouxe recordações há muito sufocadas – e da impossibilidade de adiar minha participação, ainda que por meia hora de descanso, decidi improvisar um depoimento pessoal que pudesse trazer à tona o modo muito peculiar, e controverso, como o Flusser fazia as coisas, já que ia me dando conta que muitos dos presentes não o haviam conhecido pessoalmente. Escolhi contar passagens do período entre 1970 e 1973, época em que colaborei com o Flusser de maneira formal, se é que isto, no contexto, significa alguma coisa. Em especial, contei o modo como me convidou para ser seu assistente em Teoria da Comunicação, nos cursos de Comunicação e de Artes Plásticas da Fundação Armando Alvares Penteado; o modo como via a arte, do ponto de vista da comunicação; e o modo como contribuiu para a edição da Bienal de São Paulo de 1972/1973.

Não deu certo. À medida em que ia pronunciando as palavras as marcas foram aparecendo. Me dei conta de que estava falando da minha vida no período em que o futuro de que me ocupo agora era, ainda, preocupação. A confusão entre coração e mente foi se instalando e mal pude continuar. Fiquei emocionado, minha voz embargou a ponto de pouco poder pronunciar coisas, o pensamento fugia. Trabalhei como quem quer acabar logo. Hoje evito ler a transcrição da fita gravada na ocasião.

No Rio de Janeiro comecei contando esta historinha, mais ou menos como fiz aqui (e pelo mesmo motivo), declarando que, não obstante, havia gostado do formato e que estava acentuando as declarações sobre meu estado de espírito para envolver a platéia, como faço agora com o leitor, naquele mal estar e urgência que, certamente, já ocorreu a alguém. No esforço de encontrar alguma ferramenta, um truquezinho que fosse, para ajudar a arrumar o pensamento e poder trazer as coisas à tona, comecei a ver com mais clareza o modo como o Flusser organizava seu pensamento para extroversão, o que, provavelmente, correspondia ao modo como coletava dados para uso, para a constituição de memória, como diria, que a muitos parecia um modo meio estapafúrdio.

Este modo, que agora vejo como um sistema, tinha como regra a redução de extensões de pensamento já localizadas na área das convicções em pequenas pílulas de assuntos, chaves, digamos, cuja simples menção remetia ao universo temático em pauta pelo caminho mais adequado à argumentação em curso. Imaginem um tapete estendido no chão – imagem que discuti com o Flusser mais de uma vez – que se busca levantar segurando com dois dedos por um ponto qualquer. Não importa por que ponto se comece o exercício, porque, ao cabo, dependendo do esforço e da perseverança, o tapete será erguido inteiro. Mas os novos desenhos que surgem da padronagem original do tapete, pelas dobras que vão se formando ao ser puxado, dependem, sim, do ponto que se escolhe para puxar. Além disto, muitas vezes, já se têm novos desenhos satisfatórios a meio caminho da puxada, ou em combinações com outras puxadas simultâneas, deixando a padronagem original visível por ilação.

Os pontos por onde se segura o tapete, estas pílulas de assunto, são, na verdade, reflexemas formados ao sabor da argumentação, que têm poder de remeter a um universo mais amplo que então se torna, por eles, penetrável, mas que não precisa, necessariamente, ser mencionado. Ao mesmo tempo se fazem muito mais ágeis para a argumentação e se prestam a construções retóricas muitas vezes estonteantes.

Tomem, por exemplo, do seu livro Natural:mente, Duas Cidades, 1979, a entrada do artigo Vacas. Diz: “São máquinas eficientes para a transformação de erva em leite”. Eis aí um reflexema com valor de artigo inteiro. Posiciona o leitor diante do quadro que vai enfrentar ao longo do texto, prepara sua (in)disposição para a coisa dando, logo de cara, uma espécie de choque dramático de alto valor retórico e, sobretudo, alinha, no espírito do autor, de modo mais que mnemônico, evocativo, uma seqüência de argumentos já carregada de compromisso e engajamento.

A primeira vez em que me dei conta de que estava sendo submetido a um destes reflexemas foi em fins de 1970, quando o Flusser visitou a exposição de meu trabalho de graduação para a Faculdade de Arquitetura e Urbanismo da Universidade de São Paulo na sede do Instituto dos Arquitetos do Brasil. Tratava-se de um conjunto de pinturas de extração Pop, acompanhado de um grupo de objetos construídos com combinatórias de plástico, alumínio, aço, madeira e, às vezes, um ou outro objeto industrializados como bonequinhos de plástico, parafusos, alusões, enfim, de “objets trouvés”; e de um outro grupo de montagens evidentemente aleatórias com evidentes sobras de ateliê... (é preciso que se diga que, para nós, naqueles fins dos anos 1960, a nova figuração ia-se esgotando no mesmo ritmo com que se esgotavam as “queixas politizadas” com figuras que reportavam à violência da repressão; um novo “engajamento” se avizinhava, representado pela “arte povera”, pela materialidade das coisas e pela concretude de atos).

Durante a visita dei ao Flusser as explicações de praxe e pouco ouvi senão perguntas curiosas sobre o que tinha me levado a fazer aquelas coisas daquele jeito. Respondi escondendo/não escondendo a preocupação que tinha com o que me parecia o esgarçar de um engajamento marxista, já que, em exposição de um ano antes, que também mereceu sua visita, esta com vistosos desenhos de alusão política, o comentário foi que era prematura e um tanto besta. Neste dia convidou-me, insistindo, a que fosse com ele à Academia Paulista de Letras para ouvir sua conferência sobre o procedimento marxista, de uma série de três sobre o tema modos de ver o mundo. As outras duas, se não me engano, eram sobre o modo formalista e sobre o modo fenomenológico.

A coisa foi mais ou menos assim: “do ponto de vista marxista, um sapateiro tem na cabeça a sapatidade e, nas mãos, além de seus instrumentos, o couro”. Tinha uma mão erguida sobre a cabeça e outra na altura do peito, ambas abertas. Bate palma com algum estardalhaço e: “quando o sapateiro junta sapatidade e couro tem uma coisa nova, que não havia antes, o sapato. A sapatidade chama-se modelo, o couro matéria e o movimento que os liga, praxis. E foi por aí afora, na linha do modelo que informa a matéria, concluindo, cerca de uma hora depois “... isto tudo que estou dizendo não passa de bobagens e quem realmente entende destas coisas é aquele moço lá no fundo cuja exposição acabo de ver e recomendo, e a quem estou convidando neste momento, na frente dos senhores, para ser meu assistente no curso de Teoria da Comunicação que dou na Fundação Armando Alvares Penteado”.

A passagem mostra direitinho o modo sincopado, inesperado e chocante que tinha de expressar suas convicções, calcadas em repertório vastíssimo sustentado por memória mais que privilegiada. A maneira “frases curtas”, cada uma como que simbolizando uma área do universo do seu pensamento, compunha o seu estilo e a sua ferramenta.

Para explorar um pouco mais o modo de operar estas pílulas de assunto extraio daquela lá de cima, a do marxismo, uma outra: “vocação é o apelo que faz a matéria ao detentor do modelo que pode transformá-la. O teclado é a vocação do pianista, a pedra a do escultor”. Neste ponto ele recitava poesia de Rilke que descreve a pedra de contrapeso do arado de um camponês dizendo a Michelangelo que passava, “deves mudar de vida!”. Intrigado, o escultor examina a pedra e se dá conta que era um fragmento de escultura de Fídias.

Bem, o ponto por onde puxei o tapete agora, forma, em suas dobras, um mosaico de reflexemas que penetra o universo do conhecimento pelo viés da comunicação. Em particular, a comunicação artística (o termo incomoda um pouco, veremos em seguida). É que os modelos disponíveis eram, para o Flusser, de três espécies. Modelos de conhecimento, promovidos pela ciência, modelos de comportamento, promovidos pela política, e modelos de vivência, promovidos pela arte. E são, a meu ver, três reflexemas com suas ilações e seus percursos. Por exemplo, quando a ciência determina a fantasia de que água é H2O, não se está, simplesmente, dizendo que água é feita de duas partículas de hidrogênio para cada partícula de oxigênio, mas que se pode compreender as coisas do mundo segundo o modelo que as divide em parcelas mínimas e as rejunta em quantidades determinadas, de modo que dêem a impressão de que são apartadas do resto das coisas. E que esta forma de saber as coisas chama-se ciência. A política, por sua vez, deste ponto de vista, é o conjunto expressivo que mostra às pessoas que elas podem escolher a atitude a ser tomada perante as ocorrências, compondo um sistema ordenado de reações onde cada um pode reconhecer o outro. Para o Flusser, disse-o mais de uma vez, política é sinônimo de amor. Ainda deste mesmo ponto de vista, a arte tem como tarefa moldar nas pessoas reações sensíveis aos fenômenos que lhes dizem respeito sem que os tenha, necessariamente, presenciado. Dar-lhes condições de vivenciar fatos que não viveram.

Como estas três espécies de modelação não podem ter existência isolada, cabe à filosofia reconhecê-las em suas ocorrências, e articulá-las. Conforme o objeto que separa do todo para estudo, ela se faz filosofia da ciência, filosofia política ou filosofia da arte. E o que fazíamos, com isto, era filosofia da comunicação, muito embora o termo que usássemos sempre tivesse sido teoria da comunicação. Para tanto, tudo ficava calcado em reflexemas de uma mesma bordadura, em particular o que alega que a comunicação está inversamente proporcional à informação, de modo que ao máximo de comunicação corresponde o mínimo de informação. Alinhando, este a outros seus associados, por exemplo o que aponta informar como o ato de moldar-se no parceiro em comunicação -dizia o Flusser “como o pneu informa o barro de suas reentrâncias no mesmo ato em que é por ele alisado”, fica estabelecida a base do curso de Teoria da Comunicação que dávamos na FAAP a partir do convite feito na Academia Paulista de Letras.

Como assistia às aulas da manhã e as reproduzia à noite, pude entender a generosidade e o valor didático deste dispositivo que, por não ser de axiomas, nem mesmo de proposições, estava aberto a interpretações, alterações, acréscimos e reduções, o que, pode-se imaginar, potencializava meu trabalho de assistente, pois podia, na aula seguinte da manhã, incluir meus comentários, revestidos do meu jeito de expor, ainda que já o tivesse feito fora de aula quando discutíamos o assunto em sua casa. Ao mesmo tempo garantia certa segurança à aula dada, uma vez que se supunha que ao menos alguns dos estudantes tivessem a mesma curiosidade e destreza, o que, não raro, acontecia. O sistema funcionava como se tivéssemos à disposição um destes programas de computador atuais, especiais para compartilhar arquivos entre vários usuários.

Tão pouco era um sistema acadêmico. Mais que um estilo, me pareceu um modo de viver em filosofia. Há uma passagem que figura bem o que digo: certa vez encontramos na Avenida São Luís, o Professor João de Escatimburgo, cujo trabalho conheço pouco mas sei da repercussão, altaneiro, bem vestido, que nos cumprimentou e ao “como vai, professor”, do Flusser, respondeu “progredindo, professor. Progredindo”. Flusser abaixou a cabeça, teatralmente como fazia, lamentou um “sinto muito” e foi-se embora. Claro. Só se progride em direção à morte. Pois não?

Todo o sistema valorizava a invenção exemplar. A informação em oposição à comunicação. Neste contexto a arte mereceu destaque entre as matérias que examinava, ao menos na minha presença. Enquanto criadora de modelos de vivência – deves mudar de vida, lembram? – era focalizada naquilo que a constituía, a linguagem, muito mais que naquilo que podia dizer. Lembro que, quando mostrei fotos do São Sebastião, pintado por Sérgio Ferro em sua prisão política, obra pertencente, hoje, ao MAC USP e que representa a agonia do guerrilheiro Marighela, Flusser não exclamou “que tragédia!” ou “que pintura forte!”. Exclamou baixinho, lá consigo mesmo, “que homem!” referindo-se ao Sérgio que conhecia exclusivamente pela minha prosa. Fato que demonstra o quanto lhe era íntima a relação intersubjetiva que a comunicação artística proporciona e por que canais trafegam modelos de vivência.

Admirava Mira Shendel, criadora de linguagens do silêncio, Miró, desenhador de símbolos sem referências, e desenvolveu predileção por contradições que evocassem modos novos de percorrer velhas maneiras, como me pareceu o caso das Máquinas de Desfuncionar do Louis Bec, a quem conheceu bem depois de nossa convivência mais estreita. De todos a quem, um dia, Flusser se referiu, cito estes três, cuja apreciação pode demarcar um percurso de deslocamento por que a arte estava passando no seu pensamento, naquele período. Mira e Miró favorecem à construção do pensamento em função de interferências criativas no nível da linguagem das artes plásticas enquanto, lá adiante, Bec projeta realidades independentes, ainda que paralelas, à que estamos condenados. Máquinas de Desfuncionar, por exemplo (escolhi este trabalho do Bec porque o título é, já, sua descrição), é um projeto que não aponta para o futuro, aqui entendido futuro como função da nossa realidade. É, em si, coisa quase nova com a qual nos é dado conviver e que nos faz estar em posição crítica em relação ao que já experimentamos naquele domínio.

Entre estas duas posições ficam os inúmeros experimentalismos dos quais os de vídeo foram os mais marcantes, pois que, durante bom tempo, Flusser acreditou que a portabilidade do vídeo, novidade no começo dos 1970, traria ferramenta arrasadora para a manipulação dos códigos de que a arte, vista da perspectiva da comunicação, fazia uso. Não preciso alongar este fato, pois que outros intervenientes deste seminário o fizeram fartamente. Aponto, apenas, que arte vai-se tornando, de modo muito concreto, conceito bem mais amplo do que aquilo que o circuito das artes convencionou restringir como seu, embora o rigor das referências nunca tenha sido abandonado. Lembro o dia em que levei o Flusser a ver ensaio de Gracias Señor, do Teatro Oficina, José Celso, no qual eu estava tendo uma participação. Seu comentário foi, carregado de irritação, “não se pode voltar antes dos gregos!”.

O que é preciso mencionar é que, para Flusser, arte, do latim ars, artis, herdeira do tecné grego, tem, em jargão contemporâneo, o equivalente know how. Arte é saber fazer. Resta saber, saber fazer o quê?

Em ciclo de palestras que organizei na Galeria Paulo Figueiredo, com o título geral Como Explicar a Arte, para o qual Flusser estava convidado, pudemos conhecer, de modo sistemático, suas preocupações sobre isto, o que equivale a dizer que nos foi passada uma cadeia de reflexemas composta especialmente para o assunto. Arte, soubemos, é saber fazer códigos. Seja inventá-los, seja manipular os já existentes. Não códigos quaisquer mas códigos que se escondem, que não se deixam reconhecer, ao menos à primeira vista. Se reconhecidos, é preciso que sejam reconhecíveis em alguma instância, que sejam reconhecidos pelas mesmas virtudes que os camufla, de modo que na, primeira instância, deve conter um jogo de pistas combinado com outro de despistamentos. Deve, também, ter coerência interna e demais faculdades para que, uma vez reconhecido, possa ser decifrado. E quando decifrado, tenha o poder de imiscuir-se nas entranhas de quem o decifra e daí, ser incorporado, o que inclui o reconhecimento do autor como o outro.

A partir disto os comentários se estenderam ao sistema de arte cuja relação com seu objeto é ambígua já que, em princípio, conta com estabilidade que a arte não pode oferecer. Das escolas de arte ao mercado, passando por instituições museológicas, culturais e de produção, o sistema alimenta-se de reconhecimentos já consumidos, jogos já jogados, que investem contra o inefável da arte. É preciso lembrar que isto foi dito em uma das galerias de arte comerciais mais importantes da cidade, um gueto no dizer do Flusser, e que, diga-se, reconhece a questão. De fato, tudo que se segue conduz à obliteração do problema, no esforço de cooptar o sistema para a arte tanto como o sistema vem, de há muito, cooptando a arte.

Se posso fazer comentário meu, aponto o fato que, a esta altura, artistas já enfrentavam a questão, considerando o sistema de arte ou partes dele, como, de resto, todo o SISTEMA, material expressivo em si. Era o caso das diversas arte-meio, das cooperativas e outras associações de fantasia que imitavam as associações formais (para se ter uma idéia, imaginem a canadense General Ideas que conheci nos fins dos 1970, cujo nome mostra bem o escopo), dos grupos de criação coletiva...

Flusser, a partir de 1972, todos sabem, empenhou-se em colaborar com a Bienal de São Paulo, propondo uma seção de Arte e Comunicação. Inventou-se um Comitê Técnico, do qual cheguei a achar que fiz parte, no qual Flusser tinha papel de relevância, muito embora o relacionamento com a instituição não fosse o mais primoroso, tal qual a posição do Comitê. Aos trancos, com conhecimento mas sem reconhecimento da direção da Bienal, houve uma seção de Arte e Comunicação com a participação de convidados do Flusser mais um grupo canadense ligado a MacLuhan e outro, norte americano, trazido pela curadora Regina Cornwell.

Os convidados do Flusser eram Jean Oth e Gerald Minkof, ambos video-artistas suíços; Hervé Fisher e Fred Forest, franceses, sócios em um Coletif d’Art Sociologique, junto com Jean Paul Thenot e mantenedores da École de Sociologie Interrogative, praticantes da Arte Sociológica; e Horia Damien, escultor e criador de objetos de arte, refugiado da cortina de ferro, que enviou seu procurador Radu Varia que funcionava, também, como uma espécie de delegado do Flusser que ficou pela Europa. O elenco demonstra a preocupação do Flusser em experimentar a superação das limitações da arte enquanto manipuladora de linguagens já artísticas, escolhendo dois video-artistas cujo trabalho, pela própria natureza da video-arte, não estava tão distante da “arte artística”, em especial Jean Oth, competente manipulador de imagens videografadas com resultados artísticos, no sentido correto, surpreendentes; e dois “artistas sociológicos” que faziam desta idéia o ponto de referência, fora do miolo do sistema da arte, para suas criações e “performances” que tinham como finalidade imediata conduzir comportamentos críticos paralelos aos usuais e, como finalidade de longo curso, constituir sistemas privados de arte. Exercitavam isto ora manipulando recursos e ranços da mídia, ora organizando intervenções subversivas em tarefas do cotidiano das pessoas.

Mas, ouso sugerir, a culminância da busca da arte perfeita para o desenvolvimento e arremate de uma filosofia da arte, sabe-se hoje, filosofia artística, iniciada no Brasil e de cujo período de gestação penso ter participado, deu-se muito mais tarde, na Europa, no contato com Louis Bec, cujo Sulfanogrado, apresentado em uma edição da Bienal de São Paulo da passagem dos anos 1970 para os 1980, se não estou enganado, tem todos os ingredientes epstemológicos, simbólicos e de codificação necessários para o cumprimento das expectativas lançadas ao longo do percurso que descrevi.

 

* Gabriel Borba: artista plástico e arquiteto, coordenador do setor de museografia do MAC-USP. Professor da Escola de Comunicações e Artes da USP e da Universidade de Guarulhos nos anos 80. Ao final dos anos 60, foi convidado por Flusser para atuar como assistente nas disciplinas ministradas na Faculdade de Comunicação da FAAP. Na mesma função, colaborou nas atividades de assessoria desenvolvidas por Flusser junto à Fundação Bienal de São Paulo nos anos 70. Colaborou como ilustrador  na coluna Posto Zero, do mesmo autor, editada pelo jornal Folha de S. Paulo. Texto publicado no volume Vilém Flusser no Brasil, organizado por Ricardo Mendes & Gustavo Bernardo em 1999.