DUBITO ERGO SUM

 Vilém Flusser

FLUSSER COMO PENSADOR EUROPEU

Andreas Ströhl *

 

Tradução de Gisele de Carvalho

 

Minha apresentação é, possivelmente, uma primeira tentativa de olhar para trás e avaliar a influência intelectual de Flusser na Europa, os rastros que ele deixou. Acredito que ninguém tenha ousado fazê-lo antes: a tarefa é quase impossível; o terreno é muito extenso, e ainda não há mapas.

Embora Flusser tenha, provavelmente, inspirado de forma mais intensa os artistas visuais do que os teóricos, em minha palestra, enfocarei apenas a influência que ele exerceu sobre os teóricos. A razão é tão simples quanto pragmática: procurar vestígios da influência de pensamentos escritos em arte visual é um esforço duvidoso. Pressupõe uma tradução comprovável de um código para o outro. Este problema, a propósito, está no cerne das preocupações de Flusser. Como poderia falar do impacto das palavras de Flusser em aspectos visuais sem re-traduzir um código visual em linearidade verbal?

Volta à Europa

Quando Flusser perdeu a confiança no projeto brasileiro e finalmente voltou à Europa em 1972, achar e redefinir seu papel como um intelectual na sociedade obviamente se tornara um problema. Ele percebeu imediatamente o quão superficial era o movimento denominado Anos 68. O impacto desses anos, em estruturas sociais decisórias, havia permanecido limitado. Relações humanas, especialmente nas universidades, eram mais administrativas do que autênticas. Ele sentia a falta de um relacionamento professor-estudante mais real. No curso de muitas discussões com seu amigo, o psicólogo social Abraham Moles1, Flusser veio a reconsiderar sua atitude. Acreditando que seu compromisso público no Brasil havia falhado, começou a desenvolver o conceito de um intelectual desengajado, livre de incertezas, despojado de qualquer obrigação para com qualquer partido, poder ou ideologia2, acima e além da noção convencional e marxista de intelectual engajado.

"Vivendo como um brasileiro em uma pequena aldeia de Provence, há mil quilômetros do centro de sua origem intelectual, e de lá começando uma vida de um vagar trans-europeu, ele compreendeu a futilidade das eleições e dos partidos dirigidos por idéias pré-estabelecidas e dificilmente questionáveis. Porém, a tarefa do intelectual era questionar tudo. Então, a posição dele começou a se aproximar da minha. Intelectuais vivem em um gueto, em uma sociedade sem poder, com exceção do poder de questionar, uma sociedade que não tem por objetivo a ação".3

Porque ele procurava desesperadamente por uma saída deste isolamento, Moles se tornou especialmente fascinado pelo livro Vampyroteuthis infernalis4, de Flusser e Louis Bec. Ele o resenhou de modo apaixonado e brilhante para a revista KulturRevolution5, em ensaio de nove páginas intitulado Philosophiefiktion bei Vilém Flusser (A ficção filosófica de Vilém Flusser). Em Über Flusser (Sobre Flusser), uma homenagem por ocasião de seu septuagésimo aniversário, Moles dedicou muito do seu necrológio a Vampyroteuthis infernalis:

"Flusser foi talvez o único filósofo contemporâneo que teve a ousadia de escolher uma das formas mais poderosas de a filosofia exercer influência na sociedade moderna: o caminho da digressão da science fiction, ou - como eu prefiro chamar – da ficção filosófica. Este é um dos canais de contato com o mundo social mais forte e está disponível para a fortaleza filosófica encastelada em seu idioma e sua abstração. (…) Flusser (…) inscreveu isto em uma série de trabalhos famosos de Huxley e Orwell. Estes livros provaram seu poder de mudar a sociedade".7

O posicionamento de Flusser na vida intelectual da Europa foi ambíguo e contraditório. Em primeiro lugar, seus ensaios e conferências, apesar de serem uma parte crucial e característica de sua obra, estavam espalhados em revistas e jornais e praticamente indisponíveis. Seus livros e artigos eram de difícil aquisição, mesmo antes de sua morte. Seus livros não foram traduzidos, com apenas uma exceção. Os poucos livros escritos em alemão durante sua vida foram publicados por duas editoras diferentes. A que, até recentemente, havia pretendido publicar uma coletânea dos trabalhos de Vilém Flusser, a Bollmann Verlag, faliu no ano passado. O projeto Schriften (Escritos), planejado para 14 volumes, foi interrompido depois da publicação de apenas cinco deles.

Tornando-se conhecido

Antes de Vilém Flusser decidir aceitar o convite do Goethe-Institut Prag em 1991, sua indagação mais importante era: “Você acha que eu posso chegar a ter um pouco de influência lá?". Chamar a atenção do público e dos meios de divulgação eletrônicos era muito importante para ele. Este desejo de incitar discussões não se devia só à vaidade: estava, provavelmente, relacionado à sua longa ausência da Europa, que sempre tinha permanecido o centro de seu mundo. Porém, era também conseqüência de seu ideal de comunicação: um diálogo valorizado / apreciativo / reconhecido / entusiasmado / consciente, que criaria informação.

Na Alemanha, Flusser ficou conhecido, lentamente, no início dos anos 80. Pessoas  interessadas na filosofia de novas mídias começaram a prestar atenção em Flusser depois que Für eine Philosophie der Fotografie (Para uma Filosofia da Fotografia; no Brasil, o livro recebeu o título de Filosofia da Caixa Preta) foi publicado, em 1983. Embora ele já estivesse na Europa há quase dez anos na época, Flusser, aos 60 anos de idade, não ficou famoso na França, onde viveu, mas sim na Alemanha. Em artigo sobre Flusser, Fred Forest, pioneiro da vídeo-arte na França e amigo de Flusser, tenta explicar a espantosa falta de reação ao filósofo neste país:

"Brilhante, excessivo e extático, ele teve todas as qualidades necessárias para assustar os intelectuais de gabinete em seus ternos e gravatas. É por isto que ele foi marginalizado na França. Sua personalidade, seus paradoxos e seus gestos diferiam muito das afetações acadêmicas na terra de Descartes. Apesar da sua reputação, ele sofreu com isto. Repetidamente, ele confiou a mim que sentia a marginalização como uma injustiça vinda do país que ele, o imigrante eterno, havia escolhido para ser sua residência. Foi principalmente a apreciação vinda da Alemanha que fez com que fosse mais fácil para ele agüentar esta frustração".8

Ironicamente, foi no mundo de língua alemã da Europa Central, do qual ele havia fugido em 1940, que o pensamento de Flusser começou a ganhar impulso público, em meados dos anos 80. Junto com Jean Baudrillard e Ivan Illich, Flusser rapidamente se tornou a personalidade mais procurada no reino de um futurismo filosófico não-acadêmico que se exibia fora das universidades, em centros de design, academias de arte, ou grupos de reflexão.

Porém, sua habilidade de compreender o potencial ambivalente do pós-moderno o diferenciou e separou de outros pensadores contemporâneos. Seus maiores seguidores eram jovens artistas intelectuais nos países de língua alemã. O conceito flusseriano de pós-história difere amplamente de qualquer outro apresentado por outros estudiosos. O conceito parte de uma mudança de paradigmas nos códigos com os quais nos comunicamos, enquanto outros teóricos contemporâneos usavam métodos indutivos para explicar os fenômenos da cultura pós-moderna que ficavam cada vez mais visíveis. Flusser parte dos modos de comunicação. Todos os outros tentavam argumentar de forma inversa. Para eles, um dos efeitos da pós-modernidade era também uma mudança nas formas de comunicação. Para Flusser, o surgimento da imagem técnica era a causa central de todos os efeitos descritos como pós-históricos por ele, e como pós-moderno pelos outros. Enquanto a comunicação elitista substitui a escrita por algoritmos, a comunicação de massa hoje favorece imagens técnicas em detrimento da linguagem verbal.

Muitos teóricos contemporâneos e comentaristas sociais perceberam mutações gigantescas na organização das sociedades ocidentais e anunciaram o advento de uma nova formação social denominada de pós-moderna, na qual a comunicação eletrônica se torna a forma predominante de interação social. Mas, em vez de explorar sistematicamente o potencial oferecido por este mundo governado pela mídia, os teóricos da pós-modernidade freqüentemente lamentavam a decadência dos valores tradicionais ou, ao contrário, lamentavam o colapso da síntese modernista que tentava conter esta decadência por meio de um equilíbrio incerto ou através de uma estabilidade paradoxal. Se, como é menos típico, tais teóricos evitavam a nostalgia, eles caíam na tentação de fazer predições super-otimistas sobre a liberação humana pela tecnologia, predições estas incapazes de se sustentar em face das realidades tecnológicas e que se dissolveram depressa em prognoses horrendas de opressão futura. Poucos teóricos puderam sustentar ceticismo e abertura em suas atitudes para com o passado e o futuro. Poucos oscilaram de forma tão proveitosa entre as reivindicações morais do passado e a relatividade temerosa do futuro como Vilém Flusser. A habilidade de Flusser de compreender o potencial ambivalente do pós-moderno o diferenciou de outros teóricos contemporâneos. E fez com que sua recepção se tornasse mais difícil. Flusser recusou a nostalgia simples, tão freqüentemente adotada pelos membros de sua geração. Parte filósofo, parte visionário, ele reconheceu uma continuidade entre certos elementos do pós-modernismo e as piores manifestações da modernidade, uma continuidade que aqueles que desejam estar abertos aos potenciais pós-modernos freqüentemente escolhem ignorar.

Embora o pensamento de Flusser tenha sido idêntico a sua existência, ele oferece a possibilidade de muitas interpretações diferentes. Flusser nunca quis sedimentar suas teorias ou perspectivas sobre o mundo. Ao contrário, ele estava constantemente procurando por desafios. É por isso que seu pensamento é desafiador também. Tanto a contemplação fenomenológica como o caráter experimental de brincar com todas as opções criaram certas disparidades na superfície da filosofia de Flusser.

Esperança e Provocação

Os acadêmicos tradicionais se irritavam com o estilo não convencional e provocativo de filosofar em linguagem clara. Flusser se recusava a mencionar outros autores, a criar notas de rodapé; também tinha o hábito de desenvolver uma linha de argumento completamente nova em cada artigo que escrevia. Isto o desqualificava como acadêmico. Muitos críticos apontaram a abundância de hipóteses e o caráter especulativo da filosofia de Flusser; enquanto alguns se fascinavam, para outros isto parecia ser a prova da falta de seriedade de Flusser. Seus trocadilhos etimológicos pareciam gratuitos, seu conhecimento enciclopédico em tantos campos e idiomas era percebido como uma ameaça. Os críticos nunca coseguiram definir se o tratavam como um escritor ou como um filósofo. Seu carisma, a elegância sofisticada de sua argumentação, o poder sugestivo de suas performances (em lugar de conferências) cativavam seus ouvintes ou os repelia. Não havia nada entre estes dois pólos, nenhum modo de se permanecer neutro.

Problemática para muitos era a ambigüidade moral que parecia ser inerente a seu trabalho. Falar sobre o fim de história e da escrita fez dele um profeta diante dos olhos de seus leitores. Assim, que futuro ele parecia prever: bom ou ruim? Flusser acolheu como um caminho para se tornar humano a projeção de que as máquinas assumiriam o controle e os seres humanos estariam existencialmente reduzidos a pontas de dedos e a cérebros, mas, ao mesmo tempo, ele nos advertia a respeito de uma nova barbárie associada a este mesmo desenvolvimento. Estava eufórico com as possibilidades das imagens eletrônicas, criticava a escrita como sendo um código muito complicado e debilitado, legitimamente condenado a desaparecer – e, ao mesmo tempo, se identificava com o gesto da escrita. Como uma pessoa pode argumentar de forma aparentemente tão contraditória? Obviamente, isto era demais para a maioria dos críticos. Eles estavam assustados pela beleza óbvia do estilo de Flusser. Estavam aterrorizados com a simplicidade dos seus argumentos. E se mostravam impossibilitados de abrir mão do lastro acadêmico que se havia esvaziado em notas de rodapé e bibliografias. Uma amostra típica:

“Mesmo se admitindo que suas análises globais às vezes vão longe demais; mesmo se ele está encantado com as imagens auto-escolhidas de forma a só argumentar através de metáforas; até mesmo se muitas das suas diferenciações categóricas são simplesmente insustentáveis: Vilém Flusser é (sim, é! não: era) um dos filósofos contemporâneos mais estimulantes.” 9

Flusser se considerava membro de espécie destinada à extinção, um dinossauro com uma máquina de escrever portátil. Isto explica a ambivalência estranha de seus textos, confundindo muitos de seus leitores. Em um dado momento, ele se mostrava como um profeta alegre do futuro telemático; em outro, como uma personificação triste do apocalipse: "Vez por outra fica-se com a impressão de que o autor está liderando o movimento que ele critica, por exemplo, através de sua concepção de ‘sociedade de informação telemática´. Por detrás disto, repetidamente, dá-se uma crise de fé".10

Nos anos oitenta, havia uma lei não escrita na Europa que ditava que os intelectuais deviam ser negativos, pessimistas, apocalípticos, se possível. A geração sem futuro do fim dos anos 70 foi seguida pela geração Null Bock (sem vontade, sem tesão) na Alemanha dos anos 80. Ambas se relacionavam de forma muito próxima com um zeitgeist (espírito de época) intelectual que deveria ser chamado de endzeitgeist (fim de um espírito de época). A náusea de uma sociedade de consumo vazia de significados, de dinâmica inerente ou de tensões intelectuais, foi suplantada pela convicção comum de que o fim estava próximo: aniquilação total por uma guerra nuclear ou por uma catástrofe ecológica. A presença na mídia de jovens intelectuais pós-modernos e apocalípticos voluntariamente corroborava este cenário. Foi dentro deste quadro que Flusser ficou conhecido na Alemanha.  À frente deste pano de fundo negro, sua figura parecia irradiar uma luz moderada e benevolente - para o seu pequeno grupo de primeiros seguidores. A parte maior da audiência interessada em idéias, porém, encontrava-se impossibilitada de se distanciar dos padrões e rituais das profecias cínicas ou dos lamentos indiferentes.

Vários equívocos se materializavam: os otimistas achavam Flusser muito pessimista, e vice-versa; mais precisamente, até os otimistas consideravam Flusser muito otimista, enquanto, ao mesmo tempo, os pessimistas o consideravam muito pessimista.

É claro que estas categorias não significavam muito para Flusser. Aqueles que normalmente apreciavam os elementos negativamente proféticos nos ensaios de Flusser muitas vezes não compreendiam completamente a banalidade do desenvolvimento. O motivo real a ser temido não era o resultado da mudança de paradigma que estava a acontecer. Ao contrário, devia-se temer a necessidade inevitável e ingovernável do processo. Só alguns críticos perceberam este ponto importante:

"De vez em quando, os pensamentos de Flusser causam um calafrio. Eles nos relembram que ‘o futuro’ e seus efeitos tecnológicos não são escolhidos em uma eleição livre. Eles acontecem como se fossem uma mudança tácita, amplamente despercebida, já em plena atividade". 11

Flusser, sem na verdade compreender completamente a cena em que entrava agora, era uma provocação maior do que ele mesmo havia imaginado. Voltando do Novo Mundo, ele era livre e independente a ponto de se fazer parecer até mais estranho, mais provocativo e sedutor. Seu comportamento não demonstrava nenhum escrúpulo, enquanto na Alemanha, e em todos lugares do Velho Mundo, a iluminação era identificada com certa hesitação. Em vez de se juntar à matilha e cantar com o coro apocalíptico da filosofia, da literatura e da política da época, ele falava de uma esperança e de uma utopia difíceis de se compreender.

Em primeiro lugar, ele contradisse o humanismo tradicional. Sua insistência em definir os seres humanos como meras protuberâncias de um aparato altamente abrangente para a criação de informação contrastava nitidamente não só com noções comuns a respeito da natureza dos seres humanos, mas também com noções acerca da natureza da informação. "Ao estudar a sociedade telemática em suas últimas conseqüências, Flusser transforma o floreado vazio das falas padronizadas dos executivos do computador em uma monstruosidade". 12 Paradoxalmente, a análise de Flusser sobre o processo da desmaterialização foi mal-entendida e criticada como cínica, principalmente pelos próprios cínicos. Flusser colocava seus argumentos principais na direção contrária à que as mentes críticas claramente adotavam. Em segundo lugar, as visões de Flusser estavam baseadas na suposição - e experiência pessoal – de que o apocalipse, a grande catástrofe da história, já tinha acontecido. Os escritores e leitores necessitados de predições libidinosas e aterrorizantes da catástrofe que estava por vir não estavam interessados nas questões mais ambivalentes deste desmancha-prazeres, deslocado das correntes européias na moda.

Normalmente, os críticos costumavam interpretar mal os pensamentos de Flusser sobre pós-história (Nachgeschichte) como reflexões sobre a pós-modernidade, e por conseguinte, o confundiam com um “teórico da pós-modernidade".13 E mais: a ironia inerente a tantas provocações de Flusser os escapou. Seu ar de troça diferia amplamente das profecias apocalípticas ou utópicas e auto-confiantes de outros teóricos da mídia. Acima de tudo, Flusser nem mesmo se consideraria um teórico da mídia. Ele era alguém que fazia perguntas a fim de estimular um diálogo que iria produzir – esperava - idéias novas (ou seja, informação), a partir de um método muito parecido com o de Sócrates.

"O Novo É Horrível"

De certo modo, pode-se dizer que a recepção de Flusser foi vítima do efeito de suas palavras de 1981: "O novo é horrível, não por ser da forma que é e não por ser diferente, mas por ser novo. (…) O novo é horrível e nós mesmos somos o novo". 14

Desde o começo da recepção de Flusser na Europa, as reações se dividiam em dois grupos opostos. Havia um grupo pequeno de amigos e pessoas que viam em Flusser um dos pensadores mais intrigantes e desafiadores da época.15 E havia um grupo muito maior de oponentes, ao invés de críticos, que rejeitaram Flusser sem nem sempre deixar claro em que bases o faziam. Em muitas discussões, foi-me dito que Flusser não era "sério". Nada muito além disto, e a crítica raramente se dava de forma explícita. Até mesmo quando este era o caso, a crítica permanecia bastante vaga e surpreendentemente moderada. Só em muito poucas ocasiões, ataques vigorosos  ficaram visíveis. Gostaria de citar aqui duas críticas severas de que me recordo.

Ambas datam de 1993. Cito a primeira como um das objeções mais inteligentes a Flusser, de um ponto de vista conservador. Em seu ensaio Eine neue Einbildungskraft? Über Vilém Flusser (Um Novo Poder Imaginativo? Sobre Vilém Flusser), Frank Lucht critica a incongruência entre explicação técnica e interpretação filosófica. Ele argumenta que a distinção que Flusser faz entre a imaginação humana e a imaginação técnica estava tecnicamente correta,  mas que se tratava de uma tolice em um lebenswelt humano, já que a imagem de uma maçã permanecia a imagem de uma maçã, quer imaginada em minha mente ou representada em minha tela de computador. Em um caso, preciso da informática para explicar a imagem, enquanto no outro caso a pesquisa é feita pelo cérebro. Porém, em ambos os casos, dependendo do tipo de pergunta que fazemos,  usamos teorias científicas para nossas respostas ou não. "Este esforço é puro blefe. Até mesmo um pensamento afiado sobre as explicações de Flusser não deixa claro de que modo uma filosofia de fotografia é mais urgente que uma filosofia da garrafa restituível".16

Por outro lado, Mark Terkessidis critica Flusser de um ponto de vista que não é tão claro como o anterior, mas que é igualmente interessante. Terkessidis representa uma atitude ancorada no pensamento crítico e analítico da esquerda tradicional, suplementado por elementos de pensamento pós-moderno. Esta mistura é amplamente compartilhada por jovens intelectuais europeus hoje em dia. É claro que por ser eclética e em parte contraditória em si mesma, a mistura pode ser, ela mesma, facilmente criticada. Como a maioria dos críticos, Terkessidis atirou na direção da inclinação de Flusser para a etimologia. Ele também argumenta que o método de Flusser fez uso de muitos enfoques diferentes (tais como a hermenêutica, a recente fenomenologia, e "psicologia de cunho holístico e genético”) e que havia uma sugestão reacionária em seu jargão. Ele suspeita "que Flusser acha simplesmente difícil encarar a dificuldade de examinar a situação e então remenda um universo de imagens técnicas, obrigatoriamente pós-histórico, sobre a insuportável pós-modernidade.”17

No mesmo volume da mesma revista, Geert Lovink, membro da agentur bilwet sediada em Amsterdã e um dos mais obstinados e produtivos teóricos da mídia, questiona a crítica de Terkessidis: vem em defesa de Flusser e de todos os outros teóricos, e admite a falta de uma discussão internacional crítica e aberta da teoria da mídia. Mas

"só o ´Aufschreibesysteme´/´Notation Systems´ de Kittler está disponível em Inglês18. Introduções ou antologias estão em falta na linguagem da tecnologia (enquanto Virilio, Baudrillard, Derrida, Lyotard e outros foram traduzidos em inglês, espanhol, alemão e italiano). (…) A Escola Alemã de teoria da mídia só é popular em pequenos círculos, principalmente no campo transitório e rico da arte e da cultura (…) Por princípio,  pode-se dizer que a ciência institucionalizada não está nem aí para a teoria da mídia. Isto é verdade no mundo inteiro, apesar do que está na moda ".19

Ainda Desconhecido na América do Norte

Sei que se espera que eu fale sobre a influência de Flusser na Europa. Porém, ser discutido na academia americana parece um passo necessário para o sucesso intelectual na Europa. Embora ocasionalmente Flusser publicasse artigos em revistas americanas (principalmente nos anos 70), seu nome ainda é desconhecido nos EUA até os dias de hoje.

Acredito que há várias razões para este grau notável do que se pode chamar de indiferença. Primeiramente, apenas um livro foi traduzido para o inglês: Für eine Philosophie der Fotografie (Por uma Filosofia da Fotografia). Infelizmente, no entanto, foi publicado na Alemanha20, o que fez com que se tornasse praticamente inacessível para a audiência americana.

Em segundo lugar, a história, para Flusser, é o produto de - e ao mesmo tempo a ferramenta para - uma explicação abstrata e uni-dimensional do mundo. Como qualquer outro modelo anterior, seu modelo é baseado em um certo código, e destronado assim que haja códigos ou modelos melhores à disposição que proporcionem uma explicação melhor com menos esforço. A razão por que isto é tão difícil de se entender é que é sempre difícil perceber o paradigma ideológico com o qual estamos tão acostumados; tendemos a tomá-lo como líquido e certo. O seu termo fim da história, porém, apesar de remeter a 1806 e a Friedrich Hegel, foi retomado de forma polêmica nos EUA por Francis Fukuyama21, em 1992, não só apontando em uma direção completamente diferente, mas também depreciando completamente o termo. Ao recunhar o termo de forma primitivamente materialista e neo-liberalista, Fukuyama não deixou pedra sobre pedra. Depois de Fukuyama, se tornou mais do que difícil interessar qualquer estudioso norte-americano inteligente por qualquer filosofia rotulada com o termo pós-histórico.

Em terceiro lugar, quando Flusser ficou famoso na Europa (no fim dos anos 80 e início dos anos 90), o pós-estruturalismo francês e os autores pós-modernos estavam em voga nas grandes universidades anglo-americanas. Por parte dos autores de língua alemã, os estudiosos americanos esperavam ou uma continuação da tradição da Escola de Frankfurt (Habermas) ou da teoria de sistemas (Luhmann). Então, tentei chamar atenção para Flusser publicando em algumas revistas norte americanas22, e em breve - espero - o primeiro guia de leitura sobre Flusser em inglês será publicado pela Editora da Universidade de Minnesota.

Teórico dos media

Quando preparei esta palestra, consultei a viúva de Flusser, Edith Flusser, e passei os olhos por sua bem cuidada coleção de resenhas no Arquivo de Flusser. As primeiras duas impressões que tive foram as seguintes. Primeiro, há muito menos feedback do que se imagina. Em segundo lugar, os aspectos que os críticos e os colegas focalizaram são tão diversos e dispersos que parece muito difícil, senão mesmo impossível, tirar qualquer conclusão generalizada destes ecos. Mesmo assim, tentarei resumir a maneira como Flusser foi apresentado pela imprensa, retratado por seus colegas e criticado por acadêmicos.

Nos países de língua alemã, Vilém Flusser foi o único filosófo que assumiu, cedo e sem qualquer reservas, o desafio de um futuro moldado pela mídia. Esta foi a forma como ele se tornou famoso, começando por sua filosofia da fotografia. Evidentemente, como conseqüência, ele foi reduzido e categorizado como um mero teórico da mídia, freqüentemente mal entendido como “uma figura cult do admirável mundo novo da mídia.”23 Desde o começo de sua recepção na Alemanha e Áustria, Flusser foi rotulado como “profeta das tecnologias da informação (...), (...) a informação privilegiada a ser perseguida por todos os que se inspiram na alta tecnologia”.24. Em 1989, a revista mais importante da Alemanha, a Der Spiegel, publicou uma apresentação longa, de três páginas, de Vilém Flusser, em tom solidário, quase entusiasmado: “Flusser é um pioneiro radical das novas tecnologias do micro chip, do monitor e do computador. Dentre os excêntricos, ele é considerado uma estrela secreta (...) A princípio, parece irreal: um judeu de Praga, antigo dono de uma fábrica, ainda professor no Brasil, se transforma na informação privilegiada da sub-cultura informatizada da Europa”25.

Fotografia

A erupção de Flusser na Alemanha ocorreu depois de sua morte. Entretanto, a publicação de seu primeiro livro em alemão, Für eine Philosophie der Fotografie, em 1983, lhe rendeu a atenção do público alemão pela primeira vez. O livro se tornou um sucesso, surpreendendo até mesmo o autor e seu editor. Antes da morte de Flusser, o livro foi traduzido em dez línguas e reeditado 5 vezes na Alemanha. Até hoje, é o livro de Flusser mais amplamente aceito e o mais freqüentemente citado. No entanto, sua recepção foi prejudicada pelo título. No arquivo Flusser, encontrei dezessete resenhas, todas escritas para revistas especializadas em fotografia, imediatamente após a publicação do livro. Em muitas delas, Flusser era comparado com Walter Benjamin, Marshall McLuhan, Roland Barthes, Pierre Bourdier e Susan Sontag. Contudo, em comparações com livros famosos sobre a teoria da fotografia, como La chambre claire, de Barthes ou On Photography, de Susan Sontag, poucos comentaristas chamaram a atenção sobre a diferença mais importante entre eles.

Todas as outras teorias focalizavam o documento fotográfico e pesquisavam a relação entre a realidade e a representação. Isto explica o ar de pessimismo e melancolia que elas irradiam. Os críticos, freqüentemente fotógrafos eles próprios, julgaram equivocadamente a origem e o objetivo, marcadamente diferentes, do enfoque de Flusser. Para Flusser, a fotografia superava a divisão da cultura em ciência e tecnologia, de um lado, e em arte, do outro. O conhecimento científico e o comportamento técnico podem ser agora experimentados na imagem. A fotografia conseguiu inserir a imagem na História. Todavia, ao assim fazer,  interrompeu o fluxo da História. As fotos são diques inseridos no meio do fluxo da História. Elas retêm os eventos. Por este motivo, a fotografia pode ser considerada a primeira imagem pós-histórica, mas também por se originar de um pensamento a-histórico, pós-histórico, calculista e formal. Do ponto de vista desta consciência formal, fotos são informação produzida propositalmente a partir de uma nuvem de possibilidades feitas de pontos. As fotos são pós-históricas porque são feitas num processo de concretização e não de abstração. Elas podem ser, muitas vezes, mal compreendidas como representações; todavia, sua estrutura é a de projetos.

A teoria de Flusser centra-se no cálculo, na computação e na projeção, enquanto os teóricos tradicionais ainda tentavam responder às perguntas conhecidas: o quão confiável é uma fotografia ou se havia uma sintaxe geral inerente à fotografia. O livro de Flusser, muito mais uma análise de técnicas e códigos culturais do que um livro sobre fotografia, foi resenhado por praticamente todas as revistas especializadas de fotografia na Europa, mas foi, infelizmente, ignorado por aqueles interessados em antropologia cultural ou em análise da mídia.

A ênfase dada por Flusser à estrutura em detrimento do conteúdo da comunicação vai muito além da distinção proposta por Marshall McLuhan entre mídias quentes e frias. Flusser deduz um mundo de implicações políticas e culturais a partir de um punhado de estruturas básicas de comunicação. O exemplo mais notável da habilidade de Flusser para reduzir processos muito complexos a seu núcleo mais significativo pode ser encontrado em seu esboço histórico do desenvolvimento da zero-dimensionalidade do código binário, a partir da escultura tridimensional via imagens bidimensionais e escrita unidimensional. A comunicação humana é um truque, um meio para superar a solidão e a falta de sentido frente à morte. Em contraste com outros processos na natureza, ela é contrária ao desenvolvimento geral na direção da entropia.

Escrita

Embora eu pessoalmente acredite que Die Schrift - A Escrita27 seja mais importante que Für eine Philosophy der Fotografie, sua recepção pelos críticos e público foi menos entusiasmada. A maioria das resenhas apenas apontava que Flusser questionava a escrita.

"A linearidade da escrita e as conseqüências resultantes para o pensamento da história cultural do Ocidente é um dos tópicos de Vilém Flusser, cuja hipótese mais radical é a suposição do fim previsível de escrita".28

Freqüentemente, eram feitas referências a Neil Postman, muito popular na Alemanha à época. Na maioria das vezes, Flusser ganhou reputação através de comparações diretas com a argumentação bastante simplista de Postman.

"O livro de Flusser - em contraste com o do americano Neil Postman – não oferece  simplificação de uma crítica de mídia para a audiência de televisão. O livro não exibe só uma relação não sentimental com a escrita. Ele também impressiona por sua superioridade a hostilidades de qualquer tipo. (…) Flusser praticamente estabelece relações com as novas mídias, enquanto Postman propaga concepções restauradoras da educação junto com suas percepções  - se bem que vale a pena levá-las em consideração  - da mídia tão menosprezada por ele ".29

Almas gêmeas

Na Europa, o nome de Flusser, junto com o de Jean Baudrillard, foi associado ao termo pós-história. Assim como Baudrillard e Paul Virilio, Flusser tendia a fazer um duplo uso dos termos centíficos ou técnicos que utilizou - descritivo às vezes,  programático e desafiador em outras. Como eles, Flusser desprezava os limites estreitos das disciplinas tradicionais como distinções artificiais criadas pelo pensamento linear, e tentou, o tanto quanto possível, não registrar distinções sujeito-objeto em seu trabalho. Argumentava que a realidade e a ficção só diferem no grau de probabilidade, não em essência. Enquanto Baudrillard afirma que "a realidade propriamente dita (…) foi confundida com sua própria imagem"30, Flusser negou uma diferença significativa entre imagem e realidade. Ele tinha aversão ao termo simulação, por exemplo, porque percebia que o termo implicava uma idéia do real que era teoricamente insustentável. Ao mesmo tempo, estava consciente de que certos desafios radicais para a dignidade humana seriam realizados pela desconstrução do humanismo tradicional, que é um subproduto inevitável da pós-modernidade.

Embora a formação e o enfoque de Flusser fossem muito diferentes, os livros dele foram aceitos publicamente junto com os de alguns antigos analistas de discurso, que viraram teóricos da mídia e que foram muito influenciados por Flusser. Dentre os mais importantes protagonistas alemães se encontravam Friedrich Kittler, antigo professor de literatura, Norbert Bolz, um filósofo que especializara em Kant, e Dietmar Kamper, anteriormente um sociólogo tradicional. Juntos, eles chamaram a atenção, principalmente entre os artistas e teóricos culturais. Nos anos 90, se encontrariam freqüentemente em painéis e simpósios. Dentre eles, Friedrich Kittler é o único cuja influência consegue superar a barreira do idioma: seu trabalho é traduzido em inglês. Com Flusser, Kittler compartilha a convicção de que "a ciência da mídia, se existisse, teria que tomar o lugar habitado pela filosofia num tempo em que as condições de alfabetização ainda eram tomadas por não-midiáticas"31. Kittler admirava o vasto conhecimento filosófico de Flusser. Para ele, o confronto entre a tecnologia e uma grande aprendizagem, à maneira de Flusser, fez com que ambas se tornassem simples, compreensíveis e elegantes. O artista da mídia e teórico austríaco Peter Weibel32 concorda com isto e chama Flusser de "um admirável homem novo para um cruel e velho mundo"33.

Siegfried Zielinski, diretor do Kunsthochschule für Medien (Academia de Arte de Mídia) em Cologne, onde o Arquivo de Flusser está agora localizado, merece menção aqui. Uma presença onipresente em simpósios sobre o desenvolvimento de arte de mídia, Zielinski tem discutido Flusser constantemente. Norbert Bolz, cujos livros Die Welt als Chaos und als Simulation (O Mundo como Caos e como Simulação) e Eine kurze Geschichte des Scheins (Uma Breve História da Aparência)34 devem muito a Flusser, elogia principalmente o fato de que

"Flusser tem por objetivo uma implementação técnica de relações de reconhecimento livre. Conseqüentemente, seu pensamento procede como análise de mídia, por exemplo como uma fenomenologia da tecnologia telemática e a mutação correspondente de consciência ".35

Uma influência direta de Flusser que constantemente aflora nos escritos de Bolz, entretanto, pode ser encontrada na insistência de Flusser em valores formais e estéticos como categorias fundamentais. A forma estética é um estado excepcional, um epi-ciclo para o destino entrópico do mundo. Assim, a estética se torna a ciência orientadora do post-histoire. Aqui, Bolz se aproxima muito da argumentação de Wolfgang Welsch, o tradutor e propagador eloqüente do trabalho de François Lyotard, e o representante mais sincero da filosofia pós-moderna na Alemanha. Welsch também deve muito a Flusser. Em seu livro Ästhetisches Denken (Pensamento Estético), Welsch argumenta que:

“O que se demanda é a transição da noção de um significado absoluto livre de personificação para o reconhecimento de significado como um efeito de conexões. Isto leva a uma revalorização da materialidade dos signos, e - incomum ao pensamento tradicional - a uma ênfase positiva na mídia ". 36

Peter Sloterdijk, um filósofo não convencional, anteriormente orientado pela Escola de Frankfurt e que, em 1989, desenvolveu o conceito de um euro-taoism, deve ser mencionado aqui também. Seu interesse em gestos, assim como sua crítica, freqüentemente mostra pontos de contato com Flusser.

Funcionários do Aparato: Redatores, Editores, Fotógrafos

Florian Rötzer, filósofo e jornalista, teve papel fundamental em tornar Flusser mais amplamente conhecido nos países de língua alemã (assim como os editores Andreas Müller-Pohle e Stefan Bollmann). Como a maioria dos estudiosos interessados em teorias de mídia e estética hoje na Alemanha, Rötzer começou sua carreira como um discípulo da Escola de Frankfurt. Ao contrário de todos, ele se dedicou a questões filosóficas sobre as novas mídias muito cedo e com mais energia e persistência. Em artigos incontáveis, tentou mediar e persuadir uma audiência intelectual a levar o desenvolvimento mais a sério - com paixão quase pedagógica e zelo. Assim como Flusser, ele acredita que nós estamos no meio de uma mudança de paradigmas, e que a vida social do futuro na cultura imaterial por vir vai se dar através de uma cadeia de canais de mídia interativos. Assim como Flusser, ele percebe este projeto como possivelmente liberador e mais humanitário que uma civilização baseado em hard objects. Em muitos ensaios, Rötzer valorizou o fato de Flusser evocar

"a história da filosofia para descartá-la sob o signo de uma cultura da imagem liberada de todas as referências - uma filosofia paradoxal que trabalha contra si mesma para criar espaço para um conhecimento diferente, não mais necessitado da filosofia como nós a conhecemos (…)" 37

Rötzer, um dos primeiros a “descobrir” Flusser na Alemanha, uma vez se referiu a ele como "um barqueiro – não de costas como anjo da história de Benjamin, mas olhando para a frente, e guiado pelas tempestades terríveis a suas costas"38 - um dos epitáfios mais bonitos com que jamais me deparei.

Assim como Rötzer, o teórico de arte e filósofo Boris Groys sempre tratou arte e filosofia como unidade. Seus textos mostram uma clareza e abertura que fariam lembrar Flusser, mesmo estando Groys interessado em assuntos diferentes. No cerne de seu questionamento está o papel da vanguarda na pós-modernidade. Por exemplo, em uma discussão com Jean Baudrillard, ele pergunta como poderia haver um fluxo infinito de sinais na mídia, quando toda mídia era finita. Suas idéias sobre o kitsch são bastante semelhantes aos pensamentos que Flusser desenvolveu em Gewohnheit als ästhetisches  Kriterium schlechthin (Hábito: O Verdadeiro Critério Estético).

Andreas Müller-Pohle merece os mais altos elogios por fazer Flusser conhecido na Alemanha e por continuamente desafiar sua produtividade e por acompanhar criticamente seu desenvolvimento, fazendo com que ele focalizasse o cerne do seu filosofar cada vez mais na imagem técnica exemplificada pela fotografia. Fotógrafo influente, redator e editor da revista European Fotography, Müller-Pohle foi o primeiro a publicar Flusser na Alemanha. Seu primeiro contato se deu em 1981, em Düsseldorf, durante a primeira apresentação de Flusser na Alemanha. Foi Müller-Pohle quem sugeriu que um livro que reunisse as análises de Flusser sobre a fotografia deveria ser publicado. Flusser aceitou imediatamente e escreveu Für eine Philosophie der Fotografie. Era o começo de uma colaboração íntima que não teve fim nem por conta da morte de Flusser.

Um outro fotógrafo, e parceiro de diálogo precioso e inspirador para Flusser, é Gottfried Jäger, professor de fundamentos artísticos da fotografia, e um dos fotógrafos mais influentes na Alemanha. Em um dos textos que Flusser escreveu para e sobre Jäger, ele apontou que

"era óbvio que em fotografia, mais evidentemente do que na pintura, uma intenção codificadora e de atribuição de sentido intervem entre a imagem e a objeto - que não há tal coisa como a imagem mimética, puramente reprodutiva, e que há uma qualidade poética e producente em toda imagem. Jäger tira proveito deste insight teórico, e tenta acentuar o parâmetro poético da feitura da imagem. (…) Com o aparato há uma co-relação complicada de funções: o aparato faz o que homem quer que ele faça, mas o homem só pode querer que o aparato faça o que pode fazer. De fato: o aparato e o homem formam uma única unidade funcional. Jäger é um dos que entendem isto. Ele concentra sua atenção tanto na função do aparato como em sua própria intenção. (…) O trabalho e as considerações teóricas de Jäger são importantes para a emergente cultura de imagens gerada pelo aparato". 39

Enquanto isso, Jäger fala sobre Flusser:

"Eu não quero idolatrar a fotografia e os aparatos técnicos. Como ninguém antes dele, Flusser formulou a idéia de uma conexão entre tecnologia, arte e liberdade com a ajuda da máquina fotográfica ou de outros meios, como computadores usados diferentemente de antes. O que está em jogo é a realização desta idéia. De acordo com Flusser, isto é parte do último desafio ao mundo civilizado”. 40

Em seu obituário sobre Flusser, Jäger declarou que "Flusser criou significado com sua argumentação e com suas perguntas perspicazes. Criou movimento e atividade. (…) Seus pensamentos sempre apontavam para o prático e para o possível, também". 41 Jäger vê em Flusser um pai fundador, distribuindo um programa para toda uma nova geração de artistas, cientistas, técnicos e políticos. "É chamado ‘liberdade, no contexto de aparatos.’ Este projeto é, como ele diz, a única coisa pela qual se vale a pena lutar: ‘O aparato é o fim da história.’”42 Em uma análise brilhante e convincente, Flusser explica como e por que o objetivo da história está se transformando em um programa de televisão43.

Porém, um pouco resignado, Jäger conclui: "Nenhum outro teórico e filósofo contemporâneo da mídia tem, tão positivamente, defendido a fotografia e sua renovação nos últimos anos. A profissão da fotografia está profundamente endividada para com Flusser. Só alguns perceberam isto". 44

Um dos poucos a se dar conta disto é o diretor de filmes alemão Harun Farocki. Um dos melhores realizadores de documentários no mundo, e altamente interessado nas implicações de sua mídia, Farocki publicou dois ensaios sobre Flusser45, que demonstram uma compreensão extraordinária dos argumentos do filósofo. Alguns dos filme-ensaios de Farocki, como Bilder der Welt und Inschrift des Krieges/Images do Mundo e Inscrição da Guerra (1988), mostram influências óbvias tanto de Flusser como de Virilio.

Voltando para casa

Na República Tcheca, Flusser permanecia virtualmente desconhecido antes de o Goethe-Institut Prag o convidar para uma conferência e um seminário, em novembro de 1991 (visita esta que resultou em sua morte); ele havia improvisado uma pequena palestra na Dum fotografie (Casa da Fotografia), quando em visita a Praga alguns meses antes de seu primeiro e último aparecimento em público em Praga, no Goethe-Institut. A maior dificuldade durante o primeiro encontro com a intelligentsia Tcheca foi, para mim, sua insistência em suas teorias da pós-história. Para os intelectuais Tchecos, a Velvet Revolution/Revolução Aveludada de 1989 mais parecia com o retorno da história depois de 20 anos de paralisação. A conferência de Flusser, para um auditório abarrotado, logo se transformou em uma provocação empolgante, questionando tudo aquilo em que a sociedade tcheca pós-totalitária acreditava. Parecia mais um julgamento do que uma conferência. Flusser descortinou os fracassos intelectuais de 50 anos, trocando de um idioma para o outro quando assim desejava. A audiência havia sido domada.

Durante os 51 anos de ausência de Praga, Flusser, é claro, havia perdido quase todos os contatos que lá mantinha. Os únicos que pareciam conhecê-lo na conferência de novembro de 1991 eram Michael Bielicky, artista de mídia de origem tcheca, estudante e assistente de Nam June Paik, que se deslocava entre Praga e Düsseldorf, e o filósofo Petr Rezek. Bielicky havia conhecido Flusser vários meses antes, e o visitara em Robion, e agora o levava a passear em Praga. Petr Rezek sobrevivera à era totalitária e sufocante denominada de normalisace (normalização), compreendida entre os anos 70 e 80, ensinando filosofia clássica. Na última noite de permanência de Flusser em Praga (que se tornou a última noite da vida de Flusser), passamos uma noite longa e alegre, em um grupo de oito pessoas. Tarde da noite, levei Edith e Vilém ao Café Slavia, onde eles se encontraram com Petr Rezek. Era o último compromisso de Vilém Flusser.

Durante vários anos, Rezek, um talento desperdiçado, foi um convidado regular de nossos simpósios e publicou ensaios filosóficas tal como Bild, Bildschirm und Live-Übertragung (Imagem, Monitor e Radiodifusão ao vivo) - muito na veia de Vilém Flusser. Suas conferências, ou melhor, performances, se tornaram lendárias. No meio dos anos 90, ele passou, de uma hora para outra, a recusar todos os convites para dar conferências ou publicar, e abriu uma pequena editora de textos filosóficos clássicos traduzidos para o tcheco.

Quando Flusser discorreu sobre seu sonho de seres humanos como projetos de programação sem teto e errantes, que têm que aprender a conquistar as máquinas, entender e dominar seus novos códigos digitais e imagens, a audiência na Praga de 1991 protestou: “Mas só agora começamos a compreender o telefone…". Flusser situou a euforia política da ocasião, em Praga, no contexto relativo do desenvolvimento da mídia:

"A história é uma função da escrita. …No que nos diz respeito, com confiança poderemos entregar toda a história aos cuidados das máquinas automáticas. Já que os materiais automáticos e mecânicos farão a história melhor que nós mesmos, poderemos nos concentrar melhor em outras coisas". 46

Enquanto alguns dos jovens artistas e filósofos andavam intrigados com estas idéias, elas pareciam absurdas e ininteligíveis àqueles acostumados a pensar com base em categorias políticas e morais. Aqui estava algo completamente novo, alguém que defendia que só o pensamento formal levaria a uma existência mais humana, enquanto as revoluções eram esforços tão inúteis quanto o próprio comunismo, presas em um paradigma linear e histórico.

A Semente de Inspiração

A visita (e morte) de Flusser inspiraram intenso interesse na filosofia da comunicação e na arte da mídia. Muitos artigos apareceram na imprensa tcheca. Revistas especializadas em filosofia, arte e fotografia publicaram números especiais.

Flusser juntou seu maior grupo de seguidores entre os artistas e intelectuais da Estética, particularmente da geração mais jovem. Durante os últimos anos de sua vida, sua influência aumentava constantemente e, desde sua morte, se expandiu consideravelmente. Depois do acidente, uma onda de artigos e edições especiais dedicadas ao seu trabalho foram publicadas em muitas revistas intelectuais européias, incluindo Kunstforum, European Photography, Arch+, Vytvarné umení, Der Falter, e manuskripte.

Naquele momento, uma elite de vanguarda mídia-filosófica se concentrou em Praga, com alguns dos amigos de Flusser em seu centro. Consistia principalmente em artistas, filósofos, e tecno-freaks. No início de 1992, em cooperação com a família de Flusser, uma rede foi estabelecida com o objetivo de fazer circular suas idéias e promover estudos na esteira de seu pensamento.

Um ano depois do trágico acidente de Flusser, organizamos a primeira conferência internacional sobre o filósofo47, em Praga: Vilém Flusser - o Pioneiro da Pós-história. Algumas das figuras mais conhecidas do mundo da filosofia da mídia, incluindo Friedrich Kittler, Florian Rötzer, e Peter Weibel, discutiam a pós-história, a escrita e a fotografia, assim como a telemática. Ao mesmo tempo, um vídeo-seminário acontecia com Michael Bielicky, Egon Bunne, Woody Vašulka, e seus alunos, do qual resultou uma exibição no Národní technický muzeum (Museu Técnico Nacional), em Praga. O espetáculo viajou para a Espanha e Alemanha, como um projeto internacional. Logo depois, uma onda de artigos sobre questões relacionadas à pós-história apareciam. Do ponto de vista dos pais da fenomenologia (Husserl, Patocka) ou do estruturalismo (Jakobson), os intelectuais foram catapultados diretamente para o mundo da realidade virtual, do hipertexto e do pós-modernismo. Seria isto o amanhecer de uma menos-história, um período pós-histórico, em que não houvesse nenhum evento novo; em que as decisões políticas houvessem sido reduzidas à possibilidade de algo ser programado ou comunicado pela mídia; em que não houvesse nenhum som, nenhuma imagem, a menos que registrados por um microfone ou uma máquina fotográfica? O que o artista pode fazer em tal situação? Uma possível resposta é usar os programas congelados nas máquinas contra a intenção dos autores e usá-los, deliberadamente, de forma imprópria. A arte pode (e deve) fazer uma tentativa de usar a tecnologia e aqueles conceitos materializados subversivamente48.

Os Simpósios de Praga

Em 1993, organizamos o simpósio Imagens-posteriores: A Interação com a Mídia Digital, em cooperação com Michael Bielicky e a AVU (Academia de Belas Artes de Praga) e três outras instituições tchecas. O encontro foi acompanhado, uma vez mais, por um seminário, desta vez com Norbert Nowotsch, sobre o assunto de O Livro Eletrônico, e uma ampla apresentação de vídeo-arte do Arquivo de Mídia de Praga e do Europäisches Medienkunst Festival (Festival Europeu de Arte de Mídia), Osnabrück. Os participantes internacionais mais famosos eram Manfred Eisenbeis, David Galloway e Jeffrey Shaw. Além de lidar com questões aparentemente ingênuas (“O que podemos fazer com os computadores?" ou "Como pode-se fazer com que o vídeo se torne comunicativo ou interativo?”), eles também especulavam sobre o futuro da mídia, da arte e da filosofia ligada à mídia, mais uma vez enfocando a tecnologia. O evento foi concebido como uma introdução às complexidades das novas artes de mídia, percebidas por muitos como inacessíveis. É claro que também mantinham uma perspectiva crítica. Ao lado do fato de que o projeto do ano anterior já havia estabelecido as bases, era principalmente graças àquele enfoque que o simpósio se tornara a ruptura post mortem para Flusser na República Tcheca. Flusser já se tornara famoso na Europa Ocidental, como um dos teóricos do pós-modernismo mais influentes na Europa.

Outro estudioso tcheco importante na primeira discussão de Flusser em terras tchecas foi Miroslav Petrícek. Petrícek tinha recebido sua educação filosófica enquanto estudante particular de Jan Patocka, o principal fenomenologista tcheco e principal mentor da dissidência de pós 1968. Depois de perder seu cargo de professor univesitário, Patocka continuou dando aulas para um pequeno grupo de estudantes em seu apartamento. Depois da Velvet Revolution de 1989, Petrícek se via como um dos melhores e mais talentosos filósofos tchecos - porém, sem uma educação formal ou diploma acadêmico. Petrícek, que havia traduzido Derrida e Lyotard para o tcheco, estava especialmente aberto às questões da pós-modernidade. Ao mesmo tempo, permanecia preso à tradição fenomenológica de Edmund Husserl, Jan Patocka e Ingarden. Enquanto Rezek, em sua recepção de Flusser, enfocava mais os reflexos do desenvolvimento da mídia, Petrícek, em vista de seu sólido conhecimento da fenomenologia, parecia melhor capacitado a entender e re-interpretar o método de redução fenomenológica tão essencial para o pensamento de Flusser. Quando Petrícek foi designado professor na Universidade Européia Central, fundada em Praga no início dos anos 90, foi dada a ele a oportunidade de passar adiante suas reflexões a uma elite de jovens pós-graduandos altamente talentosos, escolhidos a dedo, vindos de toda parte da Europa Central e Oriental.

Desde então, cada simpósio mantém um nível excepcional de interesse público: durante dois dias, cerca de 120 participantes enchem os corredores, e a reação da imprensa é muito positiva. A discussão sobre a realidade virtual causou sensação - e a imprensa  vendeu o tema como cybersex – sexo cibernético. Então, organizamos vários outros eventos  sobre este mesmo assunto: séries de vídeos e filmes, apresentações de festivais alemães, projetos de arte e comunicação, performances de hipertexto multimídia. Outros eventos organizados pelo lado tcheco, sem nosso apoio, complementaram essas atividades: exibições de vídeos, publicações, o estabelecimento de grupos de trabalho e de amigos, além de conferências.

Em dezembro de 1994, organizamos um grande simpósio internacional e interdisciplinar, As Novas Mídias e a Ética, em cooperação com a Academia de Belas Artes e o Soros Center for Contemporary Arts, em Praga. Enfocamos a dimensão ética e política do desenvolvimento de tecnologia de comunicação e examinamos sua possível contribuição para um novo tipo de democracia. Tentamos fazer previsões sobre algumas das conseqüências futuras da tecnologia neste campo, para contribuir com uma nova sociologia de mídia inspirada por Flusser. Os conferencistas e participantes, incluindo Norbert Bolz e Peter Glotz, confrontavam a demanda de uma realidade fora da mídia com um chamado para a construção responsável de "realidade" na e pela mídia. Sob o lema "Você não precisa ser um especialista. Você é afetado de qualquer jeito” (tua res agitur), o simpósio foi mais explicitamente dirigido a uma audiência mais ampla do que seus predecessores. Durante as discussões, ouviam-se perguntas tais como "Que tipo de responsabilidade suportamos para o tipo de ´realidade´ que retratamos (e recebemos)? Será que o mercado multimídia leva ao entorpecimento do gênero humano? Até que ponto os sistemas de mídia suprem as necessidades dos cidadãos (até que ponto eles geram essas necessidades, até que ponto eles satisfazem as necessidades de outros grupos de indivíduos)? Como os artistas e a indústria trabalham juntos? A arte de mídia é manipulação, promoção para indústria, ou só diversão inocente? Só podemos nos tornar uma pessoa inteira nos unindo a comunidade de usuários da mídia, ou pelo contrário, será que isto leva a uma perda da liberdade humana?”

Essas perguntas nos deram os temas principais para o simpósio de 1995. Considerando que Flusser tinha acendido a chama do interesse, permitimos que os eventos seguissem seu próprio curso e os limitamos o mínimo possível; estávamos tentando desenvolver idéias de Flusser através de um diálogo aberto, no qual todos eram bem-vindos a participar. Isto refletia nossas idéias sobre a comunicação e a importância de um diálogo interdisciplinar. Isso significa que tirávamos o tópico de cada simpósio das perguntas que surgiam nas discussões públicas do simpósio anterior. Acreditamos que, perseguindo a prática de uma existência dialógica, estávamos mostrando não só nosso respeito por Vilém Flusser, mas também reconhecendo a natureza e o alcance da mudança de paradigma que formava o tópico de nossas discussões.

O simpósio Ambientes Artificiais como Artefatos, em dezembro de 1995, dedicou-se a vários aspectos da influência das novas mídias nas belas artes. Um fórum de artistas e uma retrospectiva histórica da mídia técnica em terras tchecas (como também a arte que essa mídia ajudou a criar) foram seguidas de um segmento teórico, que enfocava as seguintes questões: "Como a arte da mídia está se vendendo? Quem controla as novas mídias? Quem tem acesso a elas? Quem toma essas decisões? Que legitimidade democrática e responsabilidade política essas pessoas têm? Qual é a relação entre as Belas Artes, as ciências e a tecnologia militar? Quais são as conseqüências de vivermos em um mundo que, cada vez mais, é criado por seres humanos? A Natureza ou o ruído ainda existem? Será que não corremos o perigo do narcisismo (com todas suas implicações perigosas), quando o mundo no qual vivemos é cada vez mais criado por humanos e é um mero reflexo de nossa própria imagem (e da imagem que temos do mundo)?” Dentre os participantes estavam Radúz Cincera, Gerald O´Grady, Siegfried Zielinski e Paul DeMarinis.

Gostaria de mencionar aqui três outras pessoas importantes em fazer com que  Flusser se tornasse conhecido na República Tcheca: Milena Slavická, crítico de arte e redator de uma revista de arte, publicou vários ensaios sobre Flusser em tcheco, uma antologia dos ensaios de Flusser sobre arte49, e Dejiny d’abla, uma tradução de Die Geschichte des Teufels (A História do Diabo). Jirí Fiala, professor de Matemática na Charles University de Praga, traduziu textos de Flusser do alemão para o tcheco. Josef Moucha, fotógrafo, crítico, e redator de uma revista sobre fotografia, familiarizou uma geração de fotógrafos tchecos com os escritos foto-teóricos de Flusser.

Em 1996, enfocamos a Arte da Mídia – Esperança Intercultural ou Arte sem  mensagem?. Dentre os conferencistas se encontravam Paul Sermon, Wolfgang Welsch, Bazon Brock, e muitos outros.

Um ano depois, em 1997, a Flusser foi concedido, como homenagem póstuma, o importante prêmio Siemens Medienkunstpreis (Prêmio Siemens de Mídia de Arte)50, dois anos depois de Jean Baudrillard ter sido igualmente agraciado.

Chamamos o simpósio de 1997 simplesmente de Flusser Media Film; tentamos, junto com David Larcher, Lev Manovich, Peter Krieg, Dietmar Kamper, Zbigniew Rybczynski e outros, fazer uma primeira avaliação do que havia acontecido no campo dos estudos da comunicação durante os sete anos desde os primeiros - e últimos - aparecimentos públicos de Flusser em Praga.

 

Notas:

* Andreas Ströhl foi coordenador da programação cultural do Instituto Goethe de Praga (República Checa), entre 1991 e 1997, em especial em cinema, artes visuais e mídias. A partir de 1998, chefe do departamento de cinema no Instituto Goethe de Munique. Entre 1996 e 1998, palestrante convidado em teoria da comunicação na Universidade de Innsbruck (Áustria). Organizador de simpósios anuais em Praga entre 1992 e 1997, no Instituto Goethe local, dedicados à obra de Vilém Flusser: 1992: Vilém Flusser - Pioneer of Post-History; 1993: After-Images. Interaction with Digital Media; 1994: New Media and Ethics; 1995: Artificial Environments as Artifacts; 1996: Media Art - Intercultural Hope, or Art without a message?; 1997: Flusser Media Film. Texto publicado no volume Vilém Flusser no Brasil, organizado por Ricardo Mendes & Gustavo Bernardo em 1999.

 

1.  Abraham Moles, diretor do Instituto de Psicologia Social em Strasbourg, com numerosas publicações sobre arte e teoria cultural, livros sobre kitsch, criatividade científica e artística, estéticas de informação, arte e o computador, morreu aproximadamente um ano e meio depois de Flusser, em 1992.

2.       No mesmo dia em que escrevo isto, a revista Die Zeit registra: "O discurso nas universidades só aparenta estar livre de poder. Mas a verdade é que a maioria dos estudiosos carrega um punhal escondido. (…) Por detrás da cena, há sempre uma mudança de gerações acontecendo, também, uma luta por influência e recursos, especialmente em tempos de orçamentos parcos". (Peter Schöttler: Prologe im Himmel der Theorie. Die Historiker Richard Evans und Hans-Ulrich Wehler rufen zum Kampf gegen die "Postmoderne”. in: Die Zeit, September 10, 1998)

3.        Abraham Moles: Über Flusser (On Flusser). in: Kunstforum, Nº 117, Cologne 1992, p. 93.

4.         Göttingen 1987.

5.         Abraham Moles: Zur Philosophiefiktion bei Vilém Flusser. in: KulturRevolution Nº 17/18, May 1988

6.         Volker Rapsch (ed.): Über flusser. Die Fest-Schrift zum 70. von Vilém Flusser. Düsseldorf 1990.

7.         Moles. in: Kunstforum, p. 93

8.         Fred Forest: In der Metro und auf dem Videoband mit Vilém Flusser. in: Kunstforum, Nº 117, Cologne 1992, p. 102

9.         Ronald Meyer: Gesten der Bodenlosigkeit. Neue Aufsätze des wilden Denkers Vilém Flusser. in: Göttinger Tageblatt, January 29, 1992, p. 18

10.          Georg Imdahl: SZ, p. 11

11.         Georg Imdahl: Unser elektronisches Dorf soll schöner werden. Vilém Flusser fordert eine Revolutionierung der menschlichen Denkstruktur. in: Süddeutsche Zeitung, March 15, 1994, p. 11

12.         Michael Schmidt-Klingenberg. Der Spiegel, p. 136

13.         Meyer, p. 18

14.         Vilém Flusser: Nachgeschichten. Essays, Vorträge, Glossen. Düsseldorf 1990, p.168 f.

15.     De fato, este núcleo de fãs e seguidores de Flusser era tão pequeno (mas ativo) que até o meio dos anos 90, eles praticamente se conheciam pessoalmente. Até hoje, esta comunidade mantém correspondência permanente e troca de idéias.

16.        Frank Lucht: Eine neue Einbildungskraft. Über Vilém Flusser. in: Merkur. Deutsche Zeitschrift für europäisches Denken. Nº 9/10: Medien? Neu? Über Macht, Ästhetik, Fernsehen, Sept./Oct. 1993, p. 894

17.     Mark Terkessidis: Medienphilophobie. in: Symptome, Nº 2, 1993, p. 44

18.     Aqui, Lovink cometeu um engano. Não foi o Aufschreibesysteme, de Kittler, que foi traduzido em inglês, mas sim o Grammophon Film Typewriter (Berlim 1986): por Dorothéa von Mücke e Philipe L. Similon (Grammophone, Film and Typewriter, 1987).

19.        Geert Lovink: Mediatheory Is Here to Go. Ein Kommentar zu Mark Terkessidis (Media Theory Is Here to Go. A Comment On Mark Terkessidis). in: Symptome Nº 2, 1993, p. 45

20.         Vilém Flusser: Towards a Philosophy of Photography. Göttingen 1984

21.         Francis Fukuyama: The End of History and the Last Man, New York 1992

22.         Elizabeth Wilson and Andreas Ströhl: Vilém Flusser. in: The Yale Journal of Criticism, New Haven CT, Fall 1993, p. 285 ff Elizabeth Wilson and Andreas Ströhl: On the Philosopher Vilém Flusser. in: Weber Studies, Ogden UT, Winter 1997, p. 29 ff

23.         K.P. Liessmann: "Wir können nur noch Saboteure sein". in: Der Standard, March 13, 1991, p. 27

24.   Wolfgang Preikschat: Das Zeitalter der Buchstaben ist am Ende. in: PS Nº 256, probably 1985, p. 30. Dentro do mesmo assunto, Heino Ape pergunta: "A pergunta permanece: será Flusser o informante privilegiado daqueles inspirados pela filosofia, arte, e pela alta tecnologia, ou nós podemos nos esquecer dele depressa"? (pág. 32)

25.     Michael Schmidt-Klingenberg: "Die Macht geht auf blöde Apparate über". in: Der Spiegel, No. 19, May 8, 1989, p. 133 ff

26.   Resenhas em: Fotografia Oltre, Nikon News, Fotokritik, foto-scene, Profi Foto, Phototechnik, Perspektif, Camera Austria, Fotografie, Fotogeschichte, The Journal of Photography in New England, Photo Communique, American Photography, Photo Italia, Fotopractica, Kameran tar över, Studio-Art Magazine, e provavelmente muitos outros.

27.        Göttingen 1987

28.         Imdahl, p. 11

29.         Preikschat, p. 32

30.         Baudrillard: Simulations, New York 1983, p. 150

31.  Friedrich Kittler: Flusser zum Abschied. in: Kunstforum No. 117, Cologne 1992, p. 99. Mais  tarde reeditado como: Ein Bote aus Alteuropa. in: Die Revolution der Bilder. Der Flusser-Reader zu Kommunikation, Medien und Design. ed. Stefan Bollmann. Mannheim 1995, p. 225

32.     Weibel se tornou há pouco o diretor do Zentrum und de Kunst Medientechnologie (Centro para Arte e Tecnologia de Mídia) em Karlsruhe. Ao lado de Kunsthochschule Medien (Academia de Arte de Mídia) em Cologne, é a instituição de arte de mídia mais importante na Alemanha.

33.        Peter Weibel: Vilém Flusser. A Brave New Man for a Cruel Old World. in: Kunstforum, p. 96. later republished as: A Brave New Man for a Cruel Old World. in: Flusser-Reader, p. 226

34.         München 1991

35.         Norbert Bolz: Ulysses Flusser. in: Kunstforum, p. 107, later published in: Flusser-Reader, p. 229

36.         Wolfgang Welsch: Ästhetisches Denken. Stuttgart 1990, p. 212

37.         Florian Rötzer: Fürsprecher des Neuen. in: Flusser-Reader, p. 228

38.         Florian Rötzer: Entdeckung der Heimatlosigkeit. in: siemens medienkunstpreis 1997. Karlsruhe and München 1997,p.25

39.         Vilém Flusser: Comments. in: Leonardo, No. 19, Berkeley and Oxford 1986, p. 357 f; quoted after the re-print in: Gottfried Jäger: Schnittstelle. Generative Arbeiten. Bielefeld 1994, p. 68

40.          Prof. Gottfried Jäger im Gespräch mit Dr. Andreas Beaugrand am 16. August 1994 in Bielefeld. in: Gottfried Jäger: Schnittstelle. Generative Arbeiten. Bielefeld 1994, p. 18

41.         Gottfried Jäger: Freiheit im Apparatekontext: Vilém Flusser. in: Kunstforum, p. 83;uma versão reduzida deste texto foi publicada em: Flusser-Reader, p.223 f, intitulada Freiheit im Apparatekontext

42.    Jäger: Freiheit, p. 82

43.   Exemplificado por Steven Spielberg, cujos filmes Schindler´s List ou Saving Private Ryan parecem terem sido feitos só para provar o ponto de vista de Flusser: eles transformam  a história em uma narrativa divertida na qual a distinção entre verdade e ficção não faz nenhum sentido.

44.        Jäger: Freiheit, p. 82

45.         Harun Farocki: Das Universum ist leer. in: Der Falter, No. 12, 1986; and: Harun Farocki: Vilém Flusser: Für eine Philosophie der Fotografie. in: Zelluloid, Nº. 25, 1987, p. 77

46.    Vilém Flusser: Die Schrift. Göttingen 1987, citação retirada da edição de Frankfurt am Main 1992, p. 12

47.    Seguido por conferências na Antuérpia em 1993, Graz em 1994, Munique em 1995, Tutzing em 1996 (O artista de mídia húngaro Gustav Hámos era um dos primeiros artistas da Europa Central inspirado por Flusser e percebeu o potencial de seus escritos para as artes visuais experimentais. Durante anos, Hámos havia planejado fazer um filme sobre Flusser. De acordo com meu conhecimento, o projeto ainda não foi realizado), Budapeste em 1997, Bielefeld em 1998, e Puchheim em 1999.

48.    Já nos anos sessenta, Flusser e outros apontavam em vão para as possibilidades interativas da televisão.

49.    Vilém Flusser: Moc obrazu. Vybor filosofických textu z 80. a 90. let. Prague, 1996

50.    No elogio se lê: "Este prêmio é um tributo póstumo a um filósofo que fixa padrões para além de sua vida. Os trabalhos de Flusser falam de valores humanitários profundos e permanecem válidos e brilhantes até agora. Este grande filósofo e teórico da comunicação estava interessado na escolha entre a linguagem visual e a escrita, mas também nas qualidades específicas de cada um destes “códigos”. Embutido em uma ambição universalística do pensamento, Flusser produziu análises esclarecedoras da prática da mídia hoje, e desenvolveu uma teoria da mídia convincente”.