DUBITO ERGO SUM

 Vilém Flusser

O NOMINALISMO MEDIEVAL
NA BASE DA FENOMENOLOGIA MODERNA:
de Guilherme de Occam a Vilém Flusser

 

Gustavo Bernardo

 

Publicado originalmente em:
 MALEVAL, Maria do Amparo.
Atualizações da Idade Média.
Rio de Janeiro: Ágora da Ilha, 2000.
 

Hans-Georg Gadamer certa vez definiu a história como “a conversação que somos”. O filósofo tcheco-brasileiro Vilém Flusser considera sempre essa conversação, dialogando estreitamente com a tradição cética, a dúvida cartesiana, os limites de Wittgenstein e a fenomenologia de Husserl. Sua principal referência é sem dúvida Edmund Husserl, embora dele difira radicalmente nas conclusões e, principalmente, no estilo. Atormentava a Husserl a questão central de todo idealismo: o que vemos, existe? E: o que existe, existe mesmo?

Na linguagem do filósofo alemão, toda percepção de uma coisa seria indissociável da tese do mundo, assim como, para Spinosa, toda representação é juízo situado na ordem das idéias. A percepção de uma coisa, portanto, implica a qualquer tempo a percepção de dada constância na relação variável da coisa com as suas circunstâncias e, em última instância, com o mundo em geral.[i] Vemos, portanto, não isto, mas isto relacionado àquilo e àquilo outro; vemos as relações. Do mesmo modo que a gramática ou a lingüística não podem dizer se determinada frase é formal ou informal, por exemplo, sem relacioná-la a um texto e a um contexto, não se percebe o que quer que seja sem moldura, sem frame. Entretanto, como saber as relações sem imaginá-las? Em decorrência, como distinguir a realidade da imaginação?

A imaginação fabula uma percepção que não há a partir da combinação de percepções que teriam havido, como as de um cavalo e de um pássaro que, juntas, formam Pégaso. Isto acontece com o cavalo alado como, quiçá, com cavalos “reais”. A imaginação força-se a duvidar de si mesma, duvidando da existência de mundos imaginários. A imaginação e o que se imagina existiriam sim, como fonte e seres dessa fonte, ou seja, produtos da imaginação, mas “mundo imaginário” seria uma contradição nos próprios termos: ou é mundo ou é imaginário. Na tensão desse dilema, a perturbação: imaginamos o rosto de uma pessoa, conhecendo-a antes ou não, mas não reconhecemos o que imaginamos quer na imagem de uma fotografia quer frente a frente com a “própria” pessoa – é como se fosse outra coisa, com outra existência de coisa. Não reconhecemos, aliás, o nosso próprio rosto nem em uma foto nem em um espelho: “esse não sou eu”. Esse não sou eu e ela não é ela, como mostra personagem de Gide, em dúvida se ama Laura ou se imagina que a ama – entre imaginar que a ama menos e amá-la de fato menos, que deus verá a diferença? No domínio dos sentimentos, o real simplesmente não se distinguiria do imaginário: “Je le vois bien avec mon amour: entre aimer Laura et m’imaginer que je l’aime – entre m’imaginer que je l’aime moins, et l’aimer moins, quel dieu verrait la différence? Dans le domaine des sentiments, le réel ne se distingue pas de l’imaginaire”.[ii]

Todas as filosofias se construíram para superar a indistinção entre o real e o imaginário, mas, no domínio dos sentimentos, que se confunde com o domínio do sensível, a indistinção retorna. O amor que sinta por Laura, ou por Lúcia, é uma coisa perceptível, ou no momento em que tento descrevê-lo (o amor) e descrevê-las (Laura e Lúcia) tornam-se imperceptíveis? A pedagogia vigente, sempre inspirada na ética aristotélica da mediania, quer que pensemos, afinal, como de fato pensamos. A questão da filosofia, no entanto, é bem outra: por que pensamos assim? Mais precisamente ainda: “por que já não podemos pensar exatamente assim?”.[iii] Fala-se sempre do que escapa; percebe-se sempre o que já não vemos mais, no momento em que percebemos que percebêramos.

Entender o que existe sempre foi preciso, embora, talvez, tão difícil. Como a existência pode ser absolutamente inapreensível, um dos atalhos de compreensão se encontra na tentativa de apreensão não do que existe, mas do que aparece, o que, por sua vez, ainda é problema, já que o que aparece aparece-para-nós-ou-para-outrem, envolvendo a variável da percepção. Nesse atalho, busca-se o fenômeno, na esteira da oposição kantiana entre o númeno e o fenômeno. Temos então a fenomenologia. Mas a fenomenologia se inscreve, por sua vez, na tradição cética. Boa parte das dificuldades encontradas pelo leitor médio frente à fenomenologia – e, por extensão, ao pensamento de Vilém Flusser – derivam da sua dimensão cética. Na Academia, na escola, no dia-a-dia, o ceticismo é encarado de maneira pejorativa, mas “apenas” porque põe sob grave suspeita as certezas que emprestam solo firme aos acadêmicos, aos professores, aos alunos, aos cidadãos.

Ao dizer que “o homem é a medida de todas as coisas”, isto é, que todo conhecimento é subjetivo, logo, não há verdade objetiva, Protágoras estabelecera as bases do relativismo que alimentaria os céticos. Precursores do epicurismo, como Aristipo, igualmente abriram caminho para o ceticismo, ao evidenciarem o caráter subjetivo das sensações físicas: o sabor, o calor, a cor não seriam qualidades inerentes às coisas, mas sim estados de afecção do sujeito. O ceticismo como método se configura, entretanto, a partir de Pirro, por volta dos séculos IV e III ac. Para ele, o homem em busca da felicidade deve fazer três perguntas: qual é a natureza real das coisas; quais disposições convém adotar a respeito; quais conseqüências resultarão desta atitude. A estas perguntas devem-se dar as seguintes respostas: as coisas são equivalentes e indiscerníveis umas das outras, não se nos revelando nem pelas sensações nem pelos juízos; logo, não se deve confiar nem nos sentidos nem na razão, abstendo-se de emitir qualquer opinião, tanto negativa quanto afirmativa, permanecendo em relação às coisas em estado de afasia completa; alcança-se, desse modo, a ataraxia, ou seja, a atitude de quem nada perturba. Para Pirro, não existem o belo ou o feio, o justo ou o injusto, uma coisa não é mais isto que aquilo. A afasia, como recusa a se pronunciar, conduz à epokhé, isto é, à suspensão do juízo, enquanto que a ataraxia, como ausência de perturbação, conduz à adiaphoria, isto é, à indiferença.[iv] A filosofia de Pirro nos chegou através dos seus gestos, do seu exemplo, mais do que dos seus escritos. Conhecem-se a seu respeito muitas anedotas que, autênticas ou não, revelam o ideal moral que buscava. Segundo Diógenes de Laércio, o filósofo nada evitava, não se resguardava de nada, deixando-se ser atropelado por uma carroça, ser mordido por cães, cair num buraco, sem reclamar. Quando outros o deixavam no meio de uma conversa, simplesmente continuava a falar sozinho.

Arcesilau e Carnéades, mais tarde, são fortemente influenciados por Pirro. Ao criticarem os estóicos afirmavam que nenhuma representação pode ser considerada mais evidente ou mais digna de assentimento do que qualquer outra, as percepções verdadeiras não se distinguindo necessariamente das falsas. Ao criticarem a investigação dialética afirmavam que o argumento que se invoca em favor de uma tese deve ser ele próprio demonstrado por outro argumento, que por sua vez deve ser também demonstrado por mais outro argumento e assim por diante, ad infinitum – logo, seria impossível apresentar qualquer demonstração. Em conseqüência, nada existiria que se pudesse saber, nem mesmo o que Sócrates reservara-se, ao dizer que só sabia que nada sabia – pois nem isso. Como tudo permanece oculto para nós, é impossível compreender o que quer que seja – portanto, nada se deve antecipar, afirmar ou assentir. Entretanto, como tal atitude implica a suspensão de toda ação e como não podemos nos dispensar de agir, procuraram estabelecer critérios práticos que permitissem definir uma conduta sem convicções dogmáticas: o critério da razoabilidade, examinando se é possível invocar a favor de uma ação conjunto mínimo de razões coerentes, e o critério da probabilidade, admitindo que algumas coisas possam ser mais prováveis do que outras e, em decorrência, possam orientar provisoriamente, por aproximação, as ações e a vida cotidiana. O probabilismo admite que possamos tão-somente nos aproximar da verdade, sem jamais atingi-la. O probabilismo encontra-se na raiz da formulação de todo problema matemático, que deve começar com a expressão “suponha-se que”.

Etimologicamente, a palavra “cético” não tem valor negativo; significa “examinador” ou “investigador”. O cético se abstém de adotar ou formular opiniões dogmáticas, quer positivas quer negativas. Nesse sentido, o ateísmo é contrário ao espírito cético: enquanto o ateu diz que Deus não existe, o cético entende que Deus tanto pode existir quanto não existir, ou mesmo que essa questão possa fazer sentido nenhum. Na verdade, os maiores céticos são exatamente religiosos. Descartam tão-somente tentativas de demonstrar pela lógica ou pela filosofia, portanto pela razão, a existência ou qualquer atributo da divindade, considerando tais tentativas manifestações arrogantes da hybris humana.

A posição do cético é dubitativa, ou aporética, situando-se a igual distância da afirmação e da negação. Para estabelecer uma regra absoluta que permita distinguir o verdadeiro do falso, seria preciso possuir um critério prévio. Ora, é sobre este ponto, precisamente, que repousa toda discussão. Logo, é impossível resolver o problema do critério da verdade sem cair no círculo vicioso. Como tantos filósofos e tantas filosofias não concordam entre si a respeito de quase nada, como não existe uma tese a qual não se possa opor uma antítese, como não há argumento que não possa ser derrubado por argumento contrário, é preciso suspender todo juízo: a epokhé é necessária.

Nesse sentido, os céticos parecem misólogos, ou seja, adversários da razão. Desvalorizam tanto o raciocínio dedutivo quanto o indutivo. Para combater o primeiro, tomam o silogismo e mostram seu vício intrínseco. Quando se diz, no infeliz exemplo, que “todo homem é mortal, ora, Sócrates é homem, logo, Sócrates é mortal”, pode-se perceber sem muita dificuldade que a última proposição já está implicada na premissa maior. A seqüência do argumento é artificial, porque na verdade não se parte da premissa maior: sabe-se que todo homem é mortal porque se sabe, antes, da mortalidade de Sócrates e de outros homens. Em decorrência, o silogismo não teria nenhum valor demonstrativo. Para combater também a indução, os céticos mostram com a mesma facilidade o ponto fraco: tirar uma lei geral absoluta dos fatos particulares exige examinar sucessivamente todos e não menos do que todos os casos individuais, o que é rigorosamente impossível em função de seu número indeterminado. Nesse sentido, toda criança, quando entra na fase infernal (para os pais) do “porquê”, é cética em estado puro, só parando de perguntar “mas por quê?…” por cansaço.

Todavia, quando os céticos demonstram a indemonstrabilidade de tudo, derrubam ao mesmo tempo os seus próprios argumentos. Com efeito, se prova que nada pode ser provado, a argumentação cética perde ipso facto seu sentido. Na verdade, os melhores céticos não ignoram esta objeção, pois não têm a intenção de negar dogmaticamente a possibilidade da demonstração, mas sim a de provocar a respeito a suspensão do juízo. De acordo com esse procedimento, fazem uma crítica à procura das causas e, em conseqüência, a todo tipo de determinismo. Sexto Empírico, por exemplo, argumenta que, se um efeito não pode ser considerado senão em relação à causa que o determina, da mesma maneira a causa não pode ser concebida independentemente do seu efeito. Só se pode saber que a é causa de b depois de sabermos de b, jamais antes. Logo, a causa não pode ser anterior ao efeito, pois antes de este se produzir aquela não existia como causa. Naturalmente, a causa também não se produz ao mesmo tempo que o efeito, senão ela não se distinguiria dele. Logo, obviamente, a causa não é posterior ao efeito. Ora, se a causa não pode ser anterior, não pode ser simultânea e não pode ser posterior ao efeito, então “causa” é um conceito ininteligível se procuramos apreendê-lo em si. Lendo esta argumentação inusitada hoje, talvez possamos afirmar que não se está dizendo que não há relações de causa e efeito, mas sim que tais relações só podem ser pensadas com todos os termos e, principalmente, que tais relações são mapas para lidarmos com a realidade; elas não são “coisas”, não são dados, mas frases de uma linguagem chamada “lógica” que, como toda linguagem, é metafórica, substituindo a incógnita do real pela sintaxe necessariamente arbitrária do cogito.

André Verdan entende que o ceticismo grego já fazia uma espécie de “fenomenismo”, se não de fenomenologia, admitindo o fenômeno tal qual ele aparecia, abstendo-se de emitir opiniões categóricas sobre a natureza das coisas exteriores. Constatando que o fenômeno da fumaça é acompanhado pelo fenômeno do fogo e que uma cicatriz sucede uma ferida, o cético aceitará inferir haver fogo ao ver a fumaça e um ferimento vendo a cicatriz, mas se proibirá de estabelecer um elo de causalidade segura entre estes fenômenos: dirá apenas que a fumaça é o signo comemorativo e não o signo revelador do fogo.[v] Se o cético não se quer dogmático, não pode afirmar o contrário do que critica, mas simplesmente deixar em suspenso, sob suspeita, as certezas existentes. Essa suspensão, essa suspeita, exigem uma certa ironia bastante fina, dando inclusive tempo ao pensamento, que se esfalfa quando supõe que a verdade ou as respostas certas se encontram logo ali na esquina. Pequeno poema de Luiza Viana, intitulado “Ceticismo”,  mostra delicadamente isso:

A vidente:
– Tudo acontecerá

rapidamente

no aspecto

amoroso.

 

A moça, desconfiada:

– Creio

que será
moroso. [vi]

A desconfiança, da moça e dos céticos, não se dirige apenas às previsões de videntes ou de cientistas, mas também às pretensões da ética, esta parte da filosofia que teria por objetivo ensinar os homens a bem viver. Como o propósito da ética é duplo, a crítica dos céticos se dará em dois momentos. A ética visa, primeiro, a atingir racionalmente o conhecimento do Bem e do Mal, e depois, como conseqüência, a ensinar os homens a arte de viver feliz. Ora, se uns, como Sócrates e os estóicos, definem o Bem pela prática das virtudes, enquanto outros, como Epicuro e seus discípulos, definem o Bem pela ausência de dor ou pela presença de prazer, não resta óbvio que o Bem e o Mal seriam relativos a quem os define? Na presença de semelhante diversidade de opiniões sobre matéria tão importante, a atitude mais sábia não seria a de suspender o juízo sobre a natureza real do Bem? O segundo momento da crítica cética admite, por absurdo, que o ser humano pudesse ser capaz de conhecer o Bem e o Mal em si mesmos. Ora, esse conhecimento não asseguraria a felicidade, uma vez que o homem que formula juízos de valor deve necessariamente buscar realizar, com paixão, aquelas situações que considera boas. Como essa busca é muito difícil, terminaria por afastá-lo irremediavelmente daquela ausência de perturbação, daquela calma interior que parece inseparável da felicidade.

Entretanto, para os céticos, a felicidade não é uma palavra vã nem uma quimera: quando se renuncia a distinguir rigorosamente o Bem do Mal, quando se suspende o juízo, o que se obtém é justamente a preciosa ataraxia, ou seja, a serenidade que nenhuma doutrina moral pode assegurar. A ataraxia “é portanto uma conseqüência prática, ou antes, psicológica, da suspensão do juízo”.[vii] Não há contradição: a ataraxia não é o objetivo do ceticismo, quando seria perseguida e causaria perturbação, mas apenas a sua conseqüência. Para fazer compreender o processo, Sexto Empírico recorre ao apólogo de Apeles. O pintor Apeles esforçava-se para reproduzir em um quadro a espuma na boca de um cavalo, e não conseguia; perdendo a esperança, joga sua esponja suja de tinta contra a obra inacabada… e obtém deste modo, sem querer, o efeito pictórico desejado. A espuma na boca do cavalo é uma boa imagem dos esforços inúteis da filosofia dogmática, enquanto que o efeito obtido sem querer é uma boa imagem da suspensão do juízo e de suas conseqüências felizes.

A crítica cética à ética, que nos faz supor, forçando a etimologia, esta contida naquela, não implica, todavia, imoralismo ou amoralismo. Os céticos não combateram frontalmente a moral vigente, quando demonstrariam certeza e dogmatismo, ainda que “do contra”. Na dúvida da melhor regra a seguir, o caminho mais seguro é exatamente o da moral vigente, sem que se precise nela acreditar piamente. Ainda que Nietzsche visse os céticos como o único tipo honrado de filósofos, quando denuncia toda moral de abnegação e propõe uma moral guerreira e solitária o autor de Zarathustra se distancia da tradição cética, porque, dogmaticamente, afirma a negação da moral vigente. A concepção ética moderna que melhor se aproximaria do ceticismo seria a noção de “moral provisória”, de Descartes: como pusemos tudo em dúvida e não temos certeza do melhor e, ao mesmo tempo, precisamos agir de algum modo, a opção mais segura seria a de seguir as regras dos nossos maiores, reservando-nos todavia o direito da dúvida crítica e de uma certa ironia. A partir de uma lógica semelhante, os céticos não eram ateus: os filósofos dogmáticos é que pecariam por excesso de confiança no próprio juízo, tentando enquadrar Deus nos estreitos limites de seus raciocínios e assim tornando-se censores ou administradores da Providência Divina, o que, no limite, conduz ao ateísmo. O ceticismo desconfia da razão, mas não da fé.

Na modernidade, os nominalistas medievais, como Guilherme de Occam, estariam mais próximos do ceticismo; Vilém Flusser, para enxugar os seus conceitos, recorre várias vezes à “navalha de Occam”, princípio de economia aplicado à ontologia que estabelece: entia non sunt multiplicanda praeter necessitatem – não se deve multiplicar os entes existentes além do necessário. Guilherme de Occam foi um frade franciscano inglês que estudou e lecionou na Universidade de Oxford; acusado de heresia, foge para a Alemanha e alia-se ao Imperador contra o Papa João XXII. Defendia a posição de que os universais são antes de tudo conceitos, logo, entidades puramente mentais, supondo que se devesse interpretá-los como operações do intelecto e não como existentes em si mesmos.[viii] Guilherme passou à história como o nominalista herege capaz de negar as essências e enterrar a ordem tradicional pacientemente estabelecida pelos séculos escolásticos – sua intenção, porém, era, ao contrário, estabelecer definitivamente a filosofia da crença, exaltando a onipotência gratuita do Deus Criador, o que reforça a concepção que se vem defendendo: o ceticismo não se opõe à crença, antes a reforça, justamente por se recusar a explicá-la nos termos da razão.[ix]

O conhecimento parece exigir “que o sujeito cognoscente sofra a causalidade formal de seu objeto próprio”,[x] postulando a necessidade na ordem das coisas criadas. Em outras palavras, parece impossível conhecer sem estabelecer relações de causa e efeito, na medida em que o sujeito precisa supor o objeto como causa-motriz do seu conhecimento. O nominalismo de Occam, no entanto, conclui pela absoluta contingência do mundo criado como conseqüência óbvia da sua teologia. Para ele, uma coisa só é boa por decreto divino, e seu contrário poderia ser igualmente bom se Deus o tivesse desejado: roubo, adultério, assassinato e impiedade são maus segundo determinação puramente extrínseca, porque a onipotência divina só pode sê-lo se for inteiramente gratuita e arbitrária, sem o que Ele não seria O Deus. Dentro da mesma lógica, a ação moral humana não justifica qualquer critério interno, assim como o universo do real não implica nenhuma necessidade imanente. Ao se negar a idéia transcendente de Platão, tampouco se pode preservar a essência “dentro” do indivíduo concreto: ou a essência é distinta do indivíduo e existe fora dele, caso em que ela própria seria singular e não poderia comunicar-se com outros indivíduos, ou a essência é idêntica ao indivíduo, quando não pode ser distinguida dele para ser atribuída a outros. Occam, com isso, nega a realidade do universal em proveito unicamente do individual, deixando o universal apenas como uma intentio in anima, ou seja: como um termo da linguagem.

A questão, todavia, não é somente ontológica, porque dela se derivam conseqüências éticas. Se o universal existe apenas como termo da linguagem e se a onipotência divina é arbitrária e gratuita, então toda regra moral só pode existir como termo de linguagem, cada ação moral desviando-se do termo geral pelo menos um milímetro, o suficiente para nada nunca estar garantido pelo mero estabelecimento do termo universal, isto é, da regra – o que explica a necessidade da crença irrestrita. Dizendo de outro modo: a contingência do ser criado occamiano junta-se à do devir heraclitiano, fundando exatamente a mesma impossibilidade de saber. O reconhecimento da contingência devolve, pelo pânico, a humildade ao ser humano. A onipotência do Deus occamiano desempenha, então, o mesmo papel que desempenhará o Gênio Maligno no sistema cartesiano, “tão astuto e enganador quanto potente”. Descartes procurará sair do impasse garantindo axiomaticamente a bondade divina, enquanto Occam só pode desembocar no fideísmo absoluto que adere a priori a todas as contradições da mensagem cristã, separando completamente fé de inteligência. Para Occam, e depois dele para Francisco Suárez, ambos muito divulgados na Alemanha, é perfeitamente possível um conhecimento objetivo privado de objeto, se o universal, prova de que se conhece, é não mais do que termo de uma linguagem. Essa noção foi ensinada em todas as universidades luteranas até desembocar, depois de alguma transformação, na doutrina do fenômeno de Immanuel Kant.[xi] Segundo André de Muralt, Kant é o único occamiano conseqüente, porque desenvolve a sua hipótese sem adulterá-la com os paliativos cartesianos e sem rejeitar o fideísmo puro que ela queria explicitamente introduzir.[xii]

Eis que aparece, em filosofias bem diferentes, uma estrutura de pensamento idêntica, a do conceito “objetivo sem objeto”: teologia occamiana, dialética cartesiana e fenomenologia husserliana, a despeito de preocupações muito diversas, concebem de modo muito semelhante a ruptura da intenção cognitiva do sujeito com o objeto que, movendo aquela intenção, pode simplesmente não haver ou não ser – o que, por efeito de epokhé, não impede o conhecimento. Occam, para garantir o conhecimento contra o erro que o ameaça do princípio, suspende esse mesmo conhecimento para dar lugar à crença na absoluta liberdade divina. Descartes não renunciará à realidade da coisa exterior, porque a dúvida, sendo precisamente metódica, é um artifício destinado a evidenciar sua objetividade. O fenomenólogo, igualmente, não renuncia a atingir o objeto em sua ipseidade, isto é, no princípio que o individualize e distinga. Em todos os casos, embora de modo diverso, o sujeito sujeitado à contingência paradoxalmente se autonomiza, permitindo-se dizer o ser para que o ser seja – língua é realidade, como Flusser desejará demonstrar desde o seu primeiro livro.[xiii] Em termos morais, esse caminho dará na liberdade sartreana que, mais do que desejada ou necessária, é condenação a que ninguém escapa.

As concepções céticas foram tematizadas adiante por Montaigne desde o seu estilo. Os Ensaios praticamente inauguram um estilo literário-filosófico. Para desconfiar da percepção, da verdade percebida pelos nossos sentidos, Montaigne lembra que alguns animais são privados de visão, de audição ou de alguma outra faculdade, e não percebem de forma alguma essa privação – não seria portanto improvável que, sem que tivéssemos consciência, nos faltasse algum insuspeitável meio de percepção. Radicalizando, o francês duvida até mesmo da afirmação mais famosa de Sócrates: declarar “só sei que nada sei” é ter ao menos a certeza de sua ignorância. Para exprimir melhor o seu ceticismo, Montaigne adota a célebre forma interrogativa que sais-je?, gravando esse máxima, ou essa pergunta, sobre uma medalha, deixando no verso uma balança com os pratos em equilíbrio, simbolizando a suspensão do juízo. Esta suspensão, como de resto a da fenomenologia, implica todavia todo o contrário da imobilidade, ela é justamente um movimento radical. Além de perguntar “que sei eu”, Montaigne também afirmará que “todo movimento nos descobre”, inferindo com razão que o homem só é em movimento.[xiv]

René Descartes, por sua vez, não será um cético, porque sua dúvida metódica pretendia conduzi-lo a certezas. Entretanto, poucos céticos se aventuraram tão longe no exercício da dúvida: Descartes chegou a duvidar da existência dos objetos materiais e mesmo do próprio corpo. São quatro os seus argumentos principais para pôr tanto sob suspeita: [1] se nossos sentidos não são infalíveis, pode ocorrer que nos persuadam da existência de objetos ilusórios; [2] se a imaginação é uma fonte segura de erro, nos sugerindo, quer acordados quer dormindo, visões quiméricas, quem pode garantir que o estado de vigília não seria um outro modo de adormecer?; [3] se Deus existe, o que Descartes estabelecerá só depois, não seria impossível que Ele tivesse criado o espírito humano inclinado a tomar as aparências por realidades e os erros por verdades; [4] finalmente, se Deus existe e é bondoso, ainda não se exclui a hipótese de um Gênio Maligno que teria prazer em desnortear os seres humanos, suscitando visões que não correspondessem a qualquer realidade. Com esses argumentos e ao recusar todo princípio de autoridade, Descartes efetua uma epokhé tão sistemática e radical quanto a dos céticos gregos, mas para, no final, duvidar principalmente do ceticismo.

Seu cogito foi explicitado no Discurso sobre o método, obra que funda a filosofia moderna. Em estilo elegante, duvidando metodicamente de tudo, o pensador chegou a estabelecer apenas três certezas: primeiro, se eu duvido, então eu penso, logo, o pensamento existe; segundo, se o pensamento existe, então existe um “eu” que pensa, portanto, penso, logo, existo – cogito ergo sum; terceiro, se o “eu” existe, então Deus existe. A primeira certeza é caso raro de consenso, no meio científico e acadêmico: não há dúvida de que o pensamento exista, uma vez que o simples ato de duvidar funciona como prova dessa existência. Entretanto, a passagem da primeira certeza à segunda é contestada por muitos filósofos: de que o pensamento exista não se seguiria, necessariamente, a existência de algum ente que pensasse o pensamento. Por sua vez, a passagem da segunda certeza à terceira é um tanto ou quanto mais brusca, o que será discutido adiante. O cogito completo assim se formulava: dubito ergo sum, vel quod item est, cogito ergo sum – “duvido, logo existo, ou, o que é o mesmo, penso, logo existo”. Formava-se o primado da dúvida, crucial para Husserl e para o presente trabalho, até porque nem Descartes nem Husserl pretendiam atualizar a dúvida socrática absoluta, mas sim determinar certezas:

Não imitei os céticos que duvidam apenas por duvidar, e fingem estar sempre indecisos; ao contrário, toda a minha intenção foi chegar a uma certeza, afastar os sedimentos e a areia para chegar à pedra ou ao barro que está embaixo. [xv]

Não parece então que os céticos duvidassem “por duvidar”, irresponsavelmente; eles também procuravam a pedra ou o barro por baixo da areia ou das aparências, exigindo-se o mesmo rigor e a mesma inteligibilidade que animavam Descartes, com a diferença importante de que se admitiram incapazes de tais descobertas. Pouco mais tarde, Pascal, Huet e principalmente Berkeley reaproximam-se das concepções céticas mas já em diálogo com a dúvida cartesiana. Berkeley chega a afirmar que a matéria não existe, ou que existe apenas de uma maneira subjetiva, na medida tão-somente em que seja percebida: ser é ser percebido, ou, esse est percipi: “todos os corpos que compõem a ordem poderosa do mundo não subsistem fora de um espírito… seu ser está em serem percebidos ou conhecidos”.[xvi] O idealismo de Berkeley conduz, por sua vez, ao ceticismo, cético até de si mesmo, de David Hume – aquele filósofo que tirou Kant do sono dogmático. Hume constatará que a dúvida provisória de Descartes seria, na verdade, incurável, isto é, permanente. Para ele, todas as nossas idéias, inclusive a de perfeição, se formam a partir dos dados sensíveis, logo, são suspeitas, não se admitindo nenhuma noção a priori no entendimento: o recurso cartesiano a um ser transcendente que explicasse a origem de algumas de nossas idéias seria tão sem fundamento e tão supérfluo quanto a hipótese de uma substância que explicasse a origem de nossas percepções. Hume, no entanto, por pragmatismo, se abstém de dar o último passo na direção da completa suspensão do juízo: constatando que a filosofia observa a cegueira e a fraqueza humanas, tem medo de que toda ação e toda conversação cessem, deixando os seres humanos em letargia total. Por isso, propõe espécie de ceticismo mitigado, limitando “nossas buscas a assuntos que estão melhor adaptados à estreita capacidade do entendimento humano” [em Verdan, 106] – define assim, com antecipação, o criticismo kantiano.[xvii]

Immanuel Kant é uma espécie de cético positivo e sem ironia: reconhece seriamente que a razão humana se atormenta com questões que nem pode evitar nem pode resolver, porque ultrapassam totalmente o seu poder. Procura demonstrar, de modo sistemático, ser da própria natureza do espírito humano não poder alcançar o ser-em-si. Recusa o idealismo que sustenta não existirem outros seres que não os seres pensantes, afirmando que os objetos nos são dados, sim, mas nós nada podemos saber do que eles poderiam ser em si mesmos. O mundo tal qual nos aparece não é uma imagem da realidade em si: ele é uma construção de nosso entendimento a partir dos dados sensíveis já modelados nas formas do espaço e do tempo, em função de determinadas categorias. Graças às categorias, o entendimento kantiano introduz coerência e racionalidade no mundo dos fenômenos, conferindo objetividade ao pensamento e à ciência. Entretanto, sua objetividade cuidadosa recusa o sonho totalitário da unidade, expresso nas idéias de alma, Universo e Deus. Descartes, ao afirmar “penso, logo, existo”, para em seguida pressupor “sou uma alma”, teria errado ao acreditar que se podia passar do plano do pensamento ao plano do ser: o fenômeno subjetivo do pensamento não autoriza concluir automaticamente a existência de um eu substancial, vale dizer, da alma. A partir de Kant, o ceticismo toma novas formas, chegando mesmo ao seu aparente contrário, no positivismo. Todavia, distancia-se cada vez mais da tranqüila ataraxia dos céticos gregos, aproximando-se da beira do abismo, isto é, da tragicidade absurda do viver anunciada, com dramaticidade, por Anatole France:

Não há jeito de saber por que estamos neste mundo e o que nele viemos fazer. O mistério do destino nos envolve inteiramente com seus poderosos arcanos, e é preciso sinceramente não pensar em nada para não sentir muito e cruelmente a tragicidade absurda do viver. É nisto, na absoluta ignorância de nossa razão de ser que está a raiz de toda tristeza e de nossos desgostos... No mundo onde toda iluminação da fé está apagada, o mal e a dor perdem até sua significação e aparecem apenas como brincadeiras e farsas sinistras.[xviii]

Para enfrentar essa condição, a filosofia reconhece, nas palavras de Karl Jaspers, que sem uma dúvida radical não pode haver filósofo verdadeiro, mas, ao mesmo tempo, que sem se definir o limite da dúvida o abismo passa a nos observar muito de perto. É preciso considerar a dúvida metódica e a epokhé como etapas preliminares da busca da verdade, até para chegar a admitir que esta consiste na própria busca – mas a busca nos conduz ao limite da dúvida, que foi desenhado com maior precisão, no nosso entender, apenas por Vilém Flusser.

A dúvida é um estado de espírito polivalente. Pode significar o fim de uma fé, ou pode significar o começo de uma outra. Pode ainda, se levada ao extremo, instituir-se como “ceticismo”, isto é, como uma espécie de fé invertida. Em dose moderada estimula o pensamento, mas em dose excessiva paralisa toda atividade mental. A dúvida como exercício intelectual proporciona um dos poucos prazeres puros, mas como experiência moral ela é uma tortura. A dúvida, aliada à curiosidade, é o berço da pesquisa, portanto de todo conhecimento sistemático – mas em estado destilado mata toda curiosidade e é o fim de todo conhecimento.[xix]

Assim define Flusser seu mais espinhoso tema no primeiro parágrafo d’A dúvida. Esse livro sintetiza toda a obra de Vilém. Para haver a dúvida, é preciso haver pelo menos duas perspectivas, isto é, alguma dualidade (também em alemão duvidar se diz zweifeln, de zwei, que significa “dois”). Antecedendo às duas perspectivas, é preciso que antes tenha havido “uma fé”. Logo, o ponto de partida da dúvida é sempre uma fé (que gera sua bifurcação). Na verdade, o estado primordial do espírito é e tem de ser a crença, e não a dúvida. O espírito, no princípio, crê: ele tem a “boa fé”. A dúvida desfaz a ingenuidade e, embora possa produzir uma fé nova e melhor, esta não pode mais ser vivenciada como “boa”. As certezas originais, abaladas pela dúvida, são substituídas com vantagem por novas certezas, mais refinadas e sofisticadas, porém não mais originais, não mais certezas autênticas, se exibem daí por diante “a marca da dúvida que lhes serviu de parteira”.

O último passo do método cartesiano, o passo que nem Descartes nem Husserl se atreveram a dar, implica duvidar da dúvida – nada mais, nada menos. Vilém Flusser arrisca esse passo, concebendo a dúvida como “uma procura de certeza que começa por destruir a certeza autêntica para produzir certeza inautêntica”. Surge portanto a pergunta – a dúvida: “de que duvido?” Essa questão gera outra, seu tanto mais séria: “por que duvido?” Essa segunda questão gera, por sua vez, ainda uma outra, ainda mais séria: “duvido mesmo?”

Descartes, e com ele todo o pensamento moderno, aceita a dúvida como indubitável, e por isso não pode dar o último passo. A última certeza cartesiana, aquela que o popularizou – “penso, logo, existo” –, deve ser lida como: “duvido, logo, existo”. A formulação de Descartes, em latim, é precisa: dubito ergo sum, vel quod item est, cogito ergo sum (duvido, logo, existo, ou, o que é o mesmo, penso, logo, existo). A certeza cartesiana mostra-se, para Flusser, como a última certeza autêntica do pensamento ocidental. Essa fé na dúvida, por paradoxal que o seja, caracteriza toda a Idade Moderna (ou, toda a Idade que ousou se chamar de “moderna”, tentando frear o tempo pelo conhecimento, vale dizer, pela transformação de tudo e de todos em objeto). À fé na dúvida cabe o mesmo papel desempenhado pela fé em Deus durante a Idade Média.

A dúvida da dúvida – o passo de Flusser – é um estado extremamente fugaz do espírito. A dúvida da dúvida é também um passo de Sísifo. Embora possa ser experimentado, ele não pode ser sustentado (como a pedra nas costas). Negando a si mesmo, vibra, indeciso, entre saber que, se tudo pode ser duvidado, então a dúvida também pode ser objeto ela mesma de dúvida, e saber que nada mais pode ser autenticamente duvidado, se tudo já foi codificado epistemológica e ontologicamente. Vibra, indeciso, entre extremos absolutamente radicais: ora o ceticismo absoluto, do qual só pode duvidar in limine, ora o positivismo ingênuo, do qual também só pode duvidar por princípio.

O ceticismo pode ser visto, no dizer de Kant, como um momento de descanso da razão – só não pode ser tomado por moradia. Flusser afirma o mesmo, em relação ao positivismo. A dúvida da dúvida, no entanto, impede um descanso ou outro. Deixa-nos sem pálpebras, tal qual os personagens de Sartre, em Huis clos: olhos para sempre arregalados, para sempre doendo demais.

Se tentamos desdobrar o pensamento que nos garantira a existência e a identidade, se tentamos vê-lo não como coisa ou essência mas como o processo inapreensível que de fato é, surpreendemo-nos carregando a pedra do nosso ser do vale para a montanha, para então vê-la descer novamente para o vale. Ora, se penso, logo, sou, o que penso? Penso uma corrente de pensamentos; um pensamento se segue sempre a outro, e, por isso, sou. Mas por que um pensamento sempre se segue a outro? Porque o primeiro pensamento não basta jamais a si mesmo, exigindo outro pensamento, para certificar-se de si mesmo. Um pensamento segue o outro porque o segundo pensamento duvida do primeiro, uma vez que esse primeiro já duvidava de si mesmo. Logo, um pensamento segue o outro pelo caminho da dúvida, e eu mesmo sou, porque sou uma corrente de pensamentos que duvidam, e só o sou enquanto essa corrente escoa e não estanca.

O mesmo caminho de Sísifo redemoinha-se se perseguimos outra corrente de pensamentos, a saber: por que duvido?; ora, porque sou; então, duvido de que sou; logo, duvido de que duvido, em última análise (abissal). Parece um jogo fútil de palavras, exercício de lógica inútil, mas o pensamento contemporâneo reconhece vivencialmente esse dilema, sem conseguir estabelecer com o mínimo de clareza insofismável o limite da dúvida. O retorno dos físicos em direção a Deus, o apoio dos cientistas sociais em um conceito tão vasto, e portanto tão vago, como o da pós-modernidade, indicam a beira do mesmo abismo.

A problematização e o esvaziamento do conceito “realidade”, como já procuramos demonstrar, acompanha o progresso, nessa medida perigoso, da dúvida. O intelecto, de abstração em abstração, de matematização em matematização da realidade, desautentica as demais regiões mentais, forçando-nos a desconfiar de todos os nossos sentidos em praticamente todos os momentos. A dúvida da dúvida é a intelectualização do próprio intelecto, que reflui sobre si mesmo, duvidando finalmente de si mesmo. A dúvida da dúvida, o ceticismo que ultrapasse as suas fronteiras, implica suicídio individual e social.

A nossa civilização construiu-se a partir da dúvida cartesiana, ou seja, a partir da dúvida limitada pelo cogito e, é claro, por Deus – em outras palavras, pelo axioma da causa sui. Ultrapassar esses limites, levar o idealismo à sua última conseqüência, implica experimentar o niilismo vivencialmente – nos termos de Heidegger, implica experimentar a clara noite do nada. Essa situação, todavia, não nos liberta das amarras da razão analítica, antes nos joga dentro do desespero e do absurdo – de que o grafiteiro sem mensagem e o terrorista sem causa são sintomas flagrantes.

Confirma o absurdo o suicídio do intelecto, que se manifesta em todos os campos. No campo da ciência manipula-se a realidade com conceitos conscientemente divorciados de toda realidade, produzindo instrumentos destinados a destruirem a humanidade e seus instrumentos. No campo da arte produz-se uma arte que se significa a si mesma, portanto uma arte sem significado. No campo da “razão prática” ocorre um clima de oportunismo e imediatismo, espécie de carpe diem tanto individual quanto coletivo.

Confirmam o absurdo, ainda, as reações – desesperadas – contra o absurdo. No campo da filosofia pululam os “neos” – neokantismo, neo-hegelianismo, neotomismo. No campo da ciência tenta-se reformular as premissas em bases mais modestas – entretanto, nas mesmas bases. No campo da arte resulta aquele realismo patético que chama a si mesmo “socialista”, com pudor de se apresentar como neo-realista. No campo da “razão prática” ressuscitam as religiões e multiplicam-se as seitas. No campo das ciências sociais apela-se, sem vergonha, para o “pós-pós”: pós-doutorado em pós-modernismo, por exemplo. No campo da política ressurgem inautenticamente conceitos esvaziados há muito, como o conceito medieval de “soberania”.

A dúvida no seu limite mostra-se, por definição, abissal. O progresso moderno da dúvida implica a superação da “boa fé”, isto é, da fé ingênua, em proveito de “fé melhor”, isto é, de uma fé, digamos, crítica (se não se mostrar desde logo a contradição nos termos). “A progressiva perda de senso de realidade que acompanha o progresso intelectual”, diz Flusser, “é experimentada, inicialmente, como libertação, como superação de preconceitos, e é, portanto, uma experiência exuberante”. Subjaz, porém, sentimento inarticulado e inconsciente de culpa, como se estivéssemos traindo as coisas – todas as coisas. Então, quando o intelecto se vira contra si mesmo e duvida de si próprio, o sentimento de culpa se articula, para ser vivenciado como desespero ou denegado pela ilusão do engajamento.

De um lado, hesitação e culpa, mais honestas intelectualmente, mas presas no beco da própria dúvida; do lado avesso, engagement e oportunismo “liberal”, mais ou menos fanáticos, igualmente presos no mesmo beco. Esta seria, para Vilém Flusser, a cena da filosofia atual.

É muito fácil ler nas palavras de Flusser ceticismo e apocaliptismo, para permitir oposição igualmente fácil com otimismos baratos e logicismos vazios. Entretanto, o seu pensamento não cabe nessas chaves, justamente porque não finge que não sente ou não enxerga o limite da dúvida – o limite da filosofia contemporânea, vale dizer, o limiar de um novo homem (o limiar de uma nova maneira de pensar). Toda a sua crítica dirige-se a todo anti-intelectualismo, deslocando a paradoxal fé cartesiana na dúvida para a não menos paradoxal, mas mais radical, fé na palavra – no logos fundador, portanto, na fundação da realidade e do humano. Quando descreve-se o intelecto como campo no qual ocorrem pensamentos, ultrapassa-se a afirmativa cartesiana, “penso portanto sou”, por pelo menos um passo. Estamos duvidando da afirmativa “penso”, substituindo-a pela asserção: “pensamentos ocorrem”. Na verdade, a afirmativa “penso” abrevia a afirmativa “há um Eu que pensa e portanto há um Eu que é”, de resto viciosa do princípio. O método cartesiano até prova, de maneira indubitável, a existência de pensamentos, mas não de um Eu que pense.

Apresentar o intelecto como campo no qual ocorrem pensamentos dispensa a pergunta “o que é o intelecto”, como aliás dispensa quase toda a série de “o-que-é-que-é”. Um campo não é um “quê”, mas sim maneiras pelas quais algo acontece. O campo gravitacional do nosso planeta não é um algo, mas a maneira como se comportam os corpos quando relacionados com o nosso planeta. Analogamente, o intelecto não é mais do que a maneira como se comportam os pensamentos. Nem há pensamentos fora do intelecto, nem o intelecto tem dignidade ontológica independentemente dos pensamentos; não de trata de um Ser em si. Em conseqüência, a pergunta que se impõe é: “o que é um pensamento?”

Descartes pôde nos demonstrar que o pensamento, ou melhor, que um pensamento, este sim, existe. Se o intelecto é um campo, os pensamentos que nele acontecem formam uma espécie de teia nesse campo. Como é essa teia? Costumamos vivenciá-la como uma teia densa, opaca, que bloqueia a nossa visão da realidade (tanto precisamos de pré-conceitos para poder ver a tal da realidade), mas através da qual se infiltra, refratada e peneirada, a luz da realidade. A teia dos pensamentos então é uma camada finamente entretecida que se põe entre o Eu e a realidade para tampar a sua visão, que ao mesmo tempo apresenta indiretamente essa realidade ao Eu, através da sua trama, e que ao mesmo tempo, ainda, representa essa realidade para o Eu.

Ora, Flusser se lembra de que as palavras tampar, apresentar e representar  são homônimas em alemão, a saber: vorstellen. A teia de pensamentos poderia se afigurar, de repente, como aquilo a que Schopenhauer chamava de Vorstellung, para contrastar com a vontade. Aproximamo-nos do ensinamento hindu que vê essa mesma teia como véu, como tecido de ilusões, como maia, a ser rasgado pela concentração iogue. Esse ponto de vista sobre o pensamento, de dentro para fora, o vê como objeto da contemplação, o vê portanto objetivamente. Assim, torna-se fenômeno, no sentido preciso da fenomenologia husserliana, isto é, algo a ser entendido, algo a ser investigado, como o estamos fazendo.

Nesse processo, descobrimos, a seguir, que o pensamento é ele mesmo um processo, e isto em dois sentidos. Em primeiro lugar, o pensamento é um processo em busca de se completar, em busca de uma forma, de uma Gestalt, ou seja, é um processo estético. Percebe-se o alcance de se compreender o pensamento, logo, a compreensão, como um processo estético? Quando alcança a sua forma, a sua Gestalt, o pensamento se rodeia de uma aura de satisfação, sente o clima da obra de arte, aura e clima vulgarmente chamadas de “significado”. Em segundo lugar, o pensamento é um processo auto-reprodutivo, gera automaticamente um novo pensamento. Não é possível parar de pensar, não é possível esterilizar um pensamento, a não ser forçando-o a clicherizar-se, ou seja, a repetir-se a si mesmo como um louco em um campo hospitalar.

Um pensamento individual e singular, embora completo esteticamente quando significativo, é, “não obstante, carregado de um dinamismo interno que o impede de repousar sobre si mesmo”. Esse dinamismo interno obriga o pensamento a superar a si mesmo ininterruptamente, quer dizer, obriga-o a abandonar-se! Esse auto-abandono do pensamento, por sua vez, é o que entendemos por “filosofia”, simplesmente porque agora precisamos entender o intelecto como o campo por excelência… da dúvida.

A força que impele a teia dos pensamentos é a busca do significado, significado que se abandona para prosseguir a busca que desta forma revela-se absurda – mas, o ser absurdo é uma forma de ser. Assim como a física newtoniana foi superada pela física einsteiniana mas continua a ser significativa dentro do seu contexto, os pensamentos singulares que se mostram superados não precisam ser desprezados; eles permanecem significativos, esteticamente significativos, dentro do contexto em que ocorreram. Mais: se os retomamos, por qualquer razão, em novos contextos, retomam eles mesmos a expansão de toda a teia.

A metáfora flusseriana da teia, entretanto, além de antecipar de alguns anos a world wide web (o livro A dúvida, embora publicado apenas em 1999, foi escrito provavelmente entre 1964 e 1966), não deixa de concretizar o absolutamente impalpável. Se admitimos, por exemplo-limite, que essa teia existe e seja pensada por uma aranha filosofante, a leremos, no seu Tratactus aracnídeo, afirmando que o mundo se reduz aos acontecimentos que se dão nos fios da teia. Em conseqüência, os acontecimentos que se sucederem nos intervalos entre os fios da teia não estarão participando do mundo efetivo da aranha, mas serão potencialidades, digamos, seu vir-a-ser. Em outras palavras, representam justamente o fundo inarticulado, caótico, “meta-físico”, da filosofia da aranha.

Nossa aranha, portanto, deve agradecer à metáfora o dispor de uma teia visível. Os demais animais, inclusive o animal-homem, devem contentar-se com teias invisíveis, delimitando seu espaço, seu tempo, seu sentimento e seu pensamento. No nosso caso particular, a teia consiste de frases; a forma, a Gestalt da teia humana é a frase, ou seja, no caso flexional, a estrutura sujeito-objeto-predicado. Assim como a teia condicionaria o pensamento da aranha, a frase nos não apenas o nosso pensamento, mas toda a realidade. Querer fugir dessa tríplice ontologia da realidade, a estrutura sujeito-objeto-predicado, implica precipitar-se em suicídio metafísico nos buracos, de repente precipícios, da teia. Consistir a realidade somente de sujeitos (loucura parmenidiana) ou somente de objetos (loucura platônica) ou somente de predicados (loucura heraclitiana) empresta as formas, filosóficas, a semelhante suicídio.

Considerando, portanto, sujeito, objeto e predicado as formas do Ser que perfazem a nossa realidade, Flusser exemplifica usando a sentença “o homem lava o carro”. O sujeito, nesse exemplo “o homem”, é o detonador da frase, mas não basta a si mesmo; carece de significado, se tomado isoladamente. Na verdade, o sujeito é detrito de frase anterior, digamos, da frase “isto é um homem”. Procurando significar, ou seja, procurando um lugar dentro da estrutura da realidade, a expressão “o homem” torna-se o sujeito de uma frase, que procura ser predicado em direção a um objeto. Logo, “o homem”, considerado isoladamente, fora de uma frase, é uma procura, uma interrogação, e deveria aparecer escrito, a rigor “o homem?”. Esse sujeito ainda é um ser em busca de objeto para realizar-se.

O objeto, no exemplo a expressão “o carro”, é aquilo que barra o projeto do sujeito, é o obstáculo que define o fim da sua procura. O objeto opõe-se à procura do sujeito, e na oposição fornece o sentido da procura. Ao mesmo tempo que realiza-se o sujeito torna-se, por sua vez, realizado – logo, considerado isoladamente, é o objeto algo ainda não encontrado, mas que deve ser encontrado. O objeto, dentro da frase – dentro da realidade –, é um imperativo, um dever do sujeito, e deveria aparecer escrito, a rigor, assim: “o carro!”. O termo predicado, por sua vez, nucleado pelo verbo “lava”, surgiu da palavra “dizer” e tem parentesco muito próximo com as palavras “predizer”, vale dizer, “profetizar”, e “prédica”. A rigor, deveria aparecer escrito e exibido assim: “o homem? lava o carro!”. Sujeito e objeto são os horizontes da frase, portanto da língua – portanto, da realidade –, mas o predicado é o centro, a essência da frase, portanto da língua e da realidade – logo, ele é propriamente toda a nossa teia.

O que quer o filósofo? Que os termos sujeito e objeto sejam considerados tão-somente no seu contexto autêntico, que é a gramática – quando reconhecemos novamente a esteira de Guilherme de Occam.

As palavras “sujeito” e “objeto”, se consideradas etimologicamente no sentido da “língua pura”, não deveriam dar margem a muita confusão. “Sujeito” é aquilo que está no fundo do projeto (sub-jectum). “Objeto” é aquilo que obsta o projeto (ob-jectum). Entretanto, ambas as palavras fazem parte, há milhares de anos, da conversação filosófica e têm sido, portanto, utilizadas fora do seu contexto autêntico, que é a gramática. Desta forma deram origem a múltiplas especulações metafísicas que devem ser conduzidas ao absurdo, se as palavras forem recolocadas no seu contexto. Por exemplo: a discussão entre “objeto real” e “objeto ideal”, ou a identificação de “sujeito” com “Eu” ou com “Deus”. Trata-se, nos exemplos citados e em outros, de simples erros de sintaxe.[xx]

Sujeito e objeto são os horizontes da realidade, formam os elos entre as frases e garantem, desta maneira, a continuidade da realidade. “O homem lava o carro”; mais tarde, “o homem guia o carro”: esses dois Sachverhalte (em alemão, realidades, estado de coisas, circunstâncias, condições) participam do mesmo continuum da realidade, porque as duas frases contêm o mesmo sujeito e o mesmo objeto. Encarado o problema do fluxo da realidade – o homem que lava o carro é o mesmo homem que guia o carro?; o carro que é lavado é o mesmo carro que é guiado? – desse ponto de vista gramatical, a eterna querela entre Parmênides e Heráclito se mostra superada. Sujeito e objeto transcendem o rio heraclitiano, dele participando tão-somente para lhe garantir o fluxo, o fluir. Não fazem, a rigor, parte do rio. São outra coisa; são, na verdade, os limites da coisa.

A filosofia de Flusser, enquanto filosofia da palavra, realiza uma gramática do pensamento e faz, talvez sem o querer, uma sugestão radical de reformulação para as nossas gramáticas da língua: se as três funções mais importantes da língua, as únicas ontologicamente decisivas, são as de sujeito, objeto e predicado, então esses deveriam ser os únicos termos, os únicos conceitos em uma gramática científica, isto é, econômica, ou melhor, occamiana – da mesma forma que as únicas figuras de linguagem que interessam, das quais todas as demais derivam, são a metáfora e a metonímia. Nessa dimensão epistêmica, definitivamente submissa à navalha de Occam, tão cara a Flusser – entia non sunt multiplicanda praeter necessitatem –, o intelecto se define como o campo par excellence da dúvida. O caráter da dúvida, por sua vez, revela-se como a atividade lingüística do predicar, enquanto que as limitações da dúvida, isto é, as limitações do intelecto, são o sujeito e o objeto.

A situação atual da nossa civilização, conseqüentemente de boa parte de nosso pensamento, é a de niilismo incipiente, fruto da combinação paradoxal de uma valorização desmedida do intelecto com o desespero em relação à capacidade do mesmo intelecto: podemos ou não podemos mais ter contato com a realidade? A realidade é acessível, é nossa morada e referência, ou tornou-se inacessível, como dizem, ou pregam, Lacan, Baudrillard e tantos outros? É como se, quanto mais pensássemos, não mais víssemos o quanto ainda tínhamos de pensar, como queria Sócrates, mas sim para quão pouco serve tanto pensamento, tanto blá-blá-blá, enfim.

Essa intelectualização do intelecto tem justamente interditado nossas precárias avenidas de acesso à realidade. Pode-se optar por abandonar o intelecto à própria sorte, e pregar um dos diferentes tipos de anti-intelectualismo que nos assolam, de fundo religioso, místico ou midiático. Pode-se, também, analisar o intelecto, no lugar de abandoná-lo; é o que Vilém tenta fazer, procurando os seus limites – procurando os limites da dúvida.

Porque nem tudo serve como sujeito e objeto de uma frase significativa, logo, nem tudo pode ser assimilado à engrenagem da língua, portanto: nem tudo pode ser compreendido. Se nem tudo pode ser compreendido, nem tudo pode ser dito: o enigma precisa ser protegido. Em outras palavras, ou versos, a poesia precisa ser protegida, porque a condição de expansão do intelecto é a poesia – aquela dimensão que cria a língua e, em conseqüência, cria a realidade, como vimos no capítulo que se queria mais real ainda do que o real. Se sujeito e objeto demarcam os limites da dúvida, a poesia circunscreve a situação de fronteira do intelecto.

Para se permitir, posteriormente, conversar, o intelecto precisa antes de um verso: o verso é a maneira como o intelecto se precipita sobre o caos, o verso é a própria situação limítrofe da língua. O verso tanto chama quanto proclama. De costas para o intelecto, o verso chama algo do caos, para a seguir voltar-se para o intelecto e proclamar esse algo, esse nome que então se torna próprio e pode ser proclamado em alto e bom som. Essa situação invertida e controvertida do verso retorna nos nossos principais mitos, que são mitos da fé e da poesia: é Moisés que volta do Monte Sinai para o vale da conversação, tendo arrancado as tábuas, os Dez Mandamentos, ao inarticuladao; é Prometeu que volta do Olimpo para o vale da conversação, tendo arrancado o fogo ao inarticulado; são os Richis que voltam do alto tendo arrancado os vedas do inarticulado.

O que significa, afinal, “um verso bem sucedido”? Significa um enriquecimento da língua, mas de forma nenhuma um empobrecimento do inarticulável. A língua se expandiu, mas o caos não diminuiu. A poesia aumenta o território do pensável, mas não diminui o território do impensável.[xxi]

Essa citação parece condensar todas as poéticas que se prezem: o enigma se protege quando e somente quando o caos não se encolhe e a língua se articula, ao mesmo tempo. Quando o verso se transforma em converso, entretanto – e ele precisa efetuar essa transformação, sem a qual não haveria a civilização –, o verso é dessacralizado, profanizado. A conversação realiza o projeto lançado pelo verso para dentro da língua, mas então o exaure, desfazendo progressivamente o seu mistério. Com o progresso da conversação, se bem sucedida, desaparece o mistério poético e prevalece o clima prosaico. A conversação consolida o pensamento, torna-o sólido – mas dependeu, na gênese, da poesia, para constituir-se.

Reconhecer, no processo, o lugar da poesia e da conversação, permite-nos superar os intelectualismos arrogantes e os anti-intelectualismos desesperados, deixando ainda fluir a conversação ocidental – embora em clima mais humilde. Continuamos tecendo a teia maravilhosa que é a conversação ocidental, mas sem qualquer esperança de captar dentro dessa teia a rocha do inarticulável – porque não cabe à teia captar a rocha, mas sim revestir a rocha. Reconhecer, no processo, o lugar da poesia e da conversação, permite ao intelecto reconhecer-se não como um instrumento para dominar o caos, mas sim “como um canto de louvor ao nunca dominável” – como um canto de louvor ao de tudo diferente.

Canta-se na língua, manancial do qual todos os ritos e todos os mitos brotam; a língua é a festa-mestre. A língua é adoração e oração ritual; adorando o inarticulável, quando ingênuo, e orando sobre o inarticulável, quando crítico, deixa-se o intelecto próximo ao inarticulado. Essa oração é estética, como já procuramos demonstrar desde o capítulo que ligava a ficção à prece, e pode ser também, por estranho que pareça a nossas mentes laicizadas, científica. Na concepção de Flusser, ou, no seu projeto filosófico, a atividade científica, ponto culminante da nossa civilização, passaria a ser uma atividade religiosa, como oração consciente de si. Não mais se esforçaria por explicar e antever a realidade, como no passado, nem se arvoraria em disciplina auto-suficiente na busca da consistência interna perfeita, como no presente: tornar-se-ia esforço fundamentalmente estético, tentando compor uma oração perfeita: a oração em louvor do inarticulado.

De fato, é uma festa filosófica – mas, sem otimismo desmotivado, o filósofo não vê sintomas deste outro tempo. Percebe, ao contrário, que abundam sintomas de intensificação do mergulho para dentro da conversa fiada, isto é, para o desenvolvimento de um dogmatismo oportunista. Nefasta combinação entre dogmatismo e pragmatismo, que depois da morte de Flusser espalhou-se sob o nome igualmente oportunista de neo-liberalismo, acelera a decadência da conversação ocidental, se age ao mesmo tempo como soporífero e entorpecente. “A dança da conversação ocidental em redor do significado perdido”, como ele diz, realiza-se em círculos progressivamente menores: estaríamos conversando sempre mais rigorosamente, mas rigorosamente sobre sempre menos. Estaríamos “conversando” entre aspas, na verdade, porque não mais o fazemos, se optamos antes pela polêmica: deixamos o nosso lugar de críticos, para ocupar a tribuna do propagandista, do panfletário, do militante sem causa e sem rabo (nunca o enxerga), mas com retórica.

Impõe-se um sacrifício na festa-mestre. Desde sempre, sacrifícios são parte integrante das festas; reapresentam-se, por exemplo, quando, nas antigas e saudosas festas juninas do subúrbio, sacrificava-se um grande balão de papel fino, feito com esmero e carinho por vários dias, à noite escura e ao vento indomável. O intelecto deve se sacrificar, em prol de um intelecto radicalmente diminuído, sem receber a menor compensação por esse sacrifício. A disposição para semelhante sacrifício não encontra, como seria de se esperar, uma multidão de adeptos. No entanto, essa atitude absurda se impõe, se a filosofia que até aqui exploramos demonstra alguma validade. Impõe-se reduzir-se para ser, ou: para retomar-se. A suma sanidade, a superação da dúvida da dúvida, seria a aceitação de um horizonte de dúvida.

O que se sacrifica aqui? A meta da conversação ocidental, perseguida por três mil anos: tornar pensável o impensável, para desse modo eliminá-lo. O intelecto ocidental tem por meta a intelectualização total – nesse sentido o Ocidente é idealista em todas as suas manifestações, inclusive naquelas que se consideram materialistas: “a volta para a pátria que a conversação ocidental almeja não é a volta do filho pródigo, mas a volta do rebelde exilado transformado em conquistador”. Sua meta é heróica e orgulhosa; o que se impõe é o sacrifício desse orgulho.

Vilém Flusser resiste ao apocalipse intelectualizante e às reificações totalitárias, participando da festa e promovendo o sacrifício na festa:

Continuemos a grande aventura que é o pensamento, mas sacrifiquemos a loucura orgulhosa de querer dominar o de tudo diferente com o nosso pensamento. Encaremo-lo adorando-o, isto é, na dúvida e na submissão.[xxii]

Ao encarar o de tudo diferente simultaneamente com dignidade e com postura de adoração, isto é, com postura religiosa, somos levados de volta ao capítulo anterior. Voltamos à prece. Flusser, em outro trabalho, dizia que a literatura, seja ela filosófica ou não, é o lugar no qual se articula o senso de realidade, o qual vê como sinônimo de religiosidade, simplesmente porque “real é aquilo no qual acreditamos”.[xxiii] Lembramos, com ele, que durante a época pré-cristã o real era a natureza mesma, divinizada juntamente com todas as suas forças e manifestações. Durante a Idade Média o real já seria o transcendente na forma do Deus do cristianismo, mas a partir do décimo-quinto século o real se problematiza – ele se transforma em dúvida, isto se transforma em dúvida. A natureza é objeto de dúvida metódica, ao mesmo tempo em que se perde a fé no transcendente, a despeito de Descartes. Há no ar que nos cerca uma sensação de irrealidade, uma invasão tal de virtualidades, que nos obriga à procura de um senso novo de realidade, que é o mesmo que dizer: à procura de uma nova religiosidade.

A procura em si mesma indica saúde mental e existencial; o que se acha através dessa procura revela, muitas vezes, doença e absurdo. A nossa fé presente na tecnologia e na lógica do mundo, como o explicam os repórteres, os professores e os cientistas, é uma forma de esperança que transforma evidência contrária em prova. Muitas coisas surpreendentes continuam acontecendo, mas tão pouco nos surpreendemos. “Das Wunder ist des Glaubens schoenstes Kind”, diz Goethe – o milagre é o filho mais belo da fé – mas onde os milagres? Quando algo inesperável ocorre, fazemos de conta de que era esperado. Torneiras jorram anúncios, aparelhos de micro-ondas navegam e naufragam pela Internet, sérvios matam albaneses, albaneses matam sérvios, polícia é bandido e bandido é testemunha de Jeová, nada nos surpreende. Nada. A banalidade impera, sentada à margem direita do tédio.

Temos fé de que o pensamento lógico coincide com a realidade. Temos fé de que a expressão mais perfeita do pensamento lógico são os enunciados da matemática pura, de preferência transcodificados em linguagem algorítmica de programação. Completamos o silogismo da fé concluindo a realidade tem a estrutura da matemática pura, de preferência transcodificada em linguagem algorítmica de programação. Ora, essa coincidência entre o pensamento lógico e a realidade é absolutamente incrível. A nossa vivência de mundo a desmente a todo passo. No entanto, a nossa fé aceita a coincidência absurda como fato indubitável: crê quia absurdum.[xxiv]

Entretanto, os ídolos são vorazes. O Moloch devora os fiéis que o adoram – logo, o Moloch funciona, o que amplifica a sua adoração. A bomba H destrói a humanidade – logo, a bomba H funciona, justificando que a adoremos. A bomba H prova que o homem é Deus, e Deus contra o mundo, realizando in limine o projeto iluminista que nos pôs como sujeitos contra os objetos, vale dizer, contra a coisa, contra res – realidade. Mas esse Deus é um espelho, espelhando a cobra urobórica mordendo o calcanhar de Sísifo que deixa cair a pedra antes de chegar ao topo da montanha onde Zarathustra se perdera do Übermensch…

Esse enredo absurdo que vê Deus não no espelho mas como o espelho parece explodir a dicotomia cartesiana mas não o faz – ainda. A dicotomia cartesiana entre pensamento e matéria, entre res cogitans e res extensae, não é fruto de uma distinção epistemológica, mas sim de todo um conjunto ético-religioso de que participamos, continuando a distinguir entre o salvável (a alma, para os antigos, o pensamento, para os modernos – sem que nada tenha mudado) e o sacrificável (o corpo, para os antigos, a matéria, para os modernos – sem que, igualmente, nada tenha mudado). Entretanto, é imensamente difícil escapar dessa dicotomia, que enfim nos projetou, ao nosso pensamento como à nossa fé. Duvidamos dessa dicotomia, sim, não nos querendo cartesianos, enquanto criticamos os nossos adversários acadêmicos como cartesianos (ou platônicos). Mas a dúvida, como a conhecemos, porém, é cartesiana, metodicamente cartesiana. Torna sinônimos duvidar e pensar, não se permitindo duvidar de si mesma: dubito ergo sum.

A dúvida, portanto o pensamento, distingue e ordena o duvidoso, submete o duvidoso a uma ordem, a fim de que o duvidoso deixe de sê-lo e se torne indubitável. O pensamento é portanto um processo absurdo. Duvida para deixar de duvidar, e transforma, nessa tentativa, o duvidoso em dúvida. O processo é absurdo em dois aspectos: é absurdo porque a meta do pensamento é acabar consigo mesmo, e é absurdo porque o pensamento pretende alcançar essa meta pela transformação de tudo em dúvida. O pensamento em sua absurdidade é comparável à sede que pretende matar-se bebendo o mar: porque é absurdo querer beber o mar, e porque com cada gota bebida a sede aumenta. Quanto mais progride o pensamento, tanto mais evidente se torna a sua absurdidade dupla, tanto mais evidente se torna ser o pensamento a expulsão do paraíso.[xxv]

De fato, estamos sendo expulsos do paraíso toda vez que distinguimos, toda vez que duvidamos – duvidar passa por sinônimo de distinguir e de ser expulso, já que etimologicamente parente de dividir e de dois. Isso fica ainda mais claro em alemão, se zweifeln, duvidar, conduz ao verzweifeln, perduvidar, isto é: ao desespero. O desespero que lembra o amor sem palavras de certo milionário brasileiro, na breve narrativa de Nelson Rodrigues.

Certo milionário brasileiro foi traído pela esposa. Quis gritar, mas a infiel disse-lhe sem medo: — “Eu não amo você, nem você a mim. Não temos nenhum amor a trair”. O marido baixou a cabeça. Doeu-lhe, porém, o escândalo. Resolveu viajar para a China, certo de que a distância é o esquecimento. Primeiro, andou em Hong Kong. Um dia, apanhou o automóvel e correu como um louco. Foi parar quase na fronteira com a China. Desce e percorre, a pé, uma aldeia miserável. Viu, por toda a parte, as faces escavadas da fome. Até que entra na primeira porta. Tinha sede e queria beber. Olhou aquela miséria abjeta. E, súbito, vê surgir, como num milagre, uma menina linda, linda. Aquela beleza absurda, no meio de sordidez tamanha, parecia um delírio. O amor começou ali. Um amor que não tinha fim, nem princípio, que começara muito antes e continuaria muito depois. Não houve uma palavra entre os dois, nunca. Um não conhecia a língua do outro. Mas, pouco a pouco, o brasileiro foi percebendo esta verdade: — são as palavras que separam. Durou um ano o amor sem palavras. Os dois formavam um maravilhoso ser único. Até que, de repente, o brasileiro teve que voltar para o Brasil. Foi também um adeus sem palavras. Quando embarcou, ele a viu num junco que queria seguir o navio eternamente. Ele ficou muito tempo olhando. Depois não viu mais o junco. A menina não voltou. Morreu só, tão só. Passou de um silêncio a outro silêncio mais profundo. [xxvi]

É uma história muito curta, como que envergonhada de ser formada de palavras, se são as palavras que separam – que analisam, que dividem, que catalogam. A língua os separava, como separa mesmo àqueles que falam a mesma língua; logo, aproveitaram o silêncio para poder viver o amor sem palavras, até que o Brasil os separasse. Aquilo que não se pode falar, deve-se calar, diria Wittgenstein no ouvido do Flusser, mas há o outro silêncio, mais profundo do que o primeiro, onde não há separação e também não há nada. Essa breve história de Nelson Rodrigues, então, não tem moral. Mesmo a frase “são as palavras que separam”, que pareceria uma moral da história a media res, é abalada pelo desfecho triste e trágico.

Persiste a dúvida: dilacerante.

 

NOTAS

[i]         PRADO JR, Bento. Alguns ensaios: filosofia, literatura, psicanálise. São Paulo: Max Limonad, 1985; p. 72.

[ii]         Idem ibidem, p. 74.

[iii]        Idem ibidem, p. 172.

[iv]        VERDAN, André. O ceticismo filosófico. Tradução de Jaimir Conte. Florianópolis: Editora da UFSC, 1998; p. 20.

[v]         Idem ibidem, p. 52.

[vi]        VIANA, Luiza. O céu do lençol. Rio de Janeiro: Sette Letras, 1996; p. 35.

[vii]        VERDAN, André, obra citada, p. 55.

[viii]       JAPIASSU, Hilton & MARCONDES, Danilo. Dicionário básico de filosofia. Rio de Janeiro: Jorge Zahar Editor, 1990; p. 184.

[ix]        MURALT, André de. A metafísica do fenômeno: as origens medievais e a elaboração do pensamento fenomenológico. Tradução de Paula Martins. São Paulo: Editora 34, 1998; p.133.

[x]         Idem ibidem, p. 135.

[xi]        Idem ibidem, p. 140.

[xii]        Idem ibidem, p. 167.

[xiii]       FLUSSER, Vilém. Língua e realidade. São Paulo: Herder, 1963.

[xiv]       Em MERLEAU-PONTY, Maurice. Signos. Tradução de Maria Ermantina Galvão Gomes Pereira. São Paulo: Martins Fontes, 1991; p. 22.

[xv]        DESCARTES, René. Princípios da filosofia. Tradução de Alberto Ferreira. Lisboa: Guimarães, 1989; p. 99.

[xvi]       Em VERDAN, André, obra citada, p. 98.

[xvii]       Idem ibidem, p. 106.

[xviii]      Idem ibidem, p. 127.

[xix]       FLUSSER, Vilém. A dúvida. Rio de Janeiro: Relume Dumará, 1999; p. 17.

[xx]        Idem ibidem, p. 53.

[xxi]       Idem ibidem, p. 68.

[xxii]       Idem ibidem, p. 98.

[xxiii]      FLUSSER, Vilém. Da religiosidade. São Paulo: Comissão Estadual de Cultura, 1967; p. 9.

[xxiv]      Idem ibidem, p. 27.

[xxv]       Idem ibidem, p. 33.

[xxvi]      RODRIGUES, Nelson. A cabra vadia: novas confissões. São Paulo: Companhia das Letras, 1995; p. 235.