DUBITO ERGO SUM

 Vilém Flusser

 

A CAIXA DE PANDORA DA FOTOGRAFIA

Pedro Karp Vasquez

 

Jornal do Brasil, 10/08/2002.

 

''O conhecimento da fotografia é tão importante quanto o conhecimento do alfabeto. Os analfabetos do futuro serão não só aqueles que não souberem escrever, como também aqueles que não souberem usar uma câmara'', já disse Lászlo Moholy-Nagy. Hoje a era da imagem técnica vive um momento crucial, com a substituição da fotografia pela imagem digital e a expansão e/ou consolidação das novas tecnologias de captação de imagem pertencentes ao campo da informática. Assim, esta nova edição brasileira de Filosofia da caixa preta é extremamente oportuna, já que essa obra fornece um sólido fundamento teórico para todos aqueles que desejam entender melhor a chamada ''civilização do olhar''.

Essa obra, compacta, porém extremamente substantiva e inovadora (desde o glossário introdutório), foi publicada nos seguintes países: Alemanha, Itália, França, Noruega, Suécia, Turquia, México, Tchecoslováquia, Hungria, Grécia, Coréia, Japão e China. Périplo editorial que ratifica sua importância e inscreve o nome de Vilém Flusser (1920-1991) entre os grandes pensadores da imagem técnica - expressão que ele foi o primeiro a difundir no Brasil e que designa toda e qualquer imagem produzida com o auxílio de um aparelho, como a fotografia, o cinema, o vídeo e a imagem digital (que muitos ainda teimam em chamar erroneamente de fotografia digital).

Vítima de um destes lamentáveis e inexplicáveis exemplos de ingratidão tupiniquim, Flusser - filósofo internacionalmente aclamado e que já chegou a ser louvado como ''o genuíno filósofo brasileiro'' -, ainda é pouco conhecido no Brasil, país onde viveu durante 31 anos. Aqui chegou em 1940, ano seguinte ao da fuga da invasão nazista à sua cidade natal, Praga (Tchecoslováquia), integrando o grupo de intelectuais de primeira grandeza que a Segunda Guerra Mundial expatriou na cidade de São Paulo, onde lecionou na FAAP (Fundação Armando Álvares Penteado) e, depois, na USP (Universidade de São Paulo), além de fazer parte do Instituto Brasileiro de Filosofia. Flusser tem no Brasil admiradores fiéis e dedicados, como Maria Lília Leão, sua discípula dileta, responsável pela primeiro edição nacional de Filosofia da caixa preta; Ricardo Mendes, destacado pesquisador da história da fotografia, autor de Retratos do imaginário de São Paulo e responsável pela criação de um site em homenagem ao filósofo tcheco: Vilém Flusser no Brasil {www.fotoplus.com/flusser}; e Arlindo Machado, provavelmente o maior especialista nacional em imagem técnica graças a obras como: A ilusão especular: introdução à fotografia e Máquina e imaginário: o desafio das poéticas tecnológicas.

Partindo da premissa de que somos analfabetos fotográficos, Flusser chega à conclusão de que a ''filosofia da fotografia é necessária porque é reflexão sobre as possibilidades de se viver livremente num mundo programado por aparelhos. Reflexão sobre o significado que o homem pode dar à vida. Vejo a tarefa da filosofia da fotografia: apontar o caminho da liberdade. Filosofia urgente por ser ela, talvez, a única revolução ainda possível''.

Palavras proféticas, escritas há quase duas décadas, e que agora adquirem um sentido de urgência ainda maior, quando os mecanismos técnicos de dominação e/ou controle ultrapassaram em muito as mais ousadas previsões do Big Brother orwelliano, a ponto de os norte-americanos já se submeterem voluntariamente à introdução de chips de rastreamento no próprio corpo. Ninguém melhor do que Flusser para advogar a importância de sua obra, ao afirmar, por exemplo: ''Tudo, atualmente, tende para as imagens técnicas, são elas a memória eterna de todo o empenho. Todo ato científico, artístico e político visa eternizar-se em imagem técnica, visa a ser fotografado, filmado, videoteipado. Como a imagem técnica é a meta é de todo ato, este deixa de ser histórico, passando a ser um ritual de magia. Gesto eternamente reconstituível segundo o programa.''

Em outra passagem, Flusser adverte ainda que a imagem técnica falseia até mesmo a esfera íntima, a tal ponto que: ''Quem contemplar álbum de fotógrafo amador, estará vendo a memória de um aparelho, não a de um homem.'' Isso porque - salvo as raríssimas exceções daqueles que sabem subverter seu uso - todos nós, enquanto produtores de imagens técnicas, somos ''funcionários'' de um sistema que produz equipamentos dotados de certas potencialidades que não chegamos jamais a esgotar ou sequer compreender.

Conciso e independente a ponto de ser destituído de qualquer referência bibliográfica, como as obras de Nietzsche, Filosofia da caixa preta é tão estimulante e dotado de efeito residual quanto as obras do célebre filósofo alemão, nos convidando também a constantes releituras. O livro de Flusser é um libelo em prol do surgimento de uma crítica da fotografia, que, como ele bem aponta, deve ser totalmente diversa da crítica tradicional de arte, já que, ao contrário desta última, não se limitará a decifrar idéias, tendo que, além disto, decifrar também conceitos, no processo que ele qualificou de ''branqueamento'' da caixa preta.

Henri Vanlier, autor de Philosophie de la photographie, foi quem talvez mais correspondeu ao anseio de Flusser de surgimento de uma filosofia da fotografia. Mas, por outro lado, apesar da atual onipresença da imagem técnica no campo das artes visuais, a crítica especializada ainda é praticamente inexistente, muito em virtude do fato de os críticos tradicionais enfrentarem grande dificuldade para tratar adequadamente um fenômeno cuja essência lhes é impenetrável. Isto porque, assim como o crítico de teatro não está preparado para ser crítico de cinema - apesar de o cinema ser, inquestionavelmente, uma forma de dramaturgia -, o crítico de arte também não está preparado para ser crítico da imagem técnica.

Situação que nos conduziu ao estado de coisas apontado por Arlindo Machado, no qual assistimos a ''um certo degringolamento da noção de valor em arte: os juízos de valorização se tornam frouxos, ficamos cada vez mais condescendentes em relação a trabalhos realizados com mediação tecnológica, porque não temos critérios suficientemente maduros para avaliar a contribuição de um artista ou de uma equipe de realizadores. Como conseqüência, a sensibilidade começa a ficar embotada, perde-se o rigor do julgamento e qualquer bobagem nos excita, desde que pareça estar up to date com o estágio atual da corrida tecnológica''. O que corrobora o fato de que as questões levantadas por Flusser há cerca de duas décadas ainda continuam na ordem do dia, fazendo desta nova edição de Filosofia da caixa preta não só oportuna como fundamental.