DUBITO ERGO SUM

 Vilém Flusser

VILÉM FLUSSER E A OPOSIÇÃO AO UNIVERSO DOS APARELHOS

José Castello

 

O Estado de São Paulo, 14/09/2002.

 

Na vida diária, é cada vez mais comum o sentimento de que, diante de tal ou qual fato perturbador, já não sabemos mais o que pensar, pois idéias e objetos já não se relacionam. Pressentimento, enfim, de que o pensamento, tal qual estamos habituados a manejá-lo, se tornou inútil, ou já não pode dar conta da realidade que nos cabe viver. Para revigorar o pensamento servem os filósofos, em particular filósofos cheios de coragem intelectual como o checo Vilém Flusser, um pensador que tinha horror aos modelos que, a seu ver, não passavam de “novos óculos escuros”. Contra eles, Flusser propôs o que chamava de “suspensão da crença”.

Nascido em 1920, fugiu de Praga por causa da expansão nazista e, depois de se refugiar na Inglaterra, migrou para o Brasil, onde se casou com Edith Barth, teve três filhos e passou a trabalhar no comércio. A partir dos anos 60, começou a lecionar filosofia e, em 61, iniciou uma longa colaboração regular com o Estado, assinando artigos sobre a filosofia da linguagem. Nesse período, Flusser publicou, em português, alguns de seus livros mais importantes. Em 73, retornou à Europa, radicando-se primeiro na Provence e depois, de volta, em Praga, onde viveu até morrer em 1991. Depois de publicar aquele que é um de seus ensaios mais importantes, A Dúvida, a coleção Conexões da Relume Dumará nos traz, agora, sob a revisão técnica de Gustavo Bernardo, outro estudo de Flusser.

Filosofia da Caixa Preta não é, como pode aparentar num primeiro momento, um ensaio que interessará apenas aos profissionais da fotografia, ou das artes visuais. A fotografia, para Flusser, não era só um processo técnico de formar e fixar imagens, mas um modelo – o mais contundente deles, o mais original – para o entendimento do mundo contemporâneo que, segundo pensava, se caracteriza pela predominância dos aparelhos. Flusser é desses filósofos insatisfeitos, que não se contentam em pensar a partir dos conceitos consagrados mas, antes disso, se empenham em reformular, ou produzir novos conceitos, deslocando nossas certezas e conduzindo seu leitor, assim, a um forte estado de dúvida. Filosofia, para Flusser, era tensão. Assim, ele via a fotografia como um objeto que aparece no exato momento em que se dá a crise do texto, e que vem substituí-lo. Entramos, com ela, num mundo dominado pelas imagens técnicas, e não mais pelos textos lineares; elas passam a se produzir e reproduzir em estado de eterno retorno. As conseqüências são graves e ainda as sofremos.

Quando a imagem se torna a meta de todo ato, ele perde sua consistência histórica e passa a compor o que Flusser chamou de “um ritual de magia”. Vilém Flusser acreditava que a máquina fotográfica é “o primeiro, o mais simples e o relativamente mais transparente de todos os aparelhos”. Assim também o fotógrafo se torna o primeiro funcionário de um aparelho, “o mais ingênuo e o mais viável de ser analisado”. Isso num mundo kafkiano, em que todos somos funcionários de aparelhos. Aparelho é o nome que ele deu às várias instituições do regime capitalista avançado. Na máquina fotográfica e no fotógrafo estariam contidas, segundo Flusser, todas as virtualidades do mundo pós-industrial, isto é, de um mundo “aparelhado”, dominado pela impessoalidade e pelo jogo, do qual não se pode escapar. É o aparelho, desde então, que passa a ditar nossas possibilidades de liberdade, que talvez já não mereça esse nome.

Fotografias, Flusser definia, são “imagens técnicas que transcodificam conceitos em superfícies”. Com elas, se impõe o mundo da superfície e da aparência em que, hoje mais que nunca, estamos retidos. Pode-se argumentar, ele admite, que toda fotografia é ambígua, já que nela convivem duas intenções: a do fotógrafo e a do aparelho. A fotografia seria então o resultado desse embate entre essas duas intenções. Mas essa idéia não o consolava. Fotografias são imagens imóveis e mudas, que podem ser infinitamente distribuídas. Só adquirem seu significado segundo a mídia na qual forem repassadas – mas esse processo costuma ser invisível para os receptores. Enquanto objetos, as fotografias não têm valor, já que “todos sabem fazê-las e delas fazem o que bem entendem”, Flusser argumenta. Elas vêm reprimir, por isso, a consciência histórica do receptor, adquirindo assim um caráter mágico. Criam um círculo mágico em torno da sociedade, diz o filósofo. Fotografias são “imagens de conceitos programados em aparelhos” e por isso, ele conclui, são “vazias e absurdas”. Elas conferem significado mágico à vida da sociedade. “Tudo se passa automaticamente e não serve a nenhum interesse humano”, Flusser resume.

Alguns fotógrafos mais sensíveis ainda procuram inserir intenções humanas no jogo fotográfico; os aparelhos, contudo, recuperam automaticamente tais esforços. O fotógrafo é sempre peça num jogo bem maior que ele. A fotografia, em definitivo, não é uma arte. Analisar o universo fotográfico, explica Flusser, é pôr em questão o universo dos aparelhos, isto é, o mundo em que vivemos. “O universo fotográfico é o modelo de toda vida futura”, ele prognostica também. Por isso, uma filosofia da fotografia, tal qual ele esboçou, pode ser o ponto de partida para uma disciplina que tenha como objeto a vida futura do homem. “A filosofia da fotografia é necessária porque é uma reflexão sobre as possibilidades de se viver livremente num mundo programado por aparelhos”, diz. Sua tarefa, acrescenta Flusser, é “apontar o caminho da liberdade”.

Nas entrelinhas da filosofia de Vilém Flusser circula, desenvolta, a figura de Franz Kafka que, como ele, nasceu e morreu em Praga, era judeu e um intelectual. Flusser nasceu em 1920, Kafka morreu em 24. Um de seus primeiros ensaios se chama, justamente, “Esperando por Kafka”. Ambos trataram de um mundo hiperprogramado, totalmente aparelhado e impessoal, no qual o espaço de liberdade do homem se torna, infelizmente, cada vez mais restrito.