Vilém Flusser
A DÚVIDA
llse de Witt de Azevedo
Jornal do Brasil, 15/01/2000
A dúvida, de Vilém Flusser, se coloca no meio do caminho. É aquele tipo de livro que atingirá algum ponto em qualquer leitor, instigando-o a relê-lo à procura das minúcias de conexões impensadas com que o autor o surpreende. Estar no meio do caminho, então, significa um necessário momento de reflexão que possibilita a escolha do caminho a trilhar. Por outro lado, esse momento de reflexão permite também repensar a forma em que até então o pensamento ocidental se construiu.
Partindo de Descartes e do seu famoso "penso, logo existo", ou, como o autor traduz, "penso, portanto sou", Flusser torna possível divisar a base primeira da forma do pensamento moderno. A fé na época moderna tem como refúgio não mais Deus, e sim o intelecto e a sua capacidade de, através da dúvida, compreender e elaborar o conhecimento de maneira racional e matemática. O passo derradeiro que o pensamento cartesiano prevê, e não empreende, é o da dúvida se voltando contra si mesma. Se tudo pode ser conhecido e intelectualizado, tudo é passível de dúvida, inclusive o intelecto e sua forma atuante, a dúvida. A dúvida da dúvida coloca em suspenso, mesmo que temporariamente, a capacidade humana de conhecer, solapando "os últimos pontos de apoio do senso de realidade". Resta, então, uma questão atual: é possível de fato algum conhecimento?
A tentativa de superar esse impasse, no entanto, pode acarretar alguns retrocessos, como o dilema do abandono do intelecto pela primazia dos sentidos ou a aceitação do nihilismo, que é o produto final da dúvida da dúvida. A proposta de A dúvida, no entanto, não é o abandono do intelecto, mas sua superação. A estrutura dentro da qual e pela qual os pensamentos ocorrem é a lógica do intelecto. É apenas segundo essa lógica que os pensamentos se multiplicam e a realidade se dá a conhecer. Se for possível falar de uma "realidade em si", essa realidade é bloqueada e apenas pode ser alcançada de maneira já "refratada e peneirada". Nesse ponto, fica demonstrada a fé que se tem no intelecto: mesmo se considerando esses senões, acredita-se que, através da "teia dos pensamentos", a realidade em si se revele, "ainda que distorcida".
A argumentação flusseriana então se transpõe para a língua. Se, como diz, "o elemento do pensamento é a palavra", o pensamento nada mais é que uma "organização lingüística, e o intelecto passa a ser o campo onde ocorrem organizações lingüísticas". Logo, as regras em que "os pensamentos se formulam e se propagam são as regras da língua". A "língua" passa a ser sinônimo de "intelecto" e o seu estudo é, na verdade, o "estudo da língua" em que o intelecto foi desenvolvido. No desmembramento dos elementos constitutivos da língua, Flusser chegará à frase e aos nomes próprios.
Flusser, de toda forma, não prevê o abandono do intelecto e sim sua superação através do próprio intelecto; seu rigor argumentativo não admite escapismos ou retrocessos. A adoração é sua forma de articular o inarticulado em uma genuína conversação e tem por mérito notar e exigir a permanência do velado, do mistério e do sagrado, tomando-os por fonte e possibilidade mesma do pensamento.