Vilém Flusser
RESENHA DE VILÉM FLUSSER NO BRASIL
Débora Restom
Jornal do Brasil, 15/01/2000
Já se tornou quase um lugar-comum falar da necessidade de historicização de um pensamento. É praxe, ao analisarmos um pensamento ou julgarmos um pensador, termos presentes as circunstâncias em que se produziu esse pensamento ou viveu esse pensador. Exemplo disso é a impossibilidade de se entender a propagação do pensamento positivista fora do contexto imperialista do século 19 ou de se desvincular a filosofia de Heidegger da Alemanha nazista.
Entretanto, a impossibilidade de existência ou divulgação de um pensamento devido a determinantes contextuais é muito menos percebida e estudada. Ao final da leitura do livro Vilém Flusser no Brasil, temos a sensação de ter feito o segundo exercício de investigação: o de buscar respostas para a falta de ressonância de um pensamento em determinada época e sociedade por meio do conhecimento do conjunto de forças que atuaram em detrimento da realização daquela virtualidade.
Saindo de um longo eclipse, a obra do filósofo tcheco Vilém Flusser vem despertando cada vez mais o interesse de artistas, pensadores e cientistas do mundo todo. Desde 1991, ano da morte de Flusser, vários simpósios sobre o seu pensamento foram promovidos na Europa. No Brasil, algumas iniciativas vêm sendo tomadas a fim de reverter a misteriosa obscuridade a que ficou relegada a obra desse autor que aqui viveu e produziu intensamente por 31 anos.
Vilém Flusser no Brasil é resultado de um seminário realizado em abril por dois institutos de áreas diferentes, de duas universidades públicas: o Instituto de Letras da Uerj e a Escola de Comunicação e Artes da USP, o que caracteriza e homenageia a interdisciplinaridade do pensamento de Flusser. O livro reúne os textos das conferências e depoimentos de 13 autores de áreas como artes plásticas, fotografia, arquitetura, filosofia, literatura, comunicação.
A soma de pontos de vista tão diversificados fez desse seminário um momento privilegiado para se perceber a variedade e unidade da obra de Flusser Agora, o leitor desta coletânea de palestras tem a oportunidade de ir preenchendo o quadro geral da obra por meio das análises de aspectos fundamentais do pensamento flusseriano, como o louvor à superficialidade e o horror aos modelos, a posição antropofilosófica diante das tecnologias comunicacionais, o modo de suspender o juízo e de nos fazer "circular dentro do coração de nossas contradições".
Diversos artigos permitem também compreender melhor o termo pós-história - em tudo diferente do fim da história do neoliberalista Francis Fukuyama - como o de Lúcia Santaella, que sinteticamente define a história como "a tradução linearmente progressiva de idéias em conceitos, ou de imagens em texto", e a pós-história como "o processo circular que retraduz textos em imagens".
O culto às imagens, outro tema relacionado à onipresença dos media, é abordado em artigo escrito por Gustavo Bernardo. Aproximando inusitadamente Flusser dos profetas do Antigo Testamento, que condenavam a adoração de imagens, Gustavo Bernardo compara as imagens e os modelos a falsos deuses. Tanto o modelo científico - que finge não ser um modelo, mas a própria realidade - quanto as modelos dos outdoors impedem que a experiência da realidade se revele vivencialmente. O fenomenólogo Flusser faz coro, então, com o mandamento que proíbe o culto aos modelos e, sem meias palavras, denuncia o gesto criminoso do tecnocrata que manipula a economia como um jogo.
Mas, como um autor que conseguiu produzir categorias capazes de analisar de forma tão original a nossa realidade pôde ficar esquecido até agora? O depoimento do filósofo José Arthur Giannotti tenta enfrentar esta questão citando as justificativas políticas e acadêmicas para a marginalização de Flusser no Brasil das décadas de 50 e 60.
A nossa geração ganha, com Vilém Flusser no Brasil, não só a chance de ver resgatada a importância da obra desse estimulante pensador, mas também uma forte contribuição para a afirmação de um pensamento verdadeiramente plural entre nós.