DUBITO ERGO SUM

 Vilém Flusser

PREFÁCIO A A dúvida

Celso Lafer

 

         Vilém Flusser foi um pensador vigoroso, denso e incisivo. Para ele, o pensar filosófico era uma urgência vital. Quando o conheci, no final dos anos 50 - pois passei a freqüentar a sua casa na rua Salvador de Mendonça, 76, em São Paulo na condição de colega e amigo de escola de sua filha Dinah - exercia uma atividade empresarial. Dedicava-se, ao mesmo tempo e com a maior intensidade, à vida do Espírito, porém no isolamento intelectual de um judeu checo, transplantado para o Brasil, aos 20 anos, com o curso universitário inconcluso, por obra da tempestade nazista

         A atividade empresarial ele a vivia, para recorrer a Hannah Arendt, como animal laborans. Era uma labuta que exercia por necessidade, sentindo-a como mergulho diário no ciclo repetitivo e desinteressante dos imperativos do metabolismo da vida. Por isso creio que a "conversa fiada" no plano intelectual - que repelia, com vigor, caracterizando-a em A Dúvida como "um cosmos totalmente ritualizado e desmitologizado" - é uma elaboração reflexiva que tem algo a ver com a sua difícil experiência pessoal no mundo do labor, e com os riscos reais da sua transposição invasiva no mundo das idéias como, aliás, ele discute no ensaio "Do Funcionário", incluído no seu livro Da Religiosidade (São Paulo: Conselho Estadual de Cultura, Comissão de Literatura, 1967, pp. 71-76).

         O isolamento naquela época era o desdobramento no tempo da experiência dos displaced people, dos que, para recorrer novamente a Hannah Arendt, tinham perdido o lar e com ele a familiaridade da vida quotidiana, bem como o uso da língua originária, e com esta privação a naturalidade das reações, a simplicidade dos gestos e a expressão espontânea dos sentimentos. Flusser teve, assim, que lidar com a sua urgência vital de pensar, sem o apoio de instituições, pela própria cabeça. Superar este isolamento, buscar o diálogo, participar da "conversação autêntica" que "multiplica, ramifica, desdobra e especializa o pensamento", como diz em A Dúvida era assim, compreensivelmente, um tema vital, recorrente, ao qual buscou dar uma elaboração reflexiva de alto nível. Neste livro isso se expressa seja na rejeição da "excentricidade subjetivista" do pensamento romântico, seja no combate ao niilismo do anti-intelectualismo, que vê como "um erro e um perigo".

         Para superar este isolamento e encetar um diálogo mais amplo, que ensejasse a "conversação autêntica", contribuiu o punhado de jovens, amigos de Dinah, que se habituou ir à sua casa para com ele discutir temas e idéias, com a benévola acolhida de D. Edith, sua esposa. Com efeito, antes Flusser escrevia em alemão e discutia com Alexandre Bloch e Helmut Wolff, dois parceiros dialógicos radicados em São Paulo e ligados à sua "realidade" de Praga, como ele registra no prefácio de A História do Diabo (São Paulo: Martins, 1965, p. 13). A nossa curiosidade intelectual - a de Alan V. Meyer, J. C. Ismael, Mauro Chaves, Gabriel Waldman e a minha própria, entre outros que foram se agregando, - provocaram-no a escrever textos em português, já que nenhum de nós lia ou entendia alemão.

         O primeiro texto de que me lembro é "Praga, A Cidade de Kafka", que com o nosso entusiasmo ajudamos a encaminhar para o Suplemento Literário de O Estado de São Paulo, onde foi publicado e subseqüentemente inserido no livro Da Religiosidade. A acolhida e o estímulo de Décio de Almeida Prado, que então dirigia o Suplemento, abriram para Flusser a porta do público brasileiro e os contatos com o nosso meio intelectual, como ele muito acertadamente diz no prólogo do seu primeiro livro publicado, Língua e Realidade (São Paulo: Herder, 1963).

         Escrever em português, que dominou com extraordinária competência, dada a vocação de poliglota, agudizou em Flusser o tema da relação entre a língua e a realidade e a importância epistemológica da tradução. Como afirma neste livro, cujo horizonte é "a teia dos pensamentos", impelida pela "busca do significado", a língua é sinônimo de intelecto se definida como "campo no qual se dão organizações de palavras"; e o problema do conhecimento, com seus diferentes níveis de abstração, é, "no fundo, um problema de tradução". Daí a importância heurística que atribui em A Dúvida à querela escolástica entre nominalistas e realistas.

         Para lidar com língua e realidade e com o significado da tradução, Flusser estava aparelhado pelas suas origens. Os naturais de Praga, sua cidade natal, eram uma só população, caracterizada pelo seguinte: "Os alemães de Praga não sabem o quanto são checos, os checos não sabem o quanto são alemães e ambos não sabem o quanto são judaízados. Os judeus de Praga são, talvez, os mais assimilados entre todos os judeus do mundo, por se terem assimilado a dois povos, mas conservam o seu judaísmo como uma espécie de "Ponte Carlos" entre os dois povos".  (Da Religiosidade cit. p. 54). Kafka, que motivou esta reflexão de Flusser no texto que acima mencionei, exprime esta realidade e Flusser, que começou a vida sendo bilingüe - checo e alemão foram as suas primeiras línguas - avalia que a língua de Kafka é uma expressão genial do alemão praguense, no qual as palavras "inventadas" são tradução do checo e as "formas grotescas" são formas eslavas (Da Religiosidade cit. p. 57).

         No trato teórico da língua em A Dúvida, estão presentes tanto Carnap e Wittgenstein quanto Heidegger e Sartre. Em Flusser, esta confluência se radica na razão vital, que é, à maneira de Ortega y  Gasset, que ele conhecia bem, uma razão de vida na dupla acepção de orientar nossa vida no mundo e orientar-nos no entendimento do mundo através de nossa vida.

         O Círculo de Viena exprime uma das respostas intelectuais instigada pelo ambiente cultural da capital do Império Austro-Húngaro, do qual Praga foi parte integrante até a derrocada provocada pela Primeira Guerra Mundial. Com efeito, um Império multinacional e multilingüístico e a sua Capital lidavam mal com as ambiguidades de nacionalismos e ideologias. Os praguenses, herdeiros do Império numa Chequoslováquia independente, tinham, por isso mesmo, como pontua Flusser, uma posição flutuante e duvidosa em relação à sua "nacionalidade", - o que se evidenciava cada vez que a cidade era varrida por um terremoto externo (Da Religiosidade, p. 54). O positivismo lógico é uma maneira de disciplinar a linguagem, depurando-a de suas ambigüidades e da "conversa fiada" flutuante e duvidosa das ideologias. Representou, portanto, uma escolha intelectual compreensível também à luz da razão vital de Vilém Flusser. Pelos mesmos motivos, pondero eu, Kelsen, nascido em Praga, elaborou uma teoria pura do Direito, com o objetivo de excluir deste os componentes meta-jurídicos, tendo como ponto de partida o seu conhecimento do Estado do Império Austro-Húngaro que não era uma unidade sociológica, mas jurídica (cf. Rudolf Aladar Méttal, Hans Kelsen, Vida y Obra, México, UNAM, 1976, p. 49).

         O positivismo lógico, com o seu formalismo era, no entanto, insuficiente para dar conta das inquietações filosóficas de Flusser. A sua experiência de vida aproximou-se do ser jogado (geworfen) do existencialismo alemão e a sua razão vital lhe indicou que a existência precede a essência, na lição de Sartre. Nesta linha, em A Dúvida, considera a frase - o pensamento - um projeto pelo qual a existência se projeta contra as suas origens, argumentando que a palavra projeto, no contexto de sua reflexão, adquire uma qualidade que não tem nas discussões existencialistas, porque é analisável pela incorporação que faz da disciplina da linguagem do positivismo lógico.

         Flusser não era um pensador bem comportado, como a leitura desse livro deixa claro. Integrava a família intelectual dos grandes carnívoros. Devorava livros e idéias, antropofagicamente, à maneira de Oswald de Andrade. No seu contato com as pessoas e na sua busca incessante de uma "conversação autêntica" sentia-se impelido a questionar os intelectuais inautênticos, que são "depositários do refugo da conversação ocidental", pois os chavões com os quais operam são "meros detritos de dúvidas", para valer-me de sua formulação neste livro.

         Numa carta que me escreveu da Grécia em 1/6/71, e era, aos 51 anos, nas suas palavras um painful reassessment da sua relação com o Brasil, vale dizer "com os últimos 31 anos da minha vida", reiterou que a sua forma mentis era polêmica (polemos pater panton - dizia ele, evocando o fragmento de Heráclito), o que se exprimia na sua visão teórica das coisas, ou seja, no seu "desprezo preconcebido do pragmatismo americano, do palpite brasileiro, da vivência profunda alemã e da ortodoxia dos russos". Em síntese, Flusser gostava de provocar. Provocava na linguagem escrita e provocava ainda mais na exposição dos seus pensamentos, com o incomparável virtuosismo das suas incisivas palavras e dos seus inusitados gestos, o que dele fez um extraordinário conferencista e professor.

         O seu "método" era, para recorrer a Octavio Paz em "Para o Poema" (Pontos de Partida) o de: "Arrancar las máscaras de la fantasia, clavar una pica en el centro sensible: provocar la erupción". Este "método" era compatível com o "chamar" centrífugo da intuição poética, que expande a matéria prima do pensamento, e com o "conversar" centrípeto, que, através da crítica, consolida o campo da dúvida, tal como proposto neste livro.

         A forma mentis de Flusser atraía e por vezes incomodava o seu interlocutor. Ela atraiu Vicente Ferreira da Silva, inteligência poderosa e vigoroso interlocutor que Flusser muito admirou (cf. Prólogo de Língua e Realidade, cit.; prefácio de História do Diabo, cit.; Da Religiosidade, cit. pp. 91-124). Isto não excluía discordâncias explícitas, tanto que neste livro ele aponta que a reconquista da visão simbólica das coisas, que Vicente Ferreira da Silva advogava, corria o risco de desembocar num mutismo metafísico. Das poucas discussões entre os dois, que presenciei, dou o testemunho que seguramente correspondiam ao que Flusser qualificava como "conversação autêntica".

         Flusser foi atraído e atraiu Guimarães Rosa, cujo extraordinário poder de nomear as coisas - o "chamar" - correspondia perfeitamente à sua visão, discutida neste livro, do papel da poesia na expansão do intelecto. Como diz Flusser, no fecho de um instigante texto, intitulado "Do Poder da Língua Portuguesa": "Dou graças ao deus das línguas que permitiu o fenômeno Guimarães Rosa, como que para provar de forma prática as minhas teorias" (Da Religiosidade, cit. p. 147).

         O Instituto Brasileiro de Filosofia, - com o pluralismo aberto e sem preconceitos acadêmicos que o caracteriza, graças à inspiração de Miguel Reale - foi, também, para Flusser, um espaço para discussão, nos anos 60, período que assinala o seu desvencilhamento do mundo do labor e a sua dedicação, à vida das idéias. "Conversação autêntica" ele teve com Miguel Reale e, sobretudo, como posso testemunhar, pelo jogo das afinidades, com o seu amigo Milton Vargas, um dos integrantes do IBF. O interesse comum pela língua, pela poesia e pela tradução também deu margem, na década de 60, para "conversação autêntica" com Haroldo de Campos e os integrantes do movimento de poesia concreta (cf. Da Religiosidade, cit. p. 125-130).

         Nem sempre, cabe lembrar, o "método" de Flusser operava a contento. É o caso, como o próprio Flusser registra, de Anatol H. Rosenfeld, um dos seus interlocutores na época. Flusser via em Anatol o  representante autêntico da "honestidade do intelecto fechado sobre si mesmo", um "modelo de crítico" que ele não conseguiu conquistar para todo o terreno de suas especulações em função da limitação deliberada, que o seu interlocutor autenticamente se impunha. Flusser escrevia em temor dessa crítica (A História do Diabo, cit. prefácio p. 14), o que se compreende à luz da importância, explicitada em A Dúvida, sobre a função da crítica para a expansão da teia do pensamento. Anatol, para dar-lhe a palavra, apontou numa resenha, a Língua e a Realidade, ao recomendar a sua leitura: "É expressão de um pensamento muito em voga e, ademais, joga com esse pensamento de um modo magistral. Há, por vezes, intuições profundas e algumas análises são modelos de argúcia e penetração. Pela sua originalidade é um livro "poético" no sentido do A. Admite-se haver uma verdade parcial na afirmação de que a linguagem determina a nossa visão da realidade. Se o A. se limitasse, com humildade, ao exame cuidadoso dessa verdade parcial, em vez de pregar logo um mito e arrancar dos seus diversos nadas, toda uma mística, ele escreveria livros sólidos e úteis. Todavia tal conselho decerto é filisteu ante esta filosofia essencialmente lúdica. Talvez seja preferível que continue escrevendo livros como este: esplêndidos, conquanto errados (segundo a opinião do comentarista)". (Suplemento Literário de O Estado de São Paulo, p. 2, 6 de junho de 1964)

         Flusser tinha algo de homo ludens, como apontado por Anatol, mas a dúvida e a dúvida da dúvida não eram para ele um jogo. Eram um tema recorrente e subjacente à sua razão vital. O pintor Flexor, com quem ele se dava, o retratou, pontuando a interrogação. Este ponto de interrogação ajuda a compreender porque o livro "sólido e útil" não era compatível com a sua "forma de vida" na acepção de Spranger. Neste livro, que inicia com uma discussão sobre o significado, no mundo contemporâneo, da dúvida da dúvida, Flusser aponta a importância do cogito cartesiano e da admiração aristotélica como as fórmulas instigadoras da conversação ocidental. A sua obra e a sua presença intelectual foram uma resposta que delas se nutria, daí ser este livro uma expressão vigorosa dessa sua maneira de ser, pois é uma das variações, no sentido musical, de um dos seus grandes temas. Há, um ensaio intitulado "Da Dúvida", em Da Religiosidade (cit. pp. 39-52) do qual este livro é uma versão muito ampliada e trabalhada, escrito provavelmente na década de 60, segundo a avaliação de D. Edith, que acompanhou e conhece, como ninguém, a obra de seu marido e parceiro de vida, que dele foi uxori dilectissimae e omnia mea.

         Eu mesmo entreguei uma versão, em alemão, de A Dúvida, a Hannah Arendt em 1965, quando fui seu aluno em Cornell, nos EUA, a pedido de Flusser. Ela leu e comentou comigo que o tinha achado interessante, o que é muito compreensível, pois em The Human Condition, no capítulo VI, sobre "A vita activa e a era moderna", examina o significado do advento da dúvida cartesiana, e a sua posição central no pensamento moderno, contrastando-a com o thaumazein dos gregos - "o assombro diante de tudo é como é".

         Gostaria de concluir com uma nota pessoal sobre os nossos primeiros contatos e seus desdobramentos. Se a tradução, como quer Flusser, é um problema central do conhecimento, sem dúvida ele traduziu para mim (e para tantos outros), no início e na seqüência da nossa amizade, trechos importantes da conversação ocidental. Esta tradução, nos termos deste livro, era um convite à conversação autêntica e à festa do pensamento.

         Não era fácil essa conversa. Para quem, no Colégio Dante Alighieri, tinha tido, no curso clássico, rudimentos da lógica aristotélica-tomista e, a seguir, em 1960, no primeiro ano da Faculdade de Direito da USP estudara o Tratado de Conseqüência - o curso de lógica formal de Goffredo Telles Jr., - positivismo-lógico representava, para falar com os escolásticos, a ignorância entendida como estado negativo de conhecimento. O pensamento em língua alemã, cujas virtualidades ele articulava, com inspiração heideggeriana, como um grande artista da palavra em tantas línguas, não me era acessível diretamente. O Fausto de Goethe, que ele conhecia tão bem e pairava nas meditações que levaram A História do Diabo, não era o meu pão de todo dia.

         No início do nosso contato (eu estava concluindo o colegial), a fim de participar melhor da sua conversação estimulante procurei ampliar o repertório, não apenas por meio de leituras, mas recorrendo ao "léxico familiar" para falar como Natalia Ginsburg. Na biblioteca dos meus pais estava o Fausto, na tradução de Jenny Klabin Segall e, presentes nas discussões em família, ecos dos obstáculos que ela enfrentara para transpor em verso o significante e o significado do texto de Goethe. Na mesma linha mencionava-se, e Jenny Klabin Segall corroborava, como era diferente a experiência da tradução do francês, que ela também tinha feito ao verter peças de Corneille, Racine e Molière. Isto me deu a munição inicial para lidar com os temas da tradução, da língua e da realidade. Nas discussões sobre filosofia alemã, vali-me inicialmente de Horácio Lafer, por cujo intermédio localizei Dilthey, Husserl e Heidegger graças a alguma conversa (nas brechas de sua vida pública) e mais a atenta leitura do seu livro Tendências Filosóficas Contemporâneas na segunda edição, de 1950.

         Já na Universidade, os meus primeiros trabalhos, O Judeu em Gil Vicente (1963) e O Problema dos valores n'Os Lusíadas (1965) - que elaborei sob a segura orientação de Segismundo Spina e Antonio Candido, ao cursar Letras na USP, - beneficiaram-se de muita discussão com Vilém Flusser. O sal de sua estimulante presença encontra-se na análise do judeu, no "Auto da Barca do Inferno" entre Deus e o Diabo, porque religiosamente imperfeito para a doutrina cristã. Encontra-se, igualmente, na reflexão sobre a dúvida n'Os Lusíadas, no qual exploro como Camões ao mesmo tempo celebra a expansão ultramarina portuguesa e se agonia com o desastre nacional em que se convertera, recorrendo, no poema, tanto à Providência Divina quanto à recompensa útopica da Ilha dos Amores, para amainar - na linha do maneirismo - a sua angústia. Quando fui fazer, em 1965, a minha pós-graduação em Cornell, nos EUA, creio que dei alguma contribuição para o repertório do pensar de Flusser , pondo-o em contato com a obra de Octavio Paz  e Hannah Arendt.

         É o que ele explicitamente me disse em duas cartas: uma de 7/5/66, na qual, ao comentar O Labirinto da Solidão conclui tratar-se de uma obra que se insere "na lista das pesquisas fenomenológicas e existenciais mais importantes da atualidade"; outra de 14/3/66, na qual registra que a leitura de The Human Condition foi para ele uma revelação, pois "partindo de coordenadas do pensante quase inteiramente diferentes das minhas, e de axiomas parcialmente opostos, chega Arendt a conclusões muito próximas das minhas", o que não excluía a discordância, em especial na maneira como ela encarava a polis.

         Hannah Arendt foi também uma oportunidade para retomarmos contato, nos anos 70, quando Flusser já estava morando na Europa e a nossa "conversação autêntica", por isso mesmo, tinha diminuído. Da França, de Pepin d'Aigues, ele me escreveu em 22/5/75 comentando um artigo que eu tinha escrito sobre As Origens do Totalitarismo. Na sua carta e seguindo sua inclinação para a análise fenomenológica - de que é excelente exemplo o conjunto de ensaios publicados na França (La force du quotidien, Tours: Mame, 1973) nos quais examina objetos como garrafas, canetas, óculos, tapetes, muros, espelhos, etc. - sugere uma reformulação em termos fenomenológicos das três maneiras de estar-no-mundo - labor, work, action - analisadas por Hannah Arendt em The Human Condition. Nesta reformulação, propunha reservar o termo gesto para a ação, vendo numa teoria do gesto, a que estava se dedicando, a "disciplina interpretativa (semiológica) das manifestações fenomenais da liberdade". Esta reformulação retomava o diálogo crítico, pois era uma discussão em torno do que eu tinha afirmado, no meu artigo sobre a liberdade. Respondi-lhe em 11/7/75, dizendo que "A sua presença, mesmo na sua ausência, é sempre atuante" e teci algumas considerações sobre o agir e suas origens etimológicas: agere - por em movimento - e gerere - trazer - cujo particípio passado gestum, recheiaria de conteúdo histórico (res gestae) uma teoria do gesto.

         A mudança de Flusser para a Europa efetivamente diminuiu o nosso contato. Para isso contribuiu sem dúvida a distância geográfica, mas talvez também outra coisa, que, recorrendo aos termos do próprio Flusser (Língua e realidade, cit. p. 128), seria o fato de me ser possível lidar existencialmente com a realidade de maneira mais desafogada por meio do pluralismo ontológico dos verbos, ser, estar e ficar, que caracteriza o português, sem o exclusivismo do verbo sein da língua alemã e sem articular a realidade, prescindindo do verbo, por meio da estrutura da frase, como faz o checo. Isto não amainou meu interesse pela sua reflexão que, pelo que sei, teve e está tendo uma irradiação importante, em especial na Alemanha. Circunscrevendo-me ao que Flusser escreveu ao tempo deste livro, registro que acompanhei - com plena coincidência - a elaboração de Tércio Sampaio Ferraz Jr., nele lastreado sobre como os problemas teóricos da tradução representam uma esclarecedora analogia para as dificuldades epistemológicas da interpretação jurídica (cf. Tércio Sampaio Ferraz Jr., Introdução ao Estudo do direito, Técnica, Decisão, dominação, São Paulo: Atlas, 1988, pp. 243-247 e o meu prefácio, p. 20).

         Enfim, diria, para arrematar este texto, que é também uma evocação de sua pessoa e uma homenagem à sua memória, que a sua presença intelectual é para mim expressão autêntica da atividade do pensar. Esta atividade é invisível, e por esta razão Hannah Arendt a descreve valendo-se da metáfora socrática do vento: sentimos mas não vemos. A esta metáfora, adicionaria, flusserianamente, que tanto em hebraico (ruah) quanto em grego (pneuma) uma mesma palavra designa vento e espírito. Por isso os ventos do seu espírito são invisíveis, mas ainda assim o que eles fazem é manifesto e de alguma maneira sentimos a sua proximidade.