DUBITO ERGO SUM

 Vilém Flusser

 

CONSIDERAÇÕES EM TORNO DE A dúvida

Rildo Cosson

         

Talvez porque estejamos habituados a um tipo de discurso que mais questiona do que afirma ou que reveste as suas afirmações de  interrogações e dúvidas, talvez porque não tenhamos mesmo muitas certezas ou porque desconfiamos de tudo aquilo que se diz absoluto, o discurso desmodalizado de Flusser causa um certo desconforto. As frases muito diretas, os verbos predominantemente no presente do indicativo, a ausência de auxiliares, tudo parece caminhar para uma  revelação que se basta a si mesma. Entretanto, em meio ao encadeado de orações regidas pelo verbo ser, com a estrutura que é própria das definições, surge a concisa releitura dos grandes textos, como o diálogo entre Fredo e Sócrates, as imagens que buscam traduzir para o concreto o abstrato da argumentação, como o pensamento que se tece como uma corda ou as frases que se estruturam como uma teia de aranha, e o tom de parábola que cerca a festa celebradora do pensamento.

         Estou usando, propositadamente, as palavras revelação e parábola porque através delas quero apontar para a segunda impressão que tive do discurso de Flusser. Mais que um discurso desmodalizado, é uma fala profética. Não apenas no sentido da articulação de uma previsão do que acontecerá no futuro se não sacrificarmos agora o nosso orgulho,  mas também, e sobretudo, porque é uma fala da certeza, de quem possui a verdade. Nesse sentido, semelhante ao texto bíblico, é uma voz autoritária, que não admite debilidades ou atenuações. Ele abre o caminho sob o mar e todos devem passar sob a pena de serem engolidos pelas águas que retornarão ao seu leito natural ou escravizados outra vez pelos soldados do faraó. É uma voz de alerta e de salvação como costumam ser as vozes do profetas.

         Esse discurso de fundo religioso que, por sua natureza, busca convencer, constrói-se numa lógica implacável, numa racionalidade que parece desejar o absoluto. (Paradoxalmente, não há dúvidas em A Dúvida). A sua persuasão está justamente no exercício de pensar logicamente, de responder a todas as inquietações, de propor soluções que uma vez propostas parecem simples e exatas como as pedras que se encaixaram para formar a pirâmide.  Aliás, não é admirável a maneira como o autor encaixa sua argumentação partindo da dúvida, na introdução, para o intelecto, a frase e o nome, como se fosse uma espiral invertida, os anéis constringindo logicamente o tema, para depois propor, como uma base, nos capítulos Da proximidade e Do sacrifício, a solução para a dúvida da dúvida?

         Todavia, olhar a linguagem de Flusser, perscrutar a construção de seu discurso não é um velho hábito da área das Letras, mais preocupados com o como se diz do que com aquilo que é dito? Não estaríamos aqui, de certa maneira, repetindo o que Fedro fez a Sócrates, conforme lê o próprio Flusser em “Breve relato de um encontro em Platão” (Apud: Leão, Maria Lília. Pessoa-pensamento no Brasil) e que já mereceu respostas  de ambos sobre a importância da verdade do dito sobre a do como é dito. Mesmo assim ainda aprendemos que a verdade pode ser dita de muitas maneiras e que cada maneira de ser dita a faz uma diferente verdade.

         No que diz respeito à literatura comparada, há no texto de Flusser uma oposição que é certamente útil para pensarmos nossa disciplina. Trata-se da distinção entre “conversação autêntica” e “conversa fiada”. A oposição não está apenas no adjetivo, mas também no substantivo. A conversa não é apenas fiada, sem importância, sem objetivo, irresponsável, inútil, mas também conversa, coisa corriqueira e coloquial, cotidiana. A conversação não é somente autêntica, mas um diálogo de grandes, que envolve seriedade, que implica ação conseqüente.  Flusser recusa a conversa fiada porque não leva a lugar nenhum. Quer a conversação autêntica, aquela que se faz com objetivos nobres de desenvolver o intelecto ou iluminar com a  verdade.  Num ambiente que ritualiza o intelecto como o nosso, porém, como distinguir a conversa fiada da conversação autêntica? Como saber se estamos praticando a dúvida da dúvida ou estamos buscando a proximidade do de tudo diferente?

         De minha parte, não tenho uma verdade a dizer, mas tenho uma crença, uma fé ingênua, talvez, de que a conversação autêntica da literatura comparada hoje não está na tentativa de determinar seus limites como forma de garantir a identidade da disciplina. Antes deve ser buscada no desdobramento de suas fronteiras, nos seus limiares críticos, como defende a nossa linha. Ao acompanhar o traçado das linhas de fronteira, rompendo o traçado do mapa em favor da realidade do território, talvez possamos encontrar mais que a diferença e a semelhança, que o contraste e o confronto. Talvez seja possível mesmo apreender o gesto comparatista como um mirante de onde se pode ver descortinado o campo da literatura e suas conexões com outros campos.

         No caso da minha pesquisa, “Fronteiras Contaminadas: romance-reportagem, novela testimonial e nonfiction novel”, interessa-me sobretudo verificar como essas conexões entre o sistema literário e o sistema jornalístico se efetivam, como esses campos se misturam, se confundem e se contaminam, enfim. A leitura dessa contaminação deverá me levar a uma leitura melhor do funcionamento do sistema literário e do sistema jornalístico, posto que é nas fronteiras que esses discursos permitem o desvelamento das convenções que não são discutidas em seus centros por serem próprias.  Deve também ensejar uma análise da constituição  das fronteiras elas mesmas, uma possível explicação de como o discurso literário se imbrica com outros discursos, uma leitura da maneira como tecemos o saber com que articulamos o mundo. A proposição desses objetivos configura o início de uma conversação autêntica?

 

Os comentários acima foram objeto de discussão do GT de Literatura Comparada da ANPOLL.