DUBITO ERGO SUM

 Machado de Assis

PODE UM CÉTICO DAR CONSELHOS?
ou: o paradoxo machadiano

Gustavo Bernardo

 

Publicado em Fragmentos de cultura (Goiânia),
v. 15, nº 4, abril de 2005.

 

"Se uma cousa pode existir na opinião, sem existir na realidade, e existir na realidade, sem existir na opinião, a conclusão é que das duas existências paralelas a única necessária é a da opinião, não a da realidade, que é apenas conveniente." Quem o diz é o narrador do conto “O segredo do bonzo” [MA4: 125], preparando o terreno cético para os personagens do mais conhecido escritor brasileiro. Segundo esse narrador, a opinião, que supomos contingente, é necessária; a realidade, que supomos necessária, é apenas conveniente. A perspectiva cética e irônica já parece clara.

Astrojildo Pereira, crítico marxista, comentará que o ceticismo machadiano não é subjetivo mas, sim, criticamente objetivo, porque traduz a dúvida do escritor perante o discurso liberal e progressista que o rodeava [Pereira: 273]. Desfaz-se assim o mito do escritor omisso, mostrando como a obra machadiana demole as principais instituições burguesas de seu tempo. Só que Machado o faz sem seguir a cartilha realista, antes estruturando sua obra pela antiga ótica do trágico, enxergando “o irremediável das coisas e a fragilidade de tudo” [Barreto Filho: 11].

Por isso, no dizer de Dirce Côrtes Riedel, “a obra machadiana é uma busca do sentido da vida sem sentido, é expressão de angústia metafísica” [104]. Entretanto, precisamos defini-lo como um trágico moderno, porque ele também não segue a cartilha aristotélica: ao invés de privilegiar a ação e as peripécias, suas narrativas enfatizam a reflexão e, ainda, a reflexão sobre a própria reflexão. Segundo Cecília Loyola, isso explicaria porque a importância do teatro machadiano é minimizada: avaliam-no pelo parâmetro aristotélico. Ora, o caráter não-aristotélico desse teatro constitui sua originalidade, quando se substituem as convenções do teatro pelo teatro das convenções; antecipa-se o distanciamento brechtiano e exibe-se precisamente a condição de teatralidade do gesto social [Loyola: 60].

Percebe-se a presença do ceticismo desde o primeiro romance, Ressurreição, e a partir mesmo do título irônico: anuncia-se várias vezes a ressurreição de um amor que, todavia, nunca se consuma. Ao contrário, Félix, o médico personagem principal, é um cético no mau sentido do termo, isto é, no sentido do senso comum, desconfiando por princípio do caráter da amada. Seu nome é outra ironia: embora ele zele como um usurário por sua felicidade, perde-a à proporção em que tenta protegê-la. A amargura se anuncia desde o primeiro parágrafo, que comenta o primeiro dia do ano: “Tudo nos parece melhor e mais belo – fruto da nossa ilusão – e alegres com vermos o ano que desponta, não reparamos que ele é também um passo para a morte” [MA5: 55].

A reflexão amarga abre o primeiro romance do escritor que ousava construir, logo na primeira tentativa, caráter tão complexo [MA5: 56]:

Do seu caráter e espírito melhor se conhecerá lendo estas páginas, e acompanhando o herói por entre as peripécias da singelíssima ação que empreendo narrar. Não se trata aqui de um caráter inteiriço, nem de um espírito lógico e igual a si mesmo; trata-se de um homem complexo, incoerente e caprichoso, em quem se reuniam opostos elementos, qualidades exclusivas, e defeitos inconciliáveis. Duas faces tinha o seu espírito, e conquanto formassem um só rosto, eram todavia diversas entre si, uma natural e espontânea, outra calculada e sistemática. Ambas porém se mesclavam de modo que era difícil discriminá-las e defini-las. Naquele homem feito de sinceridade e afetação tudo se confundia e baralhava.

A descrição atende a Félix, mas serve a todos os protagonistas machadianos que depois se lhe seguiram. Machado não encontra a sinceridade dissociada da afetação social, assim como não percebe a verdade dissociada completamente da mentira. Caracteriza seus personagens por contraste, representando-os não somente em conflito com os outros, mas principalmente em conflito consigo mesmos. Os caracteres machadianos experimentam a impossibilidade de se reconhecerem iguais a si mesmos: o espelho da literatura os devolve trêmulos. O tempo – a história – afeta a subjetividade a ponto de transtorná-la em dramática duplicidade interna.

Félix se apaixona aos poucos por Lívia e é correspondido, mas esse amor não se adequa bem aos clichês românticos: Lívia é bela, sim, mas viúva e com um filho. Na primeira conversa que Félix tem com a viúva, sente-se muito bem a seu lado, mas de repente lhe escapa “não sei que frase de melancólico cepticismo que fez estremecer a moça” [MA5: 72]. O primeiro grande personagem do escritor é mais melancólico do que cético, voltado antes à observação narcisista de suas desilusões, às vezes antecipando-as, do que à contemplação serena do mundo. O narrador não o define como mau, mas nele reconhece ceticismo “desdenhoso ou hipócrita”, conforme a ocasião. O personagem desconfia das pessoas não apenas graças às decepções que vai sofrendo, mas principalmente por ser fraco e volúvel [MA5: 110]. Depois de alguns encontros, Félix deseja dizer que ama Lívia, mas tanto ele quanto o narrador sabem, ora cínicos, ora céticos, que o amor é uma maneira de dizer – que o amor é também um “como se” [MA5: 85]:

A tarde estava realmente linda. Félix, entretanto, cuidava menos da tarde que da moça. Não queria perder o ensejo de lhe dizer, como se fora verdade, que a amava loucamente.

À proporção que os amantes representam tão completamente o amor que deveras sentem, triângulos amorosos se sucedem, suscitando no leitor a possibilidade e, no personagem, a suspeita: da traição. Por qualquer coisa Félix desconfia de Lívia e lhe escreve cartas ofendidas. Lívia luta por ele a ponto de visitá-lo em casa, o que pode provocar a maledicência do povo. O moço pergunta, reticente, “não receou que os olhos da sociedade...”, mas ela lhe responde, procurando sorrir: “a sociedade está tomando chá” [MA5: 100]. Nessa única frase irônica – “a sociedade está tomando chá” – o escritor resume a moralidade social.

Passa a crise, mas acontecem outras. Quando o casal ainda esconde o namoro, um personagem de nome Meneses procura Félix para lhe dizer de sua paixão exatamente por Lívia. “Uma só palavra bastava ao médico para arredar do seu caminho aquele rival nascente”, mas Félix repele a idéia por orgulho e por cálculo. O cálculo é diabólico: quer aquilatar “a constância e a sinceridade de Lívia” frente ao assédio do outro. A partir daí, o narrador o vê como único responsável pela dúvida e decepção futuras [MA5: 116]:

Assim pois era ele o artífice do seu próprio infortúnio, com as suas mãos reunia os elementos do incêndio em que viria a arder, senão na realidade, ao menos na fantasia, porque o mal que não existisse depois, ele mesmo o tiraria do nada, para lhe dar vida e ação.

Porque “artífice do próprio infortúnio”, o final do romance não é feliz para Félix, como não o é também para Lívia. Mas não há mortes ou tragédias abruptas. Tanto duvida Félix sem motivo que a viúva não o perdoa mais e, com dor serena, opta pela solidão ao lado do filho. “No tempo em que os mosteiros andavam nos romances”, a viúva acabaria os seus dias no claustro – mas, como esse romance é secular, “os heróis que precisam de solidão são obrigados a buscá-la no meio do tumulto” [MA5: 165]. Lívia envelhece sozinha, com poucos amigos; é logo esquecida. Félix sofre um pouco, mas não demora a ter dúvidas de novo, apesar das muitas provas que teve da honestidade de Lívia. Covarde, se sente aliviado com o desfecho, o que autoriza o juízo final do narrador [MA5: 166]:

Dispondo de todos os meios que o podiam fazer venturoso, segundo a sociedade, Félix é essencialmente infeliz. A natureza o pôs nessa classe de homens pusilânimes e visionários, a quem cabe a reflexão do poeta: “perdem o bem pelo receio de o buscar”. Não se contentando com a felicidade exterior que o rodeia, quer haver essa outra das afeições íntimas, duráveis e consoladoras. Não a há de alcançar nunca, porque o seu coração, se ressurgiu por alguns dias, esqueceu na sepultura o sentimento da confiança e a memória das ilusões.

O primeiro protagonista de Machado de Assis é menos cético do que narciso e pusilânime. Aquele ceticismo de fachada pode ser desdenhoso ou hipócrita, conforme a ocasião, mas a observação do seu caráter através do romance mostra já um escritor cético a respeito da humanidade, sem que seu ceticismo implique falta de humor ou de ternura. Ainda que a personagem feminina se mostre bastante idealizada, a sociedade é desmontada na base quando tem um Félix por médico. Os outros romances e contos afiarão a pena e cortarão mais fundo, mas desde o início Machado se mostra maduro – porque se revela simultaneamente cético e sereno. Tanto isso é verdade que o enredo e os personagens de Ressurreição retornam, vinte e oito anos mais tarde, em 1900, naquela que costuma ser considerada a obra-prima do escritor: Dom Casmurro.

A ensaísta norte-americana Helen Caldwell, que em 1953 traduziu Dom Casmurro para o inglês, considera esse livro o maior de todos os romances do continente americano [17]. Em 1960, ela publica uma ousada análise do romance, intitulada The Brazilian Othello of Machado de Assis: a Study of Dom Casmurro. Esse estudo só foi traduzido para o português em 2002. Helen vê o retorno dos elementos do primeiro romance se dando não na perspectiva de um narrador onisciente mas, sim, na do personagem que se supõe traído e que, na verdade, é o artífice do seu próprio infortúnio: o médico Félix se transformou no advogado Bento Santiago, cabendo-lhe narrar suas desventuras e advogar em causa própria. Lívia torna-se Capitu, aquela que se descreve apenas através dos olhos “oblíquos e dissimulados”.

Tanto Ressurreição quanto Dom Casmurro retomariam Othello, a tragédia de Shakespeare, para a cena brasileira, mas no segundo romance a solução é outra: Machado junta num só personagem dois caracteres contraditórios e conflitivos. Bento Santiago é ao mesmo tempo Otelo, o mouro que se supôs traído por Desdêmona graças às intrigas de Iago, e o próprio Iago – não à toa, seu nome “Bento” se duplica no sobrenome como o “Santo Iago” [Caldwell: 41]. Como “maquinador da própria desonra”, para recorrer a uma expressão de Cervantes, Bentinho se torna um dos personagens mais complexos da literatura brasileira – mais do que um Otelo, ele encarnaria um Hamlet brasileiro, em dúvida se é ou se não é: amado [Caldwell: 168].

A ensaísta se espanta como a maior parte dos estudiosos de Machado de Assis assumiu a heroína como culpada de adultério, apesar de a história toda ter sido contada pela ótica do maior interessado em se pôr como vítima. Não há no romance nenhuma evidência conclusiva de que Capitu tenha ou não tenha traído o seu marido Bento Santiago com o amigo Escobar, mas os críticos, desde José Veríssimo, quando o romance foi publicado, até Massaud Moisés, no final do século XX, traem-se tomando o partido do narrador. Moisés, num artigo chamado “Em busca dos olhos gêmeos de Capitu”, ao mesmo tempo que diz ter lido o estudo de Caldwell, considera Bentinho um ingênuo incurável e ela “a própria encarnação do maquiavelismo feminino, para dizer o mínimo” [Jornal da Tarde, 19/07/1997].

Helen Caldwell sugere que o escritor continuava aplicando rasteiras irônicas nos seus críticos, obrigando-os a traírem, primeiro, seus preconceitos, quiçá seu medo dos olhos oblíquos das capitus da vida e da ficção, e, depois, seus limites teóricos, denegando a ambigüidade literária e machadiana em nome de uma solução moralista. No entanto, ela resvala na mesma armadilha, ao defender Capitu tão apaixonadamente. Não há como saber se o adultério foi ou não cometido – ou, ainda que o tivesse sido, não há como saber se o amor de Capitu por Bentinho se tornara menor, igual ou até mesmo maior. A qualidade do romance reside no seu unreliable narrator, ou seja, em um narrador no qual não se pode confiar, o que parece garantir a suspensão de todo julgamento, ou seja: a epoché. Essa indeterminação, essa indecidibilidade, sugere, precisamente, que a traição, em si, é irrelevante. O que importa é outra coisa. Como argumenta Abel Baptista, “a questão da culpa ou inocência de Capitu é uma questão sem solução nem sentido a partir do momento em que se assume que Machado a entregou à decisão do leitor, se por isso se entender deixar o leitor com a narrativa de Dom Casmurro, sem nenhuma outra instância que a complete, confirme ou contradiga, designadamente uma instância que simule falar em nome do próprio autor” [Baptista2: 369].

As rasteiras irônicas do escritor prosseguem na história do outro médico, aquele que tem nome de símio (lembrando Darwin) e sobrenome bélico (aludindo à revolução “pela culatra” que ele promove na ciência). Na pequena Vila de Itaguaí, próxima à outrora capital federal, encontramos o ilustre doutor Simão Bacamarte fundando o asilo da Casa Verde, a fim de demarcar os limites da razão e da loucura. A Câmara Municipal da Vila o autoriza a encerrar na Casa qualquer habitante que não corresponda ao critério estabelecido para a saúde mental: “a razão é o perfeito equilíbrio de todas as faculdades”.

A experiência, porém, transforma-se numa tragédia para a comunidade: quatro quintos de seus membros são trancafiados na Casa Verde. Revendo seus conceitos à luz dos novos fatos, o doutor Bacamarte modifica o critério para a saúde mental, passando a admitir como normal e exemplar o desequilíbrio das faculdades; em conseqüência, tornam-se patológicos todos os casos em que aquele equilíbrio se mostra ininterrupto. Todos os internos são libertados, passando a se encarcerarem os melhores da cidade, ou seja, as pessoas mais equilibradas e razoáveis. Mas, como mesmo estes demonstram algum desequilíbrio, resta apenas uma pessoa em toda a cidade que satisfaz o novo critério para a loucura: o próprio Simão Bacamarte. Em nome do rigor científico, o ilustre médico interna a si mesmo no seu asilo, onde virá a perecer sozinho.

Esta é a história d’O alienista. A novela foi publicada pela primeira vez e em partes no periódico A Estação, de outubro de 1881 a março de 1882. Por essa época, o trabalho burocrático do escritor consistia em lidar com assuntos referentes à escravidão, em especial consultas sobre a aplicabilidade da Lei do Ventre Livre, de 1871. Machado redige alguns textos administrativos que comprovam sua posição ao lado dos escravos, no período em que a campanha abolicionista dava apenas os primeiros passos. A oposição liberdade versus escravidão metaforiza-se na oposição sanidade versus loucura. A Casa Verde é sobretudo um espaço de privação da liberdade no qual pessoas são escravizadas em nome dos discutíveis e camaleônicos poderes da ciência e da política. Desse modo, a metáfora cumpre seu destino e diz mais do que a analogia da qual partiu, fazendo ver a relação entre a política e o pensamento vigente.

Seis meses depois da publicação de O alienista, Machado escreve o conto “O espelho”, cujo tema é o questionamento do papel da identidade através da suposta existência de duas almas dentro de uma mesma pessoa – no caso, o personagem Jacobina. Como Guimarães Rosa mais tarde fará em conto de mesmo título, afirmando “sim, são para se ter medo, os espelhos”, Machado representa o espelho como signo e agente de dissociação psíquica que faz tremer o real ao refleti-lo. Jacobina descobre aquelas duas almas em si mesmo, quando se percebe solitário logo após a fuga de todos os escravos da fazenda. Jacobina se vê no espelho como uma figura “vaga, esfumada, difusa, sombra de sombra”, e afasta-se do reflexo com medo de enlouquecer [MA4: 161].

Na novela e no conto, como em toda a sua obra, Machado discute questões políticas e sociais de maneira enviezada e irônica. Jacobina prepara o que viria a ser um dos principais personagens de Machado de Assis: o Conselheiro Aires. Jacobina não discute nunca, defendendo-se da abstenção ao afirmar que a discussão é a forma polida do instinto da guerra, que “jaz no homem como uma herança bestial”. Instado por amigos a dar alguma opinião, ou ao menos alguma conjectura sobre a natureza da alma, ele retruca que não lhes dá nem uma nem outra, porque ambas podem permitir o dissentimento, que não lhe interessa. Todavia, se o ouvirem calados, ou seja, sem discutir, eles lhes contará o caso da sua vida, para provar a existência de duas almas convivendo dentro de uma única pessoa [MA4: 154].

Em termos visuais, o espelho mostra que, onde parece existir um, há dois. Nos termos da linguagem, a metáfora é uma espécie de espelho mostrando que, onde parece haver apenas um significado, há no mínimo outro significado. Assim como a imagem do rosto não é igual ao próprio, o significado subjacente à metáfora não é igual ao significado aparente da palavra. Com o tempo, no entanto, a metáfora se desgasta em catacrese, ocultando novamente o espelhamento transversal que produzira. Como lembrou Nietzsche, as verdades são “ilusões cuja origem está esquecida, metáforas que foram usadas e que perderam a sua força sensível” [Nietzsche: 69]. O desgaste da metáfora ocorre no cotidiano, quando não enxergamos mais os dedos do pé da mesa, mas também na literatura, por conta de sucessivas interpretações que podem acabar por reificar um sentido único para o que, na origem, teria sido plurissignificativo.

Por isso, André Rios reclama que uma das interpretações possíveis de O alienista se tenha tornado quase que oficial, recalcando outros significados possíveis. A interpretação que se tornou tradicional foi a de ver na novela uma crítica ao “despotismo científico”, como diz o próprio barbeiro Porfírio no texto. A partir da crítica a esse despotismo, discutem-se as pretensões totalitárias da medicina e da psiquiatria. Rios vai nos lembrar, porém, que esta interpretação já existe no interior da narrativa e é ali mesmo ridicularizada: “quem lê este conto como uma crítica à psiquiatria está, a princípio, se pondo como aliado do barbeiro e teria de explicar o que o excetua de também estar seguindo o caminho da conivência” [Rios: 12].

Acrescento à observação de Rios que a interpretação dominante da novela tem ainda outra função: a de tentar não-enxergar Simão Bacamarte como uma metáfora arrasadora dos realistas e do realismo. Apenas não vendo essa metáfora os manuais didáticos podem continuar enquadrando o escritor entre os realistas. Há uma espécie de cegueira voluntária: críticos e professores parece que não leram O alienista e, ainda, Memórias póstumas de Brás Cubas, romance em que o narrador defunto deixava romantismo e realismo na beira da estrada. O próprio Machado fará a seguinte afirmativa categórica: “a realidade é boa, o realismo é que não presta para nada” [em Castello: 34].

No artigo “Machado de Assis e a nota monocórdia”, Teresinha Zimbrão especula que as constantes interferências do autor nas suas histórias representam irônicas declarações de guerra às convenções realistas [Ipotesi nº 11, 2002]. As observações de Teresinha fazem par com os estudos de José Guilherme Merquior e Enylton de Sá Rego, que reconhecem na ficção machadiana heranças profundas da sátira clássica, mais exatamente de Menipo e Luciano, e com o trabalho de Luiz Costa Lima, que reconhece a poética machadiana assentada no primado do alegórico, o que por si só a desvia da busca do sentido único e “real” [em Barbieri: 27]. Ao invés de criar a máxima ilusão de realidade, o escritor denuncia a ilusão por trás da voz dos diferentes narradores. Essa denúncia, na aparência auto-referente, termina por ricochetear na própria realidade. Deixando sob suspeita o efeito de real tão buscado pela centúria realista, Machado planta no leitor a dúvida sobre o real ele mesmo.

Na novela, o escritor ilude leitor e intérprete, levando-os a seguir o ponto de vista do barbeiro Porfírio, pela ironia demonstrando como seria forte a nossa tendência em seguir Porfírios. Essa tendência é tão forte que sequer a crítica literária abalizada percebe o logro. Rios então suspeita que o tema central da novela não é a loucura mas, sim, a mediocridade: o escritor está a ironizar a mediocridade de seus leitores e críticos. A partir dessa suspeita, André levanta a hipótese de que o diálogo fundamental de Machado não é com os críticos da ciência e da medicina mas, sim, com Erasmo de Rotterdam e seu Elogio da loucura, onde se lê [Rotterdam2: 72]:

Dizem os sábios que é um grande mal estar enganado; eu, ao contrário, sustento que não estar é o maior de todos os males. É uma grande extravagância querer fazer consistir a felicidade do homem na realidade das coisas, quando essa realidade depende exclusivamente da opinião que dela se tem. Tudo na vida é tão obscuro, tão diverso, tão oposto, que não podemos certificar-nos de nenhuma verdade.

Em crônica datada de 1804, Machado pergunta se o Hospício Nacional de Alienados deve ficar com o Estado ou tornar à Santa Casa da Misericórdia. Na resposta, opta por nenhum dos dois, sugerindo que os próprios doidos devem administrar o estabelecimento – poucas sugestões terão sido tão subversivas. Em apoio à sua tese, invoca Erasmo: “O grande Erasmo (ó Deus!) escreveu que andar atrás da fortuna e das distinções é uma espécie de loucura mansa; logo, a instituição, fundada por doudos, deve ir aos doudos – ao menos por experiência... O seu ao seu dono” [em Rios: 28].

Tomando por estabelecido o diálogo entre Machado e Erasmo, André passa a questionar a tradução do Elogio da loucura – no original latino, Laus stultitiae. A tradução abriga um dos sentidos possíveis, mas se revela insuficiente porque Erasmo não trata da loucura como a vemos, isto é, como doença. Entre as palavras latinas que designam loucura, amentia e dementia são sinônimas, com sentido mais técnico e reservado; insania e stultitia abrigam sentido mais amplo, mas insania se aproxima do uso médico, enquanto stultitia traz também o sentido social de desregramento, excesso, insensatez, vaidade, tolice – numa palavra, mediocridade [Rios: 14].

Para combater a mediocridade, Machado recorre ao poder da ironia, deixando-a fluir discretamente por trás do narrador. O próprio narrador não é irônico: trata-se de um escrupuloso pesquisador de crônicas antigas, mas pouco crítico e nada criativo. Em Itaguaí, todos seriam medíocres não pelo fato de a cidade ser provinciana, mas porque o mundo todo é medíocre. De fato, “todas as referências ao mundo para além de Itaguaí só corroboram que o próprio da condição humana, universalmente, é chafurdar em mediocridades” [Rios: 15].

A novela sobrepõe uma ironia à outra: são vítimas da ironia a medicina, a ciência, a política, a razão, a poesia, o provincianismo, a retórica, os advogados, o evolucionismo, os leitores, as estatísticas, as elites, a historiografia, a função do narrador e a sociedade patriarcal. Suas peripécias, suas reviravoltas, são irônicas. A sociedade patriarcal é atingida desde o início do texto por uma ironia particular que tem passado desapercebida. Com quarenta anos, o doutor Bacamarte casa-se com dona Evarista, de vinte e cinco, nem bonita nem simpática, viúva de um juiz-de-fora, mas que cientificamente, de acordo com o médico-marido, “reunia condições fisiológicas e anatômicas de primeira ordem, digeria com facilidade, dormia regularmente, tinha bom pulso, e excelente vista; estava assim apta para dar-lhe filhos robustos, sãos e inteligentes” [MA4: 17].

A primeira pergunta é: como Bacamarte não atina para o fato de que sua consorte já havia sido casada e não tivera filhos? Não seria provável que viesse a tê-los [Rios: 16]. Os critérios científicos são ridicularizados, mostrando-se como eles encobrem duas decisões pré-científicas, ambas patriarcais e geradoras de pelo menos dois equívocos: escolhe-se a mulher pela prole que ela possa dar ao marido; escolhe-se a esposa com critérios estéticos opostos àqueles com os quais se escolheria uma amante – à esposa, cabe tão-somente ter filhos e cuidar deles.

Curiosas hipérboles enfatizam a mediocridade do casal. Se num momento Evarista encontra-se “apta para dar-lhe filhos robustos, sãos e inteligentes”, no seguinte ela se mostra completamente estéril; se num momento Bacamarte tenta resolver a esterilidade da esposa recorrendo a escritores árabes e consultando universidades estrangeiras, no seguinte ele resolve tratá-la com a medicação mais irrisória e mais ineficaz possível: a boa e velha carne de porco de Itaguaí.

A segunda pergunta é: por que a maioria dos leitores e comentadores de O alienista parece não perceber esta ironia logo no início da novela? Talvez porque ela se dê ao mesmo tempo sofisticada e dolorosa, atingindo tanto Bacamarte, que não enxerga o que se encontra na frente dos seus olhos, quanto o leitor, que não enxerga o procedimento de Machado. O comportamento de Evarista contesta a estrutura patriarcal que subjaz à ciência. Evarista contesta quando não tem filhos, quando não segue a dieta e quando reclama da pouca atividade sexual do marido. Ela contesta gastando dinheiro em roupas e jóias, ou seja, em futilidades e tolices. A ironia de Machado atinge os dois lados ao mesmo tempo: a tola austeridade do homem de ciência e a não menos tola frivolidade da mulher casada. Não escapa ninguém – nem o narrador, nem o leitor [Rios: 25]. Entende-se assim porque um dos principais personagens de Machado, o cético Conselheiro Aires, seja um celibatário por vocação: ele parece livre para servir de veículo de crítica à ordem burguesa patriarcal de seu tempo.

Kátia Muricy, no livro intitulado A razão cética, mostra como a literatura brasileira da centúria realista rende-se com facilidade à medicalização e psicologização da sociedade, apresentando um desfile de histéricas e neuropatas: “em José de Alencar, Júlio Ribeiro e, sobretudo, em Aluísio Azevedo, desfilam personagens histéricas a que se aplicaria a prescrição higienista de casamento receitada pelo médico de O homem à heroína” [Muricy: 15]. Machado de Assis, entretanto, nada contra a corrente, criticando os mitos que implantam os mecanismos de normalização social: a crença dogmática na ciência e a suposição de um pensamento esclarecido. Muricy considera que “o ceticismo parece ter sido a inflexão necessária para a elaboração da crítica” [Muricy: 16]. Machado, que já dissera que o realismo não presta, vê a própria natureza como “forte, imparcial e cética” [em Castello: 54]. Seu ceticismo é amargo mas bem humorado, como mostra crônica publicada na Semana Ilustrada em 1872, quando levanta uma etimologia fantasiosa da palavra “medicina” [em Muricy: 21]:

Conta-se que, no tempo do rei Numa, o corpo médico era composto unicamente de coveiros, regidos por um coveiro-mor, chamado Cina, avô, dizem, da tragédia de Corneille. Adoecia um romano (eterno romano!), iam os coveiros à casa do doente para abrir a sepultura.

— Mediste, Caio? – perguntava o chefe.

— Medi, Cina – respondia o coveiro oficial.

A piada pinta os médicos como coveiros preocupados antes em medir os mortos futuros – curar seria secundário, quiçá irrelevante. Ironia semelhante fez Voltaire, quando pôs seu personagem Zadig sofrendo de uma flechada recebida próximo ao olho [7]:

Mandou-se buscar em Mênfis o grande médico Hermes, que veio com numeroso cortejo. Visitou o doente e declarou que perderia o olho; predisse mesmo o dia e a hora em que esse funesto acidente devia acontecer. “Se fosse o olho direito”, disse, “eu o teria curado; mas as feridas do olho esquerdo são incuráveis”. Babilônia inteira, lamentando o destino de Zadig, admirou a profundidade da ciência de Hermes. Dois dias depois o abscesso rebentou por si mesmo; Zadig ficou perfeitamente curado. Hermes escreveu um livro no qual provou que ele não devia ter sarado. Zadig não o leu.

O livro de Hermes, citado por Voltaire, lembra a história daquele naturalista que, ao ser apresentado a um ornitorrinco vivo, afirmou peremptoriamente: “esse animal não existe”. Ou o diretor de uma escola em que trabalhei: preocupado porque, no ano de 1984, quando o Brasil começava a sair da ditadura militar, eu havia adotado nas minhas turmas do ensino médio o romance 1984, de George Orwell, ordenou-me explicitamente que não adotasse a obra, em função das suas perigosas inferências subversivas. Sem entrar no mérito da censura, argumentei que o livro já havia sido adotado, que os alunos já o haviam lido e que uma prova a respeito dele já havia sido aplicada e corrigida. Imperturbável, o diretor consciencioso disse então que eu devia “desadotar” o livro, informando aos alunos que a prova estava cancelada e que eles não haviam lido o livro. Disse-o com toda a calma, como se não fosse absurdo.

Penso que esse diretor, cujo nome não importa, era uma reencarnação de Simão Bacamarte.

A loucura do projeto do médico é criticada do avesso pelo narrador de O alienista, quando ele reclama da resistência dos habitantes da vila: eles lhe parecem pouco esclarecidos, porque insinuam à dona Evarista que “a idéia de meter os loucos na mesma casa, vivendo em comum, pareceu em si mesma um sintoma de demência” [MA4: 19]. Fica claro que Machado discorda de seu narrador, como de costume, e antecipa de um século a antipsiquiatria e sua crítica do confinamento de doentes mentais, adequada apenas para, ou piorar o doente, ou tornar doente quem ainda não o era. Machado explicita essa opinião em crônica de 1896, quando os jornais noticiam, ao mesmo tempo, desequilíbrio financeiro no país e uma fuga de loucos do Hospício dos Alienados [em Muricy: 49]:

Nem sempre é fácil distinguir, neste fim de século, um alienado de um ajuizado; ao contrário, há destes que parecem aqueles, e vice-versa. Tu que me lês podes ser um mentecapto, e talvez rias desta minha lembrança, tanto é a consciência que tens do teu juízo. Também pode ser que o mentecapto seja eu. [...] No bonde, na sala, na rua, onde quer que se me deparasse pessoa disposta a dizer histórias extravagantes e opiniões extraordinárias, era meu costume ouvi-la quieto. Nunca me passou pela cabeça que fosse um demente. Todas as histórias são possíveis, todas as opiniões respeitáveis.

O cronista brinca que, graças à fuga dos marcados como loucos, não pode mais distinguir uns dos outros – logo, o melhor é desconfiar de todos. Como não há “certeza na matéria”, é melhor não se internar ninguém, ou então fazer uma lei que simplesmente decrete o fim da alienação mental. Afinal de contas, o juízo seria tão-somente “uma probabilidade, uma eventualidade, uma hipótese”. Ou, como dirá também em Quincas Borba: “nós não temos outra prova do mundo que nos cerca senão a que resulta do reflexo dele em nós” [em Castello: 68].

Luiz Dantas, em artigo sobre O alienista, observa que a narrativa e o ilustre doutor desenham a loucura através da palavra. Se “o mundo não é senão uma palavra”, como já disse Shakespeare, a loucura nasce da (ou está na) palavra. O ato de nomear/criar a loucura é acompanhado de contínua reflexão sobre o peso ambíguo e escorregadio das palavras: “a palavra, como instrumento de conhecimento, é precária, sinuosa, venal, modelável” [em Ribeiro: 146]. Não à toa, têm precedência para a internação na Casa Verde aqueles que padecem dos males da retórica. O primeiro a dar entrada no asilo é um rapaz bronco, sim, mas que todos os dias, depois do almoço, faz um discurso acadêmico ornado de tropos, antíteses e apóstrofes. Qualquer semelhança irônica com professores, críticos e deputados baianos não será, decerto, mera coincidência.

Segue-se ao rapaz bronco o eloqüente cidadão que resolve elogiar a mulher do alienista, dizendo que “Deus quis vencer a Deus”. O homem é imediatamente internado; o leitor suspeita de ciúme, sem perceber que o médico teria poucos motivos para tanto. Na verdade, o elogio foi excessivo. A hipérbole é punida, ainda que a narrativa oscile entre aquelas hipérboles contraditórias.

Há vários outros casos de demência verbal, como mostra o discurso esquizofrênico do barbeiro Porfírio. A palavra se mostra, ao mesmo tempo, todo-poderosa e precária. A experiência de Simão Bacamarte, no fundamental uma experiência com a palavra, termina com seu próprio isolamento e morte na Casa Verde. Como lembra Luiz Dantas, o psiquiatra “manipula e sofre os efeitos dessa palavra servil e traiçoeira. Prisioneiro da sua própria formulação, incapaz de atingir os seus objetivos, encontra a solução para tantos dilemas fechando-se só, no silêncio” [em Ribeiro: 152].

A postura cética e auto-irônica de Machado de Assis resta óbvia.

Enquanto o escritor tudo aceita – “todas as histórias são possíveis, todas as opiniões respeitáveis” –, a medicina do seu tempo condena o celibato dos que não sejam padres, por permitir a licenciosidade e a falta de higiene. No entanto, o mais conhecido alter ego de Machado, o Conselheiro Aires, que aparece em dois dos seus últimos romances, defende o celibato: essa condição lhe permite ocupar lugar equivalente ao do Coro grego, refletindo sobre as tragédias conjugais que o cercam sem se envolver. O caráter do Conselheiro Aires já se anunciava no Jacobina do espelho e no romance Iaiá Garcia, quando o narrador se refere a um dos personagens centrais: “Assim vivia esse homem cético, austero e bom, alheio às coisas estranhas, quando a carta de 5 de outubro de 1866 veio chamá-lo ao drama que este livro pretende narrar” [em Castello: 106]. Para Machado de Assis, os três adjetivos – “cético, austero e bom” – reforçam-se uns aos outros.

Em Esaú e Jacó, sabe-se que Aires foi viúvo, mas casara apenas por necessidade do ofício de diplomata. Viveu com a mulher como se vivesse só; quando ela morreu, não se afligiu com a perda, porque “tinha o feitio do solteirão” [MA1: 45]. Por isso, podia observar melhor o drama de Natividade. Natividade, mãe dos gêmeos Pedro e Paulo, sofre com a discórdia entre os filhos. Eles brigam desde o ventre materno: na juventude um defendia a Monarquia, outro a República. Depois da proclamação da República, se colocam novamente em campos separados. Pedro, que fora monarquista, aceita o novo regime, mas Paulo, ardoroso republicano, surpreendentemente bandeia-se para a oposição, decidindo que aquela não é a República dos seus sonhos.

Por que eles alteram as suas posições, mudando de opinião? É o que a mãe pergunta ao Conselheiro Aires. O amigo demora a responder. Ao fim de minutos arrisca, em voz baixa: “a razão parece-me ser que o espírito de inquietação reside em Paulo, e o de conservação em Pedro. Um já se contenta do que está, outro acha que é pouco e pouquíssimo, e quisera ir ao ponto em que não foram homens” [MA1: 227]. Entretanto, ressalva que tanto pode ser isso quanto outra coisa. Entre os pecados de Aires, não se encontra o pecado da opinião. O Conselheiro não se incomoda de estar certo ou não o estar; na verdade, não lhe importa ser ou não aceito. Responde às perguntas que lhe fazem apenas por gentileza, sem identificar-se com o que diz.

Natividade aceita a sua explicação, mas não se acalma: a discórdia prossegue entre os seus filhos, que apenas trocam de armas para continuar o mesmo duelo. Aires concorda, mas chama a atenção da amiga para a cor do céu, que é a mesma antes e depois da chuva. A mãe dos gêmeos procura o simbolismo oculto na imagem do amigo, mas não o encontra. Talvez ele esteja lhe pedindo para olhar para cima, ou seja, para ampliar sua perspectiva. O Conselheiro Aires a aconselha a ter confiança: “conte com as circunstâncias, que também são fadas. Conte mais com o imprevisto. O imprevisto é uma espécie de deus avulso, ao qual é preciso dar algumas ações de graças; pode ter voto decisivo na assembléia dos acontecimentos” [MA1: 228].

O conselho é estranho, porque não ajuda muito. À primeira vista, parece dizer apenas: relaxe. Ou: o que tem de ser, será. Ou ainda: é preciso dar tempo ao tempo. O paradoxo do conselheiro cético aqui se mostra, pois os conselhos de um cético não podem ser bons conselhos, se ele não tem verdades a defender, a pregar ou a distribuir.

Entretanto, é o ceticismo de Aires que lhe empresta o atributo de conselheiro. Ele escuta mais do que fala, e quando fala sugere que o interlocutor siga a si mesmo, aceitando o destino como guia. O Conselheiro mostra-se obediente à máxima estóica: “o destino guia quem consente e arrasta quem recusa”. Essa máxima, de resto, já a havia enunciado o personagem filósofo, ou seja, Quincas Borba, quando admoestou Brás Cubas: “fica sabendo que a pior filosofia é a do choramingas que se deita à margem do rio para o fim de lastimar o curso incessante das águas. O ofício delas é não parar nunca; acomoda-te com a lei, e trata de aproveitá-la” [MA3: 200].

Em Esaú e Jacó, assim o narrador descreve seu personagem: “tinha o coração disposto a aceitar tudo, não por inclinação à harmonia, senão por tédio à controvérsia” [MA1: 45]. Aires pesa criteriosamente todas as opiniões e encontra em todas mais ou menos o mesmo valor. Poderia ser seu o ditado: “todo mundo tem razão – alguma”. Chega a tolerar o intolerável: “a diplomacia me ensinou a aturar com paciência uma infinidade de sujeitos intoleráveis que este mundo nutre para os seus propósitos secretos” [MA2: 124]. Se o acusam de incrédulo, rebate dizendo que, ao contrário, “sendo tolerante, professava virtualmente todas as crenças deste mundo” [MA1: 88]. Tende a concordar sempre com o interlocutor, inclusive quando o refutam. Não o faz por desdém da pessoa mas, sim, para não dissentir nem brigar: “tinha observado que as convicções, quando contrariadas, descompõem o rosto à gente, e não queria ver a cara dos outros assim, nem dar à sua um aspecto abominável” [MA1: 182].

Aires suspeita de que as palavras nos falam antes de as falarmos. No último romance de Machado de Assis, Memorial de Aires, publicado no ano da sua morte, o personagem comenta como as suas leituras se anulam e se completam ao mesmo tempo. Ao reler Shelley e Thackeray, percebia: “um consolou-me de outro, este desenganou-me daquele; é assim que o engenho completa o engenho, e o espírito aprende as línguas do espírito” [MA2: 23]. O Conselheiro pede que o papel não recolha tudo o que a pena vadia for escrevendo, se esquive da mesa e fuja pela janela aberta, porque verdade pode se tornar mentira e vice-versa [MA2: 44]. O acaso, outro nome do deus avulso a que chama de “imprevisto”, mostra-se corregedor de mentiras: “um homem que começa mentindo disfarçada ou descaradamente acaba muita vez exato e sincero” [MA2: 51].

Semelhante ceticismo incomoda tanto que sempre se tenta neutralizá-lo. Dizem os manuais escolares e muitos críticos que Machado de Assis é de fato o maior escritor brasileiro, mas apesar do seu ceticismo e da sua amargura. Sílvio Romero, no século XIX, já chamava o ceticismo do escritor de “pessimismo de pacotilha” e a sua ironia de “humorismo de almanaque”. Augusto Meyer, em 1935, cunha um oximoro drástico para assinalar o que pensava ser uma filosofia absolutamente negativa: “por mais que ponha nas palavras uma graça incomparável, cheia de perfídias finas e de pulos imprevistos, não sabe disfarçar o pirronismo niilista que forma a raiz do seu pensamento. Com as diversas máscaras superpostas desse voluptuoso da acrobacia humorística, podemos compor uma cara sombria – a cara de um homem perdido em si mesmo e que não sabe rir. Perdido em si mesmo, isto é, engaiolado na autodestruição do seu niilismo” [em Baptista1: 117].

O oximoro de Augusto Meyer aparece na expressão “pirronismo niilista”, porque essas duas formas de pensamento contradizem uma à outra: o niilista tem certeza dogmática de que não se pode saber nada, enquanto o pirrônico suspeita até mesmo disso, isto é: ele tem sérias dúvidas sobre a sua própria dúvida. Ivo Barbieri, mais recentemente, considerando que o narrador machadiano transforma as filosofias para zombar da filosofia, entende que “deixou de ser pacífica a aplicação a Machado de Assis de rótulos como cético, niilista, idealista, monista, dualista, etc, sem primeiro dar-se ao trabalho de estudar metódica e sistematicamente a história desses conceitos” [Barbieri: 12]. A advertência do professor Ivo é legítima porque dizer sem mais “Fulano é cético” implica aplicação mecânica de um conceito que exige outras mediações.

O tempo mostrou as avaliações de Romero e Meyer como equivocadas, mas a dificuldade de lidar com o ceticismo de nosso “escritor maior” persiste, quando se supõe que Machado foi bom apesar de ter sido cético. Eis porque explicar o ceticismo de Machado de Assis pela circunstância de não ter tido filhos, ou por ter sido epiléptico e mulato, não convence: essas explicações empobrecem o autor e o ceticismo. Enxergar no seu ceticismo uma variante niilista, por sua vez, implica misturar o alho com o bugalho. Como bem comentou Cândido Mota Filho, “a forma de dúvida machadiana, na maioria das vezes pungente e cruel, é uma expressão inicial da luta pelo conhecimento” [em Riedel: 188]. Assim como Astrojildo Pereira afirmou que Machado é tanto mais nacional quanto mais universal, supomos que Machado de Assis seja um dos mais importantes escritores brasileiros precisamente por causa de um ceticismo que não implica descrença mas sim suspensão do juízo e portanto do sentido, obrigando o leitor a deixar igualmente inconclusa sua interpretação.

Digo “supomos”, acima, menos por modéstia retórica, mais para me apoiar também nos argumentos de José Raimundo Maia Neto que, no seu Machado de Assis – The Brazilian Pyrrhonian, publicado por enquanto apenas em inglês, considera precisamente pirrônica a concepção de mundo do escritor e defende o direito de Machado ser incluído entre os grandes céticos modernos. Nesse trabalho fundamental, Maia Neto comenta como as ilusões se revelam a Machado não uma forma de engano mas, sim, o laço fundamental que articula as relações entre as pessoas e torna possível a convivência.

Encontrando novo uso para a divisão em duas fases da obra machadiana, o filósofo brasileiro vê o abandono na segunda fase da posição do narrador onisciente, com a conseqüente adoção da primeira pessoa, como o traço estilístico fundamental do ceticismo machadiano. Maia vai discordar dos críticos que, como Helen Caldwell, vêem unreliability nesse narrador machadiano. Sua perspectiva não seria melhor qualificada do que a dos demais personagens, gerando contradições que não se resolvem e permanecem indecidíveis. A indecidibilidade é constitutiva, sim, mas dizer que o narrador não é confiável supõe, primeiro, que o autor o seria, ou seja, que o autor detém a verdade do texto, e supõe, em segundo lugar, que o crítico está qualificado para desvendar a verdade do autor. Brás Cubas, Bento Santiago e Aires são parciais porque não podem não sê-lo, e não porque não apresentem toda a verdade da narrativa, que estaria implicit or hidden in the novel – “que estaria implícita ou escondida no romance” [Maia Neto: 13]. Sob o ponto de vista cético, na verdade, não há essa verdade. O narrador de Machado perder sua onisciência e seu status epistemológico privilegiado não implica a transferência dessa onisciência e desse status para o autor, num primeiro momento, e para o crítico sagaz, no segundo momento. Se José Raimundo está certo, então os críticos, ainda quando percebem a indecidibilidade constitutiva, não resistem a continuar monumentalizando o autor – ou para aumentarem a sua própria estatura, ou para melhor resistirem ao reconhecimento do ceticismo.

Maia enxerga o trajeto cético especialmente em três romances da segunda fase. Memórias póstumas de Brás Cubas representaria a zétesis, quando o narrador defunto, perseguindo a verdade, descobriria que a Natureza não é harmoniosa mas sim caótica, o que só não o leva à loucura porque ele já estaria morto. Brás Cubas exibe, no romance, um ceticismo à la Pascal, entendendo a realidade humana como apenas a brief spasm of being in the immensity of the infinite universe – “um breve espasmo do ser na imensidade do universo infinito” [Maia Neto: 87].

Dom Casmurro representaria a epoché, quando o narrador casmurrento e misantropo, frente à impossibilidade de decidir sobre a fidelidade ou infidelidade de Capitu, retira-se do mundo, torna-se afásico e, em conseqüência, suspende seu juízo. Mais do que tentar convencer o leitor de que Capitu seria infiel, Bento Santiago exibe the groundlessness of any belief whatsoever – “a ausência de fundamento de qualquer tipo de crença” [Maia Neto: 144].

Memorial de Aires representaria a ataraxia, porque nesse momento o narrador assume de vez a perspectiva cética, inclusive pelo tédio à controvérsia, e pode finalmente conciliar vida e tranqüilidade, mostrando-se, ao mesmo tempo, partícipe do mundo e indiferente a ele. O diplomata Aires reconhece o mundo como logro, o que lhe permite agir como um esteta: evitando buscar a verdade e pensando apenas na qualidade estética do jogo de ilusões que nos cerca, permite que a tranqüilidade desejada o alcance. A caracterização do Conselheiro Aires é a solução positiva de Machado de Assis to the problem of whether the skeptic can live his skepticism – “para o problema de como o cético pode viver seu ceticismo” [Maia Neto: 160].

O próprio Machado, no entanto, talvez tivesse discordado dessa imputação de ceticismo, como lembram alguns comentadores, citando várias vezes uma de suas últimas crônicas, datada de 28 de fevereiro de 1897, na qual ele parece se afastar da postura cética [em Castello: 70]:

Não achareis linha cética nestas minhas conversações dominicais. Se destes com alguma que se possa dizer pessimista, adverte que nada há mais oposto ao ceticismo. Achar que uma coisa é ruim, não é duvidar dela, mas afirmá-la. O verdadeiro cético não crê, como o dr. Pangloss, que os narizes se fizeram para os óculos, nem, como eu, que os óculos é que se fizeram para os narizes; o cético verdadeiro descrê de uns e de outros. Que economia de vidros e de defluxos, se eu pudesse ter esta opinião!

Mas apenas parece; trata-se de mais uma ironia. O escritor corretamente distingue o ceticismo do pessimismo, que seria uma variante negativa do dogmatismo, sugerindo que no final da vida se tem mostrado pessimista. Enquanto o otimista acha que os narizes se fizeram para os óculos – estamos no melhor dos mundos, ou, o que dá no mesmo, o mundo rima conosco e com nossas vontades –, o pessimista entende que os óculos é que se fizeram para os narizes: estamos no pior mundo possível, onde os óculos não se encaixam nos narizes mas têm de ser usados assim mesmo. Entretanto, como o senso comum costuma ver no cético alguém que tudo vê com tintas negativas, Machado dá uma rasteira no leitor ao colocar-se ele mesmo como pessimista, o cético sendo outra coisa: alguém que suspende suas crenças, não se afigurando nem pessimista nem otimista. Logo, o suposto pessimismo do escritor não passaria de um truque retórico, ou seja, de outra bela ironia: seu olhar sobre narradores, personagens e leitores é, antes de tudo, compassivo.

A frase final da sua crônica – “se eu pudesse ter esta opinião!” – deixa claro que Machado gostaria de ser cético, como se não o fosse... Como se ele não suspeitasse de todas as opiniões, apesar de, ou exatamente por, considerá-las mais necessárias do que a realidade: “se uma cousa pode existir na opinião, sem existir na realidade, e existir na realidade, sem existir na opinião, a conclusão é que das duas existências paralelas a única necessária é a da opinião, não a da realidade, que é apenas conveniente” [MA4: 125]. Desse modo, o escritor defende-se da recorrente acusação de ceticismo, respondendo: quem me dera... 

 

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