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A QUALIDADE DA INVENÇÃO
Gustavo Bernardo
Em: Ieda de Oliveira (org).
O que é qualidade em literatura infantil e juvenil?
São Paulo: DCL, 2005.
Dubito ergo sum, vel quod item est, cogito ergo sum – esta é a sentença completa de René Descartes, da qual em geral se conhece apenas a última parte. Em português, significa: “duvido logo existo, ou o que é o mesmo, penso logo existo”. Quero recuperar essa sentença para recordar que só se pensa através da dúvida. Ora, a origem daquilo que chamamos de literatura é uma dúvida radical, como tentarei demonstrar. O reconhecimento desta dúvida é fundamental para aquilatar a qualidade do pensamento da literatura e do pensamento sobre a literatura.
Começo esta demonstração duvidando do Dr. César. Não o conheço pessoalmente, não sei se é “doutor” de verdade ou se o seu nome é este mesmo, mas creio que ele representa bem todo o contrário da qualidade que estamos a discutir neste livro. Encontrei o Dr. César numa dessas revistas amarrotadas de sala de espera de dentista. Folheando a revista enquanto esperava a hora do meu tratamento de canal, ó dor, encontrei, na seção chamada “Consultório Psicológico”, um leitor perguntando: “Dr. César, gostaria de saber se a leitura de ficção prejudica o indivíduo e atrapalha a vida prática”. Como seria de se esperar, o tal do Dr. César respondia que sim, que a leitura de ficção de fato faz mal às pessoas. Eis o seu argumento:
“Quando o ser humano se envolve demais com ficção, talvez tenha dificuldade de se adaptar à realidade presente. Ficar fora da realidade pode vir por causa da fixação em ficção (excesso de leitura, filmes). Um jovem pode ler romances demais. Fixará então idéias românticas exageradas sobre o relacionamento homem-mulher, e isso o levará a ter uma expectativa ficcionista (fora da realidade) em relação ao casamento. Daí surgem problemas no relacionamento conjugal. Esse é o caso das pessoas que se surpreendem no casamento quando percebem que ele não é quase nada daquela idéia que faziam dele, justamente por uma fixação muito grande em idéias irrealistas sobre a vida conjugal e a felicidade no lar. Porém, parece que o problema principal que as leituras de ficção causam, quando freqüentes, é perturbar a pessoa na sua ligação com fatos da realidade, pois naquilo que uma pessoa mais se concentra, com isso mais ela se assemelha. E a vida é a realidade, não a ficção.”
O trecho merece algumas leituras. Poderíamos, talvez, comentar os vários problemas de redação. No entanto, não quero desqualificar o Dr. César por seu desconhecimento da gramática da língua. Meu objetivo é desqualificar a sua própria psicologia, isso supondo que ele de fato se chame César e tenha de fato se formado em psicologia, ou seja, que o “Dr. César” não seja ele mesmo uma ficção. Quando o ilustre psicólogo afirma que o ser humano pode se envolver “demais” com ficção, deixa implícito que o ser humano também pode se envolver “de menos”. Em termos ideais, as pessoas nem deveriam “se envolver” com ficção, isto é, não deveriam ler nenhum tipo de romance. É pelo “excesso” de leitura de romances que ele explica a desilusão dos cônjuges que se separam: o casal se torna vítima da ilusão motivada pela ficção. Nosso doutor desresponsabiliza assim as pessoas, porque a culpada, no final das contas, acaba sendo a literatura. Para além do limite do mero entretenimento, o leitor de ficção correria o grave risco da desilusão amorosa, ou até mesmo da loucura.
Miguel de Cervantes Saavedra, quatro séculos atrás, já satirizava semelhante modo de pensar no primeiro grande romance da literatura ocidental, El ingenioso hidalgo Don Quijote de La Mancha: em certa cena, dois personagens, o cura e o barbeiro, queimam vários livros para “salvar” o amigo Dom Quixote da “loucura da ficção”. No entanto fica claro, para quem lê o romance, que o “louco” Dom Quixote é muito mais lúcido que os seus supostos amigos, antes medíocres do que amigos. Pois não é que o doutor da revista retoma esse pensamento quatro séculos depois, e sem nenhum pudor?
Este doutor faz parte daquele grupo de pessoas que até vai ao cinema para assistir a um filme estilo “Missão Impossível”, ou “James Bond”, mas não resiste às cenas que lhe parecem inverossímeis, gritando no meio do filme: “mas que mentira!”. Com isso, além de demonstrar tanta falta de educação quanto aqueles que não desligam o celular ou conversam durante o filme, atrapalhando os demais espectadores, ele ainda se passa um atestado de estupidez crônica, porque pagou para assistir a um filme de ficção, mas não suporta assistir a um filme de ficção. Devia-se tirá-lo do cinema e obrigá-lo a ler um livro onde não houvesse nenhum tipo de mentira – por exemplo, a lista telefônica da cidade.
É óbvio que a qualidade deste tipo de filme se mede não pela semelhança estrita com a realidade física conhecida, mas antes pelo contrário, isto é, pela intensidade da dessemelhança. Quanto mais “mentira”, melhor o filme: como dizem os teóricos da literatura, a verossimilhança interna destas histórias se mede pela extensão da inverossimilhança externa. Temos aqui o gancho para determinar o que é qualidade para o texto literário em geral, válida também para a literatura infanto-juvenil.
Quando os professores perguntamos aos alunos se gostaram do livro que acabaram de ler, é comum escutarmos as seguintes justificativas para uma eventual apreciação positiva: “tem muito a ver comigo”, ou, “tem tudo a ver com a realidade”. Não devemos desqualificar completamente estes comentários, mas devemos suspeitar deles. É legal que os alunos tenham gostado do livro, mas não é muito legal que equiparem “ficção boa” a “realidade real”. Por quê? Talvez porque nós não saibamos o que seja precisamente a tal da realidade.
Tento demonstrar, com o auxílio de uma prosaica laranja, que nós não podemos saber o que seja a realidade. Afirmo, como premissa inicial, que não se pode ver uma laranja. Antes que o leitor fique “bolado”, como dizem nossos filhos e alunos, alerto que a premissa está sendo formulada de maneira rigorosa, querendo dizer que não se pode ver a laranja-toda. Quando achamos que vemos uma laranja, sabemos sim que há aquela fruta, mas não podemos “sabê-la” toda. Como assim?
Ora, a laranja tem um exterior e um interior, certo? Ao olhá-la pela primeira vez, já não vemos o seu interior. Na verdade, não vemos nem o exterior completo ao mesmo tempo. Podemos rodá-la na mão, mas aí a cada segundo perdemos contato visual com parte do objeto. Mesmo pressupondo a realidade da laranja apenas pelo seu exterior, por ser um sólido esferoidal perceberemos nela, embora nunca ao mesmo tempo, duas metades ou hemisférios. Por uma inexorável lei da percepção, a metade da laranja que temos frente aos olhos oculta a outra metade.
Mas, além do outro “lado”, também não vemos o lado de dentro da fruta. Ora, basta cortá-la ao meio com uma faca afiada, dirá o leitor “bolado”. Ok, mas ainda assim estaremos vendo duas novas superfícies exteriores, na aparência, planas, escondendo dois novos interiores inacessíveis. O leitor, agora irritado, propõe cortar o diabo da laranja em rodelas muito finas, finíssimas – mas aí cadê a laranja? Sumiu. As rodelas finíssimas estão no lugar da laranja completa, que já não podemos ver ou conhecer porque a dividimos em partes, quer dizer, a destruímos. É evidente, portanto, que cometemos um erro, em termos absolutos, quando dizemos que vemos uma laranja. Sabemos, concedo, que há uma laranja, e sobre ela formulamos um conceito instrumental, mas tal conceito sempre precisa supor algo que a visão não pode pôr diante de nós. A visão, aqui, representa metonimicamente todos os nossos sentidos, por extensão mais ampla, aquilo que chamamos de “experiência”. A experiência é válida, é claro, mas ela nunca nos oferece a verdade-toda, apenas uma quase-verdade, isto é, uma aproximação conceitual em relação à verdade.
O conceito é uma espécie de ficção aproximativa: não é exatamente a “coisa” em si, mas uma idéia que dela nos aproxima um pouco. De repente, começamos a perceber que o discurso ficcional não se opõe tanto assim aos outros discursos, como ensinamos naquelas aulas em que opomos linguagem referencial a linguagem metafórica. A distinção entre os discursos pode ser antes de grau: o caráter ficcional do texto literário forçosamente se destaca, enquanto o mesmo caráter, no texto referencial, seja ele jornalístico, científico ou didático, se esconde. Nessa linha de raciocínio, a ficção seria paradoxalmente mais honesta do que a não-ficção, se assume desde o princípio o caráter de invenção inerente a todo e qualquer discurso humano.
Com isso, começo a esboçar alguns critérios de qualidade para o texto literário, baseado na idéia de que a ficção não copia a realidade, mas a representa, ou seja, a reapresenta – portanto, a refaz, a reinventa. Esses critérios vão tomando a seguinte forma: [1] a ficção é boa se e somente se não tem tudo a ver com a realidade; [2] a ficção é boa se e somente se não tem tudo a ver com o leitor.
Vamos discutir o primeiro critério. No mundo considerado real, dizemos que as leis da gravitação universal são aquelas enunciadas por Isaac Newton; no mesmo mundo, consideramos verdadeiro que Napoleão tenha sido morto em Santa Helena em 5 de maio de 1821. Contudo, cientistas e historiadores mantêm a mente aberta para admitir formulação diversa da gravitação ou nova data para a morte de Napoleão, caso novas evidências provem o contrário do que se sabia até então. Portanto, diz-se que, no atual estágio dos nossos conhecimentos, é muito provável que as leis da gravitação sejam aquelas que Newton formulou, assim como é muito provável que Napoleão tenha morrido em 1821 – mas nem uma coisa nem a outra podem ser consideradas absolutamente certas.
O mundo criado pela ficção, no entanto, é diferente. No mundo da ficção, Sherlock Holmes era solteiro e Anna Karenina se matou. Sherlock Holmes não pode ter sido de modo algum casado ou viúvo, nem Anna Karenina pode ter morrido de morte natural. Posso negar que Jesus fosse filho de Deus ou até pôr em dúvida sua existência histórica, mas convivo com outras pessoas que crêem em Jesus como o Caminho, a Verdade e a Vida. Eu respeito essas pessoas, mas não posso respeitar da mesma maneira quem afirme que Hamlet desposou Ofélia ou que o Super-Homem não é Clark Kent. Estes exemplos são de Umberto Eco, para quem os textos ficcionais, à diferença do mundo e ainda quando ambíguos, explicitam uma margem muito clara de certeza, conduzindo-nos a paradoxo interessante: a ficção desrealiza o real para criar um novo real mais seguro, portanto que parece “mais real” para nós, do que aquele que se encontrava no ponto de partida. A honestidade intrínseca à ficção, como mostramos há três parágrafos, empresta ao leitor mais segurança.
Donde, o real não existe, mas a ficção existe. É isso? Não exatamente: seria melhor afirmar que o real não se sabe, enquanto que a ficção é consabida. Afirmar que “a realidade não existe” pode impressionar numa mesa de bar, mas tem tanto valor quanto afirmar que Deus existe ou que não existe: não se pode provar nem isto nem aquilo. A realidade como a conhecemos é sim um produto do discurso, mas há uma realidade para além do discurso, sem a qual, inclusive, não haveria discurso. Na verdade, é preciso ter a capacidade de discernir, naquilo que percebemos como ficção, o núcleo duro do Real que só conseguimos suportar se o transformamos em ficção; é preciso ter a capacidade de distinguir qual parte da realidade é reorganizada pela fantasia.
O que acontece é que a ficção oferece menos dúvidas e mais certezas, ao passo que o real nos empresta menos certezas e, portanto, mais dúvidas. Com o sinal trocado, o mundo voltaria a ser perfeito se a ficção não fosse, ela mesma, a grande dúvida. Dito de outra maneira: se a realidade fosse transparente à linguagem, a ficção não seria necessária. A existência do discurso ficcional explicita a dúvida crucial que sentimos quanto à “realidade da realidade”. A ficção suspeita da realidade e justamente por causa disso ela produz sobre essa realidade uma nova perspectiva e, conseqüentemente, uma segunda realidade. Como a linguagem limita essa realidade segunda, o que não acontece com a realidade “ela mesma”, resulta que a ficção aparece para nós como mais confiável, ou seja, como “mais real do que o real”.
O Papa Paulo IV disse uma vez, cinicamente: mundus vult decipi, decipiatur ergo – “o mundo quer ser enganado, portanto, que o seja”. Miguel de Unamuno ampliou essa proposição, afirmando que o mundo deseja ser enganado, sim: ou com o engano antes da razão, que é a poesia, ou com o engano depois dela, que seria a religião. Dizer que o mundo quer ser enganado é uma outra maneira de chamar a atenção para a necessidade humana de ficção – de mitos, de poesias, de narrativas – e de religião – de ritos, de rituais, de igrejas.
A ficção atende a esta necessidade de maneira honesta: ela se disfarça, mas avisa que está se disfarçando. Enquanto algumas pessoas, digamos, alguns políticos, mentem descaradamente mas juram que não estão mentindo, os poetas, como no conhecido poema de Fernando Pessoa, “fingem tão completamente que chegam a fingir que é dor a dor que deveras sentem” – isto é, poetas e escritores em geral avisam de antemão que estão mentindo, porque o leitor, se não for tão idiota quanto o Dr. César, deseja ardentemente esse tipo de mentira, a que chamamos ora de “ficção”, ora de “sedução”.
Não estamos falando aqui apenas de romances fantásticos, surrealistas ou de vanguarda. Vejamos uma literatura bem popular na nossa época, a dos romances policiais. Os bons escritores de romances policiais passam as páginas a enganar seus leitores, lançando pistas falsas e protelando a solução do crime. Os leitores se sentem ludibriados? Claro, e gostam disso – ou melhor, é disso que gostam. Sem as pistas falsas, sem a protelação da solução, não haveria livro, não haveria o prazer da leitura. Como no jogo do amor e da sedução, protelar é fundamental. Esses mesmos escritores enganadores criam situações completamente fora da realidade, por exemplo quando fazem o herói detetive reunir numa sala todos os personagens, inclusive o criminoso, para, em longo discurso, muito bem articulado logicamente, resolverem o crime. O criminoso, que será desmascarado, não só comparece à reunião, parecendo tão curioso quanto os demais, como ainda não tenta fugir pelo menos até o final da conversa. Ora, na realidade das delegacias policiais, esse tipo de situação não acontece nunca, mas isso não importa: acontece nos romances policiais, como um clímax que é ansiosamente aguardado.
Eis porque afirmamos, como primeiro critério de avaliação, que a ficção é boa se e somente se não tiver “tudo a ver” com a realidade, mas se, ao contrário, souber nos apresentar a suposta realidade sob nova perspectiva, sob nova face. Esse processo de perspectivização é por sua vez responsável por outras duas características secundárias que também nos fornecem critérios adicionais de avaliação da qualidade literária de uma obra.
A primeira característica secundária é conhecida de todo leitor: gostamos de um livro quando ele não acaba. Claro que há uma última página em todos os livros, mas nos melhores chegamos a esta última página com a sensação de que precisamos continuar lendo, ou voltando ao começo e relendo o mesmo livro, ou procurando outro livro do mesmo autor, ou procurando outro livro do mesmo gênero, ou ainda matutando horas e mais horas sobre o que lemos. Em outras palavras, os melhores livros são aqueles que, deixando um forte gosto de “quero mais”, parecem-nos incompletos. Na verdade, cabe-nos completá-los.
Experimentamos a segunda característica secundária quando relemos um livro que havíamos lido há anos atrás. Vivenciamos a mesma sensação de surpresa e descoberta que da primeira vez, porque lemos coisas que não havíamos lido então. A sensação é a mesma, mas as surpresas e as descobertas são novas, são outras. Como, se o livro era o mesmo? Este é o ponto: um bom livro de ficção não se disfarça apenas uma vez, ele se disfarça quantas vezes for lido por diferentes pessoas ou até pela mesma pessoa em idades diferentes. O processo que o livro promove, de perspectivação da realidade, e portanto de (re)conhecimento da realidade, acontece a cada leitura, forçando-nos a reformatar o mundo e a reorganizar o que pensávamos sobre o mundo.
Um exemplo clássico é O pequeno príncipe, de Antoine de Saint-Exupéry. Embora essa história tenha sido estigmatizada por muito tempo como literatura de candidata a Miss Brasil, é na verdade uma boa história. Quem a lê com 10 anos percebe-a de uma determinada maneira, maneira esta que se modifica bastante se a lê depois com 15 anos, e mais tarde com 35 anos. Há muitos outros livros, no entanto, que, se os lermos com 10, 15 ou 35 anos, entenderemos as mesmas coisas e sentiremos as mesmas sensações – de acordo com o nosso critério, estes são os livros menos bons.
Nesse momento, podemos explicar o segundo critério geral de avaliação: a ficção é boa se e somente se não tem tudo a ver com o leitor. Qual é a relação? Ora, o leitor que reconfigura o seu mundo, depois de ler uma ficção reconfiguradora, é parte desse mesmo mundo. Logo, ele termina, muitas vezes sem o perceber, por reconfigurar a si mesmo. Quando o leitor ingenuamente diz que o livro tem tudo a ver com ele, ou que o personagem diz o que ele queria dizer, está tentando reforçar sua identidade pessoal através da leitura, o que é natural. Entretanto, o processo não é bem este.
Às vezes um aluno comenta conosco sua surpresa, depois de escrever uma redação particularmente boa: ele não sabia que tinha “aquilo tudo” dentro dele. É preciso alertá-lo que, na verdade, ele não tinha “aquilo” dentro dele, lá no “fundo” da sua mente: foi o próprio gesto de escrever que, transformando o significado através das palavras, transformou a ele mesmo, tornando-o sutilmente diferente do que era, quem sabe até melhor do que antes de escrever a redação. Quando o aluno recorre à noção daquela “coisa” no fundo dele mesmo que surgiu não se sabe como, ou que foi pescada não se sabe por que anzol cognitivo, talvez esteja tentando se acalmar, assustado que ficou por se ter tornado um outro, assustado que ficou por sentir que a sua suposta identidade não é estável como pensava. De maneira equivalente, quando o leitor diz que o livro tem tudo a ver com ele ou que o personagem diz o que ele diria, estaria tentando se acalmar, negando a transformação íntima que sofreu através da leitura.
Essa relação forte do leitor com o personagem tem há milênios o nome técnico de “catarse”. Trata-se de uma denominação bem popular: até torcedores de futebol dizem que fizeram a sua catarse da semana ao xingarem bastante o juiz do jogo de domingo. Em literatura, usa-se dizer que há catarse quando o leitor se identifica com determinado personagem. No entanto, esta é uma concepção incompleta do fenômeno da catarse. Parece-me incorreto definir “catarse” como uma identificação primária entre leitor e personagem, sugerindo que o leitor teria encontrado a sua metade-personagem assim como os amantes encontram “por acaso” as suas caras-metades. Se fosse assim, as chances de cada um de nós encontrar a nossa metade-personagem, ou a nossa cara-metade, seriam extremamente reduzidas. Antes, moldamos o amor da nossa vida para que ele fique com jeito de cara-metade, e este amor da nossa vida não só se deixa moldar como ainda faz o mesmo com a gente. Do mesmo modo, o escritor não cria o personagem com a nossa cara e a nossa personalidade, como se nos conhecesse: nós é que nos transformamos nele sem sentir, durante a leitura, terminando-a ligeiramente diferente do que éramos antes de abrir aquele livro. O processo da catarse é na verdade o processo do reconhecimento de si mesmo como alguém que há pouco não se era, isto é, um processo de produção dinâmica, permanente, infinita, de si mesmo. O leitor não se identifica propriamente com o personagem, mas sim o personagem é que oferece ao leitor uma identidade.
Se formos honestos conosco mesmos, precisamos reconhecer que, no íntimo, nunca sabemos muito bem quem somos. Por isso, ficamos tão comovidos ao recebermos um elogio e tão irritados ao recebermos uma crítica. A nossa suposta identidade, ou seja, a noção que temos de nós mesmos, é tão frágil que absorve imediatamente qualquer elogio, o que é bom, mas também qualquer crítica, o que costuma ser doloroso. Eis porque uma criança, depois de ser chamada de desastrada mais de uma vez, tende a se tornar desastrada até o fim da vida, assim como um aluno se torna com facilidade um mau aluno caso os professores insistam em vê-lo como um mau aluno.
A discussão sobre o poder do professor, para o bem e para o mal, merece um outro artigo, não é o caso de desenvolvê-la aqui. O que me interessa agora chamar a atenção é que a tal da identidade é mais do que uma ilusão: ela também é uma contradição no seu próprio termo. Quando pensamos em “identidade”, pensamos em algo exclusivo de algo ou de alguém; no entanto, “ter” uma identidade significa, literalmente, ser idêntico a alguma outra coisa, por exemplo a um modelo. Logo, ter uma identidade implica não ter uma identidade, se entendem o paradoxo. Eis porque precisamos tanto de ficção, precisamos tanto dos personagens: eles nos emprestam, ainda que por poucos momentos, uma forte sensação de identidade pessoal. Eles nos dão o modelo imaginário de que tanto carecemos.
Nesse sentido, a catarse é menos um processo de identificação do leitor com o personagem do que o processo de construção de uma nova identidade para o leitor. O leitor assume no decorrer da leitura, sem o perceber com clareza, uma nova identidade, o que torna inestimável a experiência estética. A catarse, então, é menos um processo de identificação sumária do leitor, que finge que o personagem diz ou vive o que ele gostaria de dizer ou viver, do que um processo de reidentificação. O leitor torna-se, sem o perceber com clareza, um outro. A leitura do mundo através da perspectiva diferente do personagem modifica, por sua vez, a perspectiva do leitor, o que implica uma alteração substancial na sua própria identidade. Ou seja, a catarse não implica uma identificação que acalme porque, afinal, se tem uma identidade e se sabe quem se é, mas sim uma mudança de identidade que pode ser dolorosa, mas é sempre enriquecedora.
O filósofo espanhol Fernando Savater observou que, se o homem quiser evitar coisificar-se, transformando-se por exemplo num “gerente” até quando vai ao banheiro e, mais tarde, num arquivo da repartição (como em antigo e famoso conto de Victor Giudice), deve manter sua identidade relativamente instável e precária. Fazemos isso, é claro, escrevendo e lendo boas histórias de ficção; fazemos isso através dos nossos “outros”, ou no amor ou na leitura.
Chegando nesse ponto, podemos resumir o que entendemos por qualidade em literatura, qualidade esta que aplicamos indistintamente na literatura infantil, na literatura juvenil e na literatura “adultil”. Primeiro, afirmamos que a ficção é boa se e somente se não tem tudo a ver com a realidade, isto é, se souber nos apresentar a suposta realidade sob nova perspectiva, sob nova face. Como decorrência deste critério, levantamos outros dois subcritérios: reconhecemos que um livro de ficção é bom quando deixa aquele gosto forte de “quero mais”, isto é, quando a leitura nos motiva a reler aquele livro, a ler outros livros, ou mesmo a ficar pensando na história por horas e horas; reconhecemos que um livro de ficção é bom se a cada vez que o lemos ele desperta entendimentos e sensações diferentes, ou seja, se ele é tão dinâmico e plurissignificativo quanto a vida confusa, mas interessantíssima, que vivemos. Segundo, afirmamos que a ficção é boa se e somente se não tem tudo a ver com o leitor, isto é, se ela leva o leitor a vivenciar uma catarse completa, tornando-o diferente, quiçá melhor, do que era antes da leitura.
Mas, se os leitores desse texto são professores, decerto estarão se perguntando como aplicar estes critérios em sala de aula. Como trabalhá-los com os alunos, com crianças, com adolescentes? Antes de mais nada, é preciso reconhecer a diferença entre o discurso da literatura e o discurso das outras disciplinas: enquanto estas escondem, ora mais ora menos, o seu caráter ficcional, aquela assume e explicita este caráter. Logo, não devemos tentar reduzir a aula de literatura ao formato da aula de uma outra disciplina.
Infelizmente, cometemos este erro quando reduzimos literatura a “estilos de época”, tentando ensinar (mal) História, não Literatura. Cometemos o mesmo erro quando exigimos que o aluno leia o texto literário como lê os textos das outras disciplinas, cobrando dele, nas provas de leitura, informações factuais e pontuais que o impedirão de compreender a invenção. O erro se torna gravíssimo quando perguntamos, nas mesmas provas, “o que o autor quis dizer”.
Se a única identidade estável é a do personagem, as identidades tanto do leitor quanto do autor são, por definição, instáveis. Nenhum de nós sabe muito bem o que teria querido dizer, quando disse isto ou aquilo. Muitas vezes, dizemos exatamente o contrário do que conscientemente teríamos desejado. Logo, o mesmo acontece com o autor de um livro. Nem perguntando a ele, se ainda estiver vivo, podemos saber o que queria ter dito. O que nos cabe, como leitores, é continuar o seu trabalho e prosseguir fortalecendo a suspeita sobre a realidade, continuando a imaginar uma outra realidade. O que nos cabe então, como professores, é ajudar os alunos a se tornarem bons leitores de ficção, promovendo a discussão e a reflexão sobre o que se lê.
Se possível, devem-se evitar provas de leitura, com perguntas pontuais sobre as cenas – ou, em havendo provas, que elas admitam consulta ampla, geral e irrestrita aos livros, com questões que provoquem reflexão, portanto, que não exijam simples memorização. Se possível, devem-se descartar as fichas de leitura que acompanham muitos livros, ou delas se aproveitar apenas as propostas para discussão, reflexão e releitura. Se possível, devem-se evitar adaptações literárias, para não iludir os alunos de que eles estarão lendo livros clássicos quando de fato estariam lendo versões muito reduzidas desses clássicos: que se prefira, por exemplo, no lugar de uma adaptação horrorosa de Memórias póstumas de Brás Cubas para a 7ª série, ler nessa mesma série O alienista, do próprio Machado de Assis; ou que se prefira ler os bons autores, e são muitos, de literatura infantil e juvenil, a ler adaptações. Se possível, ainda, devem-se estimular eventos de leitura, julgamentos simulados de personagens, conversas com escritores, conversas com outros leitores, feiras do livro, festivais de leitura – as idéias são muitas para quem quer fazer justiça ao trabalho com a invenção da literatura.
Mas, nos termos da educação, duas coisas são fundamentais: é preciso que a escola tenha uma biblioteca decente, com muitos livros de literatura para todas as idades, até porque nunca se sabe quando uma criança está pronta para ler determinado livro; é preciso também que o professor goste de ler, que leia muito e fale sempre com os seus alunos sobre o que está lendo. Do infinito número de métodos de educação que nos assolam, o mais eficiente de todos é o mais antigo: trata-se do velho método do exemplo.
Para dar o exemplo, é preciso que os pais, em casa, reclamem menos de que os filhos não lêem e comecem a ler eles mesmos, ou comprando livros e estantes, se puderem, ou freqüentando bibliotecas públicas junto com as crianças – para tanto, é igualmente preciso que os governos invistam pesado na construção e na manutenção de bibliotecas públicas em todos os recantos do país. Para continuar a dar o exemplo, é preciso que a escola, como instituição, recupere as bibliotecas escolares que começaram a ser destruídas nos anos 60, transformando-as no lugar nobre do prédio. Para dar o principal exemplo, enfim, é preciso que o professor seja um grande leitor de tudo o que é livro, mas, no nosso caso, especialmente de ficção, sem o que ele não terá a menor moral para exigir que o seu aluno leia e, principalmente, pense – e pensar significa saber proteger a dúvida. Apenas assim, podemos dizer que somos: dubito ergo sum.