DUBITO ERGO SUM

 Miguel de Cervantes

VERDADES QUIXOTESCAS

Gustavo Bernardo

 

Publicado no Jornal do Brasil de 23/04/2005.

 

 

Hoje se comemoram o Dia do Livro e ao mesmo tempo o aniversário da morte de Miguel de Cervantes. Neste ano em particular comemoram-se ainda os quatrocentos anos de publicação da primeira parte das aventuras de Dom Quixote de La Mancha.

Embora nem todos os leitores se lembrem bem de quem foi Cervantes, decerto todos os que são leitores reconhecem o nome de Dom Quixote e o associam imediatamente ao amigo Sancho Pança. Com pouco mais logo se lembrarão que o principal romance de Cervantes foi considerado o melhor romance de todos os tempos. Entretanto, se perguntarmos a esses leitores se o leram, muitos até dirão que o fizeram na escola, sem atentar que tiveram em mãos apenas uma “adaptação de clássicos para jovens”. Se refinarmos a pergunta e nos referirmos àquele romance de dois volumes e cerca de mil páginas, a resposta já será provavelmente uma constrangida negativa.

A fama é faca de dois gumes: ao mesmo tempo que garante a notoriedade encobre a ignorância. Uma das principais maneiras de disfarçar e portanto estimular a ignorância reside nesse crime de lesa-literatura chamado “adaptação para jovens”, pelo qual se convencem as pessoas de que leram o livro que nunca leram. É também um crime de lesa-juventude disfarçado de boas intenções pedagógicas, do tipo daquelas que atravancam o inferno.

A segunda maneira reside na própria inércia dos leitores modernos, que adiamos a leitura dos clássicos para quando tivermos tempo – isto é, para o dia de São Nunca. A leitura d’O engenhoso fidalgo Dom Quixote de La Mancha, porém, não pode ser adiada. Ela representa a diferença entre compreender a necessidade da dúvida e achar que já se sabe tudo, ou seja, entre a sabedoria da tolerância e a arrogância da estupidez.

Exagero? Talvez se esteja sendo um pouco quixotesco, mas é quixotescamente que nos aproximamos da verdade humana. Como a verdade humana é sempre trágica e ridícula ao mesmo tempo, apenas aquele que consegue enxergar essa combinação paradoxal reconhece o seu espelho. Para consegui-lo, a leitura das aventuras daquele personagem magro e envelhecido que é ao mesmo tempo um louco, um filósofo e um santo torna-se imperiosa.

Muito antes de qualquer auto-nomeado pós-modernismo, Cervantes já borrava a distinção entre autor e narrador, multiplicando vozes narrativas e possibilidades de autoria. O(s) narrador(es) ainda se mostram inseguros quanto ao nome “verdadeiro” do próprio protagonista da história: seria Quijada, Quesada ou Quijana? Se o leitor não sabe muito bem quem escreveu, quem narra e quem atua, como ele fica? No íntimo, talvez desenvolva uma dúvida séria sobre a sua própria identidade.

Ora, foram exatamente dúvidas como esta que enlouqueceram Dom Quixote – ele nem sabia como se chamava mas sabia, seguramente, como queria se chamar. O leitor, sem perceber com clareza que há mais de um narrador, confia naquele que lhe diz que este é um romance contra os romances de cavalaria, divertindo-se com o velho anacrônico que posa de herói com uma bacia na cabeça. No entanto, a seqüência da leitura vai lhe mostrando que se trata do maior de todos os romances de cavalaria protagonizado não por um louco, mas por filósofo especialmente íntegro. Como me adverte Esteban Celedón, no artigo “Ensayo de un ensayo”, a loucura cumpre um papel metafórico, representando compreensão profunda e conseqüente transformação.

À medida que rimos menos de Dom Quixote e com ele nos comovemos, começamos a desenvolver uma identificação com o Cavaleiro da Triste Figura que tem o poder de abalar a nossa própria identidade sanchesca. Acontece aqui a experiência da catarse, vulgarmente apresentada como uma identificação ponto-a-ponto do leitor com o personagem. Mas nos identificamos com o personagem não porque ele se pareça conosco mas sim porque queremos nos parecer com ele. Identificamo-nos com este ou aquele personagem porque a nossa própria identidade é muito frágil, logo, precisamos dos personagens de ficção para nos sentirmos reais. Nesse caso, nada nem ninguém, nem mesmo Miguel de Cervantes, é mais real, tem mais força de realidade, do que Dom Quixote de La Mancha.

Sem história prévia de vida a não ser a de que teria sido leitor voraz, um sujeito se inventa como cavaleiro andante numa época em que já não existem mais cavaleiros andantes. A circunstância força o leitor a inventar-se outro. No entanto, o processo todo se dá entre muitas burlas e armadilhas. As burlas divertem nos dois sentidos: fazem rir e enganam. O episódio da biblioteca é emblemático. O cura e o barbeiro, amigos do fidalgo perturbado, se unem às suas sobrinha e ama para queimar os romances responsáveis por aquela loucura toda. Há cerca de cem romances na biblioteca. A conversa entre os quatro forma o consenso de que a leitura de romances é nefasta porque tira o sujeito da realidade até o ponto da loucura. Logo, os livros devem ser queimados numa grande fogueira.

A opinião já não era nova naquele momento, se séculos antes queimaram-se os livros da Biblioteca de Alexandria, se naquele mesmo século a Santa Inquisição adorava queimar tanto carne de herege quanto página de livro. Infelizmente não se tornou velha, como o demonstraram no século XX as fogueiras nazistas de livros que anteciparam os fornos crematórios dos campos de concentração. Mas a originalidade residia em que se defendesse a queima de livros, principalmente romances, onde? Dentro de um romance.

Não bastasse a ironia óbvia, o cura a completa quando avalia livro por livro qual deve ir para o fogo no quintal, ficar trancado em quarentena ou ser preservado. Ao fazer essa avaliação ele demonstra ter lido e apreciado muito não menos do que todos os livros da biblioteca de Dom Quixote, o que deveria tê-lo deixado tão louco quanto o amigo. O leitor que se diverte com a cena sem atinar com a dupla ironia não percebe que ela é tripla, porque ele está lendo uma cena em que se queimam livros e, ao menos metonimicamente, leitores. No entanto, não importa que ele não tenha consciência do jogo: só pelo fato de jogá-lo através da leitura ele se torna forçosamente um outro, e um outro autor, como lembra Flávio Carneiro no artigo “Um sonho de Quixote”: um outro autor do romance e um outro autor da sua própria vida.

Faz parte do jogo do cavaleiro justificar todas as derrotas frente à realidade atribuindo-as a feitiços malvados dos encantadores. Os encantadores do fidalgo são maus como pica-paus, ou melhor, como os poetas, cuja função é precisamente a de garantir a coexistência e a compatibilidade de diversos universos de significado. Os encantadores existem para proteger os paradoxos e os enigmas. O mundo precisa se ver como um jogo, o jogo dos infinitos erros. O tema do fidalgo doido deu a Cervantes a possibilidade de mostrar o mundo através de uma neutralidade original porque múltipla, através de uma combinação de perspectivas que interroga, sim, mas não julga, caracterizando-se, como destacou Erich Auerbach em Mimesis, por sabedoria especialmente corajosa.

A história de Dom Quixote pode ser lida como o supra-sumo da filosofia porque ela nos faz pensar rindo e rir pensando, e também porque nos conta que é preciso saber, mas não saber tudo (quando se acabaria todo riso e todo pensamento). Como diz Julián Marías em Cervantes clave española, “conviene seguir pensando. El pensamiento consiste fundamentalmente en eso, en seguir pensando; cuando uno se detiene está perdido”. Em outras palavras, é preciso proteger o enigma, em especial quando se trata do enigma representado pelo outro. A aceitação da necessidade de não resolver ou de não desfazer o enigma é reforçada pelo próprio Quixote, quando critica (na clássica tradução dos Viscondes) o curto entendimento do seu roliço escudeiro:

 

“Pois é possível que, andando comigo há tanto tempo, ainda não tenhas reconhecido que todas as coisas dos cavaleiros andantes parecem quimeras, tolices e desatinos, e são ao contrário realidades? E donde vem este desconcerto? Vem de andar sempre entre nós outros uma caterva de encantadores, que todas as nossas coisas invertem, e as transformam, segundo o seu gosto e a vontade que têm de nos favorecer ou destruir-nos. Ora aí está como isso, que a ti parece bacia de barbeiro, é para mim elmo de Mambrino, e a outros se figurará outra coisa.”

 

A mesma coisa é: o elmo de Mambrino e uma bacia de barbeiro. A mesma coisa pode ser outra. A loucura de Dom Quixote não é patética, mas sim corajosa: ele leva a sério suas verdades e abdica de julgar a verdade dos demais. A fantasia quixotesca não nos afastaria do verdadeiro conhecimento, mas todo o contrário: ela é precisamente a via para esse conhecimento.