DUBITO ERGO SUM

 Páginas do Editor

Romance e Conhecimento Científico

Gustavo Bernardo

 

Publicado no nº 213, de março de 2005,
da Revista Ciência Hoje

 

 

No artigo ‘Ficção e realidade’, publicado na edição de agosto passado de Ciência Hoje, o professor Franklin Rumjanek comenta o conteúdo profético das obras de ficção científica, observando tanto o caráter pessimista de algumas dessas profecias quanto, infelizmente, o seu acerto parcial nos tempos que correm. É interessante ampliar seu argumento, levantando a hipótese de que a assim chamada ficção científica desconfia da ciência que ela mesma tematiza. Na verdade, é atributo da ficção abrir para o leitor uma outra perspectiva da realidade: se a ficção duvida da realidade, então a ficção científica duvida da ciência.

Tomemos o exemplo do romance Fahrenheit 451, de Ray Bradbury (1920-), cujo título inspirou o recente documentário bombástico do cineasta norte-americano Michael Moore. No romance, imagina-se um futuro sombrio no qual bombeiros se dedicam não a apagar incêndios,  mas a queimar livros e, às vezes, leitores. Nesse futuro, nos bares e nas escolas espalham-se joke-boxes (caixas de música que, no lugar de tocar música, contam piadas). A palavra ‘intelectual’ se converte em insulto. Como as casas foram imunizadas contra o fogo, dá-se aos bombeiros a nova função: queimar todos os livros. Por analogia, os corpos das pessoas que morrem sofrem o mesmo tratamento, para eliminar também a tristeza dos funerais.

O protagonista, Montag, é um bombeiro que lê os livros que deveria queimar. Quando chega a vez de ele mesmo ser queimado, consegue fugir no meio de uma guerra. O romance, escrito em 1953, conta que desde 1960 os Estados Unidos teriam promovido e vencido duas guerras atômicas. Na fuga, Montag encontra professores que vivem nas florestas como nômades, ocupando-se em guardar de memória os livros que leram (bibliotecas ambulantes disfarçadas de vagabundos). Dizem que não são mais do que capas empoeiradas dos livros, guardando aquilo que ultrapassa e transcende os seres humanos, aquilo que os torna melhores. Enquanto conversa com os homens-livros, Montag vê que a cidade próxima se transforma em um clarão: os Estados Unidos finalmente foram atingidos. Essa cena é imaginada quase 50 anos antes da queda das torres gêmeas, o que, por sua vez, gerou o filme Fahrenheit 9/11, de Michael Moore, e o protesto do escritor Ray Bradbury pela utilização não autorizada do seu título.

No romance 1984, escrito em 1948, George Orwell (1903-1950) imaginou um futuro sombrio em que não houvesse a menor privacidade: teletelas, antecipando a internet e a televisão interativa, estariam em todos os cantos transmitindo doutrinações e espionando os gestos de todos. Cartazes gigantescos, com a figura de um onipresente Big Brother, ocupariam as paisagens para esmagar, pela imagem patriarcal hipertrofiada, qualquer resistência. Em 1984, um dos perigos para o sistema é o ceticismo, como destaca um suposto manual dos rebeldes, na verdade um manual escrito pela Polícia do Pensamento para controlar, pela ficção, seus inimigos.

Em suas vertentes mais radicais, a ficção científica narra a dissolução de estruturas fundamentais da existência, a partir do avanço da ciência. É o caso do instigante conto ‘A experiência’, de Fredric Brown (1906-1972), no qual o professor Johnson mostra orgulhosamente a seus colegas a primeira Máquina do Tempo. Ela ainda é pequena, mas funciona. Para demonstrá-lo, ele coloca sobre a máquina um pequeno cubo de metal, programando-o para viajar cinco minutos no futuro. Um leitor mais rigoroso poderia supor que o cubo deveria reaparecer não em cima da máquina, mas no quintal (ou no fundo do oceano Índico). Para não complicar em demasia o argumento, os escritores de ficção científica desconsideram a possibilidade do deslocamento espacial nas viagens no tempo.

Para mostrar que sua máquina funciona tanto para frente quanto para trás, o cientista resolve colocar o cubo viajando cinco minutos na direção do passado. Como os colegas não podem acompanhar o cubo nessa viagem, o inventor precisa estabelecer dois pontos no futuro: um mais imediato, outro menos. Quanto faltam seis minutos para as três horas, o professor avisa a seus colegas que vai colocar o cubo na plataforma exatamente às três horas, programando-o para viajar cinco minutos no passado, isto é, para reaparecer na plataforma faltando cinco minutos para as três. Isso significa que às 2 horas e 55 minutos o cubo desaparecerá da sua mão e no mesmo segundo reaparecerá na plataforma, completando sua viagem ao passado. Logo a seguir, na hora marcada, o cubo, de fato, ‘puf’, desaparece da sua mão e, ‘puf’, reaparece na plataforma.

Então o professor comenta, eufórico: “Vêem? Daqui a cinco minutos eu o colocarei ali, mas ele já está ali!”. Um de seus colegas, no entanto, resolve criar caso – no caso, uma catástrofe. Ele pergunta o que aconteceria se, apesar de o cubo ter acabado de aparecer cinco minutos antes de ser colocado sobre a plataforma, o professor mudasse de idéia e não o pusesse ali às três horas. O professor acha o desafio interessante e aceita fazer o teste, decidindo não colocar o cubo na máquina às três horas para que ele viaje cinco minutos no passado. No momento em que toma essa decisão terrível, não acontece nada com o cubo – mas o resto do universo desaparece.

O conto de Fredric Brown não se refere apenas à remota possibilidade de uma máquina do tempo, mas também à relação complexa que temos com o futuro, por meio de profecias que se autocumprem, e com o passado, quando a memória e a história o alteram sem que se perceba. A hipótese da viagem no tempo atrai cientistas e escritores porque permite experiências imaginárias nas quais, felizmente, o universo não desaparece. Essas experiências ficcionais nos permitem especular sobre aquilo que não podemos perceber com os nossos sentidos: o tempo. O tempo é essencial na estrutura do mundo e do pensamento, mas não sabemos muito bem o que seja.

O romance Simulacron-3, de Daniel Galouye (1920-1976), adaptado para o cinema por Werner Fassbinder, em Mundo de arame, de 1973, e por Josef Rusnak, em O 13º andar, de 1999, narra por outro ângulo, o da virtualidade, a possibilidade de dissolução da existência. No romance, uma empresa testa produtos comerciais simulando no computador uma cidade com milhares de habitantes virtuais. Os habitantes, projetados para acreditar que vivem em um mundo real, acabam eles mesmos simulando modelos de mundo sob seu controle. Esses outros mundos simulados pelos seres virtuais também estão habitados por indivíduos que, como eles, acreditam viver em um mundo real. A expansão e multiplicação fractal do sistema leva o protagonista, Douglas Hall, a começar a duvidar da veracidade da sua própria realidade, pois seria factível que ele também fosse um ser virtual controlado por observadores externos de um sistema superior ao dele. Galouye antecipa literariamente a ciência que, produzindo mundos virtuais, mostra a possibilidade de virtualidade da própria realidade.

A ficção faz a crítica da ciência ao construir utopias negativas. Essas utopias de Ray Bradbury, George Orwell, Fredric Brown e Daniel Galouye soam apocalípticas, mas não deixam de ser pertinentes. Como sabemos, o Grande Irmão, personagem de Orwell, se tornou um programa mundial de entretenimento televisivo. O pessimismo intrínseco dessas narrativas faz par, porém, com o ceticismo tão temido pelo Big Brother e tão caro à própria ciência, como mostrou o astrônomo Carl Sagan (1934-1996). Para ele, a ciência sempre precisou combinar ceticismo e admiração, porque só há admiração quando se protege a dúvida. Em decorrência, seu interesse pela ciência foi despertado não pela escola, mas pela leitura de ficção científica – que, como vimos, levanta dúvidas sérias em relação à ciência mesma. Ora, são tais dúvidas, sérias, que devem inspirar o cientista igualmente sério.

Sagan reconhece que a ciência produziu também Auschwitz e Hiroshima. Apesar disso, a considera o melhor instrumento de conhecimento que temos, porque, como a democracia, está longe da perfeição mas contém mecanismos de correção que a tornam perfectível. O principal mecanismo de correção da democracia é menos a realização regular de eleições do que a liberdade de expressão, isto é, a necessidade de crítica permanente às instâncias de poder. Em contrapartida, o principal mecanismo de correção da ciência se encontra na combinação de ceticismo e admiração. Se o cientista não mantém seu espanto vivo, fixa-se em poucas hipóteses e então as congela, tornando-se um tecnocrata que ajuda a construir a bomba sem se perguntar o que faz. Por outro lado, se não examina com espírito cético cada aspecto das teorias que o rodeiam, cai com facilidade na pseudociência. O cientista consciente explicita a margem de erro de suas formulações, sabendo que todo conhecimento é apenas mais ou menos provável, dadas tais e quais condições, mas jamais absolutamente seguro.

Nunca poderemos saber, por exemplo, todos os decimais do número p. Ora, enquanto não soubermos nada menos do que ‘tudo’, não temos como saber a que distância estaríamos do conhecimento total. Logo, uma atitude de reserva cética se mostra salvaguarda importante para o pensamento, como lembra a sensação paradoxal que o leitor já deve ter sentido: quanto mais se sabe, menos se sabe. Ou: quanto mais se sabe, mais se sabe o quanto ainda falta saber, isto é, mais aumenta a consciência da extensão de nossa ignorância.

Em termos livrescos: quanto mais lemos, mais aumenta a lista dos livros que precisamos ler e ainda não lemos. Todavia, continuamos a ler, continuamos a pensar, continuamos a fazer ciência – porque queremos e porque precisamos.