DUBITO ERGO SUM

 Páginas do Editor

CONTOS DO RIO

Gustavo Bernardo

 

Fala na cerimônia de premiação do Concurso “Contos do Rio”,
realizada em 15 de dezembro de 2004
 na Academia Brasileira de Letras.

 

O Concurso “Contos do Rio”, promovido pelo suplemento literário PROSA & VERSO, do jornal O GLOBO, acaba de provar a necessidade existencial, visceral e antropológica da ficção.

Os 4.000 contos demonstraram com sobras, com muitas sobras, que dizer a verdade não basta: é preciso inventar a nossa verdade para de fato senti-la como tal. Escritores, inclusive e principalmente os ótimos escritores bissextos que participaram desse Concurso, sabemos que a verdade é uma metáfora que precisa ser renovada dia a dia, conto a conto, para não se desgastar em clichê ou, como aprendemos no ginásio, em catacrese.

Como os políticos, todos mentimos. Mas, como não fazem os políticos, nós avisamos ao respeitável público que estamos mentindo. Como já disse Fernando Pessoa, no seu único romance, mentimos porque nos amamos: a mentira é exatamente o beijo que trocamos entre nós. Essa mentira assumida e consentida, cujo nome mais nobre é “ficção” mas também pode ser chamada de “sedução”, mostra-se absolutamente necessária para a nossa sobrevivência psíquica e social.

É isto que este Concurso do PROSA & VERSO veio lembrar, recordando ao mesmo tempo a época áurea dos suplementos literários desta cidade, quando discutíamos, pela ficção e pela poesia, pela teoria e pela filosofia, as grandes questões que nos afligem e ao nosso país.

Parabéns à mentora do Concurso, jornalista Cecília Costa; parabéns aos demais profissionais do jornal O GLOBO; e parabéns a todos os escritores presentes.